Coroas e destinos
16 As Sombras da Biblioteca e a Ira da Princesa
A biblioteca do Palácio do Sol Nascente era um refúgio de penumbra e silêncio. Suas paredes eram recobertas por estantes altas de jacarandá carregadas de manuscritos antigos, e o cheiro a pergaminho e couro dominava o ambiente. Apenas a luz de um candelabro de prata sobre a mesa central iluminava o aposento.
Jacob entrara no local procurando algum isolamento após a exaustiva audiência pública. No entanto, a porta de carvalho rangeria logo em seguida, revelando a Duquesa Genevieve.
— O que faz aqui, Genevieve? — perguntou Jacob, a voz cansada, porém alerta, mantendo a mesa entre os dois. — Eu fui claro no salão real.
— Você foi duro, Jacob... cruel até — murmurou Genevieve, dando passos lentos e aveludados em direção a ele, a seda dourada do seu vestido farfalhando. — Mas sei que aquela frieza foi apenas um espetáculo para a sua rainha de Forks e para a corte. Conheço o homem que você é. Sei que esse casamento foi uma imposição política de Billy e do Conselho.
— O meu casamento é um assunto meu e da Rainha — cortou Jacob, recuando um passo.
— Tem certeza? — Genevieve contornou a mesa, reduzindo a distância até ficar a poucos centímetros dele. O perfume forte de jasmim envolveu o rei. — Lembra-se de como costumávamos caminhar pelas falésias do sul? Da liberdade que tínhamos antes de você ser coroado e acorrentado a uma aliança do norte? Uma flor de estufa como Renesmee nunca entenderá o fogo de La Push. Mas eu entendo... eu sempre entendi.
Ela estendeu a mão, deslizando os dedos delicados pelo peito de Jacob, subindo até ao seu pescoço.
Jacob estancou. O peso do cansaço, a nostalgia velada da juventude e a ousadia da duquesa fizeram-no hesitar por um instante fatal. Ele não a afastou de imediato. Sentindo a abertura, Genevieve inclinou-se na ponta dos pés e selou os seus lábios nos dele num beijo audaz. Por dois segundos que pareceram uma eternidade, Jacob deixou-se levar pela audácia do momento, correspondendo ao toque antes que a sua consciência o fizesse recuar.
— Que pouca vergonha é esta?!
A voz não veio de Renesmee, mas de um tom surpreendentemente afiado e trêmulo de indignação.
Na entrada da biblioteca, a Princesa Carlie estava de pé, segurando um livro contra o peito. A sua figura habitualmente doce e angelical fora substituída por uma palidez de puro choque e uma fúria incandescente. Os seus olhos azuis faiscavam.
Jacob empurrou Genevieve bruscamente para longe, recompondo o capote a toda a pressa, a face queimando de vergonha e culpa.
— Carlie! — gaguejou Jacob, dando dois passos à frente. — Não é o que parece... eu estava prestes a...
— Cale a boca, Jacob! — bradou Carlie, raising a voz de uma forma que ninguém no castelo jamais a ouvira fazer. Ela adiantou-se pelo salão de madeira com passos decididos, ignorando os protestos do cunhado e parando diretamente diante de Genevieve. — E você... sua mulher descarada e vulgar!
Genevieve tentou recompor a postura, ostentando um sorriso falso e desdenhoso.
— Acalme-se, Princesa Carlie. Os assuntos da coroa e do passado do Rei não dizem respeito a uma menina que acabou de chegar do norte...
SLAP!
O som da estalada ressoou pela biblioteca como um tiro de mosquete. Genevieve levou a mão à bochecha ardorosa, desequilibrando-se ligeiramente, de olhos arregalados de absoluto choque.
— Lave a sua boca antes de se dirigir a mim ou à minha família! — vociferou Carlie, com o queixo erguido e a respiração entrecortada pela raiva. — Você invade este palácio, insulta a Rainha de La Push em plena audiência e agora tenta seduzir o marido da minha irmã nos cantos escuros da biblioteca?! Você não passa de uma intrometida sem caráter!
— Como se atreve?! — gritou Genevieve, a voz tremendo de humilhação.
— Saia daqui antes que eu chame o meu marido e a guarda real para a jogarem nas masmorras! — ordenou Carlie, apontando a porta com autoridade absoluta. — Se você for vista a menos de cem metros desta ala novamente, garanto que nem a sua linhagem do sul a salvará da expulsão vergonhosa deste reino!
Sem conseguir sustentar o olhar fulminante da Princesa de Forks, Genevieve recolheu a cauda do vestido e saiu em disparada pela porta, chorando de raiva e dor.
Assim que a duquesa desapareceu no corredor, Carlie virou-se para Jacob. O Rei de La Push permanecia em silêncio, visivelmente desconcertado e envergonhado diante da cunhada.
— Carlie, ouça-me... — começou Jacob, a voz rouca. — Eu cometi um erro ao hesitar, mas juro por tudo o que é sagrado que não sinto nada por aquela mulher. Foi um segundo de fraqueza...
— Um segundo de fraqueza?! — rebateu Carlie, dando um passo à frente com as lágrimas nos olhos, a voz embargada pelo desgosto. — A minha irmã deixou o nosso lar, a nossa família e o nosso reino para vir para aqui e entregar-se a você, Jacob! Ela defendeu-o hoje diante de toda a nobreza! Ela enfrentou aquela mulher por você! E é assim que você retribui a lealdade dela?!
— Eu amo a Renesmee! — declarou Jacob com firmeza e desespero na voz. — Eu sei que errei ao não afastar a Genevieve de imediato, mas eu amo a sua irmã!
— Pois então demonstre isso com atos e não com palavras cobardes! — disse Carlie, o tom firme e cortante. — Se a Renesmee souber disto, a confiança dela em você será destruída para sempre. E eu juro, Jacob... se você partir o coração da minha irmã, nem a sua coroa nem a sua aliança o salvarão da ruína.
Carlie deu-lhe as costas sem esperar por mais explicações, marchando para fora da biblioteca e deixando Jacob sozinho no silêncio pesado da sala, esmagado pela culpa e pelo peso do erro que acabara de cometer.
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