Coroas e destinos
43 O Perfume da Discordia e o Fruto do Trono
O dia amanheceu ensolarado sobre as falésias de La Push, prometendo mais uma jornada movimentada no Palácio do Sol Nascente. Como de costume, a grande mesa do salão de jantar estava farta para o café da manhã real.
A Rainha Carlie e o Rei Taylor já estavam acomodados perto da grande janela. Taylor, recém-chegado de um treino de cavalaria logo ao alvorecer, usava a sua túnica de couro preferida e exalava um perfume forte de sândalo misturado ao suor sutil do exercício.
A porta do salão abriu-se e o Rei Jacob entrou acompanhado de Renesmee. Jacob usava uma elegante casaca cinza e fora generoso na loção pós-barba de especiarias e cedro que Renesmee costumava apreciar. O casal vinha rindo de alguma provocação matinal, com o braço de Jacob repousando confortavelmente ao redor da cintura da esposa.
— Bom dia, família! — saudou Jacob de excelente humor, puxando a cadeira para Renesmee se sentar antes de ocupar o lugar ao lado dela. — O dia promete. As patrulhas do sul já enviaram o relatório...
Renesmee sorriu para Carlie e ajeitou o guardanapo no colo. Porém, no exato segundo em que Jacob se aproximou para lhe dar um beijo carinhoso na bochecha, a narina dela captou a fragrância do marido.
A reação foi instantânea. O sorriso de Renesmee congelou. Uma onda repentina de náusea violenta atingiu-lhe o estômago com a força de um choque elétrico.
— Jake... por favor, afaste-se um pouco — pediu ela, piscando e levando a mão à boca, o rosto perdendo a cor de forma drástica.
— O quê? O que houve, amor? — perguntou Jacob, preocupado, inclinando-se ainda mais na direção dela para checar a sua temperatura.
Foi o suficiente. O aroma denso de cedro de Jacob, somado ao cheiro de sândalo e couro que emanava de Taylor do outro lado da mesa, formou uma combinação insuportável para o olfato apurado de Renesmee. O cheiro dos ovos mexidos sobre a mesa só piorou a situação.
— Meu Deus... — murmurou ela, empurrando a cadeira para trás num baque seco.
— Nessie? — alarmou-se Carlie, levantando-se.
Renesmee não teve tempo para explicações. Ela cobriu a boca com as duas mãos, deu meia-volta e disparou para fora do salão de jantar a passos velozes, correndo pelo corredor da galeria real na direção dos seus aposentos.
— Nessie! — gritou Jacob, levantando-se num salto e derrubando o seu copo de suco sobre a mesa.
— O que deu nela?! — perguntou Taylor, assustado.
— Eu não faço a menor ideia! — bradou Jacob, já em disparada atrás da esposa.
Renesmee praticamente arrombou a porta dos aposentos reais, correu até ao lavabo de mármore e ajoelhou-se diante da bacia, vomitando tudo o que não tinha no estômago. O seu peito subia e descia desordenadamente, lágrimas de desconforto e náusea escorrendo pelos seus olhos.
Jacob invadiu o lavabo logo em seguida, em pânico. Ele ajoelhou-se ao lado dela, recolhendo os cabelos acobreados com uma das mãos para que não se sujassem, enquanto usava a outra mão grande para acariciar carinhosamente as costas trêmulas da esposa.
— Calma, meu amor... eu estou aqui — sussurrou ele, a voz transbordando angústia. — O que você está sentindo? Foi alguma coisa do jantar de ontem?
Renesmee conseguiu respirar fundo, pegando a toalha e o copo de água que ele lhe estendeu. Ela enxagou a boca, encostando a cabeça no peito de Jacob, mas logo virou o rosto para o lado oposto:
— Jake... o seu perfume. Por favor... tira essa casaca. Está me sufocando!
— O meu perfume?! — Jacob piscou, estupefato. Ele sempre usava aquele aroma e ela adorava. Sem hesitar um segundo, ele arrancou a casaca cinza e atirou-a para longe no corredor. — Pronto! Tirei! Taylor! — gritou Jacob em direção ao corredor, onde o irmão e Carlie aguardavam apreensivos. — Mande chamar o Médico Real! Agora!
— Já estou indo! — gritou Taylor de volta, correndo pelos corredores do palácio.
O Diagnóstico Sagrado
Minutos depois, Renesmee estava deitada na grande cama de dossel, vestindo uma camisola leve de algodão branco. O rosto ainda estava pálido, mas a náusea cedera um pouco após o lavabo ter sido limpo e as janelas do quarto abertas para deixar a brisa fresca do mar entrar.
O Doutor Thorne, um idoso e respeitado médico da corte de La Push, terminou de examiná-la. Ele checou a sua pulsação, a temperatura, tateou suavemente a região do abdômen e fez algumas perguntas silenciosas que Renesmee respondeu com meneios de cabeça.
Jacob andava de um lado para o outro no quarto como um leão enjaulado, passando as mãos pelos cabelos desalinhados, sem a camisa e sem a casaca.
— E então, Doutor Thorne?! — esbravejou Jacob, sem paciência. — É algum veneno? Alguma infecção? Por que ela passou mal do nada?!
O Doutor Thorne guardou os seus instrumentos na maleta de couro. Um sorriso sábio, calmo e profundamente emocionado surgiu no rosto do velho médico. Ele olhou para Renesmee, que o encarava com os olhos arregalados, começando a compreender o que estava acontecendo, e depois virou-se para o Rei.
— Acalme-se, Vossa Majestade — disse o Doutor Thorne com voz tranquila. — Não há veneno, não há doença e a Rainha está em perfeita saúde.
— Então por que diabos ela vomitou até a alma e não suportou chegar perto de mim?! — exigiu Jacob, parando no meio do quarto.
O médico curvou-se numa leve reverência e declarou com solemnidade e alegria:
— A Rainha rejeitou o seu perfume, meu Rei, porque o corpo dela agora responde a uma nova vida. Vossa Majestade Renesmee está grávida. O senhor e a Rainha estão à espera do herdeiro do trono de La Push.
O silêncio que se seguiu no quarto foi absoluto.
Jacob congelou no lugar. Os seus braços musculosos caíram ao lado do corpo e a sua mandíbula entreabriu-se. Ele olhou para o médico como se ele estivesse falando uma língua estrangeira, e depois virou o rosto lentamente para a cama, fixando o olhar em Renesmee.
Renesmee levou as mãos ao ventre, cobrindo a boca com um suspiro de pura emoção, lágrimas de felicidade transbordando e escorrendo pelas suas bochechas.
— G-Grávida?... — gaguejou o Rei de La Push, a voz falhando completamente. — Um... um bebê? Nosso bebê?
— Sim, meu Rei — confirmou o médico, sorrindo. — Calculo que sejam cerca de dois meses. Com a licença de Vocês.
O Doutor Thorne retirou-se do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
A Revelação do Rei
Jacob continuava parado no meio do quarto, parecendo um gigante paralizado de choque. As suas mãos tremiam levemente.
Renesmee sorriu em meio às lágrimas, estendendo a mão para ele do topo da cama:
— Jake... vem cá, meu amor.
Como se saísse de um transe, Jacob deu passos rápidos até à cama. Ele ajoelhou-se no chão ao lado do colchão, pegando a mão dela com extrema reverência e colando-a contra o seu rosto, beijando-lhe a palma repetidamente enquanto lágrimas sinceras de um homem radiante escorriam pelos seus olhos negros.
— Um filho, Nessie... — sussurrou ele, a voz embargada pela emoção mais pura que já sentira na vida. — Nós vamos ter um filho...
— O nosso herdeiro, Jake — respondeu ela com doçura, acariciando os cabelos dele. — O fruto da nossa vitória, do nosso amor.
Jacob inclinou-se sobre a cama e envolveu-a num abraço protetor, deitando a cabeça com extrema delicadeza sobre o ventre ainda liso de Renesmee. Ele fechou os olhos, escutando a vida que começava a gerar-se ali, sentindo o calor do corpo da esposa.
— Eu juro que vou proteger vocês dois com a minha própria vida — prometeu ele contra a pele dela, a voz abafada pelo choro de alegria. — Nada neste mundo vai tocar na nossa família.
Renesmee riu baixinho, limpando as lágrimas do rosto do marido:
— Eu sei que vai, meu Rei. Mas para isso acontecer... você vai ter que tomar um banho sem aquela loção pós-barba pelas próximas semanas!
Jacob soltou uma gargalhada alta e gostosa, abraçando-a com força e beijando-lhe os lábios com uma paixão e um carinho renovados.
Lá fora, a notícia espalhou-se pelos corredores do palácio como um rastro de pólvora. As buzinas de La Push ressoaram pelas falésias, e os vivas da guarda e das matilhas ecoaram pelo oceano, celebrando a bênção do novo herdeiro que nascia do amor invencível do Rei e da Rainha.
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