Coroada - A Seleção Interativa
9 ...Belezas do Norte
Notas iniciais
Sylby
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–Parabéns, Srta. Du Barry.
–Impressionante.
–Para uma Três, você sabe bem como é a vida de um Seis.
Esses foram alguns dos vários elogios que ouvi, durante o lançamento do meu mais novo livro: “Seis à Oito, o Buraco de Illéa”. Alguns comentários vinham acompanhados de cotoveladas e risadinhas que eu realmente não entendia. Tão logo começou, o evento já havia acabado. Percebi, triste, que não queria ir embora- eu sabia o que me esperava em casa.
Suspirei ao pegar minha bolsa. Saí pelos fundos, pensando em meu trabalho. Ao pensar neste, minha mente inevitavelmente se dirigiu à Katrin Viana, a mulher de Atlin que possuía uma fama ainda maior que a minha. Ela parecia ser legal, mas todo mundo parecia. Exceto Mirella, minha irmã postiça
Cheguei em casa o mais silenciosamente possível, tentando passar despercebida até meu quarto. Mas, como de praxe, Mirella adivinhara tudo, e me esperava ao pé da escada.
–Sylby, Sylby...- ela disse, me fuzilando. Me encolhi um pouco- Tentando se esconder de novo?
–N-não, Mirella.
–Ainda bem, irmãzinha.- ironizou, ao mesmo tempo em que Peter surgia na escada- Porque você sabe que eu tenho olhos por toda a casa.
Assenti, e nosso irmão- a mim postiço, a ela de sangue- passou por nós, calado e cabisbaixo. Normal.
–Agora vá comer. Seu jantar está em sua tigela.
Assenti novamente e me dirigi até o quintal. Lá, ao lado das tigelas dos cachorros, repousava uma igual a estas, com o nome Sylby gravado nela. Peguei-a nas mão e comi meu pão de cada dia(lê-se comida de cachorro). Acabei bem quando Peter chegou ao meu lado- ele fazia isso, uma ou duas vezes por ano. Abriu os braços e eu mergulhei em seu abraço, soluçando.
–Calma, Syl. Tudo vai ficar melhor.
–Mas...Mas...- gaguejei, sem palavras
–Temos nosso plano, lembra?
–Por quê você não faz isso mais vezes?- indaguei, tentando me recompor- Parece tanto com papai...
Ele não respondeu, só enxugou o resto de minhas lágrimas. Então me beijou na testa, antes de voltar para seu quarto. Vagarosamente, fui até a caixa de papelão que- quando papai não estava, durante o verão ameno de St. George- chamava de quarto. O plano não saía da cabeça, e eu torcia a cada minuto para que ele funcionasse. Eu já podia me ver trocando a caixa de papelão por um quarto luxuosamente decorado. Correndo livre pelos longos jardins do palácio, longe das torturas de Mirella.
Delancy
Me espreguicei no colchão que era minha cama- mas que eu estava satisfeita por ter. Minha mão magra bateu na anêmica mão de Gwen, minha irmã de nove anos, a acordando.
–Bom dia, Gwen.- disse, me pondo de pé e colocando meu casaco. Minhas mãos estavam roxas de frio, afinal, faz frio em Kent.
–Bom dia, Dya! Como se sente?- ela disse, feliz
–Me sinto pronta para mais um dia de trabalho!- menti um pouquinho. Vi que estava saindo do que eu e Nathan combinamos, e tentei me corrigir- Agora, se vista! Não pode se atrasar!
–Dya está certa, Gwen.- Nathan apareceu na sala, saído de onde, eu não sei- Vamos que te deixo lá.
Dirigi um olhar duro para o garoto de 16 anos, e ele fez o mesmo. Combinamos que Gwen tinha que ser inserida na realidade, mas aos poucos. Mas ambos estávamos fazendo errado. Mantínhamos ela demais, ao mesmo tempo que aprofundávamos tudo de uma vez. Argh! Ser irmã mais velha é difícil...
Eu e Nathan tivemos uma discussão com os olhos enquanto Gwen estava de costas. Assim que esta se virou para nós, a tensão se quebrou. Mesmo que eu e Nate nos odiássemos -o que, definitivamente, não era o caso- Gwen nos derretia. Nunca conseguiríamos brigar em sua frente.
–Crianças! Café fresquinho!- vovó gritou da cozinha
Salivei, e vi que os outros também faziam o mesmo. Tínhamos essa bebida fresca, tipo, uma vez a cada dois meses, quando muito, e erámos fascinados por tal. Afinal, nós erámos Seis- quero dizer, a Casta(ironicamente, esse também é meu livro preferido).Comida faltava, e os invernos eram cada vez mais frios e pareciam não acabar. Todos- Gwen, Kyra, Pietra, Nathan, eu e vovó- nos reunimos em volta da mesa.
–Não somos mais crianças, vovó.- disse Kyra, uma das gêmeas
–É, ela tá certa. Nós somos-
–Pré-adolescentes.- eu e Nate cortamos Pietra, a outra gêmea, e fizemos vozinha de menina, rindo
Gwen nos olhava sem entender e as gêmeas nos fuzilavam, com um olhar maldoso. Vovó começou a rir também, mas logo a risada virou tosse. E mais e mais tosse.
***
Nate deixou todas as outras na escola, e então veio correndo para o hospital, onde eu esperava com vovó. Ele estava com o uniforme de motorista, embora seu patrão tenha lhe dado o dia de folga. O patrão de Nate era o único justo entre os nossos, e eu logo comprovaria isso, com um baita sermão da minha patroa. Já podia até ouví-la esbravejando.
O Doutor puxou a mim e Nate para um canto, assim que meu irmão chegou:
–Não vou mentir para vocês, crianças.- ele disse, sua voz carregada de pesar- A Sra. Anastácia está morrendo.- engoli o choro, e senti um boquiaberto Nate me abraçar- Mas há uma solução. O corpo de sua avó ainda é forte o bastante para um transplante de pulmões- embora um desses seja caro.
–Não acho que tenhamos dinheiro para tal, Doutor.- eu disse, já que Nate não podia falar. Claro que eu estava morrendo por dentro, mas o tempo me trouxe a calma e a frieza
–É, provavelmente não, Srta. Lewis.- ele se lamentou, mexendo em sua própria unha- Mas eu sei que você tem uma carta vermelha em sua casa.- me boquiabro. Que atrevido(muito embora eu agisse assim em várias situações)!!!
–Dya, ele tá certo. Essa pode ser nossa válvula de escape.- diz Nate, se recompondo.
–Quietinho aí, Nata-uma implicância minha, algo como nata de leite-, ou vai chorar mais.
Ele me mostra língua, e saímos do hospital. Preencho o formulário, afinal, o que tenho a perder?
Vênus
Estava sentada ao lado de Nany, e vínhamos conversando desde a partida da Noruécia. A ruiva ria de minhas piadinhas inúteis. Todo mundo sempre ria.
–Vamos lá, Vênus!- ela suplica- Só mais uma vez!
Reviro os olhos, e faço de novo a careta. Essa era minha melhor careta, mas era difícil fazê-la. Estava tão concentrada que nem reparei quando ela chamou Audrey Lancaster. Ou quando a outra ruiva se virou. Só caí na realidade quando ouvi a quase risadinha de Audrey- ou, como prefiro chama-la, Escarlate(um tom de vermelho. Coisa de menina de catorze anos).
Foi como despertar de um sono, caindo da cama. Eu a reparei, e minhas íris azuis penetraram o verde daqueles olhos. Nos encaramos por um momento, e Nany engoliu em seco. Como que num desafio, então, ela levantou uma sobrancelha- algo que ela sabia que não conseguia fazer- e se virou.
Eu ainda tremia de raiva, pensando em como iria fazer para que a Escarlate aprendesse a não me desafiar. Então caí na realidade- de novo-: Eu provavelmente nunca mais a veria. Ambas estávamos saindo do Ballet de Illéa. Ótimo, achei um ponto bom em voltar pra casa. Mas com esse bom, contraponho vários péssimos:
1.Kate, a ex-vedete, pior madrasta de todos os tempos
2.Au-revoir amigas do Ballet
3.Voltar a passar fome
4.Passar frio
5.Viver com mais provocações que de costume
6.Bye-bye viagens
7.Bom, você me entendeu
Eu sabia o que meu pai ia querer assim que eu chegasse em casa- e era uma coisa que eu, com certeza, não queria. A Seleção.Fala sério: eu, presa num castelo? Um príncipe e 35 garotas? Coroa? Dinheiro? Bela porcaria. Tudo o que eu queria era dançar, dançar e dançar.
Uma pena que alguém colocasse empecilhos tão grandes em minha frente.
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