Coroada - A Seleção Interativa
25 Give Me Love
Notas iniciais
Caía do céu uma fina garoa, na manhã da segunda quinta da Seleção. Celina Blanco olhava pela janela do Salão das Mulheres, tentando permanecer tranquila. É só uma garoa, Celina., ela dizia a si mesma.
Ao seu lado Victoria Gardner tinha algo em mãos. Celina estava prestando muita atenção, preocupada em acalmar sua respiração, mas parecia-lhe um livro. Daqueles bem grossos.
"Celina, você está bem?", Victoria levantou os olhos para a garota, que quase arfava.
"O quê?", ela devolveu, despreparada.
"Perguntei se está bem.", Victoria repetiu, deixando o livro na mesa ao lado.
"Ah, isso. Claro que estou.", Celina disse, olhando de canto para a janela. Victoria seguiu seu olhar.
"É a chuva, não é?", Victoria perguntou, e Celina engoliu em seco. "Relaxe, Celina. É só uma garoa."
"Garoa. Ok, eu sei. É só uma garoa.", ela repetiu, e voltou seu olhar para Victoria. A garota ainda mirava a janela. Celina deduziu que estava pensando em casa. De repente, o barulho da chuva aumentou. As gotas batiam com força total na janela. "Mas está engrossando."
"O que você tanto receia?", Victoria perguntou. "Trovões?"
"Não, que besteira. Um barulho alto? Isso não assusta nem Lua, minha irmã.", ela riu ao pensar na garota. "Temo o que vem antes do trovão."
"O relâmpago, você quer dizer?", Victoria perguntou, alheia, e Celina estremeceu só de pensar.
Um barulho alto foi ouvido, e Celina viu sua sombra ser projetada no chão do Salão. Pulou para o lado, com um grito.
"S-será que se importaria de sair de perto da janela, Vic?", ela perguntou. Victoria riu, balançando a cabeça, e as duas andaram até a TV. Aurora Bocchi estava no sofá, assistindo a algo junto de Victoria Alasca- que por acaso, dera um fim nas crises de mau-humor que estava tendo. Amanhecera feliz, indiferente a tudo. Sorria, e só sorria, como se estivesse nas nuvens.
"O que está vendo, Aurora?", Victoria perguntou, se sentando. Celina ainda olhava de lado para a janela.
"Sei lá.", a italiana devolveu, e trocou de canal. "Estou procurando algo, ainda."
"Entendo.", Victoria devolveu. Outro trovão, e a sombra de Celina foi mais uma vez projetada no chão. Ela deu um gritinho estridente, e se levantou. "Aonde vai, Cel?"
"Andar.", Celina deu de ombros, desamassando o vestido.
"Quer companhia?", Victoria tornou a perguntar, enquanto Aurora e Alasca assentiram.
"Não, obrigada, garotas.", ela sorriu, tentando parar de tremer. Suas mãos suavam. "Eu preciso pensar um pouco."
"Ah, claro.", Aurora sorriu. "Em todo o caso, estamos aqui."
Celina assentiu, e saiu do Salão. Ela precisava colocar os nervos no lugar. Não podia deixar o medo dominá-la daquela forma. Ela precisava tomar o controle da situação.
Pensou em ir para seu quarto, mas se lembrou de que a sacada do mesmo era virada para o mesmo lugar que o Salão das Mulheres. Ou seja, os relâmpagos continuariam. Se sentou num dos corredores sem janelas, na tentativa de ficar mais calma.
"Está tudo bem, Celina.", dizia a si mesma, repetidas vezes. "Tudo bem."
"Tem alguém aí?", alguém perguntou, assustando Celina. O corredor estava mal-iluminado durante aquela manhã chuvosa, e a voz soou um pouco sombria. Celina se surpreendeu quando uma cabeleira ruiva urgiu da escuridão. "Ah. Senhorita Blanco."
Ela se pôs de pé antes mesmo de ver o que fazia, e se curvou. "Alteza."
"Me chame somente de Arthur, Celina."
Ela deu uma risadinha nervosa. "Você é quem sabe."
"O que faz aqui?"
"Eu poderia lhe perguntar o mesmo."
"Mas eu perguntei primeiro.", ele devolveu, sorrindo.
Ela suspirou. "Você tem um ponto. Estou fugindo da tempestade."
"Mas não há como fugir. Ela está por todo lugar.", ele estranhou.
"Essa é a questão.", ela riu. Então, outro clarão seguido de um barulho. Ela segurou o grito na garganta.
"Calma. Você tem medo de relâmpagos?", ele perguntou. Celina via que ele estava se esforçando para não rir.
"Tenho.", ela acabou por admitir, corando. Arthur não riu, diferente do que ela havia pensado. Ele pareceu pensar um pouco, e depois sorriu.
"Tenho um lugar para te mostrar.", ele estendeu a mão.
"Eu... Eu acho que prefiro ficar aqui.", ela respondeu, receosa. Não queria ver mais clarões.
"Você vai gostar, Celina.", ele insistiu, os olhos castanhos brilhando. "Eu lhe prometo."
"Está bem, então.", ela aceitou a mão, e ele disparou pelo corredor. Celina tentava acompanhar o Príncipe, mas estava de salto. "Ei, calma.", ela disse, quase caindo. Ele parou, e ela segurou as sandálias na mão.
"O que significa isso?"
"Significa que eu cresci na fazenda, e não sei correr de salto.", ela segurou os dois na mãe esquerda, e devolveu a direita para o Príncipe. "Podemos continuar."
Arthur guiou a garota por um labirinto de corredores. Celina percebeu que estava perdida antes dele encontrá-la. Ela nunca conseguiria voltar para o Salão das Mulheres se não fosse pelo Príncipe. Fez uma nota mental para agradecê-lo. Ele parou, então, em frente à duas enormes portas escuras. Eles pareciam estar bem no meio do Palácio.
"Preparada?", ele perguntou, e se esgueirou pelas portas antes que ela pudesse perguntar 'Pra quê?'.
Celina perdeu o fôlego no instante em que bateu os olhos no enorme salão. Ele era alto, e tinha um teto abobadado. Suas paredes eram de cores vivas, com arcos dourados. Vários lustres pendiam do teto, e várias mesas estavam encostadas num canto. Mas, o que ela mais apreciou naquele momento foi o fato de o Salão só ter janelas pequenas, altas e foscas, que serviam somente para ventilação.
(N/A: Sugiro que coloquem Give Me Love agora.)
"Uau.", foi tudo o que conseguiu dizer.
"Pois é.", Arthur concordou. "Chamamos de Grande Salão."
"Realmente não tenho ideia do porquê."
"Se hoje fosse uma quinta normal, eu estaria tendo aula de dança com meus irmãos. Mas elas foram canceladas por causa de vocês.", ele comentou, e puxou Celina para perto de si. "Quer tentar?"
"Não mesmo.", ela riu. "Eu não danço. Sou estabanada demais."
Ele também riu. "Aposto que consegue."
"Não, é sério. Eu sou um desastre.", Celina reafirmou.
"Não é tão difícil.", Arthur insistiu. "Eu te guio."
"Vai ser desastroso.", ela brincou.
"Não, não vai.", ele tomou sua mão, e Celina percebeu uma uma voz masculina cantando alguma melodia antiga, acompanhada de um violão. Ela pensou em protestar novamente, mas Arthur começou a deslizar pelo enorme salão.
O ruivo dançava bem, ela tinha que admitir. Ele deslizava para lá e para cá, em movimentos suaves, guiando Celina. Ela pisou no pé dele algumas vezes, mas ele não demonstrou sentir os pisões. Ainda bem que ela estava descalça, ou teria levado vários tombos.
Mas Arthur não se importava. Ele nem via direito o que acontecia, só dirigia a garota pelo salão de acordo com a música. Música que ele conhecia, de uma voz que ele conhecia. Sua mãe nunca lhe ensinara a dançar- ela era um desastre, mas sua voz compensava -, mas Arthur sempre se mostrou promissor. Seus pés tinham vida própria, principalmente ao som daquela música. A letra era tão... Ele. Tudo o que ele queria era que lhe dessem amor.
Ter Celina ao seu lado era bom. Ela parecia estar alheia à tudo, como Arthur sempre ficava. Ele a puxava, e ela não resistia. Parecia encantada pela dança, muito embora houvesse dito que era um desastre. Ele girou a garota uma última vez, no momento em que a voz parou.
"Nem foi tão ruim assim.", ele sorriu. Celina parecia assustada.
"Como faz isso?", ela perguntou.
"Minha mãe diz que é um dom.", ele deu de ombros.
"É se é.", ela concordou. "Poderia me ensinar?"
"Claro que sim.", ele sorriu. "Toda quinta, nesse mesmo horário, eu estou livre."
Celina sorriu, feliz. "Então está bem."
Arthur devolveu o sorriso. Eles ainda estavam próximos, por causa da dança. "Está ótimo."
"Acho que eu deveria ir.", de repente, ela se sentiu desconfortável. Estava perto demais do Príncipe.
"Não. Não precisa ir, se quiser. Eu estava solitário, de qualquer forma.", ele disse. Se continha para não correr os dedos pela bem-cuidada pele de Celina. Branca como leite, os olhos azuis-esverdeados. Ele nunca havia reparado em quão bela Celina era. NA verdade, agora ele percebia, ele queria muito beijá-la.
"Não, Arthur.", ela sorriu, e Arthur viu que ela estava começando a compreender. "As meninas devem estar preocupadas comigo."
"É só falar que estava comigo.", ele respondeu. Queria realmente passar mais tempo com Celina.
Ela deu uma risadinha. "Não é tão simples assim."
"Nunca vou entender as garotas.", ele suspirou.
"Eu nem tentaria.", ela riu um pouco. Ficou na ponta dos pés, e encostou os lábios na bochecha do Príncipe. "Até o almoço, Arthur."
Ele se sentiu obtuso por um momento. Como assim, ela acabou de me beijar na bochecha? Ele abriu a boca para falar algo, mas ela já havia ido. Celina Blanco era mesmo uma pessoa imprevisível.
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