Cores do Meu Coração
36 Teme 13.2 - Titãs? Não, apenas homens - Parte 2
E como se fosse por capricho dos deuses os dias passaram voando velozes como foguetes. Então, quarta-feira chegou e eu estava dirigindo para a casa de Naruto, ia de Pajero Full preto da Mitsubishi para ser mais discreto. Era de manhã, havia pouco trânsito e poucas pessoas na rua, seu bairro estava bem tranquilo àquela hora do dia. Naruto me avisara que a sua consultoria estava disponível naquele horário. É um bobo mesmo.
Sinto que passar um dia com Naruto vai ser bom para a minha cabeça.
Parei diante de sua casa e buzinei, esperando que ele aparecesse. Saí do carro, ao vê-lo sair de casa, sorri de lado ao me colocar de frente a porta do carona e franzi as sobrancelhas quando vi que em seus braços estava o gato do capeta. Não, não é um trocadilho infame comigo não, esse gato é do cão mesmo. Naruto se aproximou e estendeu o gato para mim.
— Que foi? — perguntei, sem descruzar os meus braços.
O gato estava com uma cara de quem passou uma vergonha que jamais será esquecida.
— Ele quer pedir desculpas pelo arranhão no olho e claro, pelo resto. — Naruto deu de ombros e moveu os lábios, sem verbalizar: “Mandei contar as unhas dele”. Depois piscou um olho, sorrindo de forma convencida. Eu ri tenebrosamente, quase querendo pegar as patas dele e dá uma olhada nas unhas “feitas”.
Tirei meus óculos e exibi minha mais nova cicatriz, fazendo Naruto arquear notavelmente os olhos e fitar furiosamente o gato. Sorri de lado, pois eu não me importava com aquela cicatriz, na verdade eu ficara ainda mais sexy e perigoso com ela. Meu olhar, diziam, ficara mais feroz quando eu me irritava graças aquele arranhão que ia da altura da minha sobrancelha até o começo da minha bochecha direita. O que eu posso fazer? Sou lindo de todo jeito.
— Desculpas aceitas. — falei, depois de ouvir o miado falhado de Kurama — Aliás, obrigado, bichano, graças a você eu estou mais lindo do que jamais fui. — mandei um beijo para ele. O gato se retraiu, deu um jeito de saltar dos braços de Naruto e correr para dentro da casa do loiro. — Esse gato me ama, pode falar.
— Não é por nada não, mas ninguém te ama de cara! — Naruto tentava segurar o sorriso.
— O ódio é uma das maneiras mais fortes de se amar. — falei, piscando um olho antes de colocar os óculos e abrir a porta para ele entrar.
— Isso quer dizer que você é um poço de amor? — ele fingiu espanto enquanto adentrava no carro.
— Depende. — fechei a porta e contornei o carro, para então entrar — Tem gente que não pensa que nem você e me acha um babaca de coração de pedra. — por que raios eu estou me lembrando de Shino e de Yahiko? Eita ferro, Sasuke, pode parar, hoje o dia é para sua menina! — Mas posso ser um poço de amor, quando quero. — contornei, sorrindo de lado.
— Você pode? — riu e fingiu enxugar uma lágrima imaginária. — Olha, eu quase acredito na piada. Sério, você quase me pega dessa vez.
— Quer que eu te prove? — recostei-me no banco, depois de ligar o ar e o rádio. Arqueei uma sobrancelha e sorri ainda mais. — Eu sou um pai amoroso, sou um irmão amoroso, sou um primo amoroso, sou um amigo amoroso e… — dei de ombros, desviando brevemente o olhar — Posso ser um amante amoroso também. Logo, sou um poço de amor.
— Certo… certo. — ele virou o rosto para a janela, tentando esconder seu rubor. — Só falta você me contar seus segredos mais íntimos e depois trançar meu cabelo.
Eu gargalhei alto.
— Duas coisas. — toquei seu queixo e o fiz me fitar. Suas bochechas ainda tinham um leve corar. — Meus segredos só podem ser revelados para a pessoa a quem eu confiar a vida da minha filha. E… Seu cabelo não é tão comprido assim para tranças.
Afaguei-o distraidamente e quando percebi, minha mão estava fazendo cafuné em sua nuca, como eu fazia quando estávamos juntos. Nos olhamos e o azul de seus olhos brilharam de tal forma que eu pensei que eram dois pedaços do céu que um dia foi azul para mim. Minha mão foi escorregando por seu rosto e eu acariciei sua bochecha, pousando levemente um dedo em seus lábios, passando-o ali, relembrando de muitas coisas: algumas relacionadas a Naruto, outras não. Ele fechou os olhos e franziu o cenho, numa expressão sofrida. Depois os abriu, me fitando com quase desespero. Por favor, não me olhe assim, minha mente sussurrava, não assim.
Eu já disse e vou repetir sem medo: sinto falta de beijar Naruto. Afaguei a lateral de seu rosto com as costas das mãos, sentindo a textura macia e bem cuidada de sua pele, sem conseguir parar de olhá-lo nos olhos. Esses olhos enormes que brilham para mim a cada piscar, como se fossem estrelas na negritude do meu céu.
— Eu queria te beijar… — eu disse num sussurro. — Mas sei que não posso… Você sempre é fiel as pessoas com quem se envolve, mas… — passei novamente um dedo em sua boca — Eu queria muito te beijar.
— Não faz isso, Sasuke… — olhou para qualquer lugar, menos para mim. — Por favor… Me ajuda.
Tirei a mão de seu rosto e suspirei. Bom, esse é mais um sentimento com o qual tenho que lidar sozinho. Não tem uma música que diz que cristal quebrado não cola jamais? Pois é.
— Desculpe. Vou me controlar, não se preocupe. Prometo não fazer nada que te deixe… — fitei-o. — Assim. — liguei o carro e fitei o trânsito, para poder sair.
Não posso obrigar Naruto a fazer o que eu quero por mais que eu tenha poder para isso. Nós decidimos que seria uma amizade, então será uma amizade. Fui eu mesmo que cheguei a conclusão que as coisas não dariam certo entre nós, simplesmente não posso me deixar levar por meus ímpetos carnais. Por mais que eu sinta falta do calor emanado pelos lábios de Naruto, eu não posso me deixar levar, eu tenho que ser forte, como sempre fui.
— Tudo bem… — suspirou e sorriu, de forma forçada. — Então, para onde vamos?
Apertei o volante e suspirei. Sério, não está dando! Droga, perdoe-me, Naruto, mas não está dando! Virei-me para ele, joguei os óculos no banco de trás, desligando o carro no ato, e coloquei minha mão em sua nuca, trazendo sua boca para a minha. Lambi de leve seus lábios e ele demorou a ceder, mas logo aprofundávamos o beijo. Foi como um anestésico. Senti cada músculo do meu corpo relaxar quando sua mão veio ao meu peito e subiu para o meu rosto. Dei alguns selinhos, antes de fitá-lo e tornar a beijá-lo. Não sou um homem de mentir, nem de esconder, então admito: foi simplesmente delicioso beijá-lo.
— Eu estava precisando, Naruto. — sussurrei, afagando seus cabelos — Não vou me desculpar por isso, porque estou pouco me lixando para o seu relacionamento com Shino. — suspirei e abri meus olhos, sentindo-os arder. — Eu realmente estava precisando te beijar.
Ele revirou os olhos e sorriu, sincero, dessa vez.
— Melhorou? — perguntou, passando os dedos em minhas bochechas.
— Sabe que sofro de insatisfação crônica… — observei cada ponto de sua pele e me recordei que em algum momento eu tocara e deixara marcas por ali. — Um beijo seu, por mais delicioso que seja, nunca é suficiente. — arfei. Droga! Estou indo por caminhos errados! Cadê a porra do meu controle que estava bem aqui?!
Ele estreitou os olhos e me empurrou.
— Idiota! — resmungou, levemente irritado. — Pois vai ficar só nesse beijo mesmo. Agora dirigi logo essa porra antes que eu volte para casa! — cruzou os braços e virou o rosto para fitar a janela.
Meneei minha cabeça negativamente.
— Só porque eu disse que eu queria muito mais de você, não disse que vou te atacar, moleque. — liguei o carro e zarpei. — Não sou idiota. — abri um sorriso largo — Estamos no meio da rua.
Eu realmente preciso relaxar e Naruto tem essa influência sobre mim.
— Eu vou fingir que nada aconteceu e que você não disse isso! — voltou a me encarar, com os olhos furiosos.
Eu ri um pouco e relaxei no banco, tomando os caminhos para o nosso destino. Fomos para o shopping. Pensei de ser um bom lugar para começar uma busca pelo presente ideal para a minha filha e, talvez, fosse o lugar certo para inspirar Naruto. Ele tem dessas, de se inspirar com um lugar que ele sente uma “vibe diferente”.
— Desculpe… Eu estava precisando descontrair… Só você para me tirar do sério — fitei-o rapidamente, sorrindo. — No bom sentido. Parece que você... — parei no sinal. — Me lembra que eu sou só um homem. Desculpe, eu não quis ser… Como posso dizer? — franzi o cenho, pensando um pouco. — Indelicado com a sua situação ou a nossa situação atual. — disse por fim.
— Não tem nada de indelicado com a nossa situação atual, você que é esquisito! — falou sério, depois olhou para mim e começou a rir. — Vai, esquece isso. Está tudo bem. — sorriu.
— A gente pode ter terminado, mas o papo é o mesmo. — acabei rindo. — Não mudou nada o jeito como falo contigo e o jeito que você fala comigo.
Chegamos ao shopping e eu segui para estacionamento superior. Dei uma duas circuladas antes de achar uma vaga. Estacionei o carro e descemos, seguimos para o elevador, que eu não sei porque, estava vazio. Cruzei meus braços e fiquei olhando os números dos andares mudar.
— Acho que eu também precisava… — falou, de repente, num tom culposo.
Fitei-o.
— Que merda, não é? — suspirei, rindo, meio cansado — Os deuses devem estar jogando pôquer com as nossas almas para estarmos assim. — arfei e dei de ombros, me aproximando dele enquanto o andar onde desceríamos se aproximava. — De toda forma, tente não se culpar, como fazia antes. Certas coisas fogem da nossa alçada.
— Foi você que me beijou, claro que não vou me culpar! — revirou os olhos e riu.
Eu sorri e dei um empurrão leve nele usando meu ombro, só para mexer com ele.
— É por isso que eu sou o diabo. — sussurrei e a porta do elevador abriu — Tudo é culpa do diabo.
Saí rindo baixo de minhas próprias palavras. O shopping estava um pouco vazio, parece que as pessoas resolveram ou se enfiar em seus prédios de trabalho, ou ficaram em casa. Dei de ombros e esperei Naruto.
Logo começamos a andar pelas lojas. Mesmo que eu não sinta que foi errado terminar com Naruto, pois realmente não sinto isso, algo dentro de mim não se conforma com essa situação, como se o término fosse só mais uma parte da nossa história. Isso mesmo, não minha ou dele, a nossa história. Eu sentia que o círculo em minha alma que se tratava de Naruto ainda não se encerrara, ainda não se fechara, estava apenas esperando “o tempo certo”.
— Pretende fazer festa de aniversário? — ele me indagou quando paramos diante de uma loja de artigos para festas.
— Não. — falei, observando uma mãe entrando em outra loja com a filha pequena.
— O que ela gosta de fazer? — ele me olhava com curiosidade.
— Ela é bailarina. — comentei, vendo uma perfumaria e meneando a cabeça negativamente. — Ela me disse que quer ser a próxima Ana Botafogo quando crescer. — suspirei. — Ela dança desde os três, quando assistiu Barbie e o Quebra Nozes.
Eu tive que rir da cara de espanto que ele fez.
— Que foi? — perguntei, apertando o seu nariz de leve.
— Você disse três? — seu queixo continuava caído.
— Sim. — dei de ombros — Você acha que a primeira coisa que eu fiz foi dar um celular a ela? Quando ela aprendeu a ler e a escrever? Claro que não, Maiko é uma criança de verdade. — suspirei, inconformado com a falta de opções que aquele lugar exibia.
— Para de ser tão rabugento, teme. — ele resmungou. Franzi o cenho. Por que é que ele está me chamando de teme? Ele pensa que eu gostei desse apelido? — Acho que tive uma ideia. Só escuta. — seus olhos brilharam. — Você é rico e tem influência, se aproveite disso. Leva ela para um lugar legal. Contrata os ídolos dela, do ballet, quero dizer. E daí eles fazem uma performance surpresa. Tipo um flashmob… Sabe?
Levantei uma sobrancelha.
— Não dá. — suspirei, cruzando os braços.
— Por que não? — perguntou, chateado.
— Já tentei. — olhei para uma loja de brinquedos — Não tem como eu trazer esse pessoal todo e fazer a surpresa, por isso eu havia planejado a viagem. Mas aí… — movi meu pescoço, estalando os ossos bem alto, assustando um pouco Naruto. Só de pensar na raiva que eu senti, me dá vontade de matar um. — Deu no que deu. E agora, eu não sei o que fazer.
A derrota é foda, muito foda.
— Certo, já entendi. Vou pensar em algo, só continua falando dela.
Assenti e levei-o para um café, para podermos conversar melhor.
— Maiko conhece a mãe, mas a despreza. — falei, depois de pedir um extra forte para mim. — Ela disse que sua mãe lhe dá medo e que não quer vê-la. Não foi minha culpa, antes que pense isso, na verdade eu tentei criar todo um clima para mãe e filha, mas Maiko é muito sensitiva, ela disse logo de cara que tinha medo dela e quando era bebê, Maiko sempre chorava nos braços da mãe, choro desesperado, sabe? Então ela basicamente gosta de tudo o que me diz respeito. — falei, fitando-o e sorrindo meio a la Gioconda.
— É óbvio. — ele revirou os olhos. — Você é a soulmate dela. Não se espera menos que isso.
Sorri de lado.
— Não, meu caro. Maiko não gosta de mim porque sou soulmate dela. — afaguei de leve as costas de sua mão com o indicador. — Ela só… Me ama, exatamente como eu a amo. Só isso.
Esperei sua reação.
— Hum… Certo — ele olhou para a mão que era acariciada com o cenho franzido. Não exatamente desconfortável, só parecia confuso com algo.
Afastei-a para mexer no copo de café e tomei um longo gole. Não queria embaralhar o que já estava dando nó em sua cabeça. É só que eu gosto de tocar Naruto, só isso. Então ele sorriu, como se algum pensamento feliz se passasse em sua mente. Seu sorriso emanava luz, uma luz agradável, como aquela do sol nas primeiras horas dos dias.
— Eu tive uma ideia meio doida, não sei se dará certo. — falei, olhando para o café girando dentro do copo. — Se você quiser, pode até participar. — ergui meu olhar, mas ele não me encarava como eu esperava.
— O que você pensou? — ele demorou a dirigir o olhar para mim e quando o fez, seu rosto era adornado por um sorriso pequeno, como se ele estivesse forçando.
— Tem um lugar que Maiko sempre quis ir, mas eu nunca pude levá-la, por ser perigoso. — comecei. — Eu costumava ir quando era moleque, ia de noite para ver o sol nascer. Pensei em mostrar aquele lugar para ela, compartilhar um pouco dessa parte da minha vida que me foi agradável.
— Acho que ela vai adorar. — ele falou suavemente, depois voltou a sorrir de forma sincera.
— Quer ir?
Sim, minha pergunta foi inocente, sem nenhuma conotação maligna que eu sei que permeia a mente de vocês. Não os culpo, eu sou eu, e de quebra, eu sou o diabo. Eu só acho que Naruto precisa recarregar as energias, pois também passou por momentos difíceis esses últimos dias. Quem sabe isso não dá uma guinada no novo relacionamento dele? Quero dizer, ele pode achar o lugar romântico e levar o cara lá, para depois me agradecer. É isso que os amigos fazem. Querem ver os outros felizes.
— Não sei, Sasuke… — ele mordeu os lábios e os soltou rapidamente enquanto seus olhos arregalavam, depois olhou para a mesa com especial interesse. — Desculpa! — sussurrou.
— Tudo bem. Eu vi que foi sem querer. — afaguei seus cabelos com força, bagunçando-os e provocando risos nele. — Quer ou não quer ir, Uzumaki Naruto? — fingi seriedade.
— Você não acha que ela preferia ter o pai só pra ela, pelo menos nesse dia? — sua preocupação era muito sincera.
— Tudo bem, então, Naruto. — sorri mais. — Te mando as fotos. É o Monte da Cascata de Fogo. Devia ir lá numa oportunidade qualquer. Garanto que não vai se arrepender se for nos pontos certos do monte.
Depois de Naruto se decidir sobre qual presente daria a Maiko, — ele estava indeciso entre cinco e resolveu escolher os cinco sem levar em consideração minha opinião, mas eu nem liguei, afinal eram coisas para uma casa de bonecas — finalmente fomos almoçar. Como eu o convidara para me ajudar, nada mais justo do que agradecer com o quê? Óbvio: ramén. Fomos para o Ichikaru, que também estava vago.
— Que coisa mais esquisita… — murmurei, comendo um sushi de polvo — A cidade está vazia.
Mal terminei de falar e os nossos almoços chegaram. Em virtude da amizade que o dono tem com Naruto e da ditadura alimentar, vulgo dieta, que Shisui impôs a ele, o cozinheiro criou uma “modalidade” de ramén totalmente saudável, leve e afins. Para a tristeza da criança, só não acompanhou porco porque ele não podia comer porco tantas vezes ao mês, apesar de ser uma carne branca, mas, pelo menos, ele podia comer seu amado rámen.
Para mim? Guioza. Meu corpo é mantido na base da surra e do sofrimento, não na falta de comida. Continuei comendo meus sushis, sem parar de olhar para a rua, intrigado com o fato de ser mais de meio-dia e o trânsito está parecendo domingo de manhã em cidade pequena.
— Será que é porque eu estou fora da jaula? — comentei baixo, apoiando meu queixo na mão que segurava os hashis.
— Cara, você ‘tá muito zuado mesmo. — Naruto me encarou, surpreso. — Amanhã é feriado da cidade, provavelmente as pessoas já viajaram para algum lugar bem longe daqui.
Sabe qual o mal de ser um CEO foderoso? Você se esquece do Triplo F: fim de semana, feriado e férias. Pisquei algumas vezes e suspirei.
— Que bom… Já estava achando que a notícia se espalhara e todo mundo tinha fugido.
Naruto revirou os olhos e resolver comer por um tempo. Depois suspirou e voltou a falar.
— Acho que você fala assim justamente para se convencer de que é muito mal.
— Bom… As pessoas teriam medo de mim se soubessem que matei doze pessoas. — falei baixo, dando de ombros, mesmo não tendo ninguém perto de nossa mesa. — Você não teria e não acharia que sou um serial killer? — baixei meu olhar para o prato e tornei a comer.
— Eu estava lá, Sasuke, esqueceu? — sussurrou, olhando para os lados, desconfortável. — Ainda não entendo como você não foi parar na cadeia… Kakashi? — ele levantou e arrastou sua cadeira mais para perto, acho que com medo que alguém ouvisse.
Olhei-o um pouco surpreso com sua atitude. Dei de ombros e continuei comendo normalmente. Sou uma pessoa de poucos arrependimentos, então não tenho porque agir de modo estranho.
— Mais ou menos. Ele teve sua parcela de culpa no fato de eu estar em liberdade. — fitei-o. — Mas eu não fui preso porque… — cocei meus cabelos. — Bom porque eu entrei em acordo com a pessoa que queria me processar pela morte de Yahiko.
Eu sei que Naruto presenciou uma manifestação tinhosa do meu lado mais obscuro, mas é justamente por isso que evito comentar. Não quero lembrá-lo de algo assim. Provavelmente Naruto nunca se deparou com a morte brutal, pelo menos até aquele dia.
— Alguém fazia questão que aquele imbecil estivesse vivo?! — perguntou, horrorizado. — Quem?
— A mãe. — eu disse olhando-o de lado.
Fora um dia bem tenso quando aquela senhora me apareceu, chorosa, exigindo justiça. Kakashi e eu ficamos desconsertados, sem saber como lidar com a situação. Quero dizer, a mãe do cara que rodava o mundo causando problemas me procurou pedindo por justiça ao seu filho morto. Eu sou pai, imaginem na sinuca que eu fiquei.
— Dona Makio tentou de tudo para fazer Yahiko sair daquela vida, mas infelizmente ela não foi bem sucedida, assim como papai e mamãe. — remexeu um pouco do rámen e me fitou, com um sorriso triste. — Logo na época que eu comecei a trabalhar para Shisui ouvi dizer que a pobrezinha tinha caído em profunda depressão… Bem, ela não merecia o filho que tinha. — deu de ombros. — Mas e então, o que aconteceu? — perguntou e voltou a comer.
— Ela chegou chorando no meu escritório… — não sei se ele vai acreditar em mim, mas aqui vou eu em mais um relato. — Eu estava revisando algumas coisas com Kakashi. Veio chorando, mas determinada no que queria. Disse-me: “Se não me der metade das suas posses e as ações da Rebú, vou denunciá-lo pelo assassinato das doze pessoas e ainda alegar que foi um atentado terrorista, dadas as explosões, e nunca mais vai ver sua filha enquanto viver”. — fitei-o. — E ela saiu dizendo que voltaria em três dias para fazer as transações. Eu fiz as contas… Eu pagaria doze perpétuas, daria um total de 600 anos de cadeia. — comecei a comer os guiozas.
— Credo! Nunca imaginei que ela faria algo do tipo… — ele me fitou, preocupado. — Como vocês conseguiram desdobrá-la? — Naruto começou a morder o hashi, claramente ansioso.
Eu olhei-o e ele estremeceu com meu olhar sombrio.
— Eu fi-la conhecer o próprio filho. — arqueei lentamente um sobrancelha e cruzei os braços. — Naruto, você sabe que meu mundo é Maiko e se alguém a ameaça, está pedindo para ser jogado no inferno na base da porrada. Eu não perdoei nem aquela mulher. Três dias depois, ao invés de ela se deparar com os papéis da transação, ela se “deparou” com mais de trinta pessoas que foram irreversivelmente prejudicadas por aquela coisa que ela chamava de filho. Pais que perderam seus filhos, filhos que perderam seus pais, esposas que perderam maridos, maridos que perderam esposas… Pessoas que nunca mais se recuperaram financeiramente… Mostrei a ela um documento policial que constava ser uma lista de mais de 397 denúncias contra a gangue de Yahiko. Cinco delas eram de seus pais, Naruto, e todas elas envolviam… — fitei-o e engoli a minha fala. Saí metralhando as palavras, dada a raiva que me acometera, eu esquecera o filtro para situações delicadas, mas já comecei, tenho que terminar — Abuso infantil.
Ele olhou para sua tigela e voltou a remexer o rámen. Respirou fundo e voltou a me fitar.
— Por mais que eu os entenda… — deu de ombros. — A decisão foi minha.
— E eu que sou o babaca depois. Você tinha 13 anos, o que sabia sobre o amor? — meneei a cabeça negativamente — Tenho 36 e nunca aprendi a amar as pessoas… — murmurei e dei de ombros, tomando um gole de água — Depois que eu mostrei tudo isso a ela e ainda disse que o Yahiko havia tentado te atacar de novo e já havia mandado me matar, Dona Makio desistiu do processo, eu vi em seu olhar a derrota. Mas ela me disse algo que… Eu concordo plenamente e isso me fez dar a ela 5 milhões de indenização. — suspirei. — “Eu tinha que tentar, Sr. Uchiha, tinha que tentar me vingar do senhor, porque a ferida de perder um filho, por mais ruim que ele seja, jamais fecha e jamais para de doer.” — olhei-o e sorri. — Por mais que o filho diga não, nós nunca deixamos de tentar protegê-lo, de tentar cuidar dele, de tentar… Amá-lo a cada dia. — os olhos dele se arregalaram e eu sorri. — Como pode ver... — apontei para mim mesmo. — Não preciso te contar os resultados daquela reunião.
Naruto terminou de comer, quieto. Depois me olhou com o canto do olho, meio desconfiado. Lá vem coisa, e vindo de um Naruto desconfiado, é conversa de defunto velho.
— Sabe o que não entendo? — me fitou, confuso. — O porquê. Por que matá-los se você poderia só ter os nocauteado? Quer dizer, você é quase um ninja!
Por que eu matei aquela gente? Como é que eu vou explicar o surto? Cocei meus cabelos e cruzei os braços, me recostando na cadeira.
— Como é que eu posso te explicar… — suspirei e me levantei, indo para a janela perto de nossa mesa para que eu pudesse fumar. Acendi um cigarro e fitei-o. — Foi instinto assassino. É mais forte que o meu controle. Só precisei de uma fagulha para entrar em chamas. — dei um trago.
— E a fagulha foi… ? — gesticulou, para que eu continuasse.
— Ciúme. — eu disse e o olhei. Vi pelo reflexo em seus olhos que os meus tinham um leve brilho rubro. — Eu era seu namorado na época e se tem uma coisa que me deixa possesso são as pessoas tocando no que é meu. O que é meu é meu e ponto final.
Naruto ficou me olhando boquiaberto, como um idiota retardado. Soltei lentamente a fumaça e desviei meu olhar. Eu não falei que era defunto velho? Naruto remexe em cada coisa que está quieta, deuses, qual o sentido de entender por que eu faço isso ou aquilo? Olhei-o por um breve momento e vi o quanto ele se sentia desorientado.
— Isso é muito ruim, Sasuke… — resmungou, angustiado. — Isso não ajuda...
Franzi o cenho.
— Do que está falando, Naruto? — sério, agora eu entendi a estranheza do mundo e posso ver com clareza. Não é o mundo que está vazio. É Naruto. Ele está oco. Está tão denso em sua alma que eu consigo ver praticamente uma névoa ao se redor. E o mundo está simplesmente reagindo a isso: Naruto está deixando suas energias fluírem de tal maneira que o universo está captando, como acontece comigo quando perco o controle.
— Estamos ligados para sempre… — falou, baixinho, depois de respirar fundo e começar a arranhar a mesa com a unha, como se tentasse tirar alguma sujeira inexistente.
Franzi o cenho e joguei o cigarro incompleto do lado de fora, sentei-me na cadeira e o fitei.
— Quem te disse isso? — perguntei seriamente.
Ele sorriu, daquela forma forçada de novo.
— Você. — riu, amargo. — Quer dizer, sua sombra.
Aí eu deixei todo o meu corpo pesar por cima da mesa, ao me dar conta do que acontecera. Então não fora um sonho zuado. Eu estava “bisbilhotando” de novo.
— Foi inconsciente, Naruto. — comentei. — Eu estava dormindo na hora… — eu vi um brilho de decepção em seu olhar e desviei o meu para os meus dedos. — É uma verdade, no fim das contas, soulmates estão ligadas pelas vidas que virão, infinitamente… — calma agora, Sasuke, use o filtro nessas palavras. — Por mais que estejamos separados… Estamos juntos, entende?
— É… Estamos. — resmungou. — Com licença, Sasuke. — se levantou e se dirigiu até o banheiro, atordoado.
Eu vi tudo, eu senti tudo e pela primeira vez em anos, eu senti arrependimento por tudo o que eu dissera a ele. Levantei-me para fumar outro cigarro e contemplar as nuvens e as ruas vazias. Não posso ficar correndo atrás de Naruto sempre que ele estiver ruim, por mais que isso me afete, nós somos soulmates, mas somos meros amigos ao acaso. Tivemos um relacionamento intenso? Talvez o mais intenso de todos, mas acabou, passou e eu tenho que me por em meu lugar. Naruto não… Ele não… Essa que é a verdade: Naruto não me pertence mais
Mas eu o visitei em sonho, eu o ajudei a livrar-se de uma enrascada, eu fiz o que fiz porque… Não tenho certeza ainda, mas provavelmente envolve um sentimento forte de proteção, semelhante aos que alimento por Itachi e Shisui. É como se… Só eu pudesse cuidar dele, como se só em minhas mãos ele acharia um porto seguro. Tenho que parar.
Alguns instantes depois ele retornou. Eu já terminara meu cigarro e estava simplesmente sentado, esperando-o retornar. Eu tenho que me tragar de novo, me engolir, me anular para não ferir Naruto enquanto ele não se acostumar com a ideia da separação.
— Tudo bem? — perguntei assim que ele se sentou e suspirou.
— Eu vou ficar bem. Não se preocupe. — afirmou e sorriu. — No final eu sempre fico bem, não é? — deu de ombros.
— Quer que eu seja sincero? — arqueei uma sobrancelha. Eu vi em seu olhar que não, que ele sabia a verdade e não precisava que eu repetisse. Suspirei, peguei sua mão e o puxei para fora do ambiente. — Cansei dessa áurea pesada! Somos homens, somos adultos e não somos retardados, chega dessa depressão toda! — fitei-o e sorri. — E daí o que os deuses nos reservou para o futuro? O que importa é vivermos o presente calma e sem pressa. — guiei-o para o meu carro, com um braço sobre seus ombros. — Vamos viver uma coisa de cada vez.
Ele só assentiu e finalmente fomos embora, para nossos cantos. Deixei-o em casa sob os miados ameaçadores de Kurama e fui me preparar para viagem da quinta. Tinha que pensar nos meios de levá-la e trazê-la em segurança, além de garantir que chegássemos a tempo de ver o sol nascendo e assim contar-lhe o significado daquele lugar para mim.
Foi um dos dias mais incríveis da minha vida. Seguindo por antigas trilhas que eu conhecia, só nós dois, sem celulares, problemas, pessoas nos importunando, só nós e a natureza, Maiko e eu finalmente chegamos a Cascata de Fogo. Era noite ainda, de modo que ela descansou e só acordou quando eu a chamei para ver as águas da cachoeira pegar fogo.
É um efeito interessante que os raios do amanhecer refletidos nas águas em movimentos provocam. Abrir meu coração para ela também fez todo o diferencial da viagem, bem como ouvir o que seu coraçãozinho de criança guardava. Só voltamos quase perto da hora do jantar, visto que me permiti passear pelo monte enquanto conversávamos sobre momentos meus da minha infância longínqua. Ela ouvia tudo com fascínio e atenção, dando palpites interessantes sobre as motivações que eu tivera para essa ou aquela atitude que eu contara.
Sem sombra de dúvidas, foi o momento pai e filho, nesse caso filha, que eu nunca tive e nem faço questão de ter tido, ainda mais levando em consideração o pai que eu tive. Mas, sem sombra de dúvidas, foi o melhor momento que tive com Maiko, somente superado pelos instantes seguintes ao seu nascimento, momento em que nos fitamos e eu soube na hora que ela seria um dos grandes amores da minha vida, senão o maior deles.
Se eu perdesse tudo e ainda tivesse Maiko, eu ainda seria o homem mais feliz do mundo.
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