Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo

13 Chaves Mestras, Corridas no Quarto e um Despertar Perigoso




​O silêncio nos corredores do Palácio de La Push era absoluto, quebrado apenas pelo estalar suave das tochas. No quarto principal da suíte real, Jaqueline já havia trocado o pesado vestido de noiva por uma camisola de seda branca, soltado os cabelos acobreados e se trancado por dentro. A Princesa dava voltas pelo quarto, segurando uma taça de água e ostentando um sorriso de vitória absoluta.

​— Ponto para a noiva — murmurou para si mesma, caminhando até a imensa cama de casal. — Quero só ver a cara do Bernardo dormindo no sofá do quarto de hóspedes...

​Nisso, um leve clique metálico ressoou na fechadura da porta principal.

​Jaqueline parou no meio do quarto, congelando com a taça na mão. A maçaneta girou devagar e a pesada porta de carvalho se abriu com elegância.

​Bernardo passou pela porta, trajando apenas uma calça macia de tecido escuro e uma camisa de linho branco completamente desabotoada, revelando o peito largo e definido. Em seus dedos, ele girava com extrema casualidade um chaveiro de prata com a Chave Mestra do Palácio.

​— Você... o quê?! — Jaqueline arregalou os olhos verdes, a voz subindo dois tons. — Como você conseguiu essa chave?!

​— Sou o Duque Herdeiro e o Capitão da Guarda, Jaque — respondeu Bernardo, fechando a porta com o pé e trancando-a novamente por dentro, guardando a chave no bolso. — Eu tenho a chave de todas as portas deste palácio. Você realmente achou que uma tranca comum me manteria do lado de fora?

​— Isso é invasão de privacidade! É abuso de poder! — gritou a princesa, jogando a taça sobre a mesa de cabeceira e dando passos rápidos para o lado oposto da grande cama, colocando o móvel gigantesco entre eles. — Sai já do meu quarto, Bernardo!

​— Nosso quarto, Duquesa — corrigiu o Duque, dando um sorriso de canto, lento e extremamente provocador, enquanto começava a dar voltas ao redor da cama para alcançarla. — E eu não pretendo ir a lugar nenhum.

​— Se der mais um passo, eu jogo este vaso de cristal na sua cabeça! — ameaçou ela, pegando um vaso decorativo da penteadeira.

​— Tente a sorte, priminha — desafiou ele, acelerando o passo.

​O que se seguiu foi uma verdadeira corrida de obstáculos digna de comédia real. Jaqueline disparou ao redor da cama, desviando dos tapetes persas e usando as poltronas como escudo. Bernardo, com sua agilidade militar, cortava os caminhos, rindo baixo da fúria desajeitada e linda da esposa. Ela correu em direção à porta do banheiro, mas Bernardo previu o movimento, deu um salto ágil por cima do baú de pé da cama e interceptou o caminho dela.

​Jaqueline tentou dar meia-volta, mas Bernardo envolveu-a pela cintura por trás, erguendo-a do chão num abraço firme e quente.

​— Te peguei! — disse ele, arfando levemente contra o pescoço dela enquanto a segurava contra seu peito largo.

​— Me solta, seu bruto! Me solta agora! — esbravejou Jaqueline, esperneando, se contorcendo e tentando acertar uma cotovelada nas costelas dele. — Eu avisei que não seria sua! Se você tentar qualquer coisa, eu juro que...

​Subitamente, Bernardo parou. Ele não a apertou contra a cama, não tentou beijá-la e nem avançou um milímetro. Em vez disso, o Duque virou-a devagar em seus braços, mantendo as mãos firmes, porém delicadas, na cintura dela. Seu olhar cinzento ficou incrivelmente sereno, encarando os olhos acesos de fúria de Jaqueline.

​— Eu não vou tentar nada, Jaque — disse Bernardo, a voz grave, profunda e repleta de uma sinceridade que desarmou o ar da sala.

​Jaqueline piscou, parando de se contorcer, pega totalmente de surpresa.

​— Não vai? — perguntou ela, desconfiada, o peito arfando contra o dele.

​— Não — prometeu o Duque, olhando bem no fundo dos olhos dela. — Eu honrei a minha palavra com o seu pai e vou honrar com você. Não vou encostar um dedo em você contra a sua vontade. Mas eu sou o seu marido, e esta é a nossa cama. Eu vou dormir aqui, ao seu lado, todas as noites... até o dia em que você mesma pedir para que eu te ame.

​Um segundo de silêncio caiu sobre o quarto. Jaqueline sentiu o rosto queimar de calor. A declaração dele fora tão direta, tão masculina e cheia de uma certeza esmagadora que seu coração deu três batidas violentas. Contudo, seu orgulho lendário recuperou o controle num piscar de olhos.

​Ela soltou uma risada debochada, empurrando levemente o peito dele para que ele a soltasse.

​— Pedir para você me amar? Em seus sonhos mais loucos, Bernardo! — desdenhou a princesa, caminhando até o seu lado da cama e puxando a coberta de veludo. — Você vai virar um velhinho de cabelos brancos esperando por esse dia!

​— Eu tenho todo o tempo do mundo, Duquesa — respondeu Bernardo com um sorriso calmo e vitorioso, dando a volta e se deitando do outro lado da imensa cama.

​Jaqueline apagou a vela da cabeceira com um sopro seco, virando-se de costas para ele e encolhendo-se nas cobertas. Bernardo apenas riu baixo no escuro, acomodando-se e fechando os olhos.

​O Amanhecer e a Fuga Desajeitada

​A luz suave do amanhecer começou a filtrar pelas cortinas de seda, banhando o quarto em tons de dourado e rosa.

​A temperatura da noite havia caído, e a reação involuntária do corpo humano falou mais alto que qualquer orgulho real. Quando o sol finalmente iluminou a cama, os dois recém-casados não estavam em lados opostos.

​Jaqueline estava completamente aninhada no peito largo de Bernardo, com uma das pernas jogadas por cima das dele e a cabeça descansando na curva do pescoço do marido. Bernardo, por sua vez, abraçava a cintura dela com braço protetor, com o queixo encostado nos cabelos acobreados dela.

​Jaqueline começou a despertar devagar. Sentindo um calor gostoso e um perfume amadeirado incrivelmente envolvente, ela se espreguiçou, roçando o rosto no peito firme. Ela abriu os olhos devagar... e deu de cara com a mandíbula bem desenhada de Bernardo a milímetros da sua.

​Os olhos cinzentos dele já estavam abertos, encarando-a com uma doçura provocante e um sorriso preguiçoso de manhã.

​— Bom dia, minha esposa teimosa — sussurrou ele, a voz matinal ainda mais grave e rouca.

​Antes que Jaqueline pudesse raciocinar, Bernardo inclinou a cabeça e selou os lábios dela num beijo calmo, profundo e extremamente carinhoso. Um beijo de bom dia que cheirava a intimidade e desejo contido.

​Por dois segundos aterrorizantes, a princesa amoleceu no abraço, correspondendo ao toque com um suspiro manso. Mas então, a ficha caiu. 'Meu Deus, eu estou abraçada com ele!'

​Jaqueline deu um pulo na cama como se tivesse levado um choque elétrico. Ela empurrou o peito de Bernardo com força, fazendo o Duque rir alto enquanto ela caía praticamente de joelhos no colchão.

​— O que você pensa que está fazendo?! — gritou ela, ajeitando a camisola desjeitadamente e desgrenhando ainda mais os cabelos. — Você ultrapassou a linha! Você me agarrou enquanto eu dormia!

​— Eu não fiz nada, Jaque! — gargalhou Bernardo, sentando-se na cama com os braços cruzados e a apreciando em todo o seu caos matinal. — Você é quem atravessou a cama inteira de noite procurando calor e se enrolou em mim como uma trepadeira!

​— Mentira! Isso é uma calúnia! — disparou a princesa, a bochecha vermelha como um pimentão de pura vergonha.

​Desesperada para sair daquele quarto antes que sua resistência ruísse de vez, Jaqueline nem esperou pelas amas de companhia. Ela correu até o closet, pegou o primeiro vestido simples de algodão amarelo que encontrou, vestiu-o de qualquer jeito por cima da cabeça — deixando os botões das costas pela metade —, nem se deu ao trabalho de pentear os cabelos acobreados que voavam em fios rebeldes, e calçou as rasteirinhas na pressa.

​— Aonde você vai com tanta pressa, Duquesa? — debochou Bernardo da cama, vendo a esposa surtar.

​— Longe de você! — gritou ela, destrancando a porta num soco e disparando pelo corredor do palácio como se estivesse fugindo de um incêndio.

​O Salão Principal

​No Salão do Café da Manhã, Jacob e Renesmee desfrutavam de suas xícaras de chá matinais ao lado de Carlie e Taylor, conversando tranquilamente.

​De repente, as grandes portas de madeira se abriram com um estrondo. Jaqueline entrou como um furacão, arfando, com o vestido amarelo meio torto, metade dos botões abertos nas costas, os cabelos parecendo um ninho de passarinhos ruivo e as bochechas queimando de calor.

​— Bom dia, família! — disse ela, a voz meio esganiçada, tentando agir com naturalidade enquanto se jogava na primeira cadeira e pegava uma xícara de suco com as mãos tremendo.

​O silêncio caiu sobre a mesa.

​Jacob parou a xícara de café na metade do caminho para a boca, arregalando os olhos. Renesmee olhou para a filha de cima a baixo, chocada com o estado desalinhado e selvagem da princesa. Carlie e Taylor trocaram um olhar de puro impacto e humor.

​— Meu Deus, Jaqueline... — começou Renesmee, ajeitando a postura. — O que aconteceu com você? Parece que você foi atropelada por uma carruagem!

​— E por que o seu vestido está aberto nas costas, minha filha? — perguntou Jacob, a voz descendo para um tom perigosamente desconfiado, enquanto a veia da sua testa começava a pulsar.

​— Nada! Não aconteceu nada! — apressou-se Jaqueline a responder, dando um gole enorme no suco e quase se engasgando. — Eu só... eu acordei com muita vontade de tomar ar fresco! E o ar de La Push está ótimo hoje! Uma brisa maravilhosa!

​Nesse momento, as portas do salão se abriram novamente.

​Bernardo entrou a passos lentos e elegantes. Ele estava vestindo calças escuras e uma camisa branca impecável, os cabelos castanhos perfeitamente penteados e um sorriso radiante, descansado e absurdamente presunçoso no rosto.

​O Duque caminhou calmamente até a mesa, curvou-se para cumprimentar os pais e os tios, e depois parou atrás da cadeira da esposa. Com extrema delicadeza e uma provocação velada, Bernardo usou os dedos para fechar os botões abertos das costas do vestido de Jaqueline, abaixando-se para sussurrar bem no ouvido dela:

​— Da próxima vez, Duquesa... peça ajuda ao seu marido para se vestir. Você saiu tão rápida que quase esqueceu a sua dignidade no nosso quarto.

​Jaqueline engoliu o suco em seco, querendo cavar um buraco no chão de mármore e se esconder, enquanto Taylor e Carlie caíam na gargalhada e Jacob encarava o genro com os olhos estreitados, prevendo que os dias de paz em La Push haviam acabado de vez.