Coroada - A Seleção Interativa
64 Break Free - Special POV
Notas iniciais
Ansiedade não é um sentimento normal pra mim.
Sério. Digam o quê quiserem, eu não me importo. Eu nunca fui uma pessoa ansiosa, na verdade, e dou graças à Deus por isso. Calma também não é natural para mim, não mesmo, mas ansiedade? É algo que eu raramente passo por.
Se você acha que tenho sorte por isso, está redondamente enganado. Por poucas coisas me deixarem ansiosa, quando algo me cutuca é quase um fim do mundo. Eu fico andando de um lado para o outro que nem uma louca, além de começar a falar para mim mesma que tudo vai ficar bem, embora não consiga acreditar.
É o pior sentimento do mundo. Eu não sei como as pessoas podem viver com ele, na verdade.
A partir disso, você pode me imaginar nessa tarde: de pé no meu quarto, com Sarah e Elizabeth, minhas criadas me encarando, enquanto eu respiro fundo e conto até dez. Elas haviam trazido um cavalete para que pudesse escorar o cartaz que havia feito com todo o capricho do mundo, e eu tinha nas mãos vários cartões, para o caso de me esquecer de algo. Respiro fundo mais uma vez, e começo a falar. Elizabeth me para no meio de uma frase, se desculpando logo em seguida.
“Senhorita Swan, eu não entendo muito de apresentações, então pode me corrigir se eu estiver errada”, ela disse, e eu gentilmente ignorei o uso do pronome de tratamento na frase. Aparentemente, estava nas regras que elas tinham de me chamar de senhorita. “Mas não seria melhor se você falasse com mais paixão, se colocasse mais no projeto?”
Engoli em seco. Eu sabia que aquilo era verdade. A questão é que eu mal conseguia me lembrar de tudo que tinha de falar, que dirá falar com entonação. Mas, em vez de dizer isso, sorri para ela.
“Bem pontuado, Elizabeth. Vou tentar o meu melhor para conseguir.”
Lizzie sorriu educadamente quando voltei a discursar sobre o projeto, o que me deu um pouco mais de coragem para falar direito. Eu não sei como ou porquê, mas havia me apegado anormalmente rápido à Elizabeth e Sarah, minhas duas criadas. Provavelmente porque elas me lembravam um pouco de Sandy, minha irmã mais nova, mas acho que era só porque elas eram duas das três pessoas no Palácio que não ficavam me julgando ou simplesmente me odiavam.
A terceira? Bateu na porta assim que acabei de falar.
˜Sky!˜, sorrio, enquanto minha amiga entra no quarto sem escrúpulos. É nessas horas que me lembro porquê ando com ela.
“Oi, Aly”, ela sorri de volta, cumprimentando Sarah e Elizabeth. “Ah, você já acabou de ensaiar? Eu esperava ouvir você falando um pouquinho.”
Ponho língua para a morena, guardando o cartaz e me sentando no banco da penteadeira. “Não é culpa minha se uma certa menina não conhece o significado de pontualidade.”
“Eu tentei vir mais cedo, eu juro˜”, ela alega, e seu sorriso diminui um pouco.
“O que houve?”, pergunto, ao perceber sua mudança de humor. Ela não responde de imediato, e eu peço à Sarah e Elizabeth que nos deem licença por alguns minutos. “Por favor, Skyler, só não me diz que eu realmente peguei a indireta no Jornal da semana passada.”
Ela arregala os olhos, e eu comprimo os lábios. Ah, Skyler. “Foi óbvio?”
Dou de ombros. “Acho que não. Só que eu te conheço muito bem para não entender para quem você está direcionando uma frase.”
Skyler afunda a cabeça nas mãos. “Oh, céus. O que vou fazer?”
“Por favor não me faz pergunta difícil, Sky”, sorrio, na esperança de animá-la um pouco, mas não sucedo. Droga. “Ei, e o seu projeto? Eu ainda não sei sobre o quê é.”
Isso pareceu distraí-la levemente, pelo que me parabenizei. Ela começou a discursar sobre o que pensava, e, tenho admitir, era um ótimo projeto. Skyler falou sobre essa fundação que pretendia criar com o projeto, em apoio às pessoas que sofrem violência doméstica ou algum tipo de bullying, e só parou quando, mais tarde, Sarah e Lizzie vieram nos avisar que deveríamos nos arrumar para o Jornal. Minha amiga sorriu ao sair do quarto, dizendo que me veria lá.
Elas me prepararam um banho bem relaxante, que eu particularmente precisava, e me colocaram em mim um vestido e algumas joias. Eu não saberia dizer, porém, de qual cor o modelo era: estava mais que distraída pensando na apresentação daquela noite.
Skyler ficara feliz e distraída com toda a explicação, o que era bom, mas eu meio que me senti intimidada por tudo o que ela falou. Ela sabia tudo de cor e salteado, o projeto era realmente ótimo. Sério. Com certeza era melhor que o meu. Fiquei quase incomodada com a paixão que ela colocava nas palavras, explicando sobre a tal fundação como se aquilo fosse sua meta de vida, sua realidade utópica. Eu nunca conseguiria falar daquele jeito.
Respiro fundo quando elas me dizem que estava pronta e me desejam sorte, sorrindo vagamente à medida que deixo o quarto em direção ao estúdio. Para minha surpresa, Alasca Young é quem se emparelha comigo. Eu poderia provocá-la, como sempre fazia, mas acho que ela parecia estar na mesma situação que eu.
“Eu sei que você está se descabelando por dentro, ok? Nem tente enganar, não vai dar certo”, ela diz, antes que eu sequer abrisse a boca, e me permiti um sorriso de alívio. “Eu também estou, sabe?”
“Ah, se sei. Eu não tenho problema com falar em público, mas-“
“Falar em rede nacional é outra história”, ela me completa, para meu espanto. Acho que nós duas discutimos tanto que às vezes eu me esqueço do quanto somos parecidas. “Ugh. Tento nem pensar nisso.”
Eu rio baixo, e fizemos o resto do percurso em silêncio. Acho que nenhuma de nós duas realmente sabia o quê falar, mas, para minha surpresa, ela não sai de perto de mim quando Aurora aparece. Eu não pude me conter.
“Por que exatamente você está sendo legal comigo?”, pergunto, direta, e ela suspirou e alisou seu vestido.
“Sabe, Alyssa, eu e você somos o mesmo tipo de pessoa. A gente não é ansiosa normalmente, mas coisas grandes tipo essa acabam com nossa paz”, Alasca diz, e eu assinto em concordância. “Também temos o mesmo tipo de amiga, sabe? Pare pra pensar e vai ver o quão iguais Skyler e Aurora são.”
Considero o que ela disse, e acabo constatando que era verdade. Aurora e Sky são ambas extrovertidas e falantes, irritantes à sua maneira. E ambas são ótimas companhias, devo mencionar.
“Certo. Mas e daí?”
Alasca olha para mim como se eu fosse uma criança boba. E aí está a Alasca que conheço, eu penso. “Daí que Aurie não consegue parar de falar do projeto dela, que é um bem bom, e isso tá me dando nos nervos. E eu apostaria dinheiro que Skyler está fazendo o mesmo.”
“Bingo”, admito, meneando a cabeça em sua direção. “Eu não quero ouvir sobre o projeto de Sky, por mais que ele seja bom. Está sinceramente me intimidando.”
“Intimidando Alyssa America Swan? Preciso que ela me mostre como fazer isso”, Alasca brinca, e eu lhe dou um olhar cínico, o que só faz com que ela segure seu riso.
Surpreendentemente até para eu mesma, fico meio triste quando alguém pega um megafone e grita que iríamos ao ar em cinco minutos. É nossa deixa para tomar nossos lugares nas cadeiras especialmente separadas para nós, Selecionadas, e eu e Alasca temos de ir. Minha cadeira é a primeira se contarmos do meio para a ponto, esquerda para a direita na tela do espectador, por causa de minhas iniciais; e minha única vizinha, Aurora, parece completamente perdida no mapa em que estuda. Ao seu lado, Calliope conversa tranquilamente com Delancy, e, logo ao seu lado, Skyler ouve interessada sobre o projeto de Sofia. Alasca ocupava a outra ponta, com uma cara tão séria quanto a minha, e olhava fixamente para sua saia.
Eu tento dizer à mim mesma que não conversar com ninguém é melhor do que conversar com Aurora, que certamente me contaria de seu projeto, o que é verdade; mas não funciona. Também tento dizer à mim mesma que tudo daria certo, principalmente depois de eu ter ensaiado tantas vezes, mas ainda não funciona. Estou quase me rendendo ao desespero quando o Jornal começa, e me concentro em sorrir e ouvir os Conselheiros.
Enquanto um deles diz algo breve sobre Illéa e a Nova Ásia estarem quase chegando à um acordo sobre o apoio na guerra neozelandesa, consigo de fato me acalmar ao passo em que faço uma descoberta. Aquele era, obviamente, um teste. A próxima eliminada possivelmente seria escolhida a partir daqueles projetos, já que era importante que a Rainha soubesse fazer um deles com excelência. Olho para mim mesma, então, nas roupas luxuosas e que dificultam o andar e recheada de joias pesadas que fazem meus olhos doerem quando me miro no espelho. Concluo que, embora meu orgulho queira vencer, essa não é a vida para mim. Embora eu admire a Rainha America por tudo o que ela é e já foi, eu nunca conseguiria ser como ela. Eu não nasci para a realeza, para festas de luxo, para espaços fechados e muros altos. Eu não nasci para ganhar A Seleção.
Então o quê eu tinha a perder?
Nossa, Alyssa, sua mãe provavelmente te mataria se ouvisse isso. Ela queria se orgulhar de você.,minha consciência me conta, mas eu sorrio quando me chamam para começar as apresentações da noite. Aquela nova ideia florescia dentro de mim, e eu tenho certeza de que minha apresentação foi tão boa quanto poderia ter sido. Minha mais nova autoconfiança provavelmente era maior até que a de Skyler.
Ah, consciência, pode ter certeza que ela vai se orgulhar muito de mim.
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