Coroas e destinos

25 O Julgamento do Litoral e a Sentença das Sombras



​O Salão dos Três Tronos, na cidadela de La Push, nunca presenciara uma reunião tão imponente e carregada de tensão. A grande cúpula de pedra e madeira de carvalho acolhia centenas de testemunhas: nobres do sul, chefes das matilhas, guardas e anciãos de La Push.

​Ao fundo do salão, num estrado elevado, a mesa da alta corte estava composta. No centro, o Rei Jacob trajava as suas vestes reais de veludo escuro e couro trabalhado, trazendo no rosto uma rigidez de mármore. À sua direita, o Rei Edward Cullen mantinha o olhar dourado e impassível; à sua esquerda, a Rainha Renesmee resplandecia num vestido de seda azul-noite, a postura ereta e o olhar faiscando com uma indignação contida.

​No centro do salão, acorrentados pelos pulsos e tornozelos, rodeados por dez guardas de elite, estavam a Duquesa Genevieve e o Lorde Silas Beauvoir.

​Silas trazia o rosto pálido e derrotado, enquanto Genevieve, apesar das vestes amassadas da masmorra, ainda tentava erguer o queixo com um resto de soberba que escorria pelos seus olhos furiosos.

​O Príncipe Taylor adiantou-se, abrindo o grande livro de leis do litoral e projetando a sua voz para que todos no salão ouvissem:

​— Estamos aqui reunidos para julgar os crimes de Alta Traição, Falsificação Real, Conspiração contra a Coroa e Tentativa de Incitar a Guerra entre La Push e Forks. Diante dos reis e do conselho, abro a palavra aos acusados!

​Lorde Silas, vendo que não havia escapatória diante das provas e do exército de Forks posicionado às portas da cidade, quebrou primeiro. Tremendo sob o peso das correntes, ele caiu de joelhos:

​— Misericórdia, Majestades! — suplicou Silas, a voz trêmula ecoando pelo recinto. — Eu fui induzido ao erro! Foi Genevieve... foi ela quem arquitetou cada passo deste plano diabólico!

​— Calado, seu covarde! — esbravejou Genevieve, cuspindo no chão ao lado dele.

​— Não me calo! — esbravejou Silas, desesperado. — Nós sabíamos que a união entre La Push e Forks destruiria a influência dos lordes do sul. Genevieve prometeu que, se destruíssemos o casamento da Rainha Renesmee, o Rei Jacob ficaria vulnerável. Nós contratamos um calígrafo real de Beauvoir para estudar a assinatura do rei por meses!

​O salão murmurou num choque coletivo. Silas continuou, sem respirar:

​— Foi ela quem roubou a cera real do gabinete durante a noite do baile! Foi ela quem selou o pergaminho falso e o colocou nos aposentos da rainha! O plano era simples: fazer Forks atacar La Push, matar o Rei Edward na batalha e forçar Jacob a casar-se com Genevieve para salvar o seu povo da aniquilação! Nós queríamos o trono do litoral e o domínio de toda a região!

​As palavras de Silas caíram como pancadas no peito dos nobres presentes. A conspiração fora exposta em toda a sua podridão.

​Genevieve, percebendo que a sua máscara caíra por completo, soltou uma gargalhada histérica e amarga que arrepiou os presentes. Ela encarou Jacob com um ódio profundo:

​— E daí?! Eu faria tudo de novo! Você devia ser meu, Jacob! Eu sou de sangue nobre, eu pertenço a estas terras! Você preferiu entregar o seu trono e a sua cama a uma garota mimada da floresta, uma mestiça de sangue estranho que não sabe nada sobre o verdadeiro poder! Eu fiz o que qualquer verdadeira rainha faria para tomar o que é meu por direito!

​O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

​Renesmee levantou-se lentamente do seu trono. O Farfalhar do seu vestido era o único som no vasto salão. Ela desceu os degraus do estrado a passos calmos, graciosos e implacáveis, parando a escassos centímetros de Genevieve.

​A duquesa tentou encarar a jovem rainha com desdém, mas a aura de dignidade e o olhar acobreado de Renesmee eram tão gélidos que fizeram a mulher do sul vacilar.

​— Você fala de nobreza, Genevieve... — começou Renesmee, a voz suave, mas tão cristalina que alcançava os cantos mais distantes do salão. — Fala de direito ao trono e de poder. Mas você não passa de uma criatura invejosa, pequena e miserável.

​Genevieve entreabriu os lábios para interromper, mas Renesmee deu um passo à frente, a sua voz elevando-se com uma autoridade avassaladora:

​— Cale a sua boca e ouça! Você achou que podia usar a sedução, a mentira e a traição para roubar o amor de um homem e a coroa de um povo. Achou que o Jacob a olharia com desejo, mas a única coisa que você conseguiu despertar nele foi o mais profundo e visceral nojo.

​Renesmee inclinou-se ligeiramente, falando diretamente no rosto da duquesa, com um desprezo que cortava mais fundo do que qualquer lâmina:

​— Para conseguir a sua confissão, o meu marido teve de fingir que a tocava. E sabe o que ele fez logo em seguida? Foi lavar a própria pele até sangrar, porque a simples ideia de ter você por perto o enojava mais do que a própria morte. Você se humilhou. Entregou os seus segredos, o seu nome e a sua dignidade por um beijo falso de um homem que a ama com desprezo. Você não é uma rainha, Genevieve. Não é uma estrategista. Você é apenas uma sombra patética que rastejou no chão e perdeu absolutamente tudo.

​As palavras de Renesmee foram como um golpe devastador na vaidade de Genevieve. A duquesa empalideceu brutalmente; os seus olhos arregalaram-se, transbordando uma humilhação tão avassaladora que os seus lábios começaram a tremer. O orgulho que a sustentara ruiu por completo diante de todo o reino. Ela baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar da rainha, sentindo-se exatamente como o lixo que tentara criar.

​Renesmee virou-se de costas sem lhe dar mais um segundo de atenção e regressou ao lado de Jacob, sentando-se no seu trono.

​Jacob levantou-se. A sua estatura monumental e a sua presença como Rei de La Push preencheram o salão. O seu rosto não trazia hesitação, apenas a justiça dura de um soberano que defendera o seu povo e o seu amor.

​Ele olhou para os dois traidores acorrentados ao chão.

​— Pelos crimes de Alta Traição contra a Coroa de La Push, pela falsificação do selo real, pela tentativa de homicídio político e por colocar a vida de milhares de inocentes em risco de guerra... — declarou Jacob, a sua voz profunda ressoando como o trovão sobre o mar. — Eu, Jacob Black, Rei de La Push, declaro Silas Beauvoir e Genevieve de Beauvoir culpados.

​Jacob estendeu a mão sobre a mesa, apontando para os réus:

​— A sentença para a traição de sangue é uma só. Amanhã, ao nascer do sol, na praça central da cidadela, vocês dois serão levados à forca e enforcados até a morte, para que o vosso fim sirva de aviso a qualquer um que tente envenenar a paz dos nossos reinos.

​— Não! Piedade! — gritou Silas, desmaiando em seguida sob o peso das correntes.

​Genevieve, tomada pela vergonha e pelo pavor da morte iminente, caiu de joelhos, chorando em silêncio enquanto os guardas arrastavam ambos para as profundezas irreversíveis dos calabouços.

​Jacob olhou para Renesmee ao seu lado. Ela estendeu a mão e encontrou a dele. O aperto forte e caloroso entre os dois selou o fim da tempestade, restaurando não apenas a verdade, mas a aliança inquebrável entre Forks e La Push.