Coroas e destinos

5 O Batismo de lama e honra



​A manhã seguinte no Palácio de Forks amanheceu envolta em uma névoa densa, típica da região. No entanto, longe dos salões aquecidos onde a corte ainda despertava, a Princesa Renesmee já estava de pé desde as primeiras luzes da alvorada. Vestindo trajes de montaria mais práticos e nada convencionais para uma lady, ela caminhou em direção às grandes estrebarias acompanhada por Seth, um jovem e leal ajudante dos estábulos.

​— Tem certeza disso, Princesa Renesmee? — sussurrou Seth, olhando nervosamente para os lados enquanto carregava um balde de madeira lacrado. — Se o Rei Edward souber disso, ele me manda limpar as poceiras do pátio até o próximo inverno.

​— Deixe de ser medroso, Seth — respondeu Renesmee, ajustando as luvas de couro com um sorriso malicioso. — O Rei de La Push precisa aprender que as damas de Forks não são como as jovens crédulas que ele seduz no litoral. Ele quer uma experiência autêntica em nossas terras? Pois eu vou garantir que ele nunca mais se esqueça da nossa hospitalidade. O que tem nesse pote?

​— Suco concentrado de moras-silvestres, banha de javali e a essência de erva-dos-gatos que o mestre dos cães usa para adestramento — explicou o garoto, engolindo em seco. — É extremamente escorregadio, tem um cheiro adocicado irresistível para os animais e... é quase impossível de tirar das roupas sem três banhos ferventes.

​— Perfeito — murmurou a princesa, os olhos faiscando de entusiasmo. — Agora me ajude a preparar o selim do "imponente" sela-real de Vossa Majestade.

​Horas mais tarde, o pátio central do castelo estava repleto de nobres, guardas e cavaleiros. Era o momento da tradicional caçada matinal organizada em homenagem aos visitantes. O Rei Edward e o Duque Jasper conversavam perto dos mastros de bandeiras, enquanto Taylor e Carlie trocavam olhares encantados junto aos degraus de pedra.

​Jacob Black apareceu no topo da escadaria trajando uma capa de veludo carmesim, botas de couro impecavelmente engraxadas e um gibão com botões de ouro polido. Ele exibia uma postura triunfante, acenando para as damas da corte com a audácia que lhe era peculiar.

​— Bom dia à nobreza de Forks! — anunciou Jacob em alto e bom som, descendo os degraus com passos largos até se aproximar de Renesmee, que mantinha as mãos cruzadas atrás das costas com uma fresta de inocência calculada no rosto. — Princesa Renesmee... Dormiu bem? Ou passou a noite procurando formas de rebater meus elogios?

​— Dormi perfeitamente, Majestade — respondeu ela, exibindo um sorriso impecável e invulgarmente dócil. — Inclusive, para demonstrar que não guardo rancor das nossas divergências de ontem, pedi aos estabuleiros que preparassem Tempestade, o cavalo mais altivo e rápido das nossas terras, especialmente para o seu passeio.

​Jacob ergueu uma sobrancelha, surpreso com a gentileza repentina, mas seu ego inflado não o permitiu duvidar.

​— Ora, vejo que o meu charme finalmente começou a amolecer esse coração de pedra — provocou ele, aproximando-se do grande semental negro que Seth segurava pela rédea. — Um rei guerreiro precisa de um cavalo à sua altura. Agradeço o presente, Princesa.

​— Ah, não há de quê — murmurou Renesmee, dando dois passos estratégicos para trás, escondendo-se parcialmente atrás do ombro do tio Emmett. — O prazer é todo meu.

​Jacob ajustou a capa de forma dramática, colocou o pé no estribo e, com a agilidade de um cavaleiro treinado, içou-se sobre o selim de couro.

​No exato milissegundo em que o peso do seu corpo assentou-se sobre o assento — pressionando a bolsa secreta com a mistura que Renesmee havia escondido sob o estofado —, um estalo abafado foi ouvido.

​Antes que Jacob pudesse entender o que acontecia, a substância viscosa e superescorregadia vazou pelas bordas do selim, espalhando-se rapidamente pelas suas calças de linho nobre e cobrindo a parte traseira de sua capa de veludo. E para piorar, o odor forte de essência de erva-dos-gatos e frutas maduras impregnou o ar do pátio.

​— Mas o que é isso...? — começou Jacob, tentando se ajeitar, mas a banha de javali fez suas pernas perderem completamente a aderência contra o selim.

​Antes que ele pudesse desmontar, a matilha de caça do castelo — seis enormes cães de busca que descansavam perto dos estábulos — ergueu os focinhos ao mesmo tempo. Atraídos pelo cheiro avassalador da essência, os cães dispararam pelo pátio ganindo e latindo de excitação, correndo diretamente em direção ao cavalo do rei.

​O cavalo, assustado com o enxame de cães pulando ao seu redor, deu um rinchado alto e empinou sobre as patas traseiras.

​— Oho! Calma, garoto! — gritou Jacob, tentando segurar as rédeas, mas o couro escorregadio de suas calças fez com que ele deslizasse do selim como uma saboneteira molhada.

​Com os braços se girando no ar para tentar manter o equilíbrio de forma desengonçada, o imponente Rei de La Push despencou do cavalo de costas, rolando ruidosamente pela rampa do pátio até mergulhar de cabeça na grande calha de lama e lavagem de estábulo que se acumulava junto ao poço central.

​SPLASH!

​Um silêncio sepulcral tomou conta do pátio por exatamente dois segundos.

​Jacob emergiu da Poça de lama com a capa de veludo carmesim transformada em um pano marrom pegajoso, uma folha de couve grudada no seu colar real de ouro e a cara inteira coberta de barro escuro. Para coroar o espetáculo, dois cães de caça aproximaram-se alegremente, comessando a lamber entusiasmadamente o rosto do rei para saborear a mistura de moras e essência.

​— Saiam! Caiam fora, seus animais! — esbravejou Jacob, cuspindo um gole de água suja e tentando afastar os cães de forma atrapalhada, escorregando de novo na lama ao tentar se levantar.

​A corte inteira prendeu a respiração. O Rei Edward arregalou os olhos, mas cobriu a boca imediatamente, virando-se de costas enquanto seus ombros sacudiam em gargalhadas silenciosas. O Duque Emmett não teve o mesmo autocontrole; ele soltou um rugido de gargalhada que ecoou por todo o vale de Forks, batendo na própria coxa.

​— Pela coroa! — gargalhou Emmett, enxugando uma lágrima. — Essa foi a manobra de cavalaria mais espetacular que já vi em toda a minha vida! Alguém traga uma toalha para Vossa Majestade... ou um rodo!

​Até o Príncipe Taylor, que tentava manter a compostura por respeito ao irmão, teve que cobrir o rosto com as duas mãos, tremendo de rir ao lado de Carlie, que cobria a boca com um lenço, chocada, mas com os olhos brilhando de diversão.

​Jacob, finalmente conseguindo se colocar de pé com a ajuda de dois guardas enojados, encarou a multidão com a cara coberta de lama. Seu olhar percorreu o pátio até encontrar a Princesa Renesmee.

​Ela estava parada no alto dos degraus, com os braços cruzados, ostentando o sorriso mais diabólico e vitorioso que a corte já presenciara.

​— Oh, meu Deus! Que tragédia terrível, Vossa Majestade! — exclamou Renesmee com uma voz falsa de drama, dando um passo à frente. — Parece que o grande e imbatível navegador de La Push naufragou... em meio metro de lama de estábulo! Gostou do passeio?

​Jacob limpou o barro dos olhos com o dorso da mão, respirando fundo. Qualquer outro rei teria declarado guerra ou exigido a cabeça do culpado, mas ao olhar para a figura provocante e destemida de Renesmee, o choque de Jacob se transformou em uma gargalhada grave e alta.

​Ele deu dois passos pesados para a frente, fazendo o barro espirrar para todos os lados.

​— Muito engenhoso, Princesa... Muito engenhoso mesmo — disse Jacob, limpando a folha de couve do ombro e jogando-a no chão com um sorriso desafiador. — Mas se você pensa que um pouco de lama e alguns cães entusiasmados vão me fazer desistir de você, está tragicamente enganada.

​Ele deu um passo na direção dela, fazendo menção de subir os degraus para dar-lhe um abraço enlameado de "agradecimento".

​— Nem pense em dar mais um passo, seu monte de barro ambulante! — ameaçou Renesmee, recuando rapidamente com uma careta de nojo, perdendo a postura solene pela primeira vez. — Se chegar perto de mim com essa sujeira, eu mando os guardas te jogarem no rio!

​— Apenas aceitando o abraço da minha futura noiva em agradecimento pela "gentileza"! — provocou Jacob, dando mais um passo e rindo abertamente ao vê-la fugir em direção às portas do castelo.

​Nos degraus de cima, o Rei Edward olhou para Isabella, que abanava o rosto tentando conter o riso.

​— Bem... — comentou Edward, ajustando a túnica —, pelo menos ninguém pode dizer que os dias nesta corte serão entediantes.