Coroada - A Seleção Interativa
7 Mimada, Solitária e Solidária
Notas iniciais
Charlotte
–Chato, chato, chato.- dizia, enquanto folheava o exemplar-Paiê!
–Que é, filha?- ele respondeu, surgindo na porta.
Sua respiração e seu tique no olho me diziam que ele subira tudo correndo. Não me surpreendi, ele fazia isso desde o dia o acidente. Me lembro bem como foi:
Flashback On
“Era uma tarde chuvosa. Mamãe conversava com nosso vizinho, o pai de Kayo-um Dois-, e eu brincava com este na rua. Mesmo com quatorze anos, eu e Kayo erámos belos crianções: pulávamos de poça em poça, e nossos pas nos chamavam para a calçada:
–Lottie, venha! É perigoso, querida!- mamãe gritava, e o pai de Kayo a apoiava
–Lottie, será que a gente não...?- Kayo me perguntou
–Deixa disso, Kayo. Nada vai acontecer.- disse, e ele deu de ombros. Voltamos a pular.
Eis que surge um carro, correndo como vento pela ruela de Yukon. Meu amigo pulou para o lado, ágil como sempre. Mas eu não vira o veículo. E fui atropelada.
Minha mãe, desesperada, começou a chorar compulsivamente. Nem me pegar na rua ela conseguia- quem o fez foi Kayo, e ele contou que meu corpo estava mole, mais que de costume. Eu estava inconsciente desde o choque, mas soube que ela começou a tossir sangue. E depois, caiu no chão, pálida e fria.
Acordei pouco antes da ambulância chegar, com meu corpo todo dolorido, cheio de hematomas. Mas isso não era o pior: eu não conseguia mover minhas pernas. Então, quando vi minha mãe ao meu lado, branca como um fantasma e com a boca ensanguentada, comecei a chorar. Kayo passava a mão em meu cabelo loiro, agora imundo:
–Sabe que, por você, eu iria até a lua, mas não sou capaz de mentir. Nem tudo vai ficar bem.- ele disse, e ouvi o som da sirene se aproximando. Deu um beijo em minha testa- Eu te amo, meu anjo.
–Também te amo, meu cavaleiro.- disse, quase que num sussurro, e desmaiei
Além de minha mãe, naquela noite eu perdera minha habilidade de andar. E, na maca do hospital, decidi algo: eu seguiria minha mãe. Queria ser uma grande advogada.”
Flashback Off
–Calma, não é nada demais, pai.- manobrei a cadeira de rodas, em função de me virar para ele- Só queria saber se não tem nenhum livro menos chato sobre Direito Romano.
–Ufa.- ele suspirou, aliviado- Você me assustou.
–Desculpa, mas e...?- balancei o grosso volume, impaciente
–Ei, nem vem! Você que quis ser advogada! Eu disse que era difícil e chato, e aí você pirraçou que queria.
–Então vai ter que ser esse?- ele assentiu- Posso ligar para Kayo?- sim, Kayo. Havíamos superado o romance adolescente.
Ele hesitou. Então fiz carinha de gato de botas, esbugalhando meus já grandes olhos cinzentos. Ele acabou por assentir, e saiu do quarto. Disquei o número de meu melhor- e único- amigo, mexendo na carta da Seleção.
–Quem fala?- a voz de meu amigo surgiu na linha
–Aqui é o amor de sua vida.- brinquei
–Hm... É a Audrey?
–Não.
–Camy?
–Não.
–Lancy!
–Não.
–Nesse caso só pode ser a...
–É a Charlotte, retardado!- o cortei, rindo
–Um retardado pegador!- ele retrucou, e eu ri mais
Deus, eu nunca conseguiria viver sem Kayo! Bati o olho na minha mão, e parei de súbito. Meu amigo vinha insistindo numa ideia... Bem, ridícula. E a cara de gato de botas dele é bem melhor que a minha.
–Lottie? `Cê tá aí?- ele também parar de rir
–Você quer mesmo que eu me inscreva?- perguntei, de supetão
–Claro que sim!- respondeu, um pouco surpreso- Lotz, você merece a vida de uma princesa!
–Mas, Kayo...
–Vamos lá, menina da tiara!- me chamou pelo apelido que tanto me irritara a vários anos, e eu podia ver seus olhos verdes ficando grandes- Por mim.
Desliguei o telefone em sua cara, como às vezes faço. Pego a carta novamente, junto à uma caneta. Se não há mais romance, não sei por que não consigo negar nada a Kayo...
Audrey
Eu me sentava ao lado de Ruth, uma das poucas “amigas” que eu tinha no ballet de Illéa- entre aspas, pois eu não era muito de falar, me focava mais na dança. Enquanto a morena de cabelos curtos a meu lado sorria e balançava a cabeça, ouvindo música, eu segurava o braço da cadeira do avião como se minha vida dependesse daquilo. Estava acordada desde que deixamos o solo da Noruécia, e não pretendia dormir antes de chegar em casa.
Não que voltar pra casa tivesse sido uma escolha minha, achoo que nem casa eu tinha mais. A verdade é que eu era Cinco, como todas as outras- a Rainha proibira pessoas de castas mais altas que Cinco, e Seis, Sete e Oito nem tentavam entrar. Mas eu perdera minha mãe, e meu pai me deserdou depois que escolhi a dança, uma vez que seu desejo era ter uma filha pintora. E, agora que tenho que sair do Ballet, não sei mais o que vou fazer da vida.A meu ver, tenho uma opção. Uma ridícula e odiosa opção, mas se for a única...
–Audrey!- Nany, a mais nova de todas, cortou meus pensamentos- Dê uma olhada nisso aqui!
Virei para trás, me segurando para não bufar. Nany era ruiva, como eu, e era de Likely, também como eu. Ela se sentava ao lado de Vênus Petrov, a bela morena de olhos azuis. Vênus puxava as orelhas, olhava para o nariz e inflava as bochechas, numa careta tão engraçada que quase comecei a rir. Então Vênus pareceu lembrar que era eu. E eu pareci lembrar que era Vênus. Meus olhos verdes se encontraram com seus olhos azuis, e, se aquilo fosse um desenho animado, faíscas teriam voado. Nany pareceu perceber o quão ruim fora sua ideia. Levantei as sobrancelhas e pisquei, me virando para frente em seguida.
Percebi que Ruth estivera me olhando. Ela, como as outras, diziam que eu e Vênus nos parecíamos muito. Mas eu discordava, ela brincava mais em público. E ela discordava, dizendo que eu podia ser mais marrenta quando queria. Essa era, para tudo e todos, mais uma evidência de que nos parecíamos.
Pousamos em solo Illeano, e eu resolvi que estava tardando demasiado uma decisão simples. Decidi sem muito pensar: levaria aquela carta vermelha ao Departamento de Serviços Provinciais assim que chagasse a Likely. Quer dizer, depois que eu achasse um lugar para ficar.
Amberly
Entrei mais uma vez na escola pública- para Seis e Sete- em que trabalhava. Conseguia ver várias crianças correndo e gritando- e meus alunos, sentados numa roda, provavelmente à minha espera. Também via uma menininha encolhida num canto, como se quisesse sumir. Bati palmas bem alto:
–Pois bem, Segundo C! Vejo que estão unidos! Agora, rápido, duas filas em ordem alfabética ao contrário! Valendo!- gritei, e eles começaram
Várias outras crianças pararam e dirigiram olhares invejosos aos projetos de pessoa que compunham minha classe. Andei até a garotinha, que pareceu se encolher mais ainda. Mostrei o sorriso que me rotulara de caridosa, e me agachei ao seu lado.
–Ei, pequena.- disse- Eu sou a Amberly.
–Amberly? De Amber e Kimberly?
–Sim.- disse, nem um pouco impressionada. Sabia como Seis e Sete podiam ser inteligentes- Quem é sua professora?
–Sou novata. Mas me disseram para procurar pela Srta. Payne.
–Bom, então.- me levantei, e lhe ofereci a mão- Prazer, sou Amberly Payne, sua professora. Agora venha comigo.
Andamos até as filas: uma de meninas e outra de meninos. Me pus ao final de cada uma.
–Muito bem! Vamos ver se melhoramos!- sorri, brincalhona
De minha bolsa, saquei uma lista de chamada. Chamei um a um, e vi que não havia erros. Eram 37, no total. Ao final, Kimberly levantou a mão.
–Diga, Kim.
–Hm... Essa é a Amber.- apontou para a novata
–E como você sabe?- a desafiei
–Somos gêmeas.- ambas disseram, e a classe explodiu em gargalhadas
–Bem, então.- disse, ao cessar das risadas- Amber, você é a última da fila.
–Não, ela é antes de Alexia!- gritou alguém, que não identifiquei
–Era só pra testar a atenção de vocês...- repliquei- Agora, marchando!
Peguei a pequena e suja mão de Zora e a áspera mão de Zucker, e nos pusemos a marchar, entoando o clássico”1,2,1,2”. Tão logo estávamos em sala, mas a aula passou rápido. Ao soar do sino, me dirigi à sala dos professores. Já estava com a mão na maçaneta quando parei.
–E aquela outrinha, Amberly?- reconheci a voz da novata, MaryJane
–Eu realmente não a entendo. Por que de tanta atenção? São só Seis e Sete...- disse Rory, alguém que sempre deixou na cara seu desprezo
–Ela é ingênua demais. Acha que algum deles vai subir na vida. Humpf.- disse então Toria, alguém que supostamente gostava de mim
–Ainda se fosse uma escola de Três ou Quatro...- voltou a repetir Rory
Perdi o apetite. Fui até meus alunos, e me sentei em sua ampla roda. Por puro orgulho, alguns recusam o lanche que ofereço. E, por mais orgulho ainda, alguns me oferecem de seu próprio lanche. É por isso que me inscrevi para a Seleção. Só a Rainha pode mudar-para melhor- a vida dessas crianças. E é isso que eu quero fazer.
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