Coroada - A Seleção Interativa

69 Big Girls Cry - Special POV


Notas iniciais
E não é que veio rápido pra alguém que tava com bloqueio nos últimos três dias? Eu realmente amaria se alguém aí pudesse apreciar que eu escrevi um pov pra AEA (Cat tá revisando, por isso não postamos) e um cap inteiro pra Coroada em U M A N O I T E. Na moral, cara, na moral. Mas, bom, vejamos. A música é Big Girls Cry, da Sia, embora eu ache que não tem taaaanto a ver com o cap. Also, quando eu fui procurar o gif, acabei na página do instagram do Matt Daddario, lindo maravilhoso gato gostoso (e meu) intérprete de Alec Lightwood (MY BAAABEEE) irmão da Alexandra, FC da Calliope. Por favor, podemos todas parar o que estamos fazendo por dois minutos e apreciar aquela beleza toda? Bom, é. Boa leitura!

POV Calliope Claire Evans Rosier

Era um sábado, tão entediante quanto todos os outros. Eu ainda não compreendia o exato porquê de sermos obrigadas a permanecer no Salão aos sábados, já que as tão faladas visitas nunca vinham. E, mesmo quando vinham, normalmente estavam ali pela Rainha ou pelas princesas, não por nós seis. Acho que todos já estavam começando a se entediar de fazer matérias sobre nossa rotina, de qualquer maneira.

O Jornal Oficial tinha começado fazia uma semana com esse quadro sobre nós, no qual eles faziam uma mini-matéria sobre uma de nós a cada semana. Essas matérias usualmente eram filmadas sábado e editadas ao longo da semana, quando câmeras nos seguiam por todos os cantos do Palácio. Tínhamos a impressão de que a ordem seria alfabética, tendo eles começado por Aurora, mas tivemos a certeza disso quando, naquele sábado, o pessoal do estúdio veio me falar.

Para ser bem sincera, eu quase fiquei com rancor deles. Estava no meio de O Caçador de Pipas, um dos meus livros favoritos, e tive de deixá-lo com Delancy para ir filmar. Mas bem eu sabia que rancor não me levaria a lugar nenhum, então só lhes ofereci um sorriso reservado antes de seguí-lo.

Aparentemente, algo no horário deles havia dado errado, pois Arthur ainda estava sendo entrevistado sobre mim quando me chamaram para a maquiagem. Eu tentei não bisbilhotar, por educação, mas estava meio difícil de não ouvir.

“Última pergunta, Alteza”, Dade, que estava lhe entrevistando, disse. “Se você tivesse de usar três palavras para definir a senhorita Calliope, quais seriam?”

Arthur soou pensativo e cauteloso em sua resposta, parcialmente por saber que eu estava sentada alguns metros atrás da câmera. “Ahn, essa é sempre a pergunta mais difícil. Eu acho que, em três palavras e nada mais, poderia definir a senhorita Calliope como tranquila, cativante e reservada.”

Eu não podia ver, já que estavam retocando minha sombra, mas tive a impressão de que Dade havia sorrido ao responder. “Sábias palavras, Alteza.”

E alguém gritou corta. Após isso, Dade e Arthur conversaram por alguns minutos, como amigos que todos no Palácio sabiam que eles eram, até que eu me aproximei, indo para as cadeiras. Nesse momento, o apresentador foi chamado para fazer uma revisão em alguma de suas perguntas, de maneira que fiquei ali, com um Arthur meio sem-jeito.

“Reservada?”, eu lhe perguntei, segurando minhas mãos atrás do corpo, numa tentativa de quebrar o gelo. Ele soltou uma risada alta e genuína, o tipo de risada que é sempre bom de ouvir, antes de responder.

“Em minha legítima defesa, essa pergunta é sempre complicada de ser respondida”, o Príncipe se defendeu.

“Isso porque você não viu a cara de Aurora quando você lhe chamou de avoada”, eu comentei, e ele riu de novo. “Além do mais, você é o Príncipe. Deveria estar acostumado com perguntas difíceis e complicadas.”

Ele arregalou os olhos de súbito, como se tivesse se lembrado de algo. “Pelas barbas de Illéa!”

“Arthur, ninguém mais fala pelas barbas de Illéa”, Dade comentou, ainda de longe, mas Arthur o ignorou.

“Calliope, você é um anjo”, ele disse para mim e me beijou na bochecha antes de girar em seus calcanhares.

“O que houve?”, perguntei, elevando minha voz para que ele pudesse ouvir.

“Coisas difíceis e complicadas!”, ele gritou, já quase na porta do estúdio. “Isso é sinônimo para Nova Ásia!”

E fechou a porta atrás de si sem maiores explicações. Dizendo à mim mesma que perguntar-lhe-ia sobre aquilo mais tarde, me voltei para Dade, que apontava a cadeira. Sentei-me e, assim, começamos a entrevista.

A maior parte das perguntas que ele me fez remetia à minha rotina e companhias dentro do Palácio, embora ele tenha me perguntado sobre o ballet e o tempo que passei na Itália brevemente. Contei-lhe uma história especialmente engraçada sobre quando Delancy e Caroline (Deus a tenha) resolveram passar a tarde experimentando roupas em meu quarto, que fez uma boa pare do pessoal atrás das câmeras rir; e então lhes falei sobre as meninas com quem mais andava, que, no caso, eram Delancy e, após a última eliminação, Skyler. Ele me perguntou se, no caso de eu ter de escolher uma Rainha que não fosse eu, quem seria, ao passo que eu respondi que qualquer uma delas daria uma ótima governante, mas eu preferia manter minhas apostas para mim. Conversamos brevemente sobre Arthur, com as mesmas perguntas que ele fizera à Aurora, e tudo corria extremamente bem até a última pergunta.

“Então, Calliope, só pra fechar de um jeito diferente”, Dade disse, abaixando os cartões em sua mão, “não vou lhe perguntar sobre Arthur, mas sim sobre algo que creio que todos os cidadãos de Illéa querem saber. Você não precisa responder se não quiser.”

Engoli em seco, já sabendo o que ele diria. “Claro, Dade.”

“Mesmo com o calor aqui de Angeles, você é sempre vista com luvas”, ele disse, casualmente. “Teríamos um motivo para isso?”

Eu respirei fundo, tentando me acalmar. É claro que eles perguntariam das luvas. Eu tinha uma história inventada para isso, é claro, ou não teria sobrevivido às primeiras semanas, mas pensar em minhas mãos ainda era muito doloroso para mim.

A questão das luvas era que minhas mãos eram semi-incapacitadas de muitas coisas. Às vezes mal podia segurar meus talheres sem tremer. Por quê? Acontece que, quando eu era pequena, meu pai se casou com essa mulher extremamente religiosa. Eu não gosto de falar muito sobre isso, mas digamos que ela me tratava mal.

Reparando que provavelmente estava demorando muito para responder, o que seria suspeito, embaraçoso e constrangedor, eu sorri para Dade. Contar-lhe-ia, como à todos os outros, a história falsa. Falei devagar e num tom controlado, passando as palavras mentalmente antes de dizê-las. “Você já deve ter ouvido falar que Carolina faz muito mais frio que Angeles, não é? Pois bem. Eu sempre tive muito frio nas mãos, então acabei criando esse hábito de usar luvas para todo lado, e nunca consegui largar. Além do mais, elas são sempre um ótimo acessório.”

O apresentador sorriu, aparentemente convencido. “Então é só, senhorita Calliope. Muitíssimo obrigado pela entrevista.”

“A honra é toda minha, Dade”, eu lhe garanti com um sorriso reservado.

—x-x-x-

Acordei no meio da noite, arfando, com ambas as mãos praticamente em chamas de ardor. Isso acontecia às vezes, e, normalmente, meu subconsciente tentava me contar que elas estavam como se estivessem pegando fogo me fazendo sonhar com minha madrasta. Eu nunca descobriria se preferia a situação dormindo ou acordada.

Para minha sorte, uma de minhas criadas, Barbara, dormia na cama para a criada no canto do quarto. Ela pulou da cama assim que ouviu meus gemidos, e rapidamente examinou minhas cicatrizes.

“Elas estão vermelhas e quentes, senhorita Calliope”, constatou, tão calma quanto podia, vendo que desespero só agravaria minha dor. Ela me estendeu meu robe, e eu me pus de pé. “Vou mandar acordar o doutor Ashlar. Vá direto para a enfermaria, sim?”

Assenti, colocando minhas pernas para fora da cama enquanto ela saía do quarto. Coloquei o robe, mantendo minhas mãos juntas na frente de meu corpo, e saí do quarto. Quando cheguei à Ala Hospitalar, o doutor Ashlar me apontou uma cadeira.

“Senhorita Calliope, tem usado as pomadas que lhe indiquei?”, ele me perguntou, examinando as cicatrizes logo depois de pedir um enfermeiro para trazer um antiinflamatório, uma bacia de água fria e algo que não reconheci.

“Sim, doutor. Barbara mesma passa toda manhã e noite”, respondi, em meio à dor.

“Bom, Calliope, o que eu vou fazer agora pode doer um pouquinho”, o médico disse, a voz calma.

“Mais do que está doendo agora?”

“Possivelmente”, ele replicou. “Mas, se a pomada não está sendo efetiva, isto é a última opção que me resta.”

Eu vi quando o enfermeiro trouxe os itens pedidos por ele, e pude reconhecer o que não tinha entendido anteriormente como um líquido que acelerava a cicatrização. Como efeito colateral, ele também trazia uma dor excruciante.

O doutor se virou para Barbara, entregando-lhe o potinho do antiinflamatório. “Um a cada seis horas, Barbara. Não se esqueça de maneira alguma.”

“Certo, doutor.”

“E, Barbara?”, ele a chamou.

“Sim?”

“Talvez devesse ficar aqui. Podemos precisar de sua ajuda para acalmar Calliope depois do que tenho de fazer.”

Barbara arregalou os olhos, mas se manteve de pé ao meu lado quando o médico pegou um algodão e molhou no cicatrizante. Eu respirei fundo logo antes de ele repousar aquilo na minha palma.

Veja bem, eu me considero uma pessoa controlada. A sério. Posso manter minhas emoções escondidas muito bem, além de sempre falar cuidadosamente. As pessoas normalmente me chamam de reservada, inclusive.

Mas, bem, a pessoa que não grita com cicatrizante não é muito controlada. Ela simplesmente não tem os corpúsculos que leem a dor. Não existe outra maneira.

Eu sei que gritei, e alto. Provavelmente mais de uma vez, mas a dor lentamente me fez perder a consciência. Quando eu acordei novamente, luz entrava pelas janelas do corredor logo ao lado da sala de doutor Ashlar. Duas sombras ruivas pairavam sobre mim, e eu inalei o máximo de ar que consegui antes de Arthur e a Rainha se virarem para mim.

“Bom, Calliope”, America disse, paciente. “Não vou lhe perguntar se está bem, pois, pelo estado das suas mãos e os gritos que ouvimos durante a noite, você não deve estar. Em vez disso, há outra coisa que queremos saber.”

Eu me senti melhor por ela não perguntar se eu estava bem, porque eu realmente não conseguiria mentir naquele momento. Assenti em resposta, encorajando-a a falar. Foi Arthur quem fez a pergunta, porém.

“Como raios você conseguiu essas cicatrizes em suas mãos?”

Respirei fundo mais uma vez, olhando para as delatoras, que estavam com as palmas para cima, no edredom. Elas estavam bem mais frias, agora, embora ainda ardessem um pouco, e pela melosidade pude concluir que Barbara já tinha passado a pomada. Tentei virá-las para baixo, mas as cicatrizes pinicaram tão logo tocaram o tecido do cobertor.

Parecia que era hora para uma história triste.