Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo

8 Tecidos, Ordens e Táticas de Adestramento



​Os dias que se seguiram ao anúncio do noivado transformaram o Palácio de La Push em um verdadeiro caldeirão de preparativos. O Reino inteiro fervilhava com a notícia do casório do ano, e os corredores do castelo foram tomados por alfaiates, floristas, padeiros e organizadores de eventos trazendo amostras de seda, taças de cristal e arranjos florais.

​No centro daquele furacão de frufrus e fitas de cetim, a Princesa Jaqueline estava decidida a cumprir sua missão: tornar a vida de seu noivo um verdadeiro inferno antes mesmo de assinarem o contrato.

​Sua primeira oportunidade surgiu na grande Sala dos Espelhos. Bernardo fora convocado para provar o traje de gala para o Baile de Noivado e estava de pé sobre um pequeno tablado de madeira, cercado por dois alfaiates idosos que ajustavam a bainha de sua túnica azul-marinho.

​Jaqueline entrou na sala a passos lentos, segurando uma xícara de chá e ostentando um sorriso doce, impecável e absolutamente venenoso.

​— Ah, aí está ele! O meu noivo heróico sendo costurado como uma boneca de pano — debochou a princesa, circulando o tablado como um predador. Ela deu uma olhada rápida no casaco e fez um estalo com a língua. — Senhor Mael, por favor, puxe mais a cintura desse casaco. O Duque andou comendo panquecas demais e está ficando sem postura.

​Bernardo arqueou uma sobrancelha, mantendo os braços abertos enquanto os alfaiates alfinetavam o tecido.

​— Minha postura está excelente, Jaque. Mas fico tocado ao ver que você não consegue tirar os olhos do meu corpo.

​— Não confunda inspeção de qualidade com admiração, Bernardo — devolveu ela, aproximando-se do tablado e usando a ponta dos dedos para empurrar o queixo dele para cima com um gesto seco. — Cabeça erguida. Olhos para a frente. Não mandei você olhar para mim. Pare de parecer um cão de guarda preguiçoso e tente fingir que tem modos reais.

​— Se eu sou o cão de guarda, priminha, você é a dona mais geniosa e exigente que este reino já viu — provocou o Duque, a voz descendo para aquele tom grave que fazia a pele dela arrepender, embora ele não tenha movido um milímetro do queixo, aceitando o comando dela com uma calmaria irritante.

​— Um bom adestrador sabe exatamente como lidar com a matilha — disparou Jaqueline. Ela baixou a mão e apontou para o chão, ao lado das sapatilhas dela. — Agora desça desse tablado e vá buscar a minha pasta de esboços de decoração que deixei na biblioteca. E não demore. Se a capa estiver amassada, você vai voltar para buscar outra.

​Os dois alfaiates pararam o trabalho, prendendo a respiração diante da audácia da princesa ao tratar o poderoso Duque Herdeiro como um garoto de recados. Bernardo, no entanto, apenas soltou uma risada baixa e rouca. Ele desceu do tablado com uma graciosidade quase perigosa, inclinou-se até ficar com o rosto a poucos centímetros do dela e sussurrou:

​— Como Vossa Alteza mandar. Mas lembre-se, Jaque... cachorros de grande porte costumam morder quando são provocados demais.

​— Pois se tentar morder, leva uma focinheira! Agora vá! — ordenou ela, batendo o pé.

​Dois dias depois, no jardim de inverno do palácio, a tirania de Jaqueline atingiu o seu ápice. Ela estava acomodada em um divã acolchoado, acompanhada por Carlie e Renesmee, selecionando os sabores do bolo de noivado. Bernardo, que acabara de retornar de um treino intenso de esgrima com a guarda — ainda usando a camisa de treino levemente suada e com os cabelos castanhos desalinhados —, cometeu o erro de passar por ali.

​— Bernardo! Venha cá — chamou Jaqueline, estalando dois dedos no ar, exatamente no mesmo ritmo com que o Rei Jacob chamava os cães de caça na floresta.

​Renesmee arregalou os olhos, abafando uma risada no guardanapo de papel, enquanto Carlie apenas balançava a cabeça, saboreando a cena.

​O Duque parou, olhou para os dedos estalados da noiva e caminhou devagar até o divã, parando de pé diante dela com os braços cruzados sobre o peito largo.

​— Sim, minha dona? Precisa de uma demonstração de fingir de morto ou rolar no chão? — ironizou ele.

​— Não seja dramático. Sente-se aí no banco — apontou ela para um pequeno banquinho de madeira sem encosto ao lado do divã. — E segure isto.

​Jaqueline simplesmente empurrou para o colo dele uma pilha gigantesca de amostras de tecidos para as toalhas de mesa, juntamente com quatro pratinhos de doces para degustação.

​— Fique bem paradinho. Você agora é a minha mesa de apoio oficial — declarou a princesa, sem dar a mínima para a cara de pau do noivo. Ela pegou um pequeno garfo de prata, provou um pedaço de torta de limão e depois encarou Bernardo. — Abra a boca.

​— O quê? — Bernardo piscou, pego de surpresa.

​— Não faça perguntas, Bernardo. Apenas abra a boca e sirva de cobaia! — mandou ela, com o tom mandão que não admitia réplica.

​O Duque semicerrou os olhos cinzentos, mas acabou cedendo, abrindo a boca. Jaqueline enfiou a colherada de torta com uma força desnecessária na boca dele, observando-o mastigar com uma atenção analítica.

​— E então? O limão está azedo demais? — perguntou ela.

​— Está ótimo. Me lembra bastante o seu temperamento — respondeu ele, engolindo o doce e dando um sorriso debochado.

​— Errado! Está horrível, tem gosto de sabão — decretou a princesa, virando-se para o confeiteiro que esperava ansioso a um canto. — Troque esse recheio! O meu noivo tem o paladar de um ogro e nem conseguiu perceber a diferença.

​— Se o meu paladar é de ogro, por que você insiste em me fazer provar tudo o que coloca na boca, Jaque? — provocou Bernardo, inclinando o corpo para a frente, fazendo a pilha de tecidos em seu colo balançar perigosamente. — Admita. Você só quer uma desculpa para me ter pertinho de você o tempo todo.

​— Eu só estou usando a única utilidade que você tem neste palácio no momento, que é ser peso de porta e provador de comida! — rebateu ela, pegando uma xícara de chá e entregando o pires vazio na mão livre dele. — Segura isso também. E se derrubar uma gota no chão, vai limpar com a própria camisa de treino!

​Renesmee não aguentou mais e soltou uma gargalhada gostosa, sendo acompanhada por Carlie.

​— Meu Deus, Bernardo... — riu a mãe dele. — Você passou três anos liderando regimentos inteiros na Itália para voltar para La Push e ser feito de criado de servir pela sua noiva de vinte anos!

​— Um bom líder sabe quando deve ceder espaço para as ilusões de poder dos seus subordinados, minha mãe — respondeu Bernardo com extrema serenidade, embora seu olhar focado em Jaqueline prometesse uma revanche terrível. — Deixe a minha noiva aproveitar enquanto pode. A festa de noivado é no sábado... e depois da festa, o jogo muda de figura.

​Jaqueline ergueu o queixo, lançando-lhe o seu olhar mais altivo e desdenhoso enquanto pegava mais um pedaço de bolo.

​— Sonhar ainda é de graça, Duque. Agora fique quieto e continue segurando as minhas louças!