Corona

1 A Menina que Nasceu da Magia


Notas iniciais
Heey nenês ♥ Então, venho aqui dividir essa ideia que tive de uma hora para outra. Bem, vai funcionar assim: 1 - Comentários não são o mais importante, mas ninguém nega (nem eu) que são amor e um ótimo incentivo. Então se leu, deixe pelo menos um gostei. Vai fazer diferença pra eu continuar. 2 -Postarei semanalmente. E, claro, o próximo dia seria segunda que vem. 3 - amo vocês por lerem s2

O Sr. e a Sra. Dursley, da Rua dos Alfeneiros, nº 4, eram dois belos pedaços de lixo, muito bem, obrigado. Eram as últimas pessoas no mundo que de se esperaria que tivessem alma ou um qualquer sinal de humanidade, fato que deixaria os dementadores muito putos da vida, uma vez que simplesmente não compactuavam com a ordem natural das coisas, onde seriam beijados e o mundo estaria livre deles.

Mas estou me apressando aqui, mesmo que não tenha dito mentira nenhuma. A situação é que esta não é a história dele. Não, não, nada de Dursley e cicatrizes na testa por aqui, este não é o livro do Menino que Sobreviveu. Esta aqui é minha história, apesar de que aquele quatro olhos aparece, sim, por aqui em um momento ou outro. Nada demais, entendem? Eu só tinha que começar xingando os Dursley, porque são uma família a ser xingada em qualquer situação possível.

A minha história começa apenas alguns dias antes da de Harry Potter. Temos uma coisa em comum, Harry e eu. Várias, na verdade, mas vamos por partes. Cronologicamente falando, nossa primeira semelhança é diabolicamente cruel: o início de nossas vidas foi permanentemente marcado com uma Maldição Imperdoável. Ele, o avada kedavra— a maldição da morte. Eu, a cruciatus— a maldição da tortura.

Foi em uma sala de estar bruxa, mesmo que parecesse espantosamente com uma trouxa. Envolveu um jovem casal de aurores, seu filho de um ano quieto de medo no andar de cima e uma mulher. Tinha dois caras com ela, também, mas veja, eles não são realmente importantes. Prestemos atenção na mulher. Essa mulher estava se divertindo à beça naquela sala, mas, como costuma acontecer quando sua diversão envolve a tortura violenta e cruel de duas pessoas, as autoridades acabaram com a farra.

Eu estava muito longe dali. Foi longe da Rua dos Alfeneiros, longe da sala de estar. Em uma casa grande demais para tão poucas pessoas. Mas era bonita, de qualquer forma, mesmo gelada. Os imensos jardins da frente, o bosque em volta e o mármore antigo e mágico que estava lá a mais de mil anos e ficaria mais mil. Eu me lembro do ouro, da prata e do diamante. Me lembro de corrimões dourados, de mesas escuras e compridas de madeira, de um quarto que era uma ala inteira. Mais era mais e todo o luxo ainda era pouco. Afinal, era um palácio.

Não era lá que eu ficava sempre, mas era sim um cenário bastante recorrente. Ainda mais nas últimas semanas, quando a mulher muito loira me tirou do meu quarto e me trouxe, e sorri para ela quando fez isso. Eu não me importava com a troca. Onde costumava ficar era ainda mais gelado, mesmo que menor, o som do mar castigando as pedras fazia a vez de canção de ninar, quando ele não estava lá para cantar para mim. E já não estava fazia há tempo demais.

Eu gostava quando ele vinha, todas as noites, antes de não aparecer mais. Eu conseguia senti-lo olhando para mim, sua presença muito mais real e sólida do que o próprio quarto. Ele cantava em palavras estranhas, barulhos baixos que ainda assim conseguia compreender. E sorria. Pequeno ou largo, sempre chegava aos seus olhos. Tão brilhantes e tão escuros, eu sabia que era tudo que ele podia enxergar naquele momento.

Quando ele parou de vir, ela passou a ficar muito mais, mas também não por muito tempo. Eu me lembro de seus pés no piso, na sua voz irritada, na explosão de seu temperamento. Algo estava errado, tão monstruosamente errado... eu podia sentir nela quando vinha e me pegava nos braços, quando sussurrava para mim sua própria canção, quando falava contra minha cabeça. Às vezes, palavras suaves e sopradas. Outras, elas saiam afiadas e agudas como um longo arranhão.

No final, só havia o agudo, o afiado, o irritado. Então a mulher loira veio e eu gostei muito. Ela me levou para longe da mulher agitada que fazia as coisas explodirem, me levou para longe de suas palavras agudas, de seus olhos ansiosos e de suas mãos firmes de unhas longas. Me colocou entre os seus, na grande casa com candelabros de diamante e com uma ala inteira só para mim. E ele. O outro, ele tinha minha idade, também estava lá.

Eu gostava de lá. Da mulher muito loira, do garoto de olhos de estrela e do mundo que me pertencia. Mas não fiquei. Uma aparatação foi o bastante para encerrar minha vida do jeito que era, do que jeito que estavam construindo. Fui tirada da grande casa, fui afastada da mulher loira, nunca mais vi a outra agitada e nem o homem que cantava. Alguém me levou para muito, muito longe de todos eles. Em outro mundo, um que não me pertencia.

O mundo dos trouxas: um antigo orfanato católico em uma cidade minúscula no mapa, nada que alguém preste atenção duas vezes. Nem mesmo uma, na verdade.

Fiquei pouco tempo lá, nesta primeira vez. Um casal jovem me adotou – recém-casados e aprovadores das maravilhas do fim do século. Porque passar por toda a chateação da gravidez se você pode simplesmente ir em algum lugar e escolher o bebê que mais lhe agrada? No caso, eu fui o bebê. O nome do casal? Lewis. Agatha e Willian Lewis. Eles me puseram dentro do carro (já todo adaptado para o bebê que trariam na volta) e, acreditem, demoraram a me dar um nome. Era de se esperar, uma vez que toda a vida deles já estava pronta e adaptada para um bebê, desde do quarto com berço, a fraldas e licença e grades de segurança, que eles já teriam escolhido um nome, certo?

Pois é, não tinham escolhido. Não tão facilmente. Antes de tudo, eles queriam me conhecer e, só então, me dar um nome que combinasse comigo. Não faço ideia o que um bebê, de apenas um ano, pode fazer para demonstrar personalidade marcante, a ponte de escolher o próprio nome, mas no final os dois foram influenciados, com mais peso pelo lado de fora do que de dentro. Ou ao menos é o que eu acho nos dias bons. O nome que me deram foi Malorie. Mas, ei, estou te contando meus podres, não tem razão para formalidades. É Mal para os íntimos, tipo vocês, claro.

Passamos por uns momentos, os Lewis e eu, durante nossos cinco anos. Não que eu me lembre de muita coisa, mas o fato de eu não lembrar significa que nada foi traumático o suficiente para marcar minha precoce mente infantil – tirando, é claro, o acidente. Parecia predestinado, por mais cruel que isso vá parecer. Como se todos os dias e todos os minutos tivessem levado até o exato momento em que o carro derrapou e saiu da estrada. Os Lewis, que nunca brigavam, estavam no meio de um bom bate-boca. E a estrada, sempre segura, estava coberta de gelo.

A filha deles, de seis anos, foi encontrada a apenas alguns metros dos corpos, completamente intacta. Milagre, os policiais e paramédicos repetiram, olhando do carro amassado aos corpos deformados dentro e fora deles (pois havia pedaços em todo lugar). Enquanto todo mundo tinha aquele olhar de pena, eu passava da estrada para o hospital e do hospital para um orfanato (oh, sim, o mesmo orfanato), mantendo minha boca muito fechada.

Eu, com toda minha sabedoria, adquirida em meia dúzia de anos de existência, achei melhor não corrigir quando tentaram, de todas as formas, amenizar o fato de que meus pais estavam mortos. Ouvi que estavam dormindo, que foram viajar, que Deus os havia chamado para tomar chá. Em certo momento, cheguei a conclusão que seria até mesmo indelicado corrigi-los, estavam todos tão certos de que os Lewis voltariam logo que não retruquei (mesmo quando quis), que nosso velho gato resgatado da rua havia finalmente sucumbido às doenças de seu período sem teto, durando muito mais do que os veterinários disseram, mas perdendo no final.

Os Lewis não acreditavam em histórias para dormir e contos de fadas. Eles me contaram o que iria acontecer, o que ajudou quando o bicho começou a morrer, justo no meu colo. Era velho e um pouco deformado (com uma orelha faltando e um rabo partido), mas Church teve um final de vida confortável e satisfatório, até ronronar sob minhas mãos e devagar, bem devagar mesmo, parar de respirar. Gritei que ele estava indo embora momentos antes de realmente ir e Agatha ficou do meu lado e secou meu rosto. Nosso gato foi enterrado no quintal de casa e eu prometi que sempre o visitaria. Yeap, foi mal Church.

Também não disse como sabia, deixando antigos animais de estimação mortos de lado, a forma com que tinha sobrevivido ao acidente. Não foi milagre, não foi Deus e não foi sorte. Foi magia. Eu me lembro de desejar tão ardentemente ir embora dali, daquele carro. Para longe dos gritos e das acusações, que já estava de pé do lado de fora da estrada, quando vi o carro ser achatado por outro.

Uma parte de mim sempre pensa na ideia de que meu William perdeu o controle do carro, quando olhou para trás e enxergou o banco vazio. A outra parte, bem maior, sempre manda essa parte calar a boca.

As duas partes, tanto a que perdia como a maior, aliás, concordam que teria sido melhor ter sido amassada. Mas Mal, vocês perguntam, não pode ser tão ruim, certo? A vida é um presente tão inestimável e você era tão jovem... Shiu. Bem quietinhos aí.

Vocês têm razão. Não é igual nos filmes. Com certeza, os produtores de Hollywood fazem todas aquelas freiras malvadas e castigos perversos por pura licença poética, sim. Apenas um apelo ao público, sem sombra de dúvida.

Eu, de fato, não discordo. Sei que é bem pior na realidade e tenho as cicatrizes para provar. Pergunta rápida: quem aí já ouviu falar da Opus Dei? É um braço da Igreja Católica, uma religião trouxa, porém é um braço muito, muito pouco amado. Fazendo uma comparação precisa, ela é como os braços de abortos e “traidores de sangue” nas famílias puro sangue – ele existe, todos sabem que existe (yeah, vocês não são puros bosta nenhuma), mas sua existência é ignorada com quase 100% de precisão.

O motivo? Bom, deve ter alguma coisa a ver com os costumes antigos e arcaicos que eles adotam, além da pequena parte de flagelação auto imposta como forma de ficar em comunhão com Deus. Ei, porque rezar quando se pode descobrir quão rápido você para de sangrar? O único detalhe era que no orfanato, a irmã Greta (a freira responsável por todo o lugar, uma vez que a abadessa, Joan, tinha oitenta e quatro anos e era meio cega e quase totalmente surda) fazia as honras de comungar Deus em terceiros.

É claro que esse belo espécime de santa hipocrisia definiu, desde o momento em que saí do carro, que eu havia sido gerada pelo próprio demônio. E, veja bem, não é que ela esteja de todo errada, mas eu tinha seis anos e ela com certeza não era uma das pessoas que sabiam disso, já que nem mesmo minha pessoa tinha conhecimento.

O dia em que eu e Greta começamos nossa pequena batalha, foi o dia em que o assistente social me largou em frente ao orfanato, outra vez. O Lar para Meninas de Santa Maria ficava em Chelmsford, a algumas horas de Londres e mais um pouco da civilização do próprio condado, quando a estrada não estava lamacenta pela chuva. Você sabe que chegou quando ouve o som do cascalho sendo esmagado pelos pneus.

A mulher, que me apresentaria o inferno, estava esperando logo no início do caminho, bem cuidado, de cascalho. Alta, postura reta e olhos muito azuis, eu ainda iria descobrir o cabelo loiro por baixo do capuz. O sorriso dela fazia os olhos brilharem de verdade, provavelmente pela carne nova e intacta para açoitar.

Ela abençoou o homem e me levou para dentro sem olhar para trás, muito consciente da forma que a criança puxava a mala sem jeito, atrás de si e quase quebrava o pescoço para ver, de forma completa, a mansão que se erguia à frente. Não consegui ver naquela época, mas minha pretensão inicial e infantil não podia estar mais certa: o lugar era enorme. Uma construção larga e alta, antiga e bonita como uma Igreja. Havia até mesmo uma Igreja de fato, ou várias. A aberta aos moradores esparsos das redondezas ficava do lado de fora, no extremo oeste, em cima de um pequeno cume, dando a impressão de ter uma base envergada.

O orfanato, por outro lado, era bastante reto e sólido no chão de terra. Cascalho mudou para grama verde bem cuidada e então para mármore ao chegar na escada de cinco degraus. Por dentro, era silencioso como uma catedral e clara também. Vitrais e crucifixos, estátuas de Santa Maria e bíblias, não pode culpar uma criança por não ficar exatamente animada com o ambiente. Talvez Greta tenha visto minha notável falta de admiração pelos artefatos religiosos, talvez eu tenha andado rápido demais ou sujado o piso quando entrei, não faço ideia. Se querem saber, pode até não ter sido nada, a mulher era louca. O ruim é que o fato de ter uma sanidade questionável não ajudava as crianças sob sua responsabilidade. Não me ajudou.

— Agora, meu bem — ela tinha os olhos muito cravados em mim, enquanto estávamos paradas no hall de entrada. Onde supostamente deveria haver barulho e conversas de crianças, não havia nada. O lugar passaria por um convento sob voto de silêncio sem dificuldade. — Devo lhe explicar algumas regras, afinal, eu detestaria que você fizesse algo errado. O errado é um pecado, Malorie, e pecados são pagos da mesma forma que o Seu filho se submeteu.

Eu tinha seis anos, não era exatamente uma expert em bíblias e na história de Jesus Cristo. Mas ao menos tinha raciocínio o suficiente para saber que, qualquer coisa que deixasse aquela mulher minimamente feliz, era algo perversamente cruel. E Greta falava de pecado com os olhos brilhando em mim, indo de cima a baixo, procurando qualquer desculpa para fazer com que o pagasse. Paguei um exatamente naquela noite, ao aparecer na metade do jantar. Minha bunda conheceu a palmatória e descobri que tive sorte por não ser a Vara.

A Vara era um dos castigos preferidos de Greta, tanto que a mulher costumava andar com ela para cima e para baixo, apenas esperando uma desculpa para usá-la. Era longa e flexível, mas duramente resistente. A maioria das meninas, mesmos as mais novas que eu, já tinha marcas consideráveis de onde a Vara as acertou – vergões vermelhos rodeados de verde e roxo, pedaços inteiros de pele faltando e cicatrizes finas e profundas se espalhando aqui e ali.

Fiquem tranquilos, não estou aqui para desapontar ninguém. Eu também conheci a Vara. Eu e ela nos tornamos muito, muito próximas. Tínhamos até mesmo hora marcada todo dia, e isso começou logo na manhã seguinte. Eu andava meio torta pela surra e na hora de sentar para o café estava mais em pé do que sentada, de fato, mas isso me deixou ver uma garotinha pálida na mesa do lado. O rosto bonito coroado pelo cabelo escuro estava estragado pela linha vermelha que cortava desde sua sobrancelha até o final da bochecha, acertando-a bem no olho esquerdo.

— O que houve com ela? — Consegui dizer enquanto mancava para lá. A garota, mais nova que eu, estava rodeada de algumas meninas mais velhas e outras de sua idade. Elas me olharam não com ternura, mas com a calma e compreensão de quem já passou pelo mesmo sentimento e sabia que não levava a nada. Por compaixão, uma delas me respondeu.

— Deixou a Santa Maria cair quando foi limpar.

Não disse mais nada. Mais tarde (em cinco minutos) eu aprenderia o que de fato significava. Quando Greta entrou no salão e todo mundo se afastou da menina como se lembrassem que ela tinha alguma doença mortal, eu fui a única que fiquei. Ingenuidade e burrice, sim, mas ninguém tinha me explicado todas as regras ainda. Não tinha como eu saber que, se eu fosse vista dando suporte a algum “pecador”, eu seria tomada como pecadora também.

Mas, sendo sincera entre mim e vocês, não acho que teria feito diferente daquela vez e tenho como provar. Com toda certeza, eu havia aprendido a lição, com minhas malditas palmas da mão queimando como o tal Inferno, em carne viva, como uma atenção especial, depois de ter entrado na frente da menina de novo. E mesmo assim, isso não me impediu de continuar entrando na frente de qualquer um.

Podem estar se perguntando “nossa, Mal, mas você queria apanhar?”, e eu entendo. Não são muitas pessoas que se oferecem para algo que sabem que vai ferrar com elas. Eu te garanto que não gostava nem um pouco de ser surrada, chicoteada, humilhada e torturada, mas alguém tinha que fazer isso. Alguém tinha que responder, alguém tinha que olhar nos olhos daquela mulher e mandar ela tentar engolir uma cruz, alguém tinha que tirar as crianças da frente da Vara, alguém tinha que segurar o chicote e mandar ela procurar alguém do tamanho dela.

Esse alguém fui eu e, minha única defesa, é que eu teria sido mais infeliz e miserável se não tivesse feito nada. Se eu tivesse passado cada dia da minha vida vendo toda aquela crueldade, todo aquele circo de horror com a cabeça baixa e boca fechada, eu teria me jogado de alguma janela (e lá tinha várias, acredite, noventa e três, para ser mais exata, e eu posso saber, limpei todas com uma escova de dentes quebrada). Tudo dentro de mim, cada fibra, cada pedaço fervia e rugia, então eu apenas tive que lutar.

Mas vamos deixar Greta de lado? Ela já ocupou muito espaço na minha vida e não vou permitir que faça o mesmo no meu livro. A consciência tranquila está do meu lado, junto com a certeza de que ela teve o que mereceu, talvez vocês fiquem sabendo depois. Vamos pular para a parte realmente interessante. Era domingo, 4 de agosto. Em um mês seria primeiro de setembro e eu estava a apenas alguns minutos de essa data passar a significar tudo na minha vida.

— Srta. Lewis, obrigada por me receber — a mulher baixa e loira sorriu para mim com cordialidade amigável. Vestia uma calça jeans, muito apertada para ela, e uma blusa florida, destacando seu claro senso de falta de moda. Como uma órfã, imediatamente pensei na possibilidade de ela estar ali para me adotar, mas dificilmente me parecia com uma mulher desesperada para ser mãe. Isso me fez relaxar – os Lewis já haviam sido o suficiente. — Meu nome é Caridade Burbage, sou professora. A senhorita estaria interessada em uma bolsa de estudos integral?

— Sra. Burbage, vá me desculpar, mas o que eu fiz para merecer uma bolsa? — Era uma pergunta mais do que válida. As garotas do orfanato sequer frequentavam uma escola! Tínhamos aulas com algumas freiras, apenas o básico, como as quatro operações e um pouco de literatura. Se eu não fosse uma exímia rata de biblioteca, não saberia a diferença de uma cidade e um país.

— Você nasceu, srta. Lewis — o sorriso dela era cúmplice ao se inclinar para mim. Tirou alguma coisa do crime primaveril que era sua blusa, que me pareceu um pedaço de madeira por meio segundo. Mas pedaços de madeira não fazem minha nuca se arrepiar, nem meu coração bater mais rápido, com alguma coisa exalando de si de modo sutil. A professora apontou sua varinha para a porta e fez um gesto rápido de mão, murmurando palavras difíceis. Abaff, alguma coisa. — Acredita em magia, criança?

Tive vontade de rir, de chorar, de pular no colo da professora e abraçar seu pescoço fino. Tive vontade de correr até o buraco onde enfiaram Irmã Greta e dar a satisfação dela saber que estava certa. Acho que tremi mas, pelo bem da minha dignidade, eu estava sentada. Por onde eu começo, sra. Burbage? Respirei fundo uma, duas, três vezes e olhei de novo nos olhos castanhos da mulher.

— Se eu não acreditasse, professora, as coisas ficariam complicadas — sorri para ela, olhando para cima, imaginando meu quarto lá em cima, voltando toda minha vida. — Então é por isso? Eu... eu tenho magia? É claro que eu tenho, sabia que tinha, mas ouvir é tão...!

Ri sozinha e me levantei da cadeira, dando voltas até encontrar as mãos dela e apertar, apertar mesmo, e quando não foi o bastante a abracei. Tinha tantas coisas naquele abraço, que fiquei muito feliz de descobrir mais tarde que Caridade Burbage não era legilimênte. A Vara se partindo. As cintas se enrolando nos pés de Greta. As escadas virando rampas. As cadeiras voando. Os vidros se concertando. As portas destrancando. As garotas que eram tão más quando Greta seguindo algumas sugestões... O acidente.

— Já fez magia sozinha? Ótimo, ótimo! Isso se chama magia involuntária, querida, é muito comum em crianças! Geralmente fazer algo desaparecer ou levitar, estou certa?

Isso e muito mais, e não chamaria de involuntária. Não desde o acidente.

— Isso! – Concordei rindo, meu coração pulando tanto quanto meus pés. — Isso, isso, isso! Eu... ah, sra. Burbage! Estou tão feliz!

— Eu imagino, criança, imagino! — Ela riu também ao me dar tapinhas nas costas. — Agora se sente que vou lhe explicar algumas coisas, tudo bem?

Obedeci, apesar de não ter dado o maior exemplo de etiqueta, ao simplesmente pular em cima da mesa e ficar com as pernas balançando, rindo sozinha e querendo beijar toda aquela cara velha, por ter livrado meus ombros do peso do desconhecido.

— Como disse, eu sou professora e como viu — balançou a varinha, soltando um brilho parecido com purpurina que me fez perder o ar. — sou uma bruxa, assim como você. Leciono em Hogwarts, é claro. Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, para usar o nome inteiro. É uma escola que funciona como os internatos trouxas, quem não é bruxo, srta. Lewis, nós chamamos de trouxas, e será onde a senhorita irá aprender tudo que necessita para se tornar uma grande bruxa!

— Que matéria a senhora ensina? — talvez ela se tornasse minha professora? Era uma esperança.

— Estudo dos Trouxas senhorita — sorriu. — É onde ensinamos como os trouxas pensam e ajam para outros bruxos, mas é uma matéria opcional apenas a partir do terceiro ano, o que me leva... — ela tirou um pequeno livrinho do bolso que, com outro movimento de varinha e uma palavra (prestei bem atenção agora, engorgio) se tornou em um grande livro de capa de couro, que parecia ter mil páginas, ou mais. — Aqui está. Não faz realmente parte do meu trabalho, mas gosto de dar esse presente para as crianças entusiasmadas.

Hogwarts: Uma História era o título do livro e, no meu colo, vi que a capa não era apenas couro, tinha um brasão belamente desenhado ali, com quatro cores ao fundo, em cima das cores, animais: cobra para o verde, leão para o vermelho, texugo para o amarelo e águia para o azul. Uma fita com uma frase em latim estava em baixo, e agradeci por aprender a ler a bíblia original: Draco Dormiens Nunquam Titillandus — Nunca Cutuque Um Dragão Adormecido.

Sorri para a cobra no verde e passei os dedos pelo que aparentava ser o lema da escola. Olhei no fundo dos olhos dela. Sra. Burbage também me oferecia uma carta grossa e sorria de forma amorosa para mim, tão feliz e receptiva que, se tivesse entrado assim, teria achado que iria me adotar. Peguei a carta com os dedos tremendo e pisquei para afastar as lágrimas. Não chorava muito, mas não ligava de chorar agora. Saber que tudo era real... Minha voz não era mais do que um fio, ao ter carta e livro no colo.

— Obrigada, sra. Burbage, muito, muito obrigada.

Mrs. M. Lewis

Quarto do terceiro andar, lado sudoeste, quinta porta a esquerda

Orfanato para Meninas de Santa Maria

Chelmsford

Notas finais
So, gostaram? Eu realmente espero que sim :3 Nox ♥