Coroada - A Seleção Interativa
2 Bolas, Quantas Contas
Notas iniciais
Taylor

–E mais dois pontos para o People Dry House!
–Essa McLean tá demais hoje, hein Gary?
–Nada, Tom! Sua performance está ótima, mas ela já fez bem melhor!
–Ouvi dizer que ela vai trocar os tênis pelos saltos, os estádios pelo Palácio e o troféu pela coroa!
–Sei não, Gary. Acho que uma jogadora de basquete nunca seria uma boa princesa, principalmente Taylor McLean!
Desligo a TV. Era sexta e eu assistia pela quarta vez o jogo de ontem. Não poderia uma jogadora de basquete desejar em paz? Como papai suporta essa pressão? Ah, é: ele não é uma menina que assinou uma droga de formulário!
Esqueço a TV e ligo para Lyss, na esperança de que ela saiba o que fazer:
–Tay!- ela diz ao atender- O que te faz me ligar?
–Sei lá, Lyss. Só tô tentando tirar da cabeça aquele maldito jogo de ontem.
–Olha, eu tenho uma sessão agorinha. Te encontro... Já sei! No Ancient Louisiana, daqui trinta minutos!
–Estarei lá.
–Até!- ela desliga
Pego meus patins. O parque Ancient Louisiana é a 1km da minha minha casa. Eu ainda não tenho carro e não estou a fim de pedir para Felix me levar...
Saio pela porta dos fundos, para evitar a multidão de lá na frente, e sinto o ar pegajoso de Fennley. Depois que a Rainha America decretou que devíamos aprender a história dos Estados Unidos, descobri que moro na antiga Nova Orleans, a capital do Soul Jazz(não que eu saiba o que isso significa), e também capital do antigo estado de Louisiana. Por isso o parque para qual estou indo se chama Ancient Louisiana- em honra à América(não à rainha, mas ao país).
Tento passar despercebida, mas qualquer um que assista TV me conhece- até porque passou no Jornal Oficial a morte de minha mãe, que era a governante de Fennley, e eu apareci na cerimônia. Então, me param o tempo todo: uns querem autógrafos, outros fotos. Uma Cinco de quem minha família é patrona me sorri, e eu aceno com a cabeça.
Quando chego ao Ancient, avisto Lyss batendo seu sapatinho importado e olhando seu relógio cravado de rubis-que fora feito por uma Quatro extremamente talentosa, com certeza.
–Ui, está estressada é?- pergunto, irônica, com os patins já na mão
–Taylor McLean, eu realmente não te entendo.- ela me olha como se eu fosse um Alien- Mas para ser sua amiga, devo ser tão estranha quanto você.
Rio:
–Vamos para o lago. Temos bastante o que conversar.
May
–Como vê, Sra. Lammar- aponto o canto de um cômodo- teríamos que tirar essa parte para fazer o closet.
–Mas, Srta. Cooper! Eu não posso abrir mão desse espaço!
–Por quê, mais exatamente?
–Vou colocar um gaveteiro aí.
Resisto ao impulso de dar um tapa em minha testa. Como Dois podem ser burros! Respiro fundo antes de continuar.
–Mas, Sra Lammar, por quê você colocaria um gaveteiro quando tem um closet?- ela parece tentar achar a ironia na minha fala
–Mãe, ela tá certa!- acrescenta o filho de 13 anos dela(que acha que tem chance comigo mesmo sendo 6 anos mais novo)-E eu já disse que não quero um gaveteiro.
A Sra Lammar suspirou.
–Então está bem. Pode ir agora, May.
–A Sra quer o panorama em 3D amanhã?- pergunto, recolhendo a papelada
–Amanhã é sábado. Que tal na segunda?- ela replica
–Às 15:00?
–Até lá.
Saio da casa e vou à pé até a minha. Não ando tendo tempo para aulas de direção desde que comecei a ser arquiteta.
Chego em casa e só vejo as luzes do segundo andar acesas- o que quer dizer que só minha irmã Lucy está em casa. Mamãe e Papai devem estar saindo do escritório.
Abro a porta e subo as escadas sorrateiramente. Vejo a porta do quarto de minha irmã aberta, a luz acesa e ouço o folhear de páginas. Claro, ela deveria estar estudando, mas conheço Lucy- poderia apostar que ela está folheando a New Age dessa semana. Entro no quarto som nenhum som, quase não ouso respirar.
De fato, Lucy folheava a revista. A página trazia a manchete: “A Seleção do Príncipe Arthur: Quem Será a Coroada?”. Olho para sua penteadeira, onde repousa a sua própria carta para A Seleção. Ambas recebemos cartas, já que eu tenho 19 anos e ela 16. Somos irmãs, mas ninguém nunca diria isso: seus olhos são castanhos e grandes, e os meus, pequenos e verdes; seus cabelos cabelos são quase brancos de loiros e eu tenho cabelos castanhos cacheados até os ombros; ela tem uma boca grande, e a minha é média. Acredite, somos muito diferentes.
Voltando à Seleção, eu não sei se vou tentar, mas Lucy diz que não nasceu para ser princesa- muito embora ela se pareça com uma. “Minha princesinha”, papai diz. “Não sou princesa, nem nunca vou ser”, ela retruca, a língua afiada como uma adaga. Mas, olhando bem, ela parece estar reconsiderando a ideia de se inscrever. Minha irmã pensando, quem diria? Pena que vou atrapalhá-la nesse momento de profunda reflexão:
–No te assustas!- digo, em espanhol, colocando as mãos em seus ombros.
Ela cai no chão, amassando a revista. Deito em sua cama de tanto rir e coloco as mãos na barriga, na tentativa de conter as gargalhadas. E ela fica lá, batendo o pezinho para mim. Vou parando aos poucos, até conseguir formular uma frase:
–Você parecia estar reconsiderando a ideia da Seleção.
–Na verdade,- ela diz, colocando um sorriso cético no rosto- estou só vendo como você pode viver nas próximas semanas...
–O quê?- minha expressão muda repentinamente: uma cara de espanto- Não... Você não teria...?
–Sim, May. As garotas de Columbia tem mais uma concorrente para chegar ao Palácio.
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