Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo
19 O Cristal de Gelo, o Vinho Quente e a Tempestade no Jardim
O inverno chegara a La Push com uma força devastadora, cobrindo os penhascos, os telhados do palácio e os imensos jardins com um manto espesso de neve branca e intocada.
Dentro do Salão Nobre, o Grande Banquete de Inverno transcorria em clima de opulência. A imensa mesa de carvalho estava repleta de assados suculentos, pães temperados, frutas cristalizadas e taças reluzentes de vinho quente com especiarias. Toda a família real e os aliados mais próximos estavam presentes. Carlisle e Esme Cullen conversavam pacificamente com os anciãos Quileutes; Edward e Bella trocavam olhares tranquilos enquanto observavam Renesmee rir das piadas sem graça de Jacob Black.
No entanto, no centro daquela atmosfera calorosa, a tensão entre o Duque e a Duquesa era um espetáculo à parte.
Jaqueline vestia um magnífico vestido de veludo azul-noite com detalhes em pele sintética prateada, que destacava seus ombros e contrastava com a alvura de sua pele. Porém, durante todo o jantar, ela mal tocara na comida. Seus olhos verdes faiscavam na direção de Bernardo, que ocupava a cabeceira oposta da mesa.
O Duque estava impecável em um traje formal de inverno negro e prateado. Mas o que martirizava Jaqueline não era apenas a beleza sufocante do marido; era a facilidade com que ele conversava com Emmett sobre táticas de caça, ou como sorria educadamente para Rosalie ao passar a travessa de assados, enquanto para ela... reservava apenas o olhar frio e polido de um diplomata distante.
Quando o banquete atingiu seu ápice e a música de câmara começou a ecoar pelo salão, Jaqueline não suportou mais o calor sufocante da comemoração. Ela levantou-se abruptamente, puxou sua pesada capa de lã forrada de pele e caminhou em direção às grandes portas de vidro que davam para o Jardim de Inverno.
Ao ver a cena, Carlisle inclinou-se suavemente para Bernardo, dizendo em tom baixo:
— O gelo lá fora é perigoso, meu jovem... mas a tempestade no peito da sua esposa parece ainda pior. É hora de ir até ela.
Bernardo suspirou fundamente, o olhar cinzento carregado de uma mistura de cansaço e saudade sufocada. Deixando sua taça de lado, ele pegou seu próprio manto e seguiu os passos da Princesa.
O Confronto no Jardim de Neve
O ar do jardim estava gélido, congelando cada respiração em pequenas nuvens de vapor branco. A neve caindo suavemente transformara o labirinto de sebes e as estátuas de pedra em figuras fantasmagóricas sob a luz prateada da lua cheia.
Jaqueline caminhava com passos rápidos sobre o caminho coberto de gelo, os punhos fechados dentro do manto, o peito arfando de pura indignação. Ela parou perto da grande fonte central congelada, abraçando o próprio corpo numa tentativa vã de conter o tremor que não era apenas de frio, mas de pura vulnerabilidade.
O som de botas pesadas esmagando a neve fofa anunciou a chegada dele.
— O ar lá dentro estava perfeitamente agradável, Jaque. Você vai pegar um resfriado se continuar aqui fora sem luvas — disse Bernardo, a voz rouca e profunda ecoando no silêncio da noite gelada.
Jaqueline deu meia-volta num salto. A luz da lua refletia nas lágrimas de raiva e mágoa que queimavam em seus olhos verdes.
— Chega, Bernardo! Chega dessa palhaçada! — gritou ela, a voz embargada quebrando a serenidade do jardim. — Eu não aguento mais! Não aguento o seu "boa noite, Duquesa", não aguento suas reverências ridículas, não aguento o jeito como você olha através de mim como se eu fosse um móvel do palácio!
Bernardo parou a três passos de distância. Ele não recuou, mas manteve a postura firme, a expressão fechada como uma rocha sob a neve.
— Eu apenas estou dando a você exatamente o que exigiu durante meses — respondeu ele, a voz num tom grave e contido. — Distância. Respeito. O seu espaço.
— Não seja cínico! — esbravejou Jaqueline, dando um passo em direção a ele, ignorando a neve que afundava sob seus sapatos. — Você está me punindo! Você está usando essa frieza calculada para me ver rastejar, para ver até onde eu aguento! Eu fiz o seu café, eu fui atrás de você na biblioteca, eu preparei a droga de um piquenique e você me trocou por cavalos da patrulha! Por que você está fazendo isso comigo?!
— Porque você me destruiu, Jaqueline! — esbravejou Bernardo, rompendo finalmente a casca de autocontrole que mantivera por dias.
A voz do Duque ressoou pelo jardim como um trovão, fazendo os flocos de neve tremerem ao redor. Ele avançou com passos decididos até ficar a poucos centímetros dela, o olhar cinzento faiscando com uma intensidade assustadora, transbordando uma dor pura e crua.
— Você acha que isso é um jogo divertido para mim?! — continuou ele, o peito arfando, a respiração quente colidindo com o ar congelante entre eles. — Você acha que eu gosto de passar as noites sozinho naquele quarto frio, sabendo que a mulher que eu amo está a três portas de distância?! Você me acusava de ser um invasor, de querer forçar um casamento que você odiava! Eu cansei de me sentir um monstros nos seus olhos, Jaque! Eu me afastei para te salvar de mim... e para salvar o resto de orgulho que me sobrou!
Jaqueline congelou. As palavras dele caíram sobre ela como um golpe devastador. O tom rasgado da voz de Bernardo e a dor nua em seus olhos desarmaram cada uma de suas defesas.
— Bernardo... — murmurou ela, a voz falhando, uma lágrima quente finalmente escorrendo por sua bochecha congelada. — Eu... eu nunca achei que você fosse um monstro...
— Mas agia como se eu fosse! — rebateu ele, baixando o tom de voz para um sussurro doloroso, encarando-a com uma tristeza infinita. — Você lutava contra mim a cada segundo. Cada gesto de carinho meu era recebido com pedras. Eu te dei minha alma no altar, Jaque. Mas você preferiu usar seu orgulho como escudo porque tem um medo aterrorizante de se entregar.
Jaqueline baixou a cabeça, os ombros soluçando. O frio da noite não era nada comparado ao vazio devastador em seu peito. A verdade nua e crua estava ali, manchando a neve branca: ela quase destruíra o homem que a amava por pura covardia de amar de volta.
Com as mãos trêmulas, Jaqueline retirou a luva e estendeu a mão, tocando a face quente e marcada de Bernardo. O choque do contato fez o Duque fechar os olhos por um segundo, o corpo inteiro dele tensionando sob o toque dela.
— Eu estava com medo... — confessou ela, as lágrimas caindo livremente agora, brilhando como cristais sob a luz da lua. — Eu tinha um medo pavoroso de me apaixonar por você e perder o controle de quem eu era. Eu pensei que, se eu abrisse a porta, você tomaria tudo... e eu ficaria vulnerável.
Bernardo abriu os olhos devagar, encarando a vulnerabilidade crua no rosto da esposa.
— E agora, Jaque? — perguntou ele, a voz rouca, a apenas um sopro dos lábios dela. — O que você quer?
— Eu quero você — disse ela sem hesitar, o olhar verde fixo no dele com uma honestidade desesperada. — Eu quero o meu marido abusado, provocador e irritante de volta. Eu não quero mais a chave destrancada na porta... eu quero que você a abra. Eu quero você no meu quarto, na minha cama e na minha vida. Por favor, Bernardo... pare de me tratar como uma princesa e me ame como sua esposa.
Bernardo encarou-a por três segundos que pareceram uma eternidade. A muralha de gelo que ele construíra com tanto esforço ruiu completamente diante da confissão dela.
Sem dizer mais uma palavra, Bernardo avançou, envolveu a cintura de Jaqueline com seus braços fortes e a puxou contra o seu peito com uma paixão feroz. Ele tomou os lábios dela num beijo profundo, quente e desesperado — um beijo que carregava a saudade acumulada de semanas, a raiva contida e a promessa de um amor incondicional.
Jaqueline soltou um suspiro entrelaçando os dedos nos cabelos escuros do marido, entregando-se completamente ao abraço dele. O frio do inverno desapareceu, queimado pela chama avassaladora que finalmente os uniu.
Quando se separaram pela falta de ar, a testa de Bernardo permaneceu encostada na dela, os olhos cinzentos agora brilhando com o calor de sempre e um sorriso de canto desenhando-se em seus lábios.
— Devo lembrar à minha Princesa... — murmurou ele ao pé do ouvido dela, a voz rouca provocando um arrepio delicioso por todo o corpo de Jaqueline — ...que o quarto de hóspedes está definitivamente cancelado?
Jaqueline soltou uma risada sincera e cristalina que ecoou pelo jardim de neve, segurando a gola do manto dele com força.
— Se você pisar no quarto de hóspedes hoje, Bernardo... eu mando a Guarda Real te arrastar para a nossa cama à força.
Ele riu alto, envolveu-a pela cintura e cobriu-a com o próprio manto pesadamente aquecido, guiando-a de volta para o palácio sob os olhares discretos e satisfeitos dos Cullens e da família real que observavam da varanda. A tempestade de gelo finalmente havia acabado.
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