Coroada - A Seleção Interativa
33 Upside Down
Notas iniciais
Helena Sobrine estava em seu quarto, jogando cartas com suas criadas. Como sempre, ela estava perdendo.
Afinal, Helena nunca tivera tempo ou condição para jogar cartas. Como raios poderia ganhar de suas amigas, que pareciam conhecer todos os truques?
Riu novamente de si mesma, e as criadas morderam os lábios. Helena baixou os olhos para a mesa, e viu que havia perdido de fato. Pegou a jarra d’água. “Vocês são boas.”
“Com o tempo, senhorita, vem a experiência.”, sorriu Marina, uma delas.
“Ah, e nós temos que aprender a prestar atenção, ou Marcus Leger e Dade Fadaye nos fazem acabar com a água do Palácio.”, devolveu Suzan, brincando. Helena quase cuspiu a água.
As garotas estavam rindo de sua cara e tentando desengasga-la quando bateram à porta. Helena limpou a garganta e abriu.
“Senhorita Sobrine.”, o Príncipe disse, e Helena fez uma reverência.
“Alteza.”, ela devolveu. “Posso lhe ajudar em algo?”
Ele sorriu. “Gostaria que me acompanhasse, somente.”
Helena mordeu os lábios. “Claro, claro. Posso somente ter uma palavrinha com as minhas criadas?”
Arthur assentiu. “Peço que seja breve.”
“Como queira, Alteza.”
Ela bateu a porta na cara dele.
“Vamos, senhorita, o que está fazendo? Não deve fazer Arthur esperar.”, Marina a repreendeu.
“Nhénhénhé. Eu sei.”, ela torceu o nariz. “Só... cuidem do vestido para depois de amanhã em minha ausência, e me arranjem papel e alguém para entregar cartas. Desejo escrever para meu irmão ao retornar.”
“Como queira, senhorita.”, Suzan a imitou, e Helena saiu do quarto.
Arthur tomou seu braço de imediato. Helena não exatamente gostou, mas suspirou. “Onde pretende me levar, Alteza?”
“Não tenho certeza, senhorita Sobrine.”, ele respondeu. “O que gostaria de fazer?”
“Não sei o que se pode fazer no Palácio.”, ela devolveu, afiada. Arthur soltou uma risadinha, achando graça da tentativa de atingí-lo.
“Gosta de cantar?”
“Hm... não.”
“Lagos?”
“Sem chance.”
“Bosques?”
“Não.”
“Muros?”
“Nope.”
“O que raios você gosta de fazer, garota?”, ele fingiu estar exasperado.
“Hell, pra você.”, ela brincou. “Eu gosto de ler.”
“Antissocial demais.”, ele devolveu. “Apesar de eu também gostar. Mas sozinho.”
“Tem razão.”, ela meneou a cabeça em concordância. “Então, eu gosto de pintar.”
“Isso sim, é algo ao meu alcance.”, Arthur comentou. “Venha, aperte o passo. Senão, eles trancarão as portas.”
Eles andaram apressadamente até uma porta mais modesta que as outras, cor de marfim. O guarda, de fato, estava trancando o lugar. Ele abriu as portas e deu as chaves para o ruivo, que as guardou no bolso. Levou Helena para dentro.
Helena viu as telas, espalhadas pelo lugar, tanto brancas como feitas. Algumas eram de May Singer, irmã da Rainha, outras de Shalom Singer, falecido pai da Rainha. Viu tintas abertas, palhetas e armários com mais destas. Mas foram as paredes que lhe chamaram a atenção: brancas como as portas, mas cheias de manchas azuis, vermelhas, verdes e várias outras cores.
“Tia May e minha mãe nos traziam aqui quando erámos menores.”, Arthur comentou. “Hoje em dia, somente Hannie o usa. É a pintora da família.”
“Hannie é pintora.”, Helena disse, correndo as mãos por uma tela. “Anthony é o cantor. Louise é a garota-problema. Phillip é o pequeno-grande.”, ela continuou, e ele deu uma risadinha.
“Onde quer chegar, Hell?”, perguntou, os braços cruzados.
“Quem é você, Arthur?”, ela perguntou. “O pintor? Não. O cantor? Não. O garoto-problema? Sem dúvidas que sim, mas outros diriam não.”
Arthur ficou sem palavras. Ele não sabia como uma garota de tão baixa instrução como Helena podia deixa-lo assim, mas ela o fazia. E Arthur quase morria de raiva por isso. Mas suspirou.
“Qual é a sua paixão, Arthur?”
“Eu não sei, Helena.”, disse, por fim. “Mas vou pensar no assunto.”
“Bom mesmo.”, Helena sorriu. “E só me enxote quando tiver a resposta.”
“Pode deixar, senhorita.”
“Não me chame de senhorita.”
“E você, senhorita Sobrine, vai fazer o quê?”, ele zombou.
Ela sorriu. “Isso!”, disse, passando tinta azul na cara dele. “Sabe, esse tom combina com você.”
Ele sorriu também, pegando o vermelho. “Quer guerra, é?”
“Uhum.”, ela devolveu, se afastando.
“Então, Hell, vou te mostrar o inferno.”, ele abriu o pote.
“Isso definitivamente não teve graça.”, ela riu, e ele passou a tinta em seu rosto. Ela se fez de surpresa.
Ele riu. “Não, mas isso teve.”
Helena correu atrás de Arthur, pegando potes de diferentes cores. Ela passava tinta em seu rosto, braços, cabelo, camisa; e Arthur fazia o mesmo com a garota, sempre que tinha uma brecha. Para o ruivo, parecia Hannie: gritando, correndo, com tinta nas mãos. E, pra melhorar, era loira.
Ele se sentou, levantando os braços. “Você ganhou, Hell. Eu desisto.”
A loira riu. “Eu sempre ganho.”
“Nem sempre.”, ele brincou. “E não adianta fazer essa cara de indignada, eu ainda tenho tinta fresca na mão.”
Helena sorriu. “Sou tão previsível assim?”
“Não, foi só um chute.”, ele disse. “Nenhuma menina é previsível, todas são complicadas.”
“Isso porque você nunca tentou entender seu próprio universo.”, ela o espetou, como uma adaga afiada. “Você trouxe 35 garotas para sua casa, vai escolher uma para usar uma coroa e nos chama de complicadas.”
“Tenho meus motivos.”, ele disse rápido.
“E quais são?”
“Seriam estranhos demais aos seus ouvidos.”
“De plebeia?”
“Infelizmente, sim.”, ele disse.
“Conheço o bastante para saber.”
“Só Anthony conhece o bastante para saber, tanto que soube antes de eu mesmo.”, Arthur dizia as coisas automaticamente, tomando o tom de adaga usado pela loira. “Anthony e minha futura esposa, eu espero.”
Ela suspirou. “Você é estranho.”
“Eu diria que só tenho uma percepção diferente.”, Arthur devolveu, tomando seu braço para sair. “Não se pode se chamar de igual somente aquele que tem sua cor, seu pensamento e sua percepção.”
“Pocahontas?”
“Sem dúvidas.”
“Quer ir para o Salão das Mulheres?”, ele mudou de assunto subitamente.
“Vão rir da minha cara, estou imunda.”, ela levantou as sobrancelhas.
“Então, te deixarei lá.”
“Esquisito.”
“Nanananão.”, ele brincou. “Percepção diferente.”
Ela riu. “Idiota.”
“Já lhe disse, prefiro pessoa de percepção diferente.”, ele disse, quando abriu a porta do Salão para a sua entrada.
“Um desprazer, Alteza.”
“Igualmente, senhorita Sobrine.”
“Sem senhorita’s, seu idiota.”
“Como queira, senhorita.”
Quando Helena adentrou o lugar, as cabeças se voltaram ora ela. Algumas das meninas riram, outras franziram as sobrancelhas, outras sorriram. As princesas, no fundo do Salão, começaram a rir também.
Era uma competição, mas para Helena era um sonho. E Hell não queria acordar.
Fale com o autor