Coroas e destinos
29 Os Salões do Vazio e o Peso das Escolhas
A chuva de Forks parecia não ter fim. Nas altas janelas de vidro do palácio da família Cullen, as gotas escorriam como lágrimas constantes, refletindo o tom cinzento do céu e a melancolia que se instalara na casa.
Renesmee passava os dias quase imóvel na biblioteca real ou na varanda de seus antigos aposentos. Rejeitava os convites para caçar, mal tocava nas refeições e mantinha-se envolta em um silêncio denso. A vibrante e altiva rainha do litoral dera lugar a uma jovem solitária, cujos pensamentos permaneciam presilheiros nas lembranças de La Push.
À tarde, Alice e Rosalie entraram suavemente na biblioteca, trazendo uma xícara de chá quente e um manto macio. Encontraram Renesmee encolhida no largo divã de veludo, o olhar perdido nas árvores encharcadas da floresta.
— Nessie... — chamou Alice com delicadeza, sentando-se à beira do divã. — Você não saiu deste quarto o dia todo. A casa inteira sente a sua falta, meu amor.
Renesmee suspirou, sem desviar o olhar da janela.
— A casa sente a falta da garota que eu era antes de ir para o litoral, Alice. Mas essa garota não existe mais — murmurou Renesmee, a voz suave, contudo rasgada por um cansaço profundo. — Aqui é seguro, é o meu lar... mas o silêncio destas paredes só me faz lembrar do quanto o meu peito está vazio. O Jacob sequer mandou uma carta. Nem uma única palavra após a minha partida. É como se eu nunca tivesse existido na vida dele.
Rosalie aproximou-se, cruzando os braços e encarando a sobrinha com um olhar sério, mas imbuído de uma rara compaixão.
— Ele não mandou cartas porque não consegue encarar a própria sombra, Nessie — disse Rosalie, a voz firme. — Mas você precisa saber da verdade. O Jacob não está vivendo como o rei orgulhoso que você imagina.
Renesmee finalmente virou o rosto, as sobrancelhas franzidas em dúvida.
— Do que você está falando, Rose?
— O seu pai conversou com o conselho do litoral ontem — explicou Alice suavemente. — O Jacob renunciou por completo à coroa, Nessie. Ele não aceitou continuar como rei. Passou o trono e todos os títulos soberanos para a Carlie e para o Taylor.
A surpresa congelou as feições de Renesmee.
— Ele... renunciou? O Jacob amava aquele povo, amava a coroa...
— Ele não se julgava mais digno de governar — continuou Rosalie. — Hoje, ele é apenas o Príncipe Jacob, atuando como o principal conselheiro do Rei Taylor. Ele abriu mão da própria vida de soberano e se afundou em trabalho administrativo, dia e noite, para não ter de pensar na dor que causou a você e a si mesmo. Ele está se destruindo aos poucos, Nessie.
Renesmee baixou os olhos para as próprias mãos trêmulas. Saber que Jacob abdicar do trono não diminuiu a sua mágoa; pelo contrário, trouxe uma onda complexa de angústia. Ele preferira punir-se e afastar-se de tudo a lutar pelo amor dos dois.
Nas Penumbras da Sala do Conselho
Em La Push, a noite já avançava madura, mas as velas da grande mesa de mapas continuavam acesas.
Jacob estava debruçado sobre dezenas de pergaminhos, rotas comerciais e relatórios de patrulha. A sua barba estava por fazer, os olhos fundos marcados por uma exaustão crônica e o corpo visivelmente mais magro. Desde a renúncia, ele assumira a carga pesada dos deveres diplomáticos do reino, trabalhando até o amanhecer para evitar o silêncio da sua cama vazia.
A porta da sala abriu-se e o Rei Taylor entrou, trajando a capa real. Ele observou o irmão por alguns segundos com uma mistura de preocupação e severidade antes de caminhar até à mesa e bater com a mão sobre os papéis.
— Chega por hoje, Jacob — ordenou Taylor, a voz carregada de autoridade real, mas amaciada pela fraternidade. — Escreva amanhã. Você não dorme há três dias.
— As patrulhas do sul precisam de reestruturação, Taylor — respondeu Jacob sem erguer os olhos, a voz rouca e seca. — Se não assinarmos estes decretos hoje, a guarda da fronteira ficará desprovida no fim de semana. Eu preciso terminar isto.
Taylor puxou a pena da mão de Jacob com um movimento rápido e firme, jogando-a sobre a mesa.
— O reino está em ordem, irmão! — esbravejou Taylor. — A fronteira está segura, as colheitas estão protegidas e a aliança com Forks permanece intacta. Você não está trabalhando por dever, Jacob. Você está usando a burocracia do reino como uma masmorra para se punir!
Jacob travou o maxilar, recostando-se na cadeira de carvalho e encarando o teto de madeira.
— É a única coisa que me mantém de pé, Taylor — confessou ele, o tom num fio trêmulo de dor. — Se eu parar... se eu me permitir respirar por um minuto sequer, a imagem da Renesmee entrando naquela carruagem toma conta da minha mente. A voz dela me dizendo adeus ecoa nesta sala. Eu prefiro que o meu corpo rua de cansaço a ter de encarar a ausência dela.
Taylor suspirou profundamente, sentando-se na cadeira ao lado e olhando nos olhos do irmão.
— E até quando você vai continuar fugindo? — perguntou Taylor com severidade amorosa. — A Carlie recebe cartas da Renesmee todas as semanas. A minha rainha chora ao ler o quanto a irmã está triste e solitária em Forks. A Renesmee está se apagando naquele palácio, Jacob! E você está se matando aqui nesta mesa!
— Ela está melhor sem mim... — murmurou Jacob, cobrindo o rosto com as mãos grandes. — Eu a manchei, Taylor. A vergonha que carrego no peito tornaria a vida dela um inferno ao meu lado.
— A vergonha é o seu orgulho falando mais alto que o seu amor! — rebateu Taylor, levantando-se. — Você renunciou à coroa, tornou-se meu conselheiro, entregou a sua vida ao trabalho... mas continua sendo um covarde para a única coisa que realmente importa. A Renesmee não precisava de um rei impecável, Jacob. Ela só precisava do homem que a amava sem reservas.
As palavras de Taylor caíram como pedras sobre a consciência de Jacob. O silêncio voltou a dominar a sala de mapas, denso e doloroso.
Taylor caminhou até à porta, parando antes de sair e olhando de relance para o irmão:
— Pense nisso antes que o tempo faça com que o silêncio entre vocês se torne irreversível.
Ficando sozinho novamente na penumbra da sala, Jacob olhou para a pena caída e para a sua mão limpa de anéis reais. Em Forks, uma rainha sem trono definhava em solidão; em La Push, um príncipe sem coroa afogava-se em papéis. Dois reinos unidos pela paz, mas separados pela mesma ferida que nenhum dos dois sabia como curar.
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