Coroada - A Seleção Interativa
52 Meu Erro
Notas iniciais
Hannie estava perdida em sua própria casa. Ela havia se acostumado à superlotação de garotas dos dois últimos meses, e, subitamente, elas haviam sumido. Pior: sua própria família havia sumido.
Bom, não exatamente. Ela sabia que sua mãe estava o tempo todo no quarto, se recuperando do nascimento dos gêmeos, e que seu pai ou estaria com ela ou entupido de trabalho. Arthur havia virado um fantasma: ninguém conseguia mais do que meros relances da silhueta do príncipe herdeiro nos últimos dias, como se ele estivesse estado trancado no quartinho do Quarteto Dourado. Phillip tinha ido passar uma semana na casa dos Tunys(por motivos de ciúmes) e Lou e Tony praticamente não eram vistos.
Mas, claro, ela era mais esperta com isso. Sabia exatamente onde encontrar os mais velhos.
Ao se aproximar da Sala de Música, conseguiu ouvir o som saindo pelas portas. Um violão acompanhado de cajón e voz. Ou melhor, duas. Uma masculina e uma feminina, ambas familiares a elas. Prestou atenção à letra, reconhecendo metade das palavras:
Agora não peça, não faça promessas
Você diz não saber o que houve de errado, e meu erro foi crer
Que estar ao teu lado bastaria
Ah meu Deus era tudo o que eu queria
Eu dizia o teu nome, não me abandone
Jamais
"Paralamas?", ela não conseguiu segurar a pergunta, e os dois param de tocar para olhá-la.
"Hannie! Já falamos pra não entrar assim na sala!", Lou esbravejou.
"Mas eu achei que vocês tivessem desistido da tal MPB..."
"Não existe desistir de um gênero, Han", Tony baixou os olhos para seu violão novamente, ajeitando algo nas cordas. "Ainda mais se for Paralamas do Sucesso. Esses caras eram ótimos."
"É. No Século XX", a loira ironizou.
"Nem vem, baixinha. A gente sabe que você conhece Meu Erro de cor e salteado.", Louise bagunçou seu cabelo.
"Só Meu Erro. Os seus, já...", ela brincou, e os dois riram fraco.
"O que tava fazendo?", Tony perguntou.
"Dando uma perdida. Que mais temos pra fazer?”
"A gente canta. Você pinta. Todos estudamos. É assim que as coisas normalmente funcionam por aqui.", Lou devolveu.
"É, mas as telas acabaram, o novo suprimento chega sexta pela manhã. E nada de aulas até semana que vem.", Hannie explicou, e eles sorriram.
"Pelo menos sempre vamos ter nossas coisas.", Tony debochou.
"Hmpf. Você ainda vai ver, Anthony. Algum dia, Karen e Kaden vão entrar aqui e arrebentar essas suas cordas. Me procure no meu quarto, que eu vou estar lá rindo.”, a mais nova disse.
“Hannie, querida, Karen e Kaden ainda têm cinco dias.”, Louise riu.
“Eu disse algum dia, Lou. Algum dia.”
“Vai sonhando, pequena.”, Tony bagunçou seus cabelos, e ela se apressou em arrumar. Os mais velhos começaram a rir, mas foram interrompidos por vozes e risadas no corredor. Os três congelaram e fitaram a porta, apreensivos. Só relaxaram quando viram Skyler Smith e Dade Fadaye passarem, ambos sorrindo largamente. Dade olhou para dentro da sala, os cachos acastanhados caindo em seus olhos, e congelou ao ver os irmãos. “Dade?”, Anthony perguntou, e só então Skyler percebeu os três. Atrapalhada, quase tropeçou em seus pés ao se curvar em uma reverência. “Você não devia estar no estúdio?”
“Ahn... Sim.”, ele respondeu, atrapalhado, enquanto ajudava a garota a se colocar de pé novamente. “Mas eu tinha de agradecer à senhorita Smith por ter salvado minha vida no dia do ataque, e começamos a conversar.”
Tony o fitou, surpreso, com sua melhor cara de isso vai dar errado. Pensou em falar alguma coisa, mas logo em seguida reparou que não tinha moral nenhuma quando o assunto era as Selecionadas de Arthur. Além do mais, Dade era um cara inteligente. Muito mais inteligente que Anthony. Ele deveria saber o que estava fazendo.
Não deveria?
Anthony tentou se convencer de que a vida era de Dade e era ele quem deveria vivê-la, mas se sentia na obrigação de avisá-lo da furada em que estava se metendo. Ele sabia, por experiência própria, que aquela não era uma situação boa para se meter em. De novo, ele disse à si mesmo que Dade sabia o que estava fazendo.
Quando mirou o amigo, porém, viu que ele estava mais perdido do que cego em tiroteio. Reparou, também, que Louise e Hannie haviam saído da sala com Skyler e a levavam para o Salão das mulheres. Apoiou a parte de baixo do violão no chão, abrindo espaço no sofá onde estava, e bateu ao seu lado, dizendo para o amigo se sentar. Dade suspirou e se jogou no lugar vago.
“Você vai me dar lição de moral, não vai?”, perguntou o mais alto, e Anthony também suspirou.
“E que moral eu lá tenho, Dade?”, perguntou, e o amigo esboçou um sorriso fraco. “Só quero ter certeza de que você sabe onde tá se metendo, cara. Porque, uma vez que você entra nessa vida, tudo fica milhares de vezes mais difícil.”
Ele esfregou as têmporas e demorou algum tempo pra falar. “É injusto. Arthur tinha trinta e cinco para escolher. Por que eu não posso ter só uma pra mim?”
“Porque não é assim que a vida funciona.”, explicou, simplesmente. “E a situação é pior. Não é uma das trinta e cinco aleatórias que vieram para o Palácio, Dade. É uma das Sete que ele escolheu a dedo.”
Dade balançou sua cabeça com força, e Tony sabia que ele estava comum nó na garganta. Bem-vindo ao meu mundo, pensou, amargurado. “Não tem um jeito mais simples.”
“Sempre tem um jeito mais simples.”, Tony se pôs de pé e apoiou o violão no suporte. “A questão é se você está disposto a correr o risco ou não.”
O apresentador do Jornal De Illéa, porém, permaneceu sentado. “E você está?”
Anthony foi pego de surpresa pela pergunta. Estancou no lugar em que estava no pé, e engoliu em seco. Ele estava? Ela estaria? O risco era, realmente, tão grande quanto ele pensava ser? Ou era só sua imaginação fazendo tempestade em copo d’água? Isso, de certo, não o surpreenderia.
“No tempo certo, estarei. Todos estaremos.”
No tempo certo, porém, era uma época muito vaga. Estaria ela distante ou próxima? Algum dia de fato chegaria?
Dade, então, disse o que Anthony mais temia que ele dissesse. “Quem faz o tempo ser somos nós, Anthony. Se uma árvore cai na floresta mas ninguém está lá para ouvir, será que realmente fez barulho?”
“Parece que estamos prestes a descobrir.”, e, dito isso, deixou a sala. Ele sabia que Dade o culparia para sempre por o deixar sozinho com seus pensamentos; mas, por outro lado, sabia de que era disso que seu amigo realmente precisava.
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