Coroada - A Seleção Interativa
62 I Almost Do
Notas iniciais
Anthony estava feliz que seu irmão finalmente havia conseguido algum tempo para passar com ele. Arthur andava mega-ocupado naqueles dias, com a situação da guerra na Nova Zelândia e com as meninas d’A Elite, então já fazia algum tempo que os dois irmãos conseguiram passar tempo juntos.
Era uma tarde de quinta-feira, eles haviam acabado de almoçar. Os dois estavam sentados na sala do Quarteto Dourado, lado a lado no sofá, e discutiam uma série que estava pausada no momento. Era Game Of Thrones, um antigo blockbuster que os príncipes decidiram re-assistir, e haviam acabado de chegar ao final da primeira temporada. Anthony argumentava que ter destruído os Stark daquela maneira havia sido meio desnecessário, e seu irmão voltava dizendo que sem aquilo tudo não haveria série, além do que ele só falava aquilo porque gostava dos Stark. Eles ficaram discutindo como as coisas teriam acontecido caso os Stark não tivessem sido tão massacrados por mais ou menos dez minutos antes de a porta da sala ser aberta. Os dois pararam no mesmo segundo, não esperando ver seu pai atrás da porta.
“Meninos”, Maxon disse, quase aliviado. “Vocês têm de começar a avisar as pessoas para onde vão antes de sumirem, sabe?”
Anthony sorriu de lado, mas Arthur permanecia com um semblante sério. “Estava nos procurando?”
“Sim, Arthur, eu estava”, o Rei disse, como se fosse algo óbvio, e Anthony comprimiu os lábios para segurar uma risada. “O governo neo-asiático deu resposta à Elise Whisks. Os Conselheiros agendaram a reunião de hoje para mais cedo, daqui à uma hora.”
Anthony observou as sobrancelhas de seu irmão subirem enquanto o pai falava, e suspirou. Lá ia embora sua tarde com Arthur. Ele se voltou para a tevê quando Arthur se pôs de pé, mas Maxon ainda o chamou.
“Anthony”, ele disse, e o loiro virou os olhos para o pai.
“Sim, pai?”
“Você está indo às suas aulas com o Conselheiro Cooper, eu espero?”
“Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?”, o príncipe sorriu, divertido, mas o semblante de Maxon fez ele perceber que o pai não estava para brincadeiras. “Sim, pai, eu estou indo a todas. Mas no último ano inteiro eu só aprendi sobre a história da política interna de Illéa e um monte de coisas sobre o que cada uma das províncias mais trabalha com. Aposto que até Austin já aprendeu mais, e ele acabou de começar.”
O Rei suspirou, indicando para Arthur que ele podia ir na frente e ajeitar o que tivesse de ajeitar, ele o alcançaria depois. Então se sentou ao lado de Anthony, que havia desligado a tevê. “Sabe, Anthony, às vezes eu não tenho certeza se você entende a importância do cargo que você vai exercer.”
“Entendo que não vou ser o Rei como Archie ou o Conselheiro-Chefe como Austin, e isso deveria ser suficiente”, replicou, a língua afiada. “E pelo amor de Deus, pai. Você ‘tá falando com seu filho, não um diplomata ou algo assim.”
Maxon sorriu contidamente. “Tenho esperança de que esse filho algum dia se torne um”, imitou a voz do filho, “diplomata ou algo assim.”
Anthony sorriu. “Touché.”
“Tony, entenda uma coisa”, Maxon olhou para o filho diretamente, sustentando os olhos azuis dele. “Arthur pode ser o príncipe-herdeiro, e Austin de fato vai ser o Conselheiro-chefe, mas isso não tira importância de você, ok? Me diga, o Conselho funcionaria caso fosse composto somente por eu e Yoren?”
Tony balançou a cabeça. Sabia muito bem que as trinta e cinco províncias elegiam os Conselheiros, um por província, além do conselheiro-chefe, o Rei, e até quatro representantes que o Rei pedisse por. Nada rodaria naquele país sem esse esquema.
“Pois bem. Acha que seria de alguma forma melhor se fossem só Austin e Arthur? Sabemos que não. E é por isso, Anthony, que precisamos de gente como você. Gente consciente e estudada, que vai saber ajudar a manter esse país nas rédeas”, o Rei disse, o que esquentou o filho por dentro. Era bom saber que realmente era necessário. “Agora me diz, à quantas aulas você faltou?”
Anthony coçou a parte de trás da cabeça. “Só fui em duas em vez de três nas duas últimas semanas”, ele admitiu.
“Espero que isso mude, sim?”
“Claro. Pode contar comigo, pai”, sorriu, confiante, e olhou para o seu relógio. “Tenho uma daqui à meia hora, inclusive.”
“Está dispensado por hoje”, o Rei explicou, o que fez Tony levantar as sobrancelhas, ao que Maxon deu de ombros. “Precisamos de todos os Conselheiros para essa reunião. Vou mandar ele remarcar para amanhã no mesmo horário, pode ser?”
“Certo”, Anthony assentiu, e Maxon se pôs de pé. “Boa sorte com os neo-asiáticos.”
“Obrigado, filho. Eu vou precisar.”
E saiu da sala.
Anthony queria assistir mais tevê, mas algo na conversa com o pai o havia inquietado. Ele havia sido consideravelmente irresponsável nos últimos dias, e o preço disso finalmente se fazia cobrar. Pôs-se de pé, então, e começou a dar voltas na sala, até concluir que provavelmente acabaria fazendo um buraco no chão; então resolveu dar uma perdida pelo Palácio.
Era uma quinta-feira, e, como em todas as quintas, o lugar estava lotado de Conselheiros zunindo de um lado para o outro, falando incessantemente. Talvez por causa da reunião de emergência, inclusive, hoje o movimento estava ainda mais insuportável. Ele com certeza daria um jeito de perguntar ao irmão o que era o motivo de tanto estardalhaço, mais tarde, mas no momento não sabia o que fazer. Buscando alguma calma, subiu as escadas até o segundo andar, para tentar relaxar na biblioteca.
Assim que entrou no cômodo pôde notar que havia alguém lá dentro, notando o barulho de pés batendo o chão. Prestando atenção no som, pode definir que eram pés pequenos, provavelmente pertencentes à uma pessoa leve, e começou a seguir o tap-tap que ela estava fazendo. Tinha esperanças de que fosse Hannie, já que assim ele teria alguma distração, mas quando virou no corredor que indicava a entrada da seção de livros administrativos desistiu da ideia. Quem poderia estar ali dentro?
Ele não soube o que pensar quando, ao finalmente ver a fonte do barulho, descobriu que era Aurora Bocchi. A Selecionada mexia em alguns livros na prateleira, tentando alcançar um sobre a criação de leis, e não havia reparado nele ainda.
Anthony tinha de admitir que, desde que A Elite começara, seus sentimentos por Aurora haviam crescido. Seu coração parecia uma escola de samba toda vez que a via, e ele não sabia o que fazer. Não tinha a coragem necessária para ser sincero com ela, pelo menos não ainda, então estava tentando evitar a garota nos últimos dias; para ver se conseguia se acalmar.
Evidentemente, estava funcionando muito mal.
“Tony?”, ela o chamou, e ele foi puxado de volta à realidade. “O que faz aqui?”
Ele colocou as duas mãos atrás do corpo, sem-graça, e trocou o peso de um pé para o outro. “Estava andando, mas lá fora está tudo muito movimentado. Então vim para a biblioteca, e ouvi alguém andando, daí só segui o som.”
Aurora sorriu, e ele tentou desviar os olhos para que seu coração parasse de martelar seu peito. Não conseguiu, porém, e sorriu junto. “Curiosidade matou o gato”, a Selecionada brincou, e se virou novamente para a prateleira. Ainda não havia conseguido pegar o livro que queria, um com uma capa verde-escura, então voltou os olhos para o príncipe. “Teria como você...”
“Claro”, ele disse de imediato e andou até onde ela estava. Como era quase uma cabeça mais alto do que ela, pegou o volume com facilidade. Leu o título em voz alta. “Estruturação de Leis Para Iniciantes. Eu já li esse, acho. É o cúmulo da chatice. Por que o quer?”
“Para alguém que me visita tão pouco, você gosta um bocado de tirar satisfação”, ela tomou o volume delicadamente das mãos dele, que meio que sorriu em desculpas. “É para um projeto. Temos de entregar um projeto de lei com fim filantrópico para análise de Arthur em uma semana, e vamos apresentar no Jornal do dia seguinte à entrega. Eu já tenho uma ideia, mas não faço ideia de como escrever uma lei.”
“Ah”, Anthony disse, engolindo em seco. Então ela estava fazendo aquilo para permanecer n’A Seleção. “E o quê você está planejando?”
“Isso é altamente confidencial, Vossa Alteza”, ela sorriu, marota, e ele lhe lançou um olhar cético. “Não, sério. Eu não vou nem quero contar, Tony. Desista.”
Ele deu de ombros. “Se você não quer a opinião de uma pessoa tão ilustre e estudada como eu, não há absolutamente nada que eu possa fazer.”
“Anthony, eu não sou tão fácil de manipular assim. E para logo, eu realmente não vou contar.”
“Você é quem sabe.”
Depois que o príncipe falou, um silêncio desconfortável se instalou entre os dois. Aurora e Anthony ficaram se encarando, até que ela decidiu baixar os olhos para o livro, ainda sem dizer uma palavra. E é por isso que eu te evito, vê?, Anthony pensou, suspirando antes de focar a visão nos próprios sapatos. Foi uma voz chamando Aurora que quebrou o silêncio, fazendo com que os dois andassem até a porta da biblioteca.
“Aurora, cadê voc-“, a ruiva que Tony reconheceu como Alasca Young gritava, até que o viu e se cortou bruscamente. Fez então uma reverência. “Ah. Mil perdões, Alteza.”
Anthony limpou a garganta. “Não há problema, senhorita Young.”
“Vossa Alteza teria visto a senhorita Bocchi em algum lugar?”
“Está tudo bem, Alasca. Sua Alteza”, ela disse as palavras com certa amargura, “estava me ajudando com o livro que Agatha pediu. Muito obrigada, Alteza.”
“Não é um problema”, Anthony garantiu, falando num tom baixo.
“Se nos dá licença, Alteza, eu e Aurora precisamos estruturar algumas leis”, Alasca disse, divertida. “Coisa básica, sabe. Aposto que vossa Alteza faz isso desde que aprendeu a escrever.”
“Eu prefiro deixar o trabalho pesado para Arthur”, Anthony admitiu, rindo um pouco das palavras da ruiva. “Ah, hm, até o Jantar?”
“Sem dúvidas”, Alasca disse, antes de puxar Aurora para fora do lugar, em direção às escadas.
Quando elas já estavam longe o suficiente, Anthony suspirou. Marcus estava certo: ele era mesmo um covarde.
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