Coroada - A Seleção Interativa
38 #partyhard
Notas iniciais
P.O.V. Arthur
Eu, Louise e Tony havíamos feito um belo trabalho na organização da festa. As paredes do Grande Salão estavam cobertas por cortinas de veludo roxo e braço, com banners de Hannie espalhados não-aleatoriamente. Uma área fora separada para a boate, outra para doces e drinques, e uma outra para salgados. Mesas com forros brancos e flores roxas complementavam o ambiente, mais alguns canhões de luzes coloridas. Uma música de batida rápida e divertida tocava, e eu soube que a festa estaria perfeita para a nossa irmã mais nova. Menos por um detalhezinho que valia muita coisa.
Hannie nos disse que queria um Baile de Máscaras, e nenhum de nós três se deu ao trabalho de perguntar se isso seria em trajes de gala ou fantasias. E qualquer um que tivesse olhos repararia na confusão.
Eu interpretara como uma festa à fantasia: estava vestido de vampiro, com direito à um fio de sangue no canto da boca. Anthony pegara a outra opção, usava uma roupa pomposa com uma bela máscara, digna de um baile de gala.
Quanto à Louise... Eu mesmo não poderia dizer. Minha irmã optara por um modelito Merida, uma princesa arqueira da Disney, mas portava uma máscara. Estava deslumbrante, à seu próprio modo. Meu pai e minha mãe destoavam de nós três, mas não um do outro: minha mãe usava uma fantasia de borboleta, com longas asas de cetim; e meu pai era um pirata, com direito à tapa-olho e barba por fazer. Eles pareciam muito felizes consigo mesmos, e não realmente nos notaram.
Philllip fora vestido como um guarda, e estava em pé à porta. Eu ri quando Marcus passou por ele, trajando roupas de príncipe. Péssima piada, Marc e Phil.
Aos poucos, meus familiares foram entrando: minhas avós, Amberly e Magda; meus tio e tias; meus primos. Pessoas importantes, como os conselheiros, ocuparam seus lugares nas mesas, e eu me pus a conversar com Austin, filho mais novo de tia Kenna, que regressara de seu intercâmbio para a festa de Hannie. Ava e Aaron, filhos de tio Gerad, e Amelia, de tia May, passavam incessantemente pela mesa de doces; e eu soube que teríamos problemas com Ava- ela ficava descontrolada quando ingeria muito açúcar. Astra e Alice conversavam com Louise, tomando drinques, e Alexander, de tia May, parecia tentar se misturar às sombras no canto do Salão; enquanto Anthony provavelmente estava a cortejar alguma das filhas dos diplomatas.
“Então, Arthur, como é ter trinta e cinco meninas lindas morando na sua casa?”, Austin me perguntou, em certo ponto. O loiro estava vestido de Frankstein, sorrindo largamente.
Anthony apareceu do nada ao ouvir isso. “Essa eu respondo por ele: Arthur está adorando. Ele fica pensando nelas o tempo todo, e sofre sempre que tem que chutar algumas.”
Austin riu. “Sempre um poço de delicadeza, Tony.”
Tony ergueu seu drinque(que eu sabia que era sem álcool). “Coisa de Singer, Austin.”, ele disse, e sumiu do mesmo jeito que apareceu.
“São só vinte e nove, ok? E elas são perfeitas, Austin.”, eu disse, quando Tony sumiu. “Eu queria poder casar com todas.”
“Todas?”, ele repetiu.
“Quase todas.”, admiti. “Posso te apresentar algumas.”
“Seria um prazer conhecer algumas das minhas prováveis futuras primas.”, ele brincou, tomando um gole de sua bebida.
Fiz o mesmo. “Quando volta de Bianico? Quero dizer, quando volta de verdade?”
O loiro riu. “Quando mamãe achar que já está na hora de eu me casar.”
“Ela nunca vai achar, você sabe.”
“Eu sei. Ela pensa que ainda estou aprendendo a andar.”, ele olhou para sua mãe com compaixão. Ela conversava com minha própria mãe e vovó Amberly, e estava vestida com trajes de gala. “Mas eu amo ela mesmo assim.”, ele disse, por fim, e pausou por um minuto. “Por que está olhando em volta?”
Só então realizei que realmente o fazia. “Mania dos Singer-Schreave.”
“Não é só a mania, é?”, ele devolveu.
“Não.”, admiti. “Estou preocupada com as garotas. Já deveriam ter chegado, não?”
“São meninas, Arthur. Demoram para se arrumar.”, ele constatou e eu concordei.
Foi a vez de Louise brotar. “Além do mais, maninho, temos uma surpresinha para você.”
“Mas quê-“
“Cale a boca e se levante. Hannie vai entrar.”, Alice me cortou, enquanto Astra me puxou para cima. Malditas.
De fato, as grandes portas se abriram e a música parou. Os canhões de luz se voltaram para o lugar onde Hannie apareceu, entre as portas, sorrindo largamente. Ela trajava um belo vestido azul, e havia feito um coque no cabelo. Segurava uma máscara também azul, no mesmo estilo do traje de Louise. Eu sabia que o objetivo era representar Cinderela, sua princesa preferida, mas aquele ainda podia ser um traje de gala. Eu fiquei realmente confuso.
E eu pude ver que Hannie também ficou, com o panorama geral da festa. Quero dizer, deve ser estranho olhar para um grupo de pessoas que, apesar de estarem na mesma festa, estão trajadas de jeitos completamente diferentes.
Minha mãe arrastou a mim e aos meus irmãos para tirar fotos com Hannie, um de cada vez.
“Você está uma princesa.”, eu brinquei, entre um flash e outro. Hannie me puxou mais para baixo.
“E você está um monstro.”, ela devolveu, sorridente. “Tony, venha aqui!”
Anthony se postou do outro lado de Hannie. “O que achou da festa, Hannie?”
“Está tudo lindo, meninos.”, ela nos abraçou, um de cada lado. “Os banners foram feitos pelo Alex, não foram?”
Eu assenti. “Amelia trouxe eles pra gente ontem.”
Os olhinhos da loura brilharam. “Amelia está aqui?”
Tony assentiu, franzindo as sobrancelhas. “Todos estão. Amelia, Ava, Aaron, Austin, Astra, Alice... Até Alex veio.”
“Doze anos é uma marca importância, princesa.”, eu disse, pegando-a no colo. “Aproveite sua festa, ok?”
“Foi preparada com muito carinho.”, Tony acrescentou. Ela deu um beijo na minha bochecha, e outra na de Tony.
“Eu amo vocês dois, sabiam? “, disse, sorrindo ainda mais largamente.
“Somos muito amáveis, Hannie.”, Tony sorriu. “Ou, pelo menos, eu sou.”
“Cale a boca, idiota.”, eu dei uma cotovelada nele. “Vamos andando. É a vez de Louise.”
Nós saímos do tapete, e Lou entrou. Ela sorria tanto, mas tanto, que qualquer um presumiria que elas nunca haviam brigado. Doce ilusão.
Voltei a me sentar, dessa vez com Marcus, Tony e Dade. Eu ainda estranhava o fato de nenhuma das garotas ter aparecido, mas quem sou eu pra questionar? Reparei que Marcus também olhava em volta, parecendo meio aflito.
“Marc?”, eu chamei, mas ele não me ouviu. “Marcus.”
“Hã? Ah, Archie. Que foi?”, ele perguntou, coçando a cabeça.
“Quem está procurando?”
“Procurando?”, ele fez graça. “Ninguém, Arthur. Quem eu estaria procurando?”
“Olha, Marc, eu tenho uma resposta pra isso.”, Dade se colocou na conversa.
“Mas ninguém te perguntou, Fadaye.”, Marcus devolveu.
“Eu estou perguntando.”, Tony disse. “Quem é que Marcus estaria procurando, Dade?”
Dade olhou para os lados, fazendo suspense, e Marc se levantou. “Vou pegar algo para beber.”
Dade se inclinou sobre a mesa. “O nome é Isabelle.”
“Isabelle?”, Tony se perguntou.
“É uma criada... não é?”, eu especulei.
“Não exatamente.”, Dade balançou a cabeça. “É uma assessora.”
“Uma ruiva?”, perguntou Tony.
“Geniosa?”, eu acresci.
“É. Vocês já devem tê-la visto por aí.”, ele riu um pouco. “Ela deve chegar junto com as-“
“-Selecionadas?”, eu interrompi, e Dade assentiu. “Então Marc não é o único ansioso.”
Papo vai, papo vem, uma hora de festa já tinha se passado. E nem sinal das garotas. Foi quando eu decidi falar com Hannie.
Achei ela com Ava, Aaron e Amelia, conversando perto da mesa de doces. Quando Amelia me viu, eu acenei, e ela sorriu. Então se virou para os primos, e saiu puxando Ava em direção à mesa de salgados. Eu ri um pouco dos olhos esbugalhados da pequena.
“Aaron, cara. Como vai?”, bati na mão do meu primo, que riu.
“Vou indo, Arthur.”, ele disse, sorrindo como sempre. Estava vestido de jogador de beisebol, com direito à taco e tudo o mais. “Me disseram que isso aqui foi preparado por você, Tony e Louise.”
“Disseram a verdade.”, eu concordei. “Ficamos as duas últimas semanas mergulhados nisso até a cabeça.”
“Mas... E A sua Seleção?”, ele perguntou, receoso, mas curioso.
Sorri, cansado. “Tive de dar um tempo nas garotas, e vice-e-versa. Elas também tiveram de se preocupar com a festa.”
“Você podia me mostrar uma delas, não acha?”
“Claro que eu posso. Quando elas chegarem.”, eu suspirei. “Hannie, você sabe porque elas não estão aqui ainda?”, me virei para minha irmã, que mordeu o lábio. “Hannie?”
“N-não foi minha idéia.”, ela riu.
“Hannie!”
“Foi a Louise! Ela que passou o horário errado para as assessoras!”, Hannie confessou.
“Hannie!”, Louise apareceu atrás dela, rindo. “Não era pra você contar!”
“Eu não tive culpa, Lou!”, ela se defendeu.
“Relaxe, maninha.”, Lou sorriu, calma. “Eu estava brincando.”
“Mas eu não.”, me coloquei na conversa. “Onde. Elas. Estão?”
“Calma, estressadinho.”, Louise disse. “Vão chegar a qualquer momento.”
Quando ela acabou a frase, as portas se abriram. Vinte e nove garotas, todas belamente trajadas, entraram conversando. Elas estavam em grupos de três ou quatro, acompanhadas por uma assessora uniformizada. Pelo estilo dos uniformes, eu reparei que haviam sido desenhadas por Hannie- e eram lindos, como tudo o que minha irmã desenhava.
Os canhões se voltaram para as portas, e as garotas pararam de conversar. Algumas forçaram um sorriso, outras o fizeram genuinamente; mas eu achei todas lindas. Me doeu pensar que eu teria que mandar embora vinte e oito delas, e só uma restaria. Mas era necessário. Eu era o herdeiro, e aquilo era necessário.
Ha. Vai ser legal ver você tentar se convencer disso., uma parte de mim pensou.
Eu sou o herdeiro., a outra respondeu.
É, e o trono é seu por direito., a primeira concordou. Mas me diga, Arthur, isso é realmente necessário?
A segunda estava prestes a responder sim, quando eu ouvi minha mãe me chamar. “Ah, oi?”
“Estava voando de novo, não estava?”, ela perguntou, e eu assenti. “Eu estava dizendo que elas estão deslumbrantes.”
“E se estão.”
“Seu pai disse que você deve ir lá e apresentá-las.”
“Sozinho?”
“Ele te acompanhará.”, ela expôs, e apontou à minha frente. “Ali, vê? Está te chamando.”
“Deseje-me sorte, mãe.”, pedi, me ajeitando. Meu pai olhava para mim, sereno.
“Você não precisa.”, minha mãe sorriu, e me beijou na bochecha. “Você tem talento, Arthur.”
Eu sorri para ela, e caminhei até meu pai. Ele fazia um discurso sobre porque, mesmo a festa sendo de Hannie, era necessário que eu pelo menos dissesse o nome de cada uma delas para todos no Salão- apesar de eles talvez já saberem.
Subi no púlpito, e engoli em seco. “Antes de qualquer coisa, feliz aniversário, Hannie. Você é muito especial para nós minha princesinha.”, eu sorri para minha irmã, que piscou. “Quero que todos vocês saibam que todas essas garotas são muito especiais. Eu sei, eu sei, só vou poder me casar com uma, mas elas são todas especiais ao seu modo.”, dito isso, eu apresentei uma por uma. Às vezes eu soltava uma piadinha ou algum comentário; mas minha alma não estava ali. Eu estava pensando no que a primeira parte me perguntava: Isso é mesmo necessário?
Ao final, meu pai sorriu para mim, e eu soube: havia feito um bom trabalho. “Agora, que tal cantarmos o parabéns para minha irmã? Afinal, a festa é dela, não minha!”, brinquei, e o fizemos. E então, só então, a festa começou de verdade.
***
Não mais que meia hora depois, me vi na boate, pedindo um drinque. Alice, Astra e Safira já estavam dançando, e puxavam algumas das garotas para lá. Eu fiz o óbvio: procurei pelo resto do Quarteto Dourado. Dade estava batendo papo com o barman, a três ou quatro cadeiras de onde Tony batia papo com Aurora, Austin(calma, hã? O diplomata certinho no bar? Tá, talvez eu tenha me enganado sobre Austin) e Celina; e Marcus não estava em lugar algum para ser visto- o que deveria querer dizer que ele estava com a... Isabelle? Era esse o nome, não era?
Olhei para a minha direita, onde pude avistar Vênus, Helena e Amberly. Helena acenou com a mão para que eu me aproximasse, e foi o que fiz.
Vênus trajava um vestido preto no estilo Greco-romano, com máscara, maquiagem, e saltos também pretos. Nix, a deusa da noite, eu deduzi. Helena(Hell, me corrigi) usava um vestido clássico e uma máscara ricamente empedrada, parecendo uma duquesa do Século XIX. Amberly estava vestida com um vestido em tons de outono, e eu entendi que era uma representação da estação. E que bela representação.
“Então, garotas, o que estão achando da festa?”, perguntei, me apoiando no balcão.
“É, sem dúvida, uma bela festa.”, Helena disse.
“Mas não posso entender como foi que vocês esqueceram de avisar se seria em trajes de gala ou fantasias, Archie!”, Am pôs as mãozinhas na cintura, fingindo raiva.
“Ei, ei, ei! Isso não foi minha culpa!”, me defendi, jogando as mãos para o alto. “Eu também não tive essa informação, okay?”
“Dá pra ver.”, Vênus debochou, e eu torci o nariz de brincadeira pra ela.
***
Eu não me lembro exatamente o que aconteceu, já que o álcool dos coquetéis foi levando minha lucidez embora. Mas eu me lembro de três danças. A primeira delas foi Calliope Evans Rosier.
(N/A: Coloquem When I Was Your Man agora)
“A senhorita poderia me dar o prazer desta dança, Calliope?”, lembro-me de ter perguntado, já que ela estava sentada com Ava, Hannie, Amelia, Aaron e Alex. Calliope só sorriu, aquele sorriso tenro que derrete qualquer um.
Fomos para a pista de dança, e uma música lenta começou a tocar. Eu via várias selecionadas puxando guardas ou diplomatas para a pista, mas outras ficaram encarando Calliope quando eu passei as mãos por sua fina cintura. Garotas.
Eu me lembro que ela estava usando um vestido medieval ou da era vitoriana, deslumbrante além da conta. Sua máscara combinada com o coque que ela usava lhe conferiam um ar misterioso e encantador- o que já era próprio de Calliope.
Nós não falamos nada. Calliope cantarolou durante a música inteira, encostada no meu peito. Eu sabia que normalmente ela já ouviria meu coração, mas o som deveria estar assustando ela: ele martelava fortemente por causa do álcool e por causa do estado em que ela me deixava. Quando a música acabou, ela depositou um beijo na minha bochecha, apertou minha mão e se foi, o vestido arrastando atrás de si. E só então eu percebi: ela usava luvas.
Uma coisa que me passou despercebida no momento foi ver Austin levando Celina(Ei, cara, devagar! Minhas garotas!) para a pista de dança. Quem diria, não?
***
A segunda foi Sarah Campbell. Eu não havia conversado com Sarah desde o primeiro café-da-manhã, mas ela me parecia uma boa garota. Uma música antiga começou a tocar, e eu pude ver Sarah dançando no lugar no ritmo da música. Meu instinto falou mais alto quando eu a puxei para a pista.
(N/A: Want You Back, da Cher Lloyd, é a sua vez)
“O que está fazendo?”, ela perguntou, falando ainda mais alto que a música.
“Te tirando para dançar.”, eu devolvi no mesmo tom, e ela riu.
“Quem foi que te deu permissão?”, perguntou.
“Eu sou o príncipe, Sarah. Eu me permiti fazer isso.”
“Você é quem sabe então, Vossa Majestade.”, ela deu de ombros, e voltou a dançar. Vestia um vestido curto que lembrava asas de borboleta coladas uma na outra, uma máscara preta e sapatos da mesma cor. Ela pareceu reparar que eu observava sua roupa. “Peça desculpas à Rainha por mim! Não sabia que a fantasia dela também era de borboleta!”
Eu ri. “Não foi sua culpa! Como saberia que essa era a fantasia da minha mãe?”
“Sei lá, Archie! Mas peça desculpas por mim, por favor. Prometa!”, ela devolveu, sorrindo.
“Tá, tá, eu prometo.”
“Por que me tirou pra dançar?”, ela perguntou, depois de uma pausa.
“Você queria.”, dei de ombros.
“É, queria. Mas você não tem que fazer tudo o que as pessoas querem.”, Sarah devolveu, e eu me senti encabulado.
“Me pareceu o certo. E eu quero fazer tudo o que vocês, minhas meninas, querem.”, respondi, por fim.
“Você é tão fofo.”,ela deu uma risadinha ao fim, mas eu não havia ouvido direito.
“O que disse?”, me inclinei para perto dela, para ouvir melhor e porque eu quis me aproximar.
Só não esperava que ela me beijasse.
Nem que eu a beijasse de volta.
Quando ela parou de me beijar, ela se inclinou para o meu ouvido e disse: “Você é muito fofo. Mas está com gosto de álcool.”
E então riu e se foi.
***
A terceira foi Delancy Lewis. Eu não realmente sei como ou porquê eu fui para a pista com Delancy- só me lembro de estar lá. Delancy me olhou de esguelha, como ela sempre faz com todo mundo, mas acabou se deixando levar pelo ritmo da música. E mesmo assim, ela ainda parecia uma pedra.
(N/A: Calma, não me matem ainda, é a última. E qual é? Love Is Easy, do McFly)
“Delancy, por que não se solta?”, eu perguntei, rodando ela mais uma vez. Seu vestido preto e branco, de tules, esvoaçou quando o fiz.
“Tenho dois bons motivos.”, ela devolveu, sorrindo um pouco. Mas, eu reparei, ela olhava por cima de meu ombro. Fiz o mesmo e vi Caroline dançando(ou tentando fazê-lo, com sua perna ruim) com Alex. Pera lá, Alex? Quer dizer, eu até entendo e aceito que eu entendi mal Austin, mas, pra começar, eu não via ele faziam dois anos. Mas não Alexander- eu o vejo sempre. E ele nem mesmo vai às festas, que dirá tira meninas para dançar. Olhei mais uma vez, só pra ter certeza. E então, vi atrás deles dois Hannie e Amelia(Ava havia caído no sono há algum tempo), e compreendi que Amelia tinha convencido o irmão a fazer aquilo. Delancy pigarreou, debochada.
“Hã? Ah, claro, os motivos.”, voltei à realidade.
Ela sorriu, ainda meio debochada. “Motivo um: eu não sei dançar.”
“Esse não é um bom motivo.”, eu a cortei, e ela pareceu irritada. “Essa é uma dança de duplas, Delancy. Você só precisa deixar que eu te conduza.”
Ela rolou os olhos. “Que seja. Motivo dois: eu não gosto dessa música.”
“Por quê?”, indaguei. “Eu acho doce. A melodia é gostosa, e a letra é-“
“Uma mentira.”, ela me cortou, firme. “A letra é uma mentira. Amar não é nada disso. O amor não é fácil, doce ou simples como a letra canta.”, ela fez uma pausa, observando minha surpresa. “E, por sinal, a melodia é fraca.”
Ignorei sua última frase. Eu ando muito interessado na definição de Delancy Lewis sobre o amor. “O amor não é exatamente fácil e simples, concordo; mas ele é doce, Delancy. Doce e feliz, como um dia de sol. Colore nossas vidas como a primavera, e nos faz sentir melhor e melhor.”
“Discordo, Arthur.”, ela replicou. “O amor não é nada disso. Ele machuca, nos traz dor e causa discórdia. O amor é uma maldição.”
A última frase dela realmente me impactou, apesar de eu já ter ouvido aquilo dela, e eu deixei isso transparecer. Acho que eu empalideci um pouco, na verdade. Permaneci em silêncio, absorvendo mais e mais aquela idéia. O amor não podia ser uma maldição, podia? Digo, meus pais se amam. E para eles, o amor é doce como uma gota de orvalho, e costuma aparecer sempre do jeito mais inconveniente. Isso não pode ser uma maldição, pode?
Então ela me arrancou do meu devaneio. “Arthur? Você está bem?”
Eu me surpreendi um pouco, e suspirei. “Perfeitamente.”
“Você é um péssimo mentiroso.”
“O amor não pode ser isso, Delancy.”, eu disse, firme.
“No mundo real, Arthur, ele é. Ele aparece vestido como algo doce e bonito, e te surpreende. Ele arranca seu espírito fora, e deixa só uma casca fria e menos do que viva.”, ela devolveu, ainda mais firme.
Pausei por dez segundos. “Ele fez isso com você?”
Ela suspirou, repentinamente cansada e triste. “Não exatamente.”
“O que aconteceu?”
“Não é uma história própria para uma festa.”, ela balançou a cabeça, me negando uma resposta, e a última nota da música soou. “E, por sinal, sua música acabou.”
***
Essas três danças marcaram minha noite, mas é claro que eu fiz outras coisas. Como, por exemplo, beber com meus amigos.
E, no final da noite, quando o Quarteto Dourado se reuniu novamente, todas as crianças já estavam em seus quartos, dormindo. Só estavam de pé os guardas(em sua maioria), as selecionadas(todas, sem exceção), meus pais, tia May e seu marido, tia Rosalyn, mulher de tio Gerad(que estava cochilando perto da porta), tia Kenna e tio James, Astra, Austin, Alice, Alex(que, surpreendentemente, conversava com Sofia e Caroline) e Aaron(que estava com Celina e Austin).
“Onde você esteve a noite inteira, Marc?”, Tony perguntou.
“Não é da sua conta, Anthony.”, Marc devolveu, tropeçando na fala.
“Uhum.”, Dade devolveu. “Lux disse que viu você e Belle na boate.”
“Lux?”, Tony perguntou.
“Assessora.”, repliquei, me esforçando para pronunciar corretamente, e Tony assentiu.
“E também no bar. E nas mesas. E em todo lugar.”, Dade continuou.
“Vai encher o saco de outra pessoa, Fadaye.”
“Uhum.”, Dade repetiu. “Esse lugar não está meio silencio-“
O barulho de vidro quebrando o parou. Um tijolo havia quebrado a janela. Calma, um tijolo? E outro, logo depois. E o tiroteio começou.
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