Notas iniciais
Sei que demorei pra burro, girls. Mas é que 1)Eu estava viajando o que leva ao 2)fiquei sem minhas anotações; 3)tá enorme; 4)tive de escrevê-lo três vezes porque 5)foi um desafio. Eu estou bem satisfeita com o resultado final- espero que vocês também fiquem. Música? Secrets, do OneRepublic, porque eu viciei nela. De novo. Até lá embaixo.

POV Austin

Eu só precisei seguir Arthur e Anthony até o fim do corredor. E foi o que eu eu fiz. Afinal, seguir alguém por um corredor deveria ser uma coisa simples e fácil, certo?

Bom, não em meio ao inferno na Terra.
Tivemos de nos desviar de guardas correndo, pessoas de todos os tipos caídas por aí e cacos de vidro. Isso pra não falar das balas e tijolos. E, pra melhorar, eu ainda tinha que chamar as meninas atrás de mim e dar uns empurrões em Aaron, para que ele se apressasse.

Reparei em uma garota em especial, segurando uma pistola, magra e morena. Ela, com certeza, era uma criada. Pela minha experiência com estrangeiros, pude ver que ela era uma- deveria ter sido "vendida" para o Palácio. Eu não tive tempo de estranhar- ela disparou contra alguém atrás de mim. Me virei e vi, no final da fila, uma selecionada ao chão. Ela usava um vestido creme-agora manchado de vermelho- e uma capa preta. Demetria Morgan, eu acho. Celina Blanco, algumas selecionadas para trás, começou a chorar e gritar com a garota. Eu supus que fosse uma de suas criadas, uma vez que ela sabia seu nome- Lorraine.

No final do -enorme- corredor, Arthur socou um quadro, e uma porta se abriu. "Vão!", ele gritou para nós. "Vou ficar e contar as garotas!"

Tony pareceu relutante. "Tem certeza?"

"Pode ser uma viagem só de ida.", eu acresci, praticamente jogando Aaron pela escada.

O ruivo assentiu, teimoso. Aparentemente, ele não presenciara a morte de Demetria. "Rápido, vão! Eles chegarão a qualquer momento!"

Tony engoliu em seco, e começou a descer. Eu o segui- de novo. A escada continuou e continuou por quinze minutos, e, periodicamente, a garota atrás de mim- Alyssa Swan, ruiva, geniosa -me lembrava de continuar seguindo em frente.

Quando a escadaria finalmente terminou, nos vimos em um amplo salão, rodeado por portas de escadaria exatamente como a nossa. Vi Ava, Amelia e Hannie sendo trazidas de roupão por guardas- Marcus Leger e Soldado Felt, eu acho -e Phillip por criadas. Todos iam em direção à duas grandes portas de aço inoxidável, inclusive Anthony e as Selecionadas- como se eles já tivessem passado por aquilo antes. Eu os segui.

As portas de aço, que deviam ter ao menos um metro e meio de largura, nos levavam a uma sala ainda mais ampla, e imersa em total caos. Pessoas corriam de um lado para o outro, para perto de uma enorme dispensa-suprimentos e medicamentos para um esquadrão, eu notei-, ou para as macas de hospital, ou para as cadeiras de plástico, ou, raramente, para os tronos.

Tia Ames e tio Max estavam sentados lá, ela com a cabeça afundada no roupão dele e os ombros subindo e descendo com os soluços. Sua coroa estava apoiada no braço da cadeira, enquanto a de tio Max repousava em sua cabeça. Ele acariciava as costas de sua mulher e sussurrava palavras provavelmente reconfortantes.

As Selecionadas se dispersaram de imediato, algumas indo para as cadeiras, outras para as macas. Tony me olhou como que pedindo desculpas, e foi para perto dos pais.

Uma garota loira dos olhos cinzentos parou à minha frente. "Senhor Austin Orders, certo?"

"Certo. Mas eu só tenho dezenove anos- não sou nenhum senhor.", eu devolvi, e ela estendeu sua mão. Apertei.

"Eu sou Lux Hemmings, assessora no Palácio.", ela disse. "Só queria te mostrar onde fica o lavabo e os roupões, para o caso de você precisar."

"Eu vou, acredite."

Ela esboçou um sorriso na fisionomia séria, e eu pude ver que era assim que ela passava a maior parte do tempo: rindo. "Me siga."

Eu o fiz, já me cansando de seguir pessoas. Ela andou até a grande dispensa, e me indicou um pequeno lugar à esquerda. Era uma porta aberta, e dentro dela eu pude vislumbrar uma pia, vaso sanitário e lencinhos para o rosto. Do lado de fora, incontáveis roupões de cashmere estavam empilhados. Sorri em agradecimento para Lux, que saiu andando.

Entrei no lavabo e tirei a pintura verde do meu rosto com os lencinhos. Depois, tirei meu casaco, camisa e sapatos, que incomodavam, e fiquei só com minha confortável calça de moletom. Peguei um dos roupões do lado de fora e procurei por Astra.
Ela estava sentada no canto da sala, quase se escondendo dos outros, o que me lembrou de Alexander. Andei até ela.

"Hey, Ast.", chamei-a pelo apelido, me sentando. "Você não parece nada bem."

Ela suspirou em concordância, mas não me respondeu. Estranhei. Astra era gentil e falante, não calada e depressiva. Coloquei a mão no braço dela.

"Ast." chamei de novo, e ela olhou com para mim. "O que houve? Você está parecendo Alex."

Ela apertou os olhos, segurando lágrimas rebeldes, e eu a abracei.

"Astra?", perguntei uma última vez.

"Alex, Austin.", ela disse por fim, mas sem me encarar ainda. Olhei para os tronos, constatando que Arthur já chegara, e vi as portas fechadas. Mas Alex não estava em lugar algum para ser visto. "Alex foi morto."

♠️♥️♣️♦️

Conheço pessoas que sofrem de choque retardado- como minha irmã mais nova do intercâmbio, Clara. Sempre que algo a choca, ela só sente o efeito horas depois: dor de cabeça, tontura, enjoo e essas coisas.

Bom, eu não sou assim. Meu choque é instantâneo até demais.

Algum tempo depois da revelação de Astra me vi deitado em uma maca. Olhei o relógio em meu pulso, constatando que haviam se passado quatro horas. Supus que eu desmaiara assim que Astra falou, e que alguém- não cheguei a pensar em quem -me levara até as macas.

Quando eu me sentei(o que demorou um pouco, dado à dor de cabeça que eu sentia) e deitei de novo, alguém gritou da maca do lado. "Ele acordou!"

Me virei para ver Celina Blanco, a garota com quem eu havia dançado, ali, recostada enquanto alguém- Lux, a assessora -limpava seus arranhões. Seus olhos azuis estavam vermelhos do choro, e, uma vez sem a peruca, seus cabelos castanho-avermelhados caíam em ondas pelos ombros. Ela, como eu, usava um roupão de cashmere e suas meias até o joelho, os saltos na beirada da cama. E mesmo suja, cheia de curativos e arranhada, eu a achei mais uma vez linda.

Em questão de milésimos de segundo depois dela ter gritado, Astra surgiu do outro lado da cama, com cara de enterro, e a realidade me atingiu como uma bigorna. Alexander estava morto. Provavelmente muitos outros também. Minha irmã suspirou- ela havia se lavado, mas continuava com sua longa e luxuosa fantasia de rainha de copas. Supus que ela fosse bastante confortável.

"Onde estão Alice e Amelia?", perguntei, quando reuni força o bastante para tal.

"Amelia, graças a Deus, dormiu assim que chegou.", foi Arthur a me responder, surgido do nada ao lado de minha irmã. Seu cabelo estava bagunçado, seus olhos estavam vermelhos- eu não poderia dizer se de paranoia ou choro. Talvez os dois. "Teríamos tido um tempo difícil se ela soubesse o que houve."

"Alice está com tio Tom.", Astra continuou, a voz normalmente melodiosa e forte agora frágil. "Ela não para de chorar desde que chegou."

"Tio Thomas está arrasado, mas não disse nada.", Arthur continuou por Astra, que parecia fraca demais para falar. "Sabe como é. Ele é irlandês."

"Tia May?"

"Estava bêbada demais quando chegou. Dormindo como um anjo.", ele parecia ter acabado, mas um outro pensamento urgente me ocorreu.

"Onde estão mamãe e papai?", perguntei, cheio de culpa por não ter perguntado antes.

"Chegaram bem.", Astra disse. "Papai está conversando com tio Maxon, sabe como ele é."

"E se sei."

"Mamãe está sentada do lado de tia May, para contar a ela quando acordar.", ela continuou. "Os anos passam e passam, mas Kenna Singer Orders sempre será uma rocha.", minha irmã disse, e eu a mirei confuso. Vi que Arthur fazia o mesmo. "Tia Ames disse isso para tio Max quando vovô morreu. Ela mesma me disse."
Arthur quase esboçou um sorriso, mas não conseguiu. "Como será que vai ser tudo agora?"

"Eu não sei.", suspirei. "Alex não era exatamente um primo presente, mas tínhamos consciência da sua presença ali. E fazemos piada."

"Fazíamos, Austin.", Arthur me corrigiu. "Verbo no passado."

Com mortos não se brinca., a parte sensata de mim me disse que não deveria dizer isso em voz alta.

"Quem mais se foi?", perguntei, mas para as pessoas erradas. Arthur olhou para baixo, e Astra se concentrou em cutucar um dos corações de sua roupa. O ruivo suspirou.

"Não quero ser arauto de morte.", ele disse. "Alguns guardas. Algumas criadas. Funcionários aleatórios."

"Não acabou ainda, acabou?", perguntei, por puro impulso. Arthur balançou a cabeça. "Quanto tempo mais, você acha?"

Ele suspirou de novo, mas não respondeu. Foi Celina, do outro lado, quem falou. "Foram três vezes desde o início da Seleção. Da primeira, cinco horas. Da segunda, dez."

"Eu diria pelo menos vinte horas.", Arthur a interrompeu, e Celina suspirou. "A julgar pelo tempo que já ficamos aqui, e pelos sons..."

"Sons?", perguntei, e ele assentiu.

"Ouça."

Eu apurei os ouvidos, e ouvi. Ouvi tiros, barulhos de metal contra metal, de vidro. De pessoas gritando. E de baques surdos, de objetos atirados contra uma parede distante.
No segundo seguinte ao que pensei isso, percebo que não era uma parede distante. Era aquela mesma parede, a de um metro e meio de largura. A batalha estava ocorrendo logo ali, na sala ao lado. Fui momentaneamente tomado por desespero, até que os baques pararam. Mas os sons de batalha continuaram e continuaram, por horas a fio. Arthur já havia voltado para os tronos, enquanto Astra pegara um roupas, se livrando de seu vestido, e cochilava na maca ao lado de Celina; que, por sua vez, parecia pensativa.

"Eu sei que você está me olhando.", ela disse, depois de eu fazer isso por aproximadamente três horas. Quase ri. "Não é exatamente educado encarar as pessoas."

Suspirei, voltando a encarar as paredes. "Eu sei."

"Você parece um cavalheiro. Então, porque está me encarando?"

"Acho que a atual situação não demanda muita educação ou cortesia.", devolvi, quase brincando. "Além do mais, você é bonita."

"E tecnicamente comprometida.", ela esboçou um sorriso, corando, e eu meneei a cabeça em concordância. "Mas obrigada de qualquer forma."

"Não há de quê."

"Então, considerando que não é educado encarar pessoas nem mesmo pelo fato de elas serem bonitas e que eu sou tecnicamente comprometida, isso é um ultraje.", ela brincou, enrolando uma das pontas do cabelo.

"De fato.", concordei, me virando para ela. "Mas talvez você venha a descobrir que eu não sou exatamente um cavalheiro."

"Deveria ser. É da nobreza."

"Anthony é príncipe. Ele deveria ser sutil.", eu devolvi, irônico, e ela soltou uma risadinha. "Mas você não ouviu isso."

"Então analisemos os fatos.", ela finalmente me olhou, seus olhos azuis cintilando. "Você está me encarando porque um) deveria ser um cavalheiro mas não é; dois) na sua cabeça, eu sou bonita; três) encarar não é educado, mas você não se importa no momento; e quatro) os Singer têm a sutileza de uma colher de chá."

Bati palmas falsamente. "Você é muito inteligente, senhorita Blanco. Daria uma ótima rainha."

"Não é inteligência, Austin. Está aí para qualquer um que se permita enxergar.", ela devolveu, para a minha surpresa. "E eu preferiria ser veterinária."

"E eu biólogo de campo.", comentei. "Mas veja onde estamos: você, num concurso para ser princesa; eu, num intercâmbio num país tropical para ser diplomata."

"O mundo é muito irônico.", ela comentou. "Não sei se gosto disso."

"Nem eu, Celina.", disse. "Nem eu."

Um barulho alto na parede chamou nossa atenção. Aparentemente, só mais um tiro. Me forcei a não me sentir desesperado.

"Acha que vai durar o tempo que Arthur disse?", ela perguntou, olhando temerosa para a porta.

"Você tem mais experiência nisso do que eu, mas acho que ele está certo. Arthur pode ser teimoso, mas é inteligente. E passa por isso desde criança."

"Sugestões?"

"Eu que lhe pergunto."

Ela sorriu brevemente. "Vire para o lado e durma mais. Mal não pode fazer."

♠️♥️♣️♦️

Eu não consegui dormir, mas Celina conseguiu. Ela apagou, e dormia como um anjo. Eu fiquei lá, olhando para ela enquanto ouvia o som da batalha se afastando de nós, tentando disfarçar meu pânico. Porque, obviamente, era tudo o que eu conseguia sentir. Pânico e medo. Minha mente ficava fantasiando o que acontecia lá fora, sem a minha permissão, e me aterrorizando ainda mais.
Eu imaginava como Alexander teria morrido, onde é com quem ele estava. E isso me aterrorizava ainda mais, uma vez que algumas selecionadas não haviam chegado.

As meninas, é claro, poderiam estar em algum outro abrigo, mas eu não conseguia pensar o mesmo de Alex. Afinal, Astra já me dissera: ele estava morto. E Arthur confirmara. Não me restava dúvida do falecimento- ou eu deveria dizer assassinato -de meu primo. Podia até apostar que Arrhur havia visto acontecer, na verdade.

Mas quais meninas teriam conseguido realmente se esconder? Quem teria? Quem estaria, a essa altura, junto à Alexander? Olhando pela sala, eu pude dar falta de Ashley Spinelli, Demetria Morgan(que eu já sabia estar morta), Skyler Smith, Isla Timber Davis, Amberly Payne, Caroline Hudson e Danica Pleasant. E eu não podia conceber que todas estivessem mortas, elas eram espertas demais para não ter conseguido se esconder. Minha falta de fé na humanidade ainda não chegara a esse ponto.

Eu, como um bobo, fiquei aproximadamente uma hora e meia deitado a encarando como alguém nada educado(como ela mesma concluíra) numa posição totalmente desconfortável. Mas é claro que eu só vim a reparar nisto quando Anthony veio ter comigo. "Encarar não é próprio de um cavalheiro, Austin."

"Cale a boca, Anthony.", eu me sentei na maca. "O que queres?"

"Alguém com quem conversar.", o loiro disse. "Alice finalmente dormiu, Arthur está resolvendo algumas coisas com papai e sua irmã não está em um de seus melhores dias."

"Então eu sou sua última opção?", debochei.

"Não exatamente.", ele devolveu.

"Celina estava certa: Singer's têm a sensibilidade de uma colher de chá."

"Você é tão Singer quanto eu. Até mais, talvez, já que tia Kenna é a mais velha.", Anthony disse. "E você parece muito interessado em Celina."

"Cale a porcaria da boca, Anthony.", eu disse, e bocejei. "Quero dormir."

"Mas não consegue."

"Você veio conversar ou debochar?"

"Os dois, eu acho.", ele disse, debochado, e eu levantei as sobrancelhas. "Tá, tá. Eu não tenho um assunto, Austin. Feliz agora?"

"Melhor.", eu brinquei. "Mas eu tenho."

"E lá vai ele."

"Sabe quais das Selecionadas que não chegaram aqui estão vivas?", perguntei, me permitindo ser indelicado. Era Anthony Schreave, pessoal. Ele é a insutileza em pessoa.

O loiro suspirou. "Sei quase tanto quanto você. Vi a Morgan morrer lá em cima, e chegou aos meus ouvidos que Caroline Hudson se foi junto com... Bom, Alexander."

"Vocês passam por isso desde pequenos?", perguntei novamente, tentando aliviar o clima tenso.

"Claro. Pelos menos duas vezes a cada mês, sabe?", ele respondeu, como se fosse natural. E devia ser mesmo, na verdade. "É um saco."

Dei um sorrisinho por causa do jeito debochado de Tony. "Imagino.", disse, enquanto não conseguia nem pensar em fazer aquilo mais uma vez na vida.

"Ah, não, você não imagina.", ele se sentou na beira da cama sem sequer pedir permissão. "Essa é uma das várias coisas que pode dar errado na Seleção, inclusive. Não adianta se treinar um cachorro depois de adulto."

Meneei a cabeça. "Eu não conseguiria conviver com isso."

"É uma rotina louca, mas a gente se acostuma.", Tony deu de ombros. "Claro que Archie nunca relaxa. Ele é um coração de manteiga, apesar de eu achar que a única Orders que conhece esse conceito é Astra."

"Ha-ha-ha.", ironizei. "Vó Magda é Singer, até onde eu sei."

"De fato.", Tony cedeu. "Tia Kenna puxou à ela."

"Tia Ames puxou mais, geniosa."

"Tia Kenna é mais independente."

"Tia Ames é mais..."

"Ei, ei, calem a boca.", alguém interrompeu, e eu vi Aaron na maca ao lado. "Minha cabeça parece uma bomba-relógio."

"Quem é você para nos mandar calar a boca, pirralho?", Tony brincou, e só então eu pude reparar em Amelia ao lado da cama dele, de pé. Ela parecia arrasada. A discussão animada entre Aaron e Anthony continuou, e eu chamei Amelia para perto. Arredei para o lado, e ela se recostou comigo.

"Como está se sentindo, Mia?", perguntei, depois de ela ter se aconchegado.

"Como se alguém tivesse usado uma estaca para arrancar um pedaço do meu coração.", ela devolveu, baixinho. "Estou triste, mas não é como se fosse verdade. É como se eu pudesse sair daqui, entrar no quarto dele e encontrar ele fazendo um banner novo ou lendo alguma coisa."

"Eu entendo."

"Ao mesmo tempo, tenho medo de ir até mamãe e papai e perguntar onde ele está, pois sei que ele não vai estar em lugar algum. Medo de entrar na sala de jantar e ver seu lugar vazio. De ir para a escola e ver seu escaninho sendo usado por outra pessoa, sua carteira tirada do lugar.", ela me ignorou. "Faz sentido?"

"Faz, faz sim.", eu disse. "Já falou com Alice?"

"Li dormiu antes de eu acordar.", ela se justificou. "E estávamos brigadas."

"Agora serão só vocês duas em sua casa."

"E isso me desespera.", ela retrucou. "Al era quem conciliava nossas brigas. Sem ele, nunca poderemos fazer as pazes."

"Eu te garanto, Mia, vai ficar melhor.", abracei minha prima, que começava a chorar. "Você vai perceber que, com o tempo, a falta dele vai abrandar. Ele vai ser algo, mas não tudo. Você vai ser feliz, pequena, muito feliz. Feliz como eu aposto que Alex iria querer que você fosse."

Ela quase riu. "Você se parece com ele."
Levantei as sobrancelhas. "Sou loiro, ele era moreno. Tenho olhos castanhos, os deles eram azuis, sou bronzeado, ele era pálido que nem um fantasma. Sou alto e largo, ele era baixinho e fino.", disse, meio cínico, meio brincalhão. "No que mesmo nós nos parecemos?"

"Não aqui, bobão.", ela primeiro gesticulou para mim, e então tocou o lado esquerdo de meu peito com seu fino indicador direito. "Aqui."

Dei uma risadinha- eu não era nada parecido com Alex. Mas havia um lugar vago nos irmãos Singer-O'Connor, e seria uma honra preenchê-lo. Se Amelia e Alice precisavam que eu fosse como seu irmão do meio, eu seria. Eu poderia ser, não poderia?

Amelia, em dado momento, escapou da cama e puxou Aaron com ela. Quase sorri. Sempre geniosa, essa era Amelia. Anthony, surpreso com a abrupta interrupção de sua discussão, foi atrás dos dois como uma criancinha.

Bocejei, finalmente com sono, quando uma assessora veio verificar se eu precisava de curativos. Ela achou um corte respeitável em minha testa, e resolveu limpá-lo com algo muito ardido. "Com sono, senhor?"

"Finalmente.", respondi, deixando passar batido o uso do senhor. "E você?"

"Annia.", ela disse, e eu fiz cara de interrogação. "O normal é que as pessoas perguntem E você? e em seguida falem o nome de seu interlocutor.", ela se explicou, e deixou de limpar minha testa por um segundo enquanto apontava para si mesma. "Eu sou Annia."

Ri de seu raciocínio quando ela pegou um peça de gaze para cobrir a ferida. "E eu sou Austin."

"Eu sei."

"E isso arde."

"Eu também sei."

"E estou com sono."

"Isso está aí para qualquer um que se permita ver.", ela sorriu, tentando aliviar a situação enquanto grudava a gaze com esparadrapo. "Vai ter que limpar todo dia ou pode infeccionar. Uma infecção aí não poderia acabar bem."

"Sim senhora.", eu disse, minhas pálpebras pesadas. "Agora posso dormir?"

"Acho que não é o plano do Príncipe Arthur pra você.", Annia disse, e eu me virei para trás. Arthur caminhava visivelmente em minha direção. Suspirei.

"Com a sua licença, Annia."

"A tem.", ela brincou. "Oh, uma última coisa. Será que sua irmã me daria autógrafo?"

Ri. "Peça para ela quando ela despertar. Tenho certeza que vai se sair melhor do que eu."

Foi quando eu me virei e fiz meu caminho até Arthur. Seus olhos estavam muito vermelhos, indicando choro, e inchados, indicando que ele acabara de acordar. Seu cabelo estava desarrumado, e ele estava também de roupão.

"Você não parece nada bem.", disse ele, quando nos encontramos.

"Já se olhou no espelho?", devolvi.

"Não pude. Quebrei o único que tinha aqui."

"Sério?"

"Foi um surto, cara."

Suspirei. "Mas você está tomando os remédios, não está?"

O ruivo assentiu. Eu sabia que ele mentia muito mal, então, pude ver que era verdade. "Maas o Dr. Ashlar me disse que eles reagem com álcool."

"Você é um sem-noção."

"Ei, estávamos numa festa. Sabe qual é a definição disso?"

"E se sei.", eu arregalei os olhos. "A minha irmã do intercâmbio, Clara, tem 17 anos. Ela é louca por festas, e me arrasta por todas as casas noturnas de Horizonte."

Ele levantou uma sobrancelha. "Horizonte é a capital de Bianico, certo?"

"Mais que certo."

"Esquisito. Tony achava que você morava no interior."

"Não, obrigado. Gosto da cidade.", eu brinquei. "Aliás, onde está o palerma?"

"Dormiu enquanto tomava conta de Mia e Aaron.", o ruivo suspirou, cansado.

Eu o imitei. "Por que queria falar comigo?"

"Porque eu sei que você tem estudado como louco e que adora Bianico, mas que quer voltar para Illéa.", ele disse.

"Dã.", murmurei.

"E que não é possível que exista alguém mais bem-preparado que você em toda Angeles. Talvez em toda Illéa.", ele continuou, como se eu nunca tivesse dito nada. E, verdade seja dita, eu me senti insignificante. Arthur era, afinal, o herdeiro. O trono seria dele, assim como a coroa. Ele seria meu soberano. E pensar nisso me fez sentir ainda mais diminuto. "E, Austin, que você só vai poder voltar pra Illéa quando arranjar um trabalho permanente ou se casar."

"Certo. Agora me diga algo que eu não sei."

"Meu pai, seu rei, me permitiu fazer uma reforma no Conselho. A maior em algum tempo."

"Aonde quer chegar, Jimmy?", provoquei.

"Cale a boca, Orders. Eu estou quase lá.", ele assumiu um tom debochado por dez segundos. "E, Austin Orders, eu gostaria de lhe convidar para presidir o Conselho."

Por algum tempo eu não falei nada, só encarei Arthur boquiaberto. Ele, solene, esperou uma reação de minha parte. "Seu pai sabe disso?", perguntei, me normalizando.

"Claro que sim, Austin. Ele apoia a decisão, inclusive.", Arthur replicou, e eu me surpreendi.

Como assim, o rei apoiava a minha eleição para presidente do Conselho? E, além do mais, era uma oferta de emprego de verdade. E dos sonhos. Meu melhor amigo em Bianico, Pedro, nem sonharia com o dia em que presidiria um conselho. E ali estava eu, no meio de um ataque rebelde no Palácio depois de uma festa para a Princesa minha prima com meu futuro soberano pedindo que eu ocupasse um cargo de alta relevância no país.

Me senti culpado pela felicidade que senti, e tentei reprimi-la. Pessoas morriam para que eu vivesse nesse exato momento, é eu estava feliz por receber a oferta de emprego que sempre almejei. Meu primo estava morto e eu estava feliz por poder finalmente voltar para Illéa.

Ei, cara, cansei de te bater. Aproveite um pouco, porque eu só aconteço uma vez., me disse a vida.

Não podia ter falado isso a um mês atrás?, eu perguntei à ela, mas ela não estava mais lá para me responder.

Engoli em seco e me endireitei. Se eu seria mesmo Presidente do Conselho, deveria agir como tal. "Preciso de um tempo para pensar. Sabe como é, coisa grande."

"Claro, claro.", ele esboçou um sorriso. "Mas deve ser rápido. Preciso saber para que possa Stavros possa- ou não -te treinar bem rápido.", ele disse, e então assumiu seu tom normal, piscando. "Por favor, mal posso esperar para me livrar de Yoren. Ele é insuportável. E não me chame de Jimmy nunca mais."

E saiu andando, como se fosse a coisa mais casual de todas. Voltou a se sentar ao lado direito do pai, que lhe entregou um papel. Eles começaram a conversar, e eu voltei para minha maca.

"Vai dormir, senhor?", Annia me perguntou enquanto esperava Astra acordar.

"Vou, vou sim.", devolvi. "Se não, eu desmaio."

♠️❤️♣️♦️

Acordei com alguém me sacudindo com força respeitável.

"Mais cinco minutos, Luana.", eu disse, sem abrir os olhos. "Tenho certeza que não estamos atrasados..."

"Quem é Luana?", uma voz acima de mim riu, antes de perguntar. Surpreso, abri os olhos para ver Aurora Bocchi, Victoria Alasca e Celina me observando. Aurora tinha um sorriso debochado na cara, e soube que fora ela quem me sacudira.

"Irmã do intercâmbio.", bocejei, me sentando. "O que você quer, Aurora?"

Conhecia Aurora desde que ela se mudou da Itália. A família dela fora vizinha da minha em Carolina antes de se fixar em Angeles, mas mal nos falávamos.

"Me distrair.", ela replicou e se sentou na cama do mesmo jeito que Anthony havia feito. Me segurei para não rir com o pensamento. "E minhas amigas aqui também querem."

"Não são as mesmas meninas com quem te vi em todos os noticiários e nas festas.", comentei, me sentando. Aurora não era de dar folga.

"Você fala como se meu círculo de amigos fosse minúsculo.", ela levantou a sobrancelha, e Victoria se sentou na cadeira ao lado da maca.

"A Lewis está, hm... Desmasiado abalada para conversas.", Victoria disse, num tom meio de despeito. Vi Aurora suspirando, mas fiquei quieto.

"E Sofia dormiu.", Celina completou, e elas concluíram que já era suficiente para uma resposta.

Mas eu sabia que não. Conhecia Aurora antes de ela virar Selecionada, e entendia como ela agia com suas amigas. Seus olhos tristes revelavam que ela também sentira falta do final da frase- que seria o detalhe sobre Caroline não estar no abrigo -mas ela preferiu permanecer calada.

Victoria olhou para o lado como quem não quer nada, e viu Astra ali. Franziu a testa. "Essa aí não é a vocalista do Queen Of Hearts?"

"Em carne e osso.", eu devolvi, desanimado.

"Cara, eu sempre quis conhecer ela.", a ruiva disse, e Celina pareceu interessada.

"Bom, ela está aí. É só esperar ela parar de dar uma de Bela Adormecida..."

"Eu estou acordada, Aust.", Astra me chamou atenção.

"Ops.", suspirei, e ficamos todos em silêncio por um tempo.

Então Victoria começou uma conversa com Astra, ambas falando em tom monótono e eu podia ouvir chispes de raiva. Dei uma risadinha.

Aurora suspirou. "Ainda está em Bianico, loiro?"

"Eu acho que sim.", devolvi, pensando na proposta de Arthur. Eu iria aceitá-la. Eu tinha de aceitá-la. "Mas pretendo voltar em breve."

"Então vai se casar?", ela indagou.

"Não por enquanto.", eu disse, após ver o espanto na cara de Celina. "Mas estou considerando uma proposta de trabalho por aqui."

"Você mora em Bianico?", Celina perguntou, parecendo maravilhada.

Eu assenti. "Intercâmbio."

"Meu pai me contou histórias que ele ouviu sobre Bianico.", Celina disse. "Que é um país grande, quente e lindo. Com vários animais, de todos os tipos."

"É verdade- embora na capital, onde eu moro, não existam muitos. Chamamos Horizonte de selva de concreto. Vou sentir falta do lugar.", devolvi.

"Como é sua família lá?", foi a vez de Aurora perguntar.

"Eu tenho um irmão mais velho, o Luiz, de vinte e cinco, e uma irmã mais velha, a Luana, de vinte e três.", expliquei. "Aí tem a Clara, de dezessete, o João Pedro, de catorze, e a Carla, de doze."

"Grande família.", Celina observou, e acho que ficou evidente na minha cara que eu estava curioso sobre a dela. "Minha família é pequena, sabe? Somos eu, minha irmã Lua, minha mãe, meu pai e minha Tia Magnólia."

"Na verdade, a família do loiro também é pequena.", Aurora disse. "São ele, a mãe, o pai e a irmã- a loira."

"Esqueceu de todos os meus tios e primos e

"Ou eu propositalmente excluí eles, loiro.", ela devolveu.

"Para de me chamar de loiro, inferno.", eu disse. "Meu nome é Austin."

Aurora me ignorou, então Celina resolveu falar. "É um belo nome."

"Muito obrigado.", sorri sem-graça. "Era uma cidade antigamente."

"Eu sei.", ela assentiu. "Uma cidade no... Alabama?"

Aurie deu de ombros. "Sou italiana. Nem sei que cidade era essa."

"No Texas.", Celina se corrigiu, e eu sorri. Ela esfregou os olhos e bocejou graciosamente. "Acho que preciso dormir mais."

"Todos precisamos.", Aurora concordou. "Te vemos mais tarde, loiro?"

"Como se eu pudesse evitar.", brinquei, e as duas saíram andando para duas macas distantes.

Eu não dormi. Esperei Victoria ir embora e Astra se sentar na cama e se dispor a conversar comigo. Contei a ela sobre a proposta de Arthur- ela era a irmã mais velha. Devia saber o que seria melhor.

Ela considerou por um minuto.

"Uma chance de um em um milhão, Aust.", ela disse. "Mas o importante vai ser o que você pensa."

"Eu sei, eu sei.", eu devolvi.

"Você acha que já está pronto?"

"Sim. Não aguento mais fazer a mesma coisa todo santo dia."

"Acha que está pronto, não só para deixar o intercâmbio, mas para deixar Bianico?", ela perguntou, tomando um longo gole d'água.

Eu não sabia se podia deixar Bianico. Eu amava aquele país quase tanto quanto amava Illéa. Era uma casa para mim. Isso sem falar em Luís, Luana, Clara, João e Carlinha, e os amigos do intercâmbio.

"Eu nunca vou deixar Bianico por completo.", acabei por responder. "É tudo maravilhoso lá, Astra."

Ela levantou as sobrancelhas. "Eu sei. Você já disse isso em suas cartas.", comentou. "Você sabe que, de voltar, mamãe vai pegar no seu pé para que se case logo."

Eu assenti. "Tenho algumas ideias quanto a isso."

"O mais importante, Austin, é você. Você quer esse trabalho? Quer morar em Illéa de novo? Quer se casar? Se estabelecer? Quer...", ela fez uma pausa enquanto eu digeria aquilo tudo. "Quer ser uma das pessoas mais importantes do país?"

"Não exatamente nessa ordem.", eu devolvi, meio abismado. "Mas eu quero."

"Então esse é o seu lugar, Aust.", minha irmã fez um gesto a englobar a sala, mas entendi que ela falava do Palácio. "Atrás de uma escrivaninha, numa poltrona confortável. É sua casa, Austin."

Sorri. "Obrigado, Astra. Você é demais."

Ela me abraçou. "É diferente, Aust. Sem você em casa, sabe? É tudo tão vazio que chega a doer. Tanto que eu mesma já não passo muito tempo lá, mamãe e papai tampouco. A gente sente saudades suas."

"Eu também morro de saudades de vocês. Mas ouvi dizer que o Queen Of Hearts vi fazer outra turnê pelo país esse ano.", disse, e ela deixou escapar um sorriso frágil. "Mamãe e papai saem muito?"

Ela assentiu. "Mamãe tem que ajudar tia America com coisas d'A Seleção- junto com outras garotas que foram selecionadas de tio Maxon -; e papai anda fazendo uns projetos no governo das províncias, viaja o tempo todo. Eu, com toda a coisa do Queen Of Hearts, fico viajando por aí. Mas, quando não, chamo Lice e Safi para ir lá pra casa; senão fico me contorcendo de tristeza, sozinha em casa."

Me senti meio culpado. Ast não devia passar por aquilo. Ela era a melhor pessoa do mudo- por mim, deveria ser paparicada e mimada sempre. E eu deveria fazer isso. Mas, como péssimo irmão que sou, nunca estou presente.

"Certo, Ast.", eu disse. "Então só preciso falar com Archie quando isso tudo acabar."

Ela sorriu. "Boa sorte, maninho."

Beijei sua testa. "Vou precisar."

Astra continuou sentada ali, e eu senti sua respiração se atenuar- mostrando que ela havia caído no sono de novo. Sorri para mim mesmo. Seria bom voltar para Illéa.

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POV do Narrador

A destruição que fora causada durante aquele ataque era desconcertante. A Família Real já vira vários ataques duros e destruidores, mas quase nenhum chegara perto daquele.

Durou aproximadamente 24 horas, um dia por inteiro; e demorou-se mais de cinco horas para que todos os abrigos fossem abertos. Como veio a ser comunicado à toda Illéa, várias mortes haviam ocorrido.

E era por isso que Aurora chorava. Aurora não era de chorar, mas era muita catástrofe de uma vez só. E o funeral estava sendo triste.

Sim, o funeral. Não dos vários guardas que haviam partido- eles teriam funerais mais simples e reservados à família -, mas de Caroline. E ela não fora a única.

O ataque levara três selecionadas: Caroline, Isla Timber Davis e Demetria Morgan. Fora informado à família que Caroline perecera junto à Alexander- que tentava ajudá-la com as muletas -; que Demetria levara um tiro da ex-criada de Celina Blanco, recentemente descoberta rebelde; e que alguns guardas viram Isla sangrando, sendo levada por rebeldes. E, por elas, Aurora chorava.

Era um golpe duro à Seleção, que não poderia continuar no ambiente devastado que o Palácio virara. Então, foi decidido que a Família Real, as Selecionadas e a parte da corte que fosse necessária ficariam em outro lugar por algum tempo, adiantando uma viagem que seria feita na Elite. Mas, antes disso, o Príncipe Arthur tinha uma eliminação a fazer.

Notas finais
E aí? Que pensam? Eu sinceramente espero que gostem, sei lá. A coisa toda muda agora, com a última eliminacao antes da Elite vindo no próximo capítulo. Sei lá. Bom, é só. Deixem-me saber o que pensam, comentem! Beijinhos!