Cores do Meu Coração
19 Trouxa 1 - O caso do médico
Notas iniciais
Fazia poucas horas que Sasuke me ligara do seu jato particular me avisando de sua viagem. Seu único pedido foi que eu ajudasse Maiko a se preparar para ir também. Depois recebi uma ligação de Shisui me dizendo que algo acontecera entre Naruto e Sasuke, além de suas suspeitas sobre a repentina viagem. Eu estava dirigindo com algum cansaço, mas de certa forma aliviado por finalmente o médico que eu estava substituindo ter retornado.
Eu me sentia exausto todas as noites, o que não me dava tempo de prestar atenção nem em Sasuke e muito menos em Shisui. Finalmente cheguei ao meu apartamento, tomei um rápido banho, vesti uma roupa mais casual, comi algo e fui para a casa de Sasuke. Maiko me esperava, mas antes eu tinha que buscar Shisui e Naruto.
Fui ao estúdio, eram algo em torno de cinco da tarde. Entrei no lugar e perguntei por Shisui para a recepcionista. Ela me disse que ele ainda estava no estúdio principal, terminando de direcionar o projeto que Sasuke pedira para ele chefiar.
— Obrigado. — eu disse e fui para lá. Rapidamente cheguei e empurrei devagar a porta, percebendo que o lugar estava praticamente vazio. Só estavam ele e Naruto. E o modelo não estava com uma cara boa: parecia muito angustiado. — Shisui? — chamei.
— Ah, oi Itachi. — ele parecia confuso. — Você já chegou? Que horas são?
— Cinco e quinze. — falei olhando para o meu relógio de pulso — Vamos?
— Tudo bem, depois terminamos isso, Naruto. — Shisui suspirou de forma cansada.
Naruto assentiu meio pesadamente.
— Quer carona? — perguntei olhando-o. — Posso te deixar em casa, se quiser.
— Não, tudo bem, vim no meu carro. E preciso muito ir para casa. — O que aconteceu por aqui?
Eu sinto que hoje Shisui e eu vamos ter uma longa conversa. Meu primo esperou Naruto se ajeitar e nós fomos para o estacionamento. Naruto emanava energias bem pesadas, tristes, era como se ele estivesse de luto. O que houve com ele? Nós, eu e Shisui, esperamos Naruto ir embora e então seguimos para a casa de Sasuke.
Fomos em silêncio. Meu primo estava quieto, muito pensativo, como se tentasse resolver algum problema sério nos pensamentos. Eu não perguntei por nada, apenas deixei passar, uma hora ele iria se abrir comigo.
Uma hora de chão depois, chegamos ao terreno da antiga casa onde vivi parte da minha infância e adolescência. Sasuke possui um apartamento no centro da cidade para quando não tem tempo de vir para fora, para a mansão, é como se ele tivesse duas casas numa mesma cidade. Suspirei pesadamente e engoli em seco. Aquela era a mansão da família há quase dois séculos e eu simplesmente sentia-me um morto quando pisava no chão daquele lugar. Não sei quanto a Shisui, mas eu nunca me senti realmente em casa naquele lugar. O portão automático abriu e eu dirigi para a entrada, que ficava de frente a uma fonte.
Estacionei e nós descemos. Shisui foi logo para a porta, mas eu ainda me demorei perto do carro. Ele se virou e notou o meu olhar levemente angustiado. Shisui veio até mim.
— Tudo bem Itachi, não vamos demorar. E eu estou aqui, você sabe disso, não te deixaria sozinho. — ele sorriu docemente.
— Eu odeio essa casa. — resmunguei, seguindo-o — Não sei porque Sasuke ainda mora aqui.
— Talvez ele se sinta bem aqui, não sei realmente, mas não me surpreenderia. Não é muita coisa que consegue o afetar. — ele deu de ombros.
Nós seguimos pelo hall, indo para o quarto de Maiko. Cada cômodo eu me recordava dos momentos horríveis que eu vivera ao lado de Sasuke, muitos deles nunca presenciado por Shisui por ele ser um “Uchiha de fora”. Se Sasuke é o diabo, essa casa é o inferno.
— Esse é o problema. Ele não é afetado por nada, perdeu sua sensibilidade e isso é ruim, muito ruim. — subimos as escadas para o primeiro andar — Não consigo nem pensar como alguém como Sasuke cria uma criança sozinho.
— Não tenho muita certeza disso, Itachi. — seus olhos brilharam divertidos. Aí tem coisa! Esse é o mal dos Uchihas, principalmente envolvendo Sasuke: tem coisa que nem mesmo eu consigo entender o que se passa na cabeça dele.
Chegamos ao quarto dela. Aquele era o antigo quarto separado de minha mãe. Sasuke mandou destruir o quarto inteiro e fazer um novo, completamente adaptado para a menina. Todos os anos ele fazia uma pequena reforma de acordo com as necessidades dela. Era o único cômodo da casa que não me fazia sentir-me mal, talvez por não ter mais nenhuma conexão com aquele passado sombrio. Maiko estava separando algumas de seus roupas.
— Tio Itachi!!! — ela gritou ao nos perceber em seu quarto. Maiko largou as roupas no chão e correu para os meus braços. Deu-me um beijo na testa e sorriu — Saudades de você!
— Como você está, meu bem?
Coloquei-a no chão e ela correu para Shisui, saltando nos braços deles.
— Tio Shisui!!! — ela riu, encostando a testa na dele — Tudo bem com você?
— Oi, Princesa. Eu estou ótimo e você? Parece que andou crescendo! — ele fingiu espanto, arregalando um pouco seus olhos negros.
— Sou quase uma moça! — ela disse brincando e foi colocada no chão. Maiko puxou Shisui para cama e abriu as portas de seu guarda-roupa. — Me ajuda, tio, eu não sei que roupas escolher!!! Em Nova York faz frio? Tem praia? Tem parque? Chove muito? É muito quente? — ele riu com a preocupação da pequena.
Ela fazia uma cara de seriedade tipicamente Uchiha.
— Deve estar frio sim, na verdade provavelmente está nevando. Vou te ajudar, agora você tem que se acalmar antes, mocinha! — Shisui simulava uma repreensão e ela deu língua para ele, entrando na brincadeira.
Busquei a mala dela no alto do guarda-roupa, aliás as três malas grandes dela e fomos separando as roupas de acordo com três ocasiões: roupas para o inverno, roupas casuais/sair e roupas para todo tipo de lugar. Ainda conseguimos encaixar alguns sapatos e depois fiquei assistindo Shisui montar a necessaire dela, com todos os produtos — vulgo perfumes e artigos para cabelo — que ela gostava. Uma vez os zíperes fechados, Maiko vestiu-se, pegou Puppy, seu leão de pelúcia e foi para a cozinha comer algo que a cozinheira preparara.
— Acho que ela nem está se importando em deixar Konoha para trás. — comentei com Shisui.
— Bem, o pai dela não está mais aqui não é? Do que ela sentiria falta? — ele sorriu.
— De mim, por exemplo. — eu empurrei de leve o seu corpo com o ombro e dei de ombros — Na verdade, se Sasuke estiver com ela, Maiko não vai se preocupar de viver a vida.
— Ela, não sei, mas eu sentiria sua falta. — ele deu uma piscadela e um sorriso charmoso.
Arfei e revirei meus olhos, sentindo um arrepio. Preciso me controlar, pelo menos até o momento que Maiko viajar, porque depois disso eu tenho assuntos pendentes com um certo primo. Depois do rápido jantar e voltarmos ao carro, eu me senti muito bem por finalmente ir embora daquele lugar de cargas muito densas.
Maiko não parava de falar o quanto estava animada em conhecer Nova York, por nunca ter ido para lá, mas por seu pai já ter ido várias vezes. Uma hora depois, chegamos ao aeroporto. A menina estava extasiada com o tamanho do lugar e com a quantidade de aviões que havia por ali. Acho que ela nem percebeu que fará essa viagem sozinha.
Alguns minutos de espera depois, era chegado o momento do adeus.
Maiko parou em frente ao túnel, de costas para nós. Ela se virou devagar, mostrando uma cara chorosa, mas fazendo o possível para se conter.
— Eu acho… — ela quis falar, mas não conseguiu — Eu... — Maiko enxugou suas lágrimas e agarrou-se com força à pelúcia.
Shisui correu e tomou-a nos braços. Abraçou-a carinhosamente, muito emocionado.
— Não se preocupe. — falei — Não vai ser para sempre. Nós vamos dar um jeito de te ver.
— Tudo bem Maiko, Sasuke disse que logo logo vocês estariam de volta. — vi em seus olhos que ele só falava aquilo para consolar a menina.
Claro que não era verdade. Sasuke nunca disse nada de quando ia voltar. Shisui soltou-a e lá foi a minha sobrinha sozinha, em sua primeira viagem. Mandei uma mensagem para Sasuke avisando que a menina embarcara. Depois de vermos o avião partir, Shisui e eu fomos embora para um restaurante. Eu tinha que, de certa forma, obedecer o meu irmão caçula. Sua mensagem dizia “Obrigado por tudo. E segure na mão de Shisui de uma vez ou eu arranco ela fora. Com amor, o diabo”. Esse Sasuke… Dá conta da própria vida e da dos outros.
Enfim, no restaurante, depois de pedirmos alguns drinks, fitei-o. Seus olhos me diziam que haviam problemas que ele não daria conta sozinho. Fitei sua mão descoberta e fitei a minha usando luvas de linho branco. Calma, ainda não é o momento.
— Então, Shisui, de qual problema você falava no celular? Antes de eu ir para o estúdio? — indaguei, tentando entender o que acontecera nesses dias caóticos.
Ele não respondeu de imediato, pois começou a remexer a maleta preta que carregava, a procura de algo. Retirou uma câmera semi-profissional de lá e apertou alguns botões. Empurrou a câmera por cima da mesa para que eu a pegasse. Ele foi bastante discreto, então entendi que eu também deveria ser. Trouxe a máquina para o meu colo e fitei as recentes imagens capturadas por ele. Não consegui evitar meus olhos se arregalarem de surpresa e preocupação.
— O problema, Itachi, é esse aí! — ele não parecia nenhum pouco feliz.
— Por que Sasuke se envolveria com Naruto…? — murmurei baixo — Eu sei que eles são soulmates, mas isso não significa que devem ficar juntos. — vi a foto de Sasuke encurralando Naruto contra a parede externa do estúdio. — Ele está fazendo de novo… — comentei passando para as fotos seguintes. Houve uma que eu ampliei em seu rosto e vi o quanto ele se deliciava com a situação caótica e constrangedora que Naruto estava.
Dava para ver por seu olhar.
— Eu não faço a menor ideia. E não sei o que pensar, eu sei que Sasuke não é tão ruim quanto Naruto pensa, mas tenho medo dele sair machucado, quer dizer, os dois. É óbvio que Sasuke se preocupa com Naruto, você o conhece melhor que eu, e com certeza já deve ter percebido.
Sorri de lado, meneando a cabeça negativamente e lhe devolvendo a câmera.
— Preocupação? — falei erguendo meu olhar para Shisui — Medo de Sasuke se machucar? Ele não ser ruim para Naruto? — é, eu conheço bem Sasuke e já percebi o que ele está fazendo — Não, Shisui, se tudo isso fosse verdade ele agiria semelhante a mim em relação a você, mas não é e você sabe disso, bem lá no fundo. Não é a primeira vez que ele faz isso.
Por que você não conversa comigo Sasuke, por que não me diz o que quer, por que não se abre comigo e me deixa aliviar um pouco da carga que você carrega? Eu sou o mais velho, não sou, então por que me sinto tão inútil em relação a ele? Droga, por que eu o deixei sozinho com meu pai naquela época? Eu não devia tê-lo abandonado.
— E tem mais, a sombra de Sasuke está perseguindo o pobre garoto. — vi que Shisui corou com minha fala, mas resolveu focar no assunto que estávamos discutindo. — Para todo lugar!!!
Arregalei meus olhos de novo, mas pigarreei quando o garçom trouxe os nossos pedidos. É bem pior do que eu imaginava. Eu vou ter que intervir de novo.
— Não posso deixar que ele continue com isso, Shisui, você sabe o que Sasuke fez com Karin. Você lembra em que estado ela está até hoje. — abri o refrigerante e servi nossos copos — Com Naruto vai ser bem pior, eles têm um passado conturbado, sabe que o lema de Sasuke é nunca ficar devendo um favor a ninguém.
— Naruto não quer nossa interferência, Itachi. Se ele não estiver apaixonado, não está muito longe disso.
Arqueei as sobrancelhas.
— E você acha que ele é capaz de lidar com Sasuke, sozinho? — falei com certo deboche.
— Eles não se conhecem, Sasuke não sabe nada pelo que Naruto passou, e vice-versa. Eles estão pisando em ovos. Mas de uma coisa eu sei, Naruto cativa TODO mundo. Escuta o que estou te dizendo, se ele quiser de verdade, Sasuke não vai ser exceção.
Sacudi lentamente a cabeça, minha mente se recusava a acreditar naquelas palavras, não depois de tudo o que eu vira ele fazer, tudo o que eu ouvira ele fazer. Ninguém, nem nossa amada mãe ou a filha por quem ele já disse que daria a alma pelo bem dela, o comocionou ao ponto de mudá-lo. Ele é irredutível. Diferente de mim, que fugi e me tornei algo que meu pai não queria, achando que assim estava conquistando o meu espaço, Sasuke bateu de frente.
Fechei meus olhos e senti um forte aperto em meu peito. Meu pequeno irmão, minha primeira grande paixão, por que ele se permite viver assim? Que tipo de prazer sádico e doentio é esse que ele sente em realmente ser diabólico?
— Não gosto disso tanto quanto você, mas não comece a se martirizar. E não me olhe assim, eu sei o que se passa nessa sua linda cabeça. Eles são adultos, Itachi. Só podemos tentar os aconselhar como “irmãos” mais velhos.
Sorri doloridamente para ele e suspirei. Não disse mais nada, aliás, nós não dissemos mais nada, comemos quietos, quase meditando. Ao fim, quando eu fui pagar a conta, uma chuva fina começou a cair lá fora. Arfei ao receber o troco e nós fomos para fora. Fitei as nuvens que começavam a lançar sobre a terra as suas lágrimas frias de tristeza. Também chovia quando eu fugi de casa, naquela noite tão fatídica. Era perto do Natal. Eu estava terminando o Ensino Médio e acabava de descobrir que eu amava perdidamente Shisui.
Meu pai me deu uma surra quando contei que queria pedir Shisui em namoro. Gays nunca foram bem vistos por meu pai. Minha mãe já não tinha forças se quer para me defender com palavras, de modo que me vi sozinho. Foi quando ele entrou na cozinha.
Num raio, seus olhos ardentes de fúria ensandecida, carregando sua espada de madeira, ele atacou meu pai e me defendeu. Ele sempre foi a favor do amor sincero, do amor vindo do mais profundo lugar do coração, quase divino e odiava todos aqueles que fossem contra esse sentimento, dito por ele, tão nobre e puro.
Meu pai era mais forte e acabou subjugando Sasuke, mas mesmo assim, ele continuou, impedindo-o de chegar até mim. Eu fugi covardemente ao som de seus gritos estridentes. Ele recebeu a surra por nós dois. Sasuke pagou e carregou a minha cruz para que eu pudesse ser feliz longe de meu pai. Por que eu não lutei pelo meu amor, como ele fez por mim? Por que eu fugi se esse sentimento era tão verdadeiro?
Peguei-me chorando. As lágrimas se mesclavam com a chuva caindo sobre mim. Eu não mereço amar Shisui, eu não mereço o amor de Sasuke, o que eu fiz? Kami-sama, se puder ouvir minhas preces, livre essa alma pura, esse jovem, livre Naruto do destino terrível que o espera.
— É tudo minha culpa….! — gemi com as mãos no rosto. — Fui covarde! Fui fraco! Fui tolo! — falei, apoiando-me na porta do meu carro.
— Itachi, a culpa não é sua, a vida de nenhum de nós foi fácil, especialmente a de Sasuke. Não se martirize, por favor, faz isso por mim. Eu não suporto ver você assim. — ele estava tão angustiado e isso fazia com que eu me sentisse pior.
Shisui se aproximou de mim e me fez virar o corpo, encarando-me. Seus olhos se conectaram aos meus e eu senti um arrepio intenso por meu corpo. Ele agarrou a gola da minha camisa com força e me puxou. Quando finalmente entendi o que se passava, nossos lábios estavam unidos, seus olhos estavam fechados. Minhas mãos foram para sua cintura e eu senti meu corpo esquentar, uma vontade intensa de tocá-lo. Arranquei fora as minhas luvas quando ele se afastou de mim e segurei seu rosto entre minhas mãos, puxei-o de volta para mim e beijei-o.
Há quanto tempo estou esperando por isso? Senti cada canto que os dedos de Shisui tocavam queimarem num leve formigar, seus lábios em contato aos meus provocaram uma sensação boa de calor e eu tive certeza, soulmates ou não, que eu havia nascido para ter Shisui.
A chuva se intensificara e nós nos soltamos. Fitei-o. Tão lindo, tão meu. Sorri como um adolescente dando seu primeiro beijo.
— Eu acho que o que eu vejo… — falei, afagando seu rosto — São os mais lindos olhos vermelhos do mundo. — recostamos nossas testas — Sasuke que disse que nossos olhos ficam vermelhos.
— Não acredito que você me fez esperar todo esse tempo. — ele me repreendia, mas nos seus lábios continha o mais lindo sorriso.
— Desculpe. – sussurrei, beijando-o de novo — Desculpe te ter feito esperar tanto. — abracei-o e sussurrei em seus ouvidos — Eu te amo, Uchiha Shisui, e sempre quis passar todos os meus anos com você. Eu sempre te amei e sempre vou te amar, por toda a minha vida, eu vou te amar, Shisui, mais do que a mim mesmo. — fitamo-nos — Quer ficar comigo para sempre?
— Pensei que você fosse mais inteligente. Porque está me fazendo uma pergunta na qual já sabe a resposta? — ele riu. — É óbvio que sim. E eu também te amo, seu idiota!
Sorri. Busquei algo em meu bolso que desde os meus 20 anos, quando recebi o meu primeiro salário, eu carregava. Peguei minha carteira, abri-a e sorri de lado, ofegante.
— Vou fazer isso direito. — as pessoas já se aglomeravam nas vidraças e nas vitrines, nos assistindo, de certa forma. Respirei fundo e me ajoelhei. Fitei-o e retirei de dentro da carteira o anel que comprei para ele, quando decidi que com ele eu queria ficar. — Uchiha Shisui, eu sei que demorou muito tempo para eu lhe pedir, mas aceita se casar comigo?
— Se eu aceito casar com você? Kami-sama, sim! Sim! SIM!!! Pode ser agora? — seus olhos estavam marejados e ele sorria como se não houvesse amanhã.
Coloquei o anel em seu dedo, abracei-o e rodopiei com ele na calçada. As pessoas começaram a nos aplaudir fervorosamente e nós ficamos um pouco constrangidos. Entramos no carro e eu fui deixá-lo em casa. De certa forma, eu ainda tinha que conversar com um juiz de paz para firmar a nossa união, além de contar para o diabo.
Ainda no carro, algo me ocorreu. Algo que me fez sorrir, uma ideia louca, que talvez desse certo se nós, eu e Shisui, a puséssemos em prática. E só para constar, meus bancos vão ficar com um cheiro de mofo desgraçado amanhã.
— Conte a ele. — eu disse de repente.
— Ele quem, Itachi? — vi confusão em seu rosto.
— Amanhã eu irei conversar com um juiz para resolver nossa união, aproveite esse tempo e conte a Naruto sobre nós. — eu disse, o vendo corar. Então isso é ficar com o rosto corado? Eu gosto.
— Ele vai saber de qualquer jeito. O que você está maquinando? — ele estreitou os olhos
— Claro que ele vai ficar sabendo do casamento. Eu quero que fale sobre o nosso passado, o motivo de não termos ficado juntos antes. Conte a ele. — sorri — Talvez isso motive Naruto a seguir em frente ou a desistir. — observei a rua, eu ia devagar por causa da chuva — Se Naruto entender pelo menos a nossa situação, que é, com toda certeza, a menos complexa que a família Uchiha já passou, então eu acho que vai clarear um pouco a mente dele.
Parei de frente a sua casa e fitei-o. Shisui pensava seriamente sobre o que eu dissera. Ponderava cada possibilidade, cada situação e suas consequências, isso eu sabia só de olhar para seus olhos piscando rapidamente e de vez em quando se estreitando.
— Era disso que eu estava falando, você não é chamado de gênio à toa! Prevejo muitas possibilidades. – sorriu – Ah! Tente descobrir o que Sasuke anda aprontando. Talvez para você ele fale… Ou não, do jeito que ele não gosta de falar o que sua mente maquina.
— Não precisa que eu pesquise. Daqui para amanhã o mundo inteiro vai ficar sabendo do escândalo. — falei seriamente, apesar do meu sorriso.
— As fotos? Sério? — ele parecia espantado.
Sorri, afagando seu rosto e neguei.
— Lembra que ele comentou que tinha uma filial com prejuízo financeiro? — Shisui assentiu — E que a causa disso era o desvio de verba? Parece que os Hyuugas estão envolvidos nisso. Você sabe como Sasuke e os gêmeos se amam profundamente. — falei rindo ironicamente.
— Porque as coisas acontecem todas de uma vez?! — ele estava muito indignado.
Suspirei. Shisui tem razão, mas Hiashi não era idiota. Desde o escândalo com Hinata que ele anda buscando meios de se vingar de Sasuke de forma pública.
— Hiashi e Hizashi se aproveitaram da debilidade dele nesses meses, de seu afastamento, para agir e colocar a culpa em cima de um dos gerentes. São espertos, esperaram pelo momento certo para atacar, o problema é que eles não esperam um contra-ataque ao estilo diabo.
— Sabe o que eu não entendo? Porque as pessoas ainda insistem em se meter com Sasuke. Todo mundo sabe do que ele é capaz. Ele já deu vários exemplos. — ele negava com a cabeça.
— Porque ninguém se conforma que Uchiha Sasuke seja feliz sendo quem é.
Essa que era a verdade. Ninguém quer ver os Uchihas felizes e por isso procuram encrenca conosco. Antes, quando éramos numerosos como os Hyuugas, o fogo cruzado era interno, mas agora que só restamos nós dois, Sasuke e Maiko, o fogo é a nível internacional. Não sei se por sorte, ou por azar, temos Sasuke.
— Me lembra de agradecer a ele depois, Shisui. — comentei entrelaçando a mão do anel na minha.
— Pelo que dessa vez? — ele arqueou uma sobrancelha.
Eu ri. “Dessa vez?” eu tenho tantas razões para agradecê-lo. Mas por hora, será só por essa.
— Por garantir que nós pudéssemos ficar juntos. — beijei sua mão — Se Sasuke não tivesse feito o que fez naquela época, eu morreria te amando e sem nunca te tocar.
— Vou lembrar sim, mas acho que você deveria agradecer a mim também. Porque você é muito lerdo, homem! — ele me imitou e deu um peteleco na minha testa.
— Minha forma de te agradecer é te amar todos os dias intensamente. — sorrimos — Marque algo como um passeio no parque com Naruto, depois que resolver com o juiz eu irei me encontrar com vocês… Vamos ver o que podemos fazer por Naruto.
Shisui assentiu. Nos beijamos e ele saiu do carro. Depois que ele entrou em casa, eu zarpei para o meu apartamento. Assim que cheguei em casa, fui tomar um banho e colocar as roupas molhadas para secar. Depois de vestido em meu pijama de dormir — camiseta e short bem leves — mandei uma mensagem para que Sasuke ficasse online no Skype.
Ele me pediu para esperar cinco minutos. Assim o fiz e cinco minutos depois eu liguei o computador, esperei o programa iniciar e procurei pela conta dele. Estava online. Chamei-o para uma vídeo conferência e esperei. A tela preta deu lugar ao cenário do quarto de Sasuke, ele estava deitado na cama, fumando um cigarro e bem a vontade numa camisa cavada.
— Como vamos? – perguntei, rindo.
— Do jeito que você está vendo.— é, ele parece furioso.
— Quer ouvir uma boa notícia?
— Estou precisando.— ele apagou o cigarro no cinzeiro e sentou-se melhor na cama.— Fala.
— Shisui e eu somos soulmates.
Ele ficou quieto, com os olhos arregalados e aos poucos um sorriso foi aparecendo em sua cara, até que ele começou a rir folgadamente, batendo palmas.
— EU SABIA, PORRA!!!— ele gritou — SABIA!!! SABIA!!!— ele ergueu os braços em comemoração — VOCÊ ME DEVE DEZ MIL DOLETAS, ITACHI!!!
Eu desatinei a rir esfregando meus cabelos soltos. Ele ainda lembra dessa aposta mais velha que a estrada? Assenti e nós rimos.
— Quer ouvir outra boa notícia?
— Qual?— ele respirou fundo, tomando fôlego.
— Eu pedi Shisui em casamento e ele aceitou.
— PUTA QUE PARIU!!!!— ele gritou a plenos pulmões e acabou derrubando o computador. Eu pude ver pela câmera invertida que ele corria para todo lado no quarto, rolava pelo chão, dava mortais e cambalhotas, pulava e gritava de felicidade. — CARALHO!!! ISSO AÍ, PORRA!!! CHUPA FUGAKU!!!!— ele gritava estirado no chão e sacudindo as pernas.
Sasuke parou, ficou que nem estrela no chão, só respirando e depois se ergueu, veio até o computador, endireitou-o e me fitou. Meu irmãozinho chorava e sorria ao mesmo tempo.
— Meus parabéns, aniki.— ele sussurrou. Foi como um golpe no meu coração. Desatinei a chorar e sincronizadamente nós recostamos nossas testas na tela, como sempre fizemos de verdade. Deve fazer uns vinte anos que ele não me chama de aniki.— Você merece ser feliz… Merece toda a felicidade do mundo, aniki, todo o amor que Shisui pode lhe dar. Que sejam felizes para sempre, por todas as vidas que vierem, até que os tempos se acabem.
— Você também vai encontrar...
Ele ergueu uma mão.
— Eu sou feliz, Itachi, acho que sou o homem mais feliz do mundo, porque tudo o que eu sempre quis se realizou, ao seu tempo e como era para ser.— ele enxugou suas lágrimas e fitou algo além do computador — Mai-chan! Vem cá.
Ouvi a menina se aproximar e pular do colo do pai.
— Tio Itachi!!!— ela sorriu.
— Oi, linda!
— Adivinha, Mai-chan.— os dois se fitaram — Tio Itachi vai se casar.
Ela arregalou os olhos.
— Com o tio Shisui?— Sasuke assentiu.
Como é? Maiko já sabia? Sasuke piscou um olho e Maiko saiu de seu colo, começou a gritar e comemorar. Meu irmão disse que queria que eu visse uma coisa. Ajustou o computador e ele e Maiko foram para o meio do quarto. Começaram a pular e a rodar em comemoração pelo nosso casamento, fizeram uma dancinha engraçada, muito estranha, depois rolaram pelo chão e pularam mais um pouco de mãos dadas. Tal pai, tal filha.
— Diz ao tio Shisui que eu estou feliz!— ela riu — Porque vocês vão ser felizes!
— Isso mesmo, Mai-chan.— Sasuke completou abraçando a menina.
Depois de mais alguns minutos de conversa, desligamos e eu fui dormir. Pela primeira vez, em anos, dormir sorrindo, dormir tranquilamente, pensando em tudo o que Shisui e eu abrimos mão para poder finalmente chegarmos a esse momento. Obrigado Kami-sama, obrigado Sasuke.
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