Coroas e destinos

34 A Valsa do Fogo e as Cinzas do Orgulho



​A música da orquestra mal havia terminado quando a comédia diplomática na pista de dança tomou um rumo vertiginoso.

​O Conde Alec Volturi ainda mantinha a mão de Renesmee entre as suas, preparando-se para conduzi-la até à mesa de bebidas, quando uma sombra imponente projetou-se sobre ambos. Antes que o nobre italiano pudesse proferir outra cortesia pomposa, uma mão grande e firme segurou-o pelo pulso com uma precisão cirúrgica.

​— Se me permite, Conde... a próxima valsa é do Primeiro-Conselheiro — declarou Jacob. A sua voz ressoou como um trovão contido, baixa, grave e carregada de uma autoridade que fez o ar ao redor estalar.

​Alec piscou, surpreso pela interrupção abrupta, mas manteve a elegância europeia:

​— Ora, Príncipe Jacob, a Grã-Duquesa e eu estávamos prestes a...

​— A dança acabou, Conde — cortou Jacob, sem soltar o pulso dele até que o italiano recuasse um passo. — A diplomacia agradece a sua cortesia.

​Sem dar margem para resposta ou pedido de licença, Jacob envolveu a cintura descoberta de Renesmee com o braço esquerdo, puxando-a para junto de si num movimento firme e possessivo. O choque térmico entre a pele quente dele e a seda fria do vestido esmeralda fez a jovem soltar um curto suspiro de surpresa.

​A orquestra, instruída por um gesto discreto do Rei Taylor no andar superior, iniciou uma valsa espanhola de ritmo acelerado, violento e apaixonado.

​— O que pensa que está a fazer, Jacob?! — sibilou Renesmee, os olhos acobreados faiscando de fúria enquanto ele a conduzia para o centro do salão com passos rápidos e impecáveis.

​— Cumprindo os meus deveres de anfitrião — respondeu ele, a voz num tom perigosamente calmo, embora o seu olhar queimasse ao encarar a boca dela. — Impedindo que a nossa convidada de honra seja importunada por vampiros italianos com excesso de perfume.

​— Ele estava a ser um cavalheiro! Algo que você aparentemente esqueceu como se faz nos últimos dois anos! — rebateu ela, cravando as unhas no ombro dele e acompanhando a dança com um pisar forte e preciso.

​A valsa entre os dois transformara-se num duelo físico. Os giros eram executados com uma intensidade quase agressiva; a saia esmeralda de Renesmee cortava o ar como uma lâmina de seda. A cada passo sincronizado, o peito de Jacob chocava-se contra o dela, e a proximidade forçada trazia à tona um amor urgente, reprimido e violento que nenhum dos dois conseguia mais disfarçar.

​— Você veio a este baile vestida assim apenas para me provocar, não foi?! — acusou Jacob, apertando-lhe a cintura e girando-a com força, fazendo-a colar-se ao seu corpo.

​— O mundo não gira ao seu redor, Príncipe Jacob! — disparou Renesmee, a respiração entrecortada pela rapidez da dança e pela descarga de adrenalina. — Eu me visto para mim mesma! Se a minha presença o incomoda, a porta do palácio continua aberta para você fugir, como sempre faz!

​— Eu não vou a lugar nenhum, Renesmee — rosnou ele, inclinando o rosto sobre o dela até que as suas testas quase se tocassem. — Não enquanto você continuar a brincar com o fogo neste salão!

​A música atingiu o seu clímax dramático. Violinos e tambores aceleraram numa espiral avassaladora. Jacob puxou Renesmee com tanta paixão que o corpo dela se curvou para trás nos braços dele. Por um segundo infinito, o tempo parou no salão. As respirações desordenadas misturavam-se; os olhos de Jacob desceram para os lábios entreabertos de Renesmee e a mão dele subiu para a nuca dela, puxando-a milímetros mais perto.

​O quase beijo consumia a alma de ambos; o desejo acumulado em dois anos de seca ameaçava explodir diante de toda a corte.

​Contudo, com o estalido final dos violinos, o acorde derradeiro ecoou e a música cessou bruscamente.

​A realidade voltou num solavanco. Renesmee, com o peito subindo e descendo desordenadamente, recompôs-se num milésimo de segundo. Ela soltou-se dos braços de Jacob, ajeitou o topo do vestido tomara que caia, fez uma reverência impecável e fria — embora o seu rosto estivesse corado de calor — e virou as costas, saindo em disparada em direção à mesa de banquetes.

​Ela pegou numa taça de vinho tinto e virou-a quase de uma só vez, tentando acalmar o coração que parecia querer rasgar-lhe o peito.

​A Reagrupamento no Salão

​Renesmee caminhou a passos largos até ao canto onde a Rainha Carlie, Rosalie e Alice observavam tudo, rindo abertamente.

​— Se alguém disser uma única palavra sobre isso, eu juro que volto para Forks hoje mesmo — ameaçou Renesmee, com as bochechas coradas, pegando numa segunda taça de vinho.

​— Oh, minha irmã... — gargalhou Carlie, abraçando-a pelos ombros. — A sua 'valsa diplomática' quase incendiou o teto do palácio! Eu achei que vocês fossem se beijar ou se esfaquear no meio da pista!

​— Ele é insuportável! Arrogante, possessivo e... e... — Renesmee gaguejou, sem encontrar palavras, dando mais um gole no vinho.

​— E você continua completamente apaixonada por ele — completou Rosalie, com um sorriso de puro divertimento no rosto refinado. — Devo admitir, Nessie... ver o Jacob rosnar e carregar você pela pista como um guerreiro primitivo foi a melhor atração da noite. O coitado do Conde Alec ainda está a tentar entender o que aconteceu.

​— Ele não manda em mim — resmungou Renesmee, embora os seus olhos continuassem a buscar a figura alta de Jacob no outro lado do salão.

​Do outro lado, Jacob retornava para o grupo dos homens, onde o Rei Taylor, Emmett Cullen e Jasper aguardavam com taças erguidas e risadas contidas.

​— Senhoras e senhores, contemplem o nosso Primeiro-Conselheiro! — debochou Taylor, dando um tapinha forte nas costas do irmão. — O homem que disse que seria apenas 'prudente' e 'profissional'!

​— Aquele giro final foi sensacional, Jacob! — zombou Emmett, rindo às gargalhadas. — Se a música durasse mais três segundos, a diplomacia de La Push teria um escândalo real nos jornais de amanhã!

​— Calem a boca — resmungou Jacob, ajustando a túnica amassada pela dança, mas sem conseguir esconder a respiração ainda alterada.

​— Você pode negar o quanto quiser para os papéis da sua mesa, irmão — disse Taylor, ajeitando a postura e olhando para Jacob com um orgulho genuíno —, mas a noite de hoje provou uma coisa: o fogo entre vocês continua vivo. E, a partir de agora, não há vergonha no mundo que consiga apagar isto.

​Jacob olhou de relance para o outro lado do salão, cruzando o olhar por um segundo com Renesmee, que o encarava por cima da taça de vinho. Um sorriso contido e desafiador desenhou-se no canto dos lábios do ex-rei. A batalha apenas começara.