Corona

33 A Morte


Notas iniciais
É HORA DAS FÉRIAS, NENÊS, LEIAM AQUI, POR GENTILEZA ♥ Espero que tenham guardado seus pertences, arrumado os malões e sentando nas cabines de preferencia: é hora de voltar para o mundo trouxa, meus amores. Terminamos um ano na vida de Malorie Lewis, nossa (nada) doce Mal. Foi, no maior clichê da história, apenas mágico fazer essa viagem com vocês e eu só tenho a agradecer. Comecei a postar essa história sem saber o que fazer. Eu estava consumindo fanfics de Harry Potter a meses e a vontade de me afundar no mundo que mudou minha vida ficou esmagadora. Agarrei a ideia, escrevi o primeiro parágrafo. Então a primeira página e o primeiro capitulo. Fiquei tão ansiosa que quebrei meu esquema e corri para postar: daria certo? Alguém leria? O fandon de Harry Potter, os potterheads, ainda estariam vivos? Não apenas vivos, mas vibrando. Vocês me acolheram com vontade, com tanta sede de consumir mais do mundo mágico quanto eu de o explorar. Li coisas maravilhosas, pessoas dizendo que procuravam a muito tempo algo como minha história. E para mim, para minha criança de oito anos que tinha Harry Potter e a Pedra Filosofal (emprestada do primo) nas mãos e então a jovem adulta de 19 anos ainda pagadora de pau para a melhor saga do mundo, isso foi indescritível. Só tenho a agradecer. A cada um de vocês. A quem comentou; A quem favoritou; A quem salvou em seus acompanhamentos; A quem recomendou; A quem apenas entrou na história; A quem fez tudo isso. Vocês estiveram junto comigo em cada momento, tão importantes para a sobrevivência disso como meu ato de escrever. CORONA I é o primeiro livro que eu termino na minha vida e o faço com louvor: minha fanfic de Harry Potter se finaliza com quase 6 mil leituras (5.875) e 142 acompanhamentos. Além de 36 favoritos, 4 recomendações e 234 comentários . Existem outras com números maiores? Existem. E que bom que existem: talvez eu as alcance na somatória de todos os livros. É, isso mesmo, achou que acabou? CORONA é uma saga de SETE LIVROS e este, meus amores, foi apenas o primeiro. É bom que aproveitem as férias pois elas serão curtíssimas: apenas uma semana. Semana que vem, na nossa já marcada segunda feira, postarei o segundo livro. CORONA II abordará o segundo ano de Mal e espero que se preparem: não poupo ninguém. Quando ela for postada, eu aviso por aqui por meio de outro capítulo. Me aguardem, lindezas, e fiquem comigo: ainda há muito para ver ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Das minhas ultimas semanas em Hogwarts posso pontuar alguns acontecimentos.

A festa no Grande Salão foi até muito depois das dez horas, e acho que Minerva sequer viu quando Fred e Jorge me levaram pelo braço no meio da confusão direto para a Torre da Grifinória. Eu estava embriagada demais por tanta comida e tanta euforia coletiva para me importar com regras, então dancei e rugi com os leões até a madrugada, quando voltei para minha masmorra extasiada e satisfeita, um sorriso feliz fazendo par com meus passos leves e meio saltitantes.

Quando passei pela parede, deixei minhas pernas caírem em cima de um sofá de couro caro, meus olhos perdidos nas chamas esmeraldinas que ainda ardiam. Eram verdes como os olhos de Harry e calorosos também. Foi uma noite feliz para todos, mas para o órfão magrelo com uma cicatriz tinha sido o mais puro significado da palavra magia. Teríamos tempo depois para os assuntos ruins – trocar detalhes e achismos como o que havia acontecido lá embaixo, com Quirrell e Voldemort. Não naquela noite, teria sido uma ofensa.

Mas isso não significa que não houve lagrimas. Hermione providenciou bem esse departamento. Minha amiga quase quebrou minhas costelas, e chorou de preocupação e então de felicidade, então abraçou com ainda mais força naqueles braços finos e beijou meu rosto, chorando de novo. Leoa corajosa e com coração enorme, ficou apavorada quando viu eu e Harry desmaiados. Suas unhas tinham todas ido embora durante a espera do retorno da nossa consciência e, quando eu não voltei, ela chorou mais um pouco. Não teve nada que a tirou do meu lado durante a noite ou que a fizesse desistir de me fazer prometer ir visita-la durante as férias. Prometi que daria um jeito, eu sempre dava.

Já os Weasley eram a própria festa. Enquanto Ronald dizia que arrancaria minha "metida cara sonserina" se eu lhe desse um susto desses outra vez (e estava sorrindo enquanto dizia isso), os gêmeos soltavam fogos e explosões na torre, ignorados pela primeira vez por Percy, seu chato irmão monitor, mesmo ele embriagado com a vitória. Lino Jordan dançou comigo várias vezes e Neville também, com sua gravata amarrada na cabeça. O garoto tinha dois pés esquerdos e acabamos caindo, mas sequer ouvi sua desculpa – o resto da torre inteira achou uma excelente ideia se jogar no chão e fizeram isso aos risos e berros.

Eu não deixei de reparar, pois Lagrum me mataria se algum dia eu perdesse completamente a controle sobre mim e sobre os outros, em como Fred estava perto. Sempre perto. Seus toques eram gentis o bastante para minhas cicatrizes não formigarem, mas também foram constantes. No meu pulso, nos meus dedos, seu braço em meus ombros e sua respiração em meu rosto. Não liguei. Gostava de Fred. Ele era bonito e diferente de Jorge, com um sorriso mais maroto e olhos mais caóticos, mas também não liguei por tudo sempre se interromper quando eu era puxada para outro lugar.

Queria estar com Lagrum agora, mas ele estava longe demais na floresta. Eu poderia vê-lo, de certa forma, na minha mente, mas não era a mesma coisa. A autorização para a Seção Reservada ainda estava guardada nas minhas coisas, mas agora não tinha mais motivos ou desculpas. O ano havia acabado, a Pedra estava salva e as provas feitas. Iria o mais rápido possível até a biblioteca antes que fosse tarde demais, queria meu amigo perto de mim. Mas uma coisa que aprendi no mundo da magia foi a ter cuidado com o que eu desejava, pois vai que alguém está ouvindo. No caso, recebi Draco Malfoy.

Eu devia ter cochilado por alguns minutos, embalada pelo cansaço e pelas chamas, mas acordei quando o senti por perto. Não me lembrava de alguma vez ter reparo em seu cheiro – artificial e sofisticado. Até ali o garoto era embalado como o aristocrata que nasceu para ser, com sabonetes e perfumes requintados e, aposto, com um preço de vários algoritmos. Tive curiosidade para descobrir como seria o verdadeiro cheiro de sua pele, o gosto da sua essência. E então fugi. A terra entre o mundo dos sonhos e o real era mesmo perigosa.

— Você devia ir para sua cama, Lewis.

— Não me chame assim — respondi ainda de olhos fechados. Malfoy estava perto, talvez na minha frente, talvez um pouco ao lado. Eu podia ver a imagem que tinha de mim em sua mente: a capa cobrindo meu corpo encolhido se camuflando com o sofá. Negro do tecido, do couro e do meu cabelo, meu rosto era um ponto muito pálido no meio de tanta escuridão.

— E do que você quer que lhe chame?

— Não sei — na frente, ele estava na frente. Se sentou, sem classe ou pose alguma, na beira da mesa de centro, um robe verde escuro por cima do pijama notoriamente caro. Seu cabelo estava bagunçado e os olhos prata refletiam a luz verde na lareira, ganhando uma cor de outro mundo, de sonho. Suas sobrancelhas claras tinham se encontrado na testa e eu soltei o ar. — Só não disso.

— Acho que te embebedaram lá na toca dos leões — havia um quê de aposta na frase que me fez sorrir.

— Fiquei longe de qualquer coisa proibida para minha idade, tenha certeza — soltei uma pequena risada com o alivio que correu por suas veias. — O que você faz fora da cama, pequeno lorde?

— Tenho sono leve — o que eu já devia saber, pelo visto a cama de baixa qualidade não foi o único motivo de sua insônia na enfermaria. — Revirei na cama a noite toda. Acordei, cochilei, acordei de novo. Mamãe sempre toma dois dedos de whisky de fogo quando não consegue dormir.

— Certeza que é só a sua mãe que tem esse hábito? — Arqueei uma sobrancelha, fazendo o canto de sua boca se torcer. Em careta ou sorriso, já não sei.

— Não conto se você não contar.

— Feito — encolhi os ombros, virando no sofá para apoiar minhas costas em seu braço, me erguendo um bocado. — Mas você provavelmente devia esperar uns anos antes de recorrer a esse tipo de remédio. Aliás, o que te tirou a paz hoje?

— Conto quando descobrir.

Ficamos em silêncio. A garrafa estava em seu lugar, em uma das mesas de bebidas caras, mas Draco não foi busca-la. Ficou sentado, me olhando em silêncio. Não esperamos nada, mas se acontecesse talvez fosse bem-vindo. Quando ele se mexeu, observei a forma como arrumou o robe no corpo devagar, gravando na memoria (como se eu tivesse esquecido) suas mãos tão bem cuidadas. A pele pálida e os dedos elegantes, sem nada que os maculasse, senti minhas cicatrizes puxarem outra vez, flexionei os dedos.

— Por que você foi?

A pergunta me fez erguer os olhos para os seus, minha mente deslizando para dentro da dele. Malfoy não entendia, não entendia de verdade. E o que mais eu poderia esperar de alguém que foi ensinado, desde a gestação, de que o resto do mundo não é tão bom quanto ele? Não era como se eu esperasse empatia ou solidariedade, ao menos, não a pessoas que ele não conhecia e pré-determinadas em sua consciência a serem excluídas.

— Eles são meus amigos — respondi devagar, testando as palavras, sentindo o sabor. Era estranho, mas bom. — Até mesmo o Weasley, por mais turrão que seja. Estive nessa história desde o começo e seria apenas um absurdo que eu não participasse do desfecho.

— Então foi por orgulho próprio? — Uma sobrancelha clara sua se levantou e eu franzia as minhas.

— Em parte, mas com certeza não só por isso. Eu e meu orgulho poderíamos ter nos abstido de ação, mas eles eram meus amigos e precisavam de ajuda, então eu ajudei.

— Ajudou o Santo Potter — o menino sibilou, emoções amargas e venenosos subindo em espiral até a ponta da língua. — Ponho minha mão no fogo que tudo isso foi ideia dele e todos vocês foram correndo garantir que ele não morresse sozinho, incentivando esse desejo patético que ele tem de sempre salvar o dia.

— Qual o seu problema com ele? — Perguntei devagar, observando seu rosto. Estava feio de novo, contraído de raiva, inveja e arrogância. Odiava quando ele ficava assim, quando me fazia lembrar a razão de ter quebrado seu nariz no trem, de ter acertado sua cabeça logo quando eu o conheci. Detestava ainda mais ele fazer isso agora, quando estava tudo tão bem. — Antes de você insultar os amigos dele, Harry nunca fez nada contra você. E ainda não faz, sabe disso.

Draco não me respondeu, a cara azeda e o corpo reto, mas não precisava que abrisse a boca. Busquei suas emoções ruins, separei-as e as destrinchei até achar a fonte. A inveja. Das amizades, da sorte, da fama e da atenção. Atenção dos professores, do diretor, dos alunos e de mim. O que Harry Potter tinha de tão especial para ter tudo isso? Um órfão de guerra, cujo os pais morreram de burrice por enfrentar alguém como o Lorde das Trevas. Um garoto quatro olhos e magricela, com uma cicatriz fina e ridícula na testa, detestado pela própria família. E mesmo assim...

— Você devia se concentrar na sua própria vida, pequeno lorde, invés de prestar tanta atenção na dos outros — me afastei de sua mente, cansada como sempre ficava ao me aventurar ali. — Do fardo que Harry Potter carrega você não suportaria um dia, então fique menos tempo querendo tudo que ele tem. Pode se arrepender.

Terminei de me sentar e segurei minha capa para não cair, então levantei. Não lhe dei boa noite e nem ele fez questão, mas ainda o vi se sentar onde eu estava – sua vez de contemplar o fogo. Se bebeu ou não, já não sei. Deixei Draco Malfoy para trás com mais uma estranha conversa na nossa conta, ainda rodando na minha cabeça quando me deitei. Os olhos dele tinham a cor de fantasia reluzindo as chamas e contive minha própria consciência para não buscar a dele. Era o bastante por uma noite.

Nos dias que se seguiram, aparentemente, todos ficaram conscientes de que não veríamos mais uns aos outros por dois meses, o que levou ao um frenesi de despedida geral. Mais de uma vez eu era puxada de um canto para o outro. Pansy ainda queria saber onde eu morava, mas continuei sem dar algum endereço. Isso a forçou (e a todos os outros) a me passarem pedaços de pergaminho com suas localidades. Zabini e Parkinson moravam aqui, na Escócia, mas Daphy e Sue ainda ficavam na Inglaterra. Endereços inusitados vieram parar nas minhas mãos: Nott vivia no País de Gales, Crabbe e Goyle também eram britânicos.

Malfoy não me entregou pergaminho nenhum, o que foi mil vezes pior do que se tivesse entregado. Ele tinha plena consciência de que eu sabia onde ele morava e que eu iria vê-lo, se quisesse. Wiltshire, Inglaterra. O lugar era bem marcado na minha memoria pela quantidade de vezes que o ouvi alardear como sua família era dona de cada pedaço de terra ali, mesmo as dos trouxas. Harry me passou seu endereço, por via das dúvidas, assim como Hermione e os Weasley. Me sentia um pouco ruim por não poder entrar em contanto com ninguém, mas era o preço por não se ter uma coruja – Lagrum mataria o bicho mesmo se eu tentasse comprar uma.

— Surrey, hem? — Arqueei uma sobrancelha para o garoto, guardando o papel no bolso da minha calça. Com as aulas finalizadas, quase nenhum aluno agora vestia o uniforme, muito menos o completo. O próprio Potter estava com aquelas roupas de dez números acima dele, seguradas por muitas dobras e um cinto. Ele ajeitou os óculos, meio desconfortável.

— É, é a casa dos meus tios — havia desculpa em seu tom de voz. — Me escreva, se conseguir uma coruja. Ou apareça por lá. Se eles não deixarem você entrar é só ameaçar falar a palavra magia.

— Vou ficar vigiando o céu, Potter — prendi a gargalhada na ponta da língua, mas não escondi meu sorriso. — E você, vigie a porta.

Harry usou aquele tempo para me por em dia sobre as consequências praticas da nossa aventura. Foi quando eu descobri que a Pedra iria ser destruída e, por consequência, Nicolau Flamel morreria, assim como sua esposa. Mas estava tudo bem, os dois já tinham vivido o bastante e tinham o suficiente do elixir para morrerem com tranquilidade. Dumbledore também confirmou o que já sabíamos: Voldemort havia sido tripudiado, mas voltaria e então alguém teria que o empurrar para o limbo outra vez, e outra, e outra...

Tinha um péssimo pressentimento de que esse alguém tinha uma cicatriz no meio da testa.

Também, para nenhuma surpresa, o velho praticamente admitiu que pôs o garoto na reta da Pedra e o ajudou, de uma forma indireta, por todo o caminho. Hermione ficou irada com a suposta irresponsabilidade, mas Alvo Dumbledore era inteligente demais apenas para ser desmiolado. Colocou crianças de onze, algumas de doze anos, em riscos tremendos para a idade, mas tinha seus motivos. Sempre tinha. Caminhos tortuosos para fins nobres, ele me disse, sacrifícios pelo bem maior.

E se o honrado diretor de Hogwarts pode colocar criancinhas para enfrentar cães gigantes de três cabeças, plantas assassinas, um jogo de xadrez homicida, correrem risco de se envenenarem e ficarem cara a cara com o pseud. fantasma do bruxo mais cruel que já existiu na história, então eu tinha o direito de ir atrás do meu livro. Entrei na biblioteca com a autorização de Snape queimando na minha mão e fui até a mesa de Madame Pince. Eu nunca tinha falado com ela diretamente, e ao encarar seu olhar azedo e nariz cumprido decidi que poderia ter continuado assim.

— O que você quer?

— Assistir ao show de malabarismos, soube que a biblioteca é um ótimo lugar para isso — rebati com uma sobrancelha arqueada. Os olhos dela faiscaram e a boca se encrespou. Talvez não fosse boa ideia irritar a mulher que dirigia um dos meus lugares favoritos no mundo, mas Bulstrode estava certa. Eu tenho um péssimo temperamento. — Tenho autorização para a Seção Reservada.

— Veremos — a mulher arrancou o pedaço de papel da minha mão como se não aguentasse minha petulância em estar fazendo as coisas do jeito certo. Pince ficou quase dez minutos analisando a porcaria do pergaminho, cheirando e cutucando com a varinha como um cão. Quando achei que chegaria ao cumulo de chamar o diretor da minha casa para perguntar se, de fato, não era alguma falsificação, soltou um som de puro desgosto. — Venha comigo.

Acompanhei a mulher alta em direção a Sessão Reservada. Ela não era trancada, mas não precisava. Anos de Hogwarts e não fiquei sabendo de ninguém que havia conseguido sair da biblioteca com um livro escondido nas vestes debaixo do nariz comprido de Pince. Talvez, pensando melhor, alguém já tenha invadido o lugar na calada da noite – alguém com muito sangue frio para aguentar aquela parte da biblioteca. Cada lombada empoeirada retinia de magia, fazia minha nuca se arrepiar. Era como se os livros tivessem vida própria e me observassem, acusadores, esperando uma oportunidade para me tirar dali.

Fui deixada sozinha, mas não tinha qualquer dúvida que a bibliotecária se mantinha perto o bastante para me vigiar. Não liguei. Tinha livros demais para minha referência vaga sobre transfiguração, então eu sinceramente tinha coisas mais importantes para fazer além de me preocupar com ela. Gastei um bom tempo empilhando e separando títulos, vasculhando capítulos e revendo tópicos. Tinha que ter ciência de que, talvez, eu não achasse um titulo obvio. Seria maravilhoso encontrar algo como "Praedam Vitae: Do Início ao Fim em Passos Simples – Com ilustrações", não custava sonhar.

Já era final do dia quando sai da biblioteca, mas tinha o que precisava debaixo do braço. Madame Pince, sem nenhuma surpresa, me informou que eu não poderia levar um livro da Sessão Reservada para casa nas férias, então era melhor que eu fosse rápida. Passei boa parte do resto do meu tempo em Hogwarts transcrevendo o maldito livro. As vezes usava magia, as vezes escrevia tanto que minha mão se recusava a se abrir mesmo depois de parar. Os diagramas e tabelas eram a pior parte: comprovado pela minha memoria esquecida, eu nunca havia sido uma artista, e mesmo assim eles precisavam ficar perfeitos para que eu conseguisse estudá-los.

Deve-se imaginar que o tempo correu ainda mais rápido com tantas coisas para se fazer de última hora e, quando vi, todos meus pertences já estavam novamente dentro do malão. Livros, penas quebradas e tinteiros vazios. Rolos e rolos de pergaminho usado e amassado faziam um fundo macio para meu uniforme e o resto das minhas roupas, enquanto elas mesmas serviam de amortecedor para meus outros pertences que ganhei de Natal: meus livros ficaram bem guardados ali junto com o brasão da Sonserina. Já minha cobra decorativa e o espelho de Zabini estariam mais seguros dentro de minha mochila, junto a Lagrum.

O busquei na noite anterior ao embarque, fazendo exatamente o caminho oposto ao do inicio do ano. Andamos lado a lado desde a floresta até meu dormitório, a noite servindo de cumplice quando meu amigo entrou dentro da minha mochila, se enroscando (e já de mal humor) para enfrentar longas horas contido. Não liguei, ele estava insuportável desde que recebemos nossas notas, debochando da minha cara por ter ido além do máximo. Mesmo sabendo que essa era sua forma de demonstrar orgulho, senti um prazer mesquinho ao saber que ele enfrentaria um pouco de desconforto.

Junto das notas veio um lembrete (que Fred Weasley me disse ser de praxe) de que era absolutamente proibido praticar magia fora da escola. Eu o chutei por isso, pois ele morava em uma casa bruxa, com pais bruxos – sempre iria ter alguma magia. Pessoas como eu e Potter, por outro lado, veríamos a varinha empoeirar durante as férias. Nisso senti uma pontada ardente de inveja de meus amigos ricos: iriam todos de volta para suas casas ancestrais com magia impregnada até a ultima tabua no chão, ninguém ali tinha que se preocupar em soar algum alarme.

Principalmente pelo fato de que, graças a mim, meus companheiros estavam ansiosos para voltar, invés do receio de quando a época das provas havia começado. Uns com notas melhores que outros (e estou falando de Malfoy, que teve notas medianas nada impressionantes, excluindo seu Ótimo em Poções), todos haviam passado de ano. Até mesmo Crabbe e Goyle, para surpresa geral, mas não de Farley.

— Eu disse para confiarem no Chapéu Seletor.

Deixamos Hogwarts para trás da mesma forma que a recebemos: nos barcos. Era dia, agora, e eu não pude tirar meus olhos do grande castelo se distanciando de mim. Enfiada em um barco com Harry, Mione e Weasley, senti meu coração se partindo ao ser separada do primeiro lugar no mundo onde fui feliz.

— Eles continuam dizendo que estamos indo para casa — Harry comentou ao meu lado, os olhos verdes tão perdidos como os meus. Encarei seu sorriso meio triste e os olhos tão brilhantes, sabia que estava igual. — Você está?

Eu não precisava responder. Um sorriso um pouco mais largo e um pouco mais acanhado foi o bastante. Hermione e Rony estavam no banquinho da frente, discutindo sobre algo do mundo dos trouxas, ocupados demais para olharem para trás. Fiquei muito feliz com isso, pois tornava o momento só nosso – meu e de Harry. Quando a mão dele cobriu a minha, os dedos se ocupando do espaço entre os meus, deixei que ficasse assim. Valia a pena ignorar meus demônios apenas um pouco agora.

Houve o inicio de um pequeno conflito de interesses na hora de embarcar. Os leões queriam que eu ficasse na cabine deles – uma viagem inteira com os Weasley, Granger, Potter e Neville. Ficaríamos um pouco apertados, mas eu sabia que valeria a pena pela quantidade de risadas e brincadeiras que viriam. O único problema era que meus colegas ricos também requisitaram minha presença – minha ultima chance de passar mais tempo com Hopkins, colocar Pam em seu lugar e deixar Daphne me pentear enquanto podia ficar olhando para a vista linda que era Blásio Zabini, mesmo que ele estivesse acompanhado de Draco Malfoy (que também era uma bela vista, infelizmente).

Não apenas era um absurdo imaginar Harry e Draco na mesma cabine, como seria inviável de qualquer forma os juntar, então, fui sozinha. Melhor dizendo, escolhi Lagrum, o que era sempre a melhor escolha. Ficamos eu e ele em uma cabine milagrosamente vazia, conversando sem ninguém para atrapalhar. Isso aliviou o mal humor de meu amigo e o meu, cada vez mais sombrio a medida que o mundo bruxo era deixado para trás e, mais uma vez, eu era arrastada de volta para os trouxas.

Aquele não era meu lugar e os Lewis já sabiam disso, talvez tenham tentando me devolver para que fosse mais fácil com que eu achasse o caminho de volta. Ambos morreram tentando entender o que eu era, estavam indo atrás de uma pista, algo que estava comigo quando era um bebê. Eu não havia me esquecido e iria tirar algumas respostas daquela múmia cega, abadessa Joan. Não queria, mas o sentimento de traição revirava meu estomago. Havia confiado naquela mulher, e se ela sabia de alguma coisa e nunca contou...

A plataforma estava duas vezes mais infernal do que o inicio do ano. Um guarda muito, muito velho estava prostrado na saída e deixava as pessoas saírem apenas em grupos de dois ou três. Diferente de setembro, quando todos chegavam naturalmente em horários diferentes, agora tinha de se fazer um controle para que uma enxurrada de crianças e adolescentes não passasse de uma vez só através de uma parede solida. Isso poderia assustar um bocado o pessoal do outro lado. Acabei encontrando meus leões na confusão pela forma como ouvia as despedidas ao famoso Harry Potter (certo, estavam se despedindo de mim também, mas quietos) e deslizei meu carrinho até eles.

— Continua famoso — Ronald sorria para o amigo.

— Não aonde eu vou, posso lhe garantir — o garoto rebateu, me fazendo rir.

— Acho muito bom, Potter — pisquei para ele. — É necessária alguma humildade.

— E você, Mal? — Mione arqueou uma sobrancelha, um sorrisinho quase maldoso. — Nenhum outro fã te espera?

— Eu disse para ele e não para mim, Sabidinha — retruquei fingindo um ar ofendido. Ainda ouvia as risadas de Weasley e Harry quando atravessaram, eu e Mione éramos as próximas. A primeira coisa que vi foi um cabelo ruivo, como um farol. Dois, na verdade. O mais evidente era da mulher adulta e gorducha, tinha um sorriso bondoso e olhos castanhos que os gêmeos haviam herdado. Ela segurava a mão de uma garotinha, tão ruiva quanto ela, com os mesmos olhos também. Sorri. Estava olhando para Ginevra, a última do clã. — Salazar abençoe, Ronald, a genética da sua família não falha.

— Olhe lá ele, mamãe, olhe lá ele! Harry Potter! — O dito cujo se retraiu ao ouvir o gritinho agudo enquanto o melhor amigo ainda estava vermelho, mas sorrindo, pelo meu comentário. — Olhe, mamãe! Está vendo...

— Fique quieta, Gina, é falta de educação apontar — Molly, a matriarca da família, se provou sensata. Então sorriu para nós. — Muito trabalho esse ano?

— Muito — Potter reencontrou sua voz. — Obrigado pelas barrinhas de chocolate e pelo suéter, Sra. Weasley.

— Ah, de nada, querido.

— Está pronto?

A voz vinha de um cruzamento entre um elefante e um gorila usando peruca. O homem poderia ser classificado como alto se sua largura não fosse ao menos duas vezes o tamanho do cumprimento. Tinha a cara larga e vermelha, um rato morto como bigode e chutei que morreria antes dos cinquenta anos com tanto peso extra e raiva no corpo, toda direcionada a Harry. Estiquei o pescoço enxergando uma mulher magrela e alta, loira como o garoto encolhido contra ela (ou era ela contra ele?). O garoto só não era magro – na verdade, tinha quase o tamanho do pai.

— Vocês devem ser a família de Harry! — A Sra. Weasley exclamou, educada como qualquer ser humano devia ser. Talvez até empolgada por conhecer os adultos que haviam criado o famoso Harry Potter. Pena que não era reciproco.

— Por assim dizer — o infame tio Válter respondeu. — Ande logo, menino, não temos o dia inteiro.

— Puxa, Harry — comentei alto, observando a morsa se afastar, fingindo algo como entusiasmo. — Você não me contou que era parente do Donkey Kong depois de se aposentar! Será que ele podia autografar minha vassoura?!

O homem intragável andou ainda mais depressa para longe de nós, o coração acelerado e o pescoço virando para os lados, apavorado de alguém ter ouvido a palavra "vassoura" sendo dirigida a ele. Idiota, mas serviu para fazer com que Harry risse, assim como Rony e a irmã. Mione ainda estava meio séria, assim como a sra. Weasley, desconcertadas pelo comportamento desagradável do Dursley.

Foi Harry, muito acostumado a toda aquela situação, quem quebrou o silêncio.

— Vejo vocês durante as férias, então.

— Espero que você tenha... hã... umas boas férias — era claro que Mione não acreditava, nem por um segundo, que o amigo teria férias agradáveis, mas reconheci seu esforço.

— Ah, claro que sim — Potter tinha um sorriso no rosto que pegou Ronald e Granger de surpresa. — Eles não sabem que não podemos fazer bruxarias em casa. Vou me divertir a beça com Duda este verão...

— Estou orgulhosa de você, Garoto de Ouro — abri meu sorriso para ele, a gargalhada que saiu pela minha garganta ainda alta em meus ouvidos. — Continue assim e um dia vai ser tão cruel quanto Frei Gorducho.

Estávamos todos rindo enquanto observávamos Harry ir em direção a família. Vendo-o desaparecer entre a multidão com gente tão desagradável e ignorante, não neguei o alivio que me invadiu pelos Lewis estarem enterrados. Teria sido assim? Um casal assustado e angustiado com o que lhes era desconhecido? Bom, era o que estava se mostrando, mas...

— Também queria agradecer o suéter e o chocolate, sra. Weasley — interrompi meus próprios pensamentos. Inúteis, patéticos e infantis pensamentos. Eu era órfã. E era mais fácil assim. Lagrum, no fundo da minha mochila, concordou comigo. — Foi o melhor que já comi.

— Não tem nada, querida — a mulher sorriu. Nessa altura, Percy já havia se juntado a nós. — O segredo, sabe, é uma pitadinha de canela. Não fica forte e dá toda diferença.

— Eu nem gosto de canela, então tenho que concordar — sorri. — Eu adoraria saber cozinhar, lá no orfanato não é se tem muito espaço para praticar.

— Venha visitar o Rony nessas férias, podemos nos divertir na cozinha.

— A Mal vai cozinhar? — Pronto. Me virei a tempo de ver Fred Weasley e seu irmão, Jorge, empurrando seus carrinhos para perto de nós.

— Vamos todos morrer, mamãe — Jorge colocou a mão no peito. — A Cobrinha vai pingar veneno nos ovos.

— Se abrirem a boca de novo vou pingar direto nas suas veias — disparei antes de conter meu temperamento e imediatamente olhei para sra. Weasley. Algumas mães não gostavam de ver os filhos serem ameaçados, mesmo que de brincadeira. Ainda bem, Molly parecia o tipo de mãe que sabia muito bem os filhos que tinha – e que as vezes eles eram impossíveis.

— Bem feito, desaforados — ela tinha as mãos na cintura. — Isso são modos?!

— Desculpe, mamãe.

Nos despedimos dos Weasley depois disso. A família ruiva foi toda embora, depois dos gêmeos me beijarem uma bochecha cada um, Percy me apertar a mão e Rony balançar a cabeça de um lado para o outro. Foi pior com Mione – o garoto soltou uns ganidos e foi embora quase correndo. A pequena Gina, que havia recuperado a dignidade quando seu herói foi embora, ainda foi escutada brigando com os irmãos na saída, nem de longe a garotinha abobalhada e impressionada do primeiro momento. Tinha uma voz muito forte para a idade e fiquei muito ansiosa para o próximo ano.

Hermione ainda me fez ir atrás de seus pais. O senhor e senhora Granger nos receberam com sorrisos e fui, novamente, convidada a os visitar. A mãe demonstrou sua felicidade pela filha ter de fato ganhado uma amiga desde o primeiro dia e o pai que sua menininha estava de volta. Me despedi rápido deles, já preocupada com a demora. Ainda consegui ver, de longe, alguns rostos conhecidos que se esticavam para me acenar ou me desejar tchau. Pansy Parkinson e Daphne Greengrass são exemplos, muito bem vestidas e de ombros retos junto com homens e mulheres (e uma criança, ora só) igualmente bem vestidos e de ombros retos. Fiz uma pose ridícula esticando toda minha coluna e colocando os ombros para trás ao me despedir delas e consegui ouvir suas risadas.

Empurrei meu malão até o lado de fora e busquei com os olhos o carro do orfanato, mas devia ter buscado com a mente. Ela teria me preparado. Irmã Kate estava me esperando, muito mais pálida e abatida do que eu me lembrava. Apertei os dedos no meu carrinho para conter o impulso de invadir sua mente e disparei até ela, buscando seus olhos atrás dos círculos escuros na pele.

— O que? O que aconteceu?!

— Mal, é melhor você entrar no carro... — não suportei sua voz baixa, complacente. Tive nojo da sua tentativa de apaziguar meus ânimos. Meu monstro abriu os olhos dentro de mim, impaciente e predestinado.

— O que aconteceu, Katherine? — Sibilei seu nome, nada de tratamentos religiosos. Lagrum acordou na minha mochila, tão preparado para atacar quanto eu. A mulher juntou as mãos na frente do corpo e respirou fundo, apertando os lábios em uma linha.

— É a abadessa — soltou, por fim. — Ela... os médicos dizem que não vai ter muito tempo. Estão fazendo de tudo, mas...

— Me leve até ela, me leve agora!

Um homem pôs minhas coisas no carro, não vi quem. Quase pisei no acelerador eu mesma. Ouvia um zunido nos ouvidos e um peso no coração. Pensava na pista que os Lewis buscavam. O trânsito de Londres me engoliu tão depressa quanto meu monstro.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 31, 32 ♥ Malfeito, feito! ♥