Coroada - A Seleção Interativa
6 A Boa, A Bela e A Doce
Notas iniciais
Beatrice

–Bea!-minha mãe chamou, sonolenta- São três horas da manhã! Posso saber onde pretende ir?
–Me ligaram do posto,mamãe.- respondi, pondo o jaleco- Houve um pequeno ataque rebelde por aqui, e uma pessoa ficou ferida.
–Acordou sua irmã?
–Mãe, nada acorda Lay. Ela tem um sono muito pesado.
–Posso ficar tranquila, filhota?- ela passa a mão em meus cabelos negros
–Relaxe, mamãe. Pode ir dormir.
Ela estala um beijo em minha bochecha e eu devolvo, antes de disparar com a chave do carro casa afora. Entro no carro, e tento me concentrar no caminho. Não faz muito tempo que trabalho nesse posto, e me perder agora seria desastroso. Ao longe, ouço sirenes de polícia, provavelmente atrás dos rebeldes.
Passo direto pelo Departamento de Serviços Provinciais, onde estive a duas semanas e seis dias, para entregar a carta da Seleção. Amanhã, quando se completarem três semanas, haverá o sorteio. Me lembro de como soltei meus cabelos cacheados e os balancei, assim como a Rainha America fizera em sua própria Seleção. Mas, America não estava apaixonada por seu príncipe, já eu, me derretia por Arthur.
“Beatrice Winchester”, me repreendo mentalmente “ Seu dever é cuidar dos doentes, não reger o país.” Uma pequena parte de mim ainda resistia em acrescentar um “Por enquanto...”
Ao chegar no posto vejo que ambos os ambulatórios- o público e o pago(que também usamos para casos mais sérios)- estão ocupados. “Que beleza...”, penso, calçando as luvas.
Vou primeiro ao público, onde tudo costuma ser mais simples. Deitado na maca, vejo um homem queimado e cheio de aberturas pelo corpo. Ah, e como seria mais fácil se ele estivesse inconsciente. Se o que está naquele ambulatório é pior que isso, nem quero entrar lá. Vejo na plaquetinha que ele é um Seis.
–Nota de Um à Dez pra dor?- pergunto, procurando meu walkie-talkie. Ele faz um nove com os dedos- Noods!- chamo no walkie-takie- Abra o pago para mim! Uero ver o que tem lá dentro! E dê ponto-atendimento ao público, ou eu mesma te esgano!- me volto para o Seis na maca- Nós temos que te levar lá pra dentro. Que me custe o que custar.
Adentro o ambulatório com uma idéia não muito boa do que me espera. Trico o maxilar ao ver Hudsen Hurley, governador de minha província, Sota, deitado na maca branca, com alguns arranhões.
–Sr. Hurley? O Sr. se importaria em ir para a outra maca, por favor? Preciso dessa maca e desses equipamentos.
–Mas, Dra. Winchester, estou pagando para estar aqui.
–Devolveremos o dinheiro, relaxe.
–Paguei e tenho direitos.- ele insistiu- Respeito, por favor. Sou um Dois importante com machucados.
–Você é Dois, é?- me estresso. Esse cara está excedendo meu limite de paciência. Algo que não suporto é pessoas que se acham melhores por suas castas- Pois dane-se! Tenho um Seis ali fora quase morrendo, de que importa se ele é um Seis e você um Dois? Ele está realmente quase passando desta pra melhor, e eu vou salvá-lo, não importa se sair tudo do meu bolso, mas ele vai entrar aqui e eu vou salvá-lo!
Ele me olhou com repulsa ao sair. No final, o Seis sobreviveu. Contudo, toda Illéa ficou boquiaberta ao descobrir que a médica que gritara com o governador (passara no Jornal Oficial) iria passar algum tempo no castelo, uma vez que ela fora Selecionada.
Piper
– Levante o ombro direito! Isso, perfeito! – o flash disparou de novo – Agora, uma das mãos no cabelo, no alto da cabeça, um dedo na boca e de costas, rosto pra mim.
Faço o que ele manda e a máquina clica. O fotógrafo faz um sinal, e eu percebo que acabamos. Ando até o vestiário e troco o vestido escaldante por uma blusa cigana rosa e uma saia preta, e os saltos vinho por botinhas, pretas. Ajeito o cabelo e saio do estúdio.
O chofer me espera do lado de fora. Ele abre a porta à medida que me aproximo:
– Se me permite dizer, a Srta. está linda!
– Mas não permito, — levanto o rosto ainda mais e ele se encolhe. Bufo – Só me leve para casa.
Entro e ele fecha minha porta, logo entrando também. Olho pela janela do carro durante todo o percurso, vendo, ao longe, as praias de Zuni. Meu pai me disse que aqui ficava a Califórnia, parte famosa dos antigos Estados Unidos.
Assim que ele estaciona, saio do carro, entrando rapidamente e em casa. Vou para o meu quarto, mas paro ao ouvir as batidas na parede. Pra que Nunes tem seu próprio quarto e cama, se ele sempre vem pro meu quarto quando quer fazer sexo com as meninas que ele traz?
Vou para o escritório, e fico lá, olhando pro tempo. Ser bonita é bom, mas como cansa!
Victoria
– Bom dia , mamãe! – digo ao chegar na mesa — Cadê papai ?
– Bom dia Vic! – ela responde abrindo um sorriso- Seu pai levou Manson ao curral, foi ensiná- lo a tirar leite.
– E Lucy e Clary ? – pergunto sobre minhas irmãs enquanto me sirvo-
– Estão colhendo as hortaliças para o almoço. Seu irmão mais velho já tratou dos porcos e voltou para cama.
– Então eu fiquei com os ovos? – suspiro diante do sinal de sim – E quem vai colher o arroz pro almoço?
– Astro, quando ele acordar. Agora coma, querida.
Faço o que ela diz , e as panquecas são dizimadas em questão de minutos. Acrescento
“ Fazer melado” à minha lista mental de tarefas do dia.
Peço licença e me retiro para o galinheiro. Essa é definitivamente, a tarefa que eu mais odeio. Mas pela sobrevivência de quem amo, eu pegaria os ovos todos os dias.
Nós, os Gardner, somos uma simples família de quatro. Porém, somos fazendeiros desde sempre, uma família tradicional de Calgary por isso, temos inúmeros patronos-pessoas que sempre compram nossos produtos. Sou a terceira de seis irmãos- Lucy, Astro, eu, Clary, Manson e Ann, do mais velho pro mais novo-, e não é nada fácil sustentar uma família de oito pessoas, principalmente. Durante a seca e o frio,vivemos basicamente dos poucos ovos e leite que não conseguimos vender- os porcos são sensíveis, e sua carne não é muito boa no inverno(não que faça diferença pra mim, sou vegetariana).
Depois de me limpar da penugem adquirida no galinheiro, vou para a salinha onde fica a máquina de costura. Parece que as roupas de todos resolveram rasgar justo quando Lucy quebrou a mão, e eu sou a única que pode costurar.
Saio de lá morta de calos, para o almoço. À tarde, ajudo papai com o trator, que estava estragado. Então tomo um banho e vou para meu quarto, a fim de descansar antes do jantar. Tateio o criado-mudo em busca do veludo vermelho da carta da Seleção, me esquecendo que já a enviei. Nesse momento Clary entra no quarto que dividimos.
–Vic?
–Oi, Clary?
–Me ajuda com o Para Casa? Amanhã temos aula.
Estou dolorida e morrendo de sono, mas estampo um sorriso. É bom saber que minha irmã se dedica, e que ela está feliz com isso.
–Claro. Tudo pela minha irmãzinha.
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