Cores do Meu Coração
53 Teme 22 - Destino selado: o fim de um homem
Notas iniciais
Fiquei parado do lado de fora do quarto, vendo Naruto querer dormir, mas segurando-se. Fui para o outro lado do corredor que levava ao meu quarto de descanso, que fica do outro lado da mansão, completamente oposto do Red Room. Bati de leve numa porta cor de rosa bebê e uma vozinha risonha me permitiu entrar. Empurrei-a e me deparei com Maiko estudando em sua escrivaninha, ela lia um livro de contos infantis para cumprir uma atividade. Fui para a cama, sentar-me, virei sua cadeira para mim, peguei-a em meus braços e sentei-a ao meu lado.
— Mai-chan… — afaguei seus cabelos. — Papai quer conversar com você.
Ela assentiu e colocou as mãos sobre as pernas, me encarando.
— Eu tenho um segredo ruim para te contar, meu amor, um segredo que vai te fazer chorar, mas vai ter que ser forte, porque você é filha do homem mais forte do mundo, certo?
Maiko concordou, meio temerosa. Puxei-a para o meu colo, ela se encostou no meu peito, apertando minhas roupas com suas mãozinhas pequenas. Beijei sua testa, sentindo aquele nó terrível estrangular a minha garganta e uma dor angustiante apertar o meu peito. Nem Naruto, nem Itachi, nem ninguém desse mundo, talvez nem mesmo os deuses, vão curar a dor que sentirei e que sinto por estar me afastando da minha única filha, a quem dediquei a minha vida.
— Qual é o segredo papai? — ela perguntou, ficando de joelhos no meu colo para me fitar. Seu rosto ficou da altura do meu e nossas testas se encontraram. Os olhinhos dela brilhavam de maneira triste. É minha filha mesmo, percebe tudo nas entrelinhas.
Ela apertou minhas roupas e respirou fundo.
— Papai vai partir para nunca mais voltar. — ela arregalou os olhos, as lágrimas se formando no canto dos olhos. Engoli em seco, mas doeu, pois o nó ficava cada vez maior. — Hoje a noite, Mai-chan, alguém vai matar o papai.
— Não… — ela apertou os lábios, as lágrimas caindo e seus dedos ficando brancos de tanto que ela apertava as mangas da minha camisa. — Papai… Vai morrer?!
Assenti, apertando os meus lábios, segurando as minhas lágrimas. Fui reduzindo a distância de nossos corpos, trazendo-a mais para mim. Soltei o ar, dolorido.
— Vou, Maiko, e você precisa ser forte a partir de amanhã. — falei, me martirizando interiormente por dar uma notícia tão nefasta para uma criança de oito anos. — É um segredo, não pode dizer a ninguém, por isso você precisa ser uma garota muito forte.
— Não quero, papai… Não quero ser forte… — ela chorava, soluçando baixinho. — Não quero… Eu quero meu papai… Não quero que morra… — abracei-a com mais carinho, sentindo minhas bochechas serem molhadas pelas primeiras lágrimas.
Por que, deuses, isso está me acontecendo? Por que eu tenho que ver minha filha sofrer? Isso é um castigo por algum pecado que eu cometi?
— Maiko. — nos fitamos. — Sabe que, apesar dos Uchihas serem donos do próprio destino, a vontade final dos deuses devem ser respeitada. — ela chorava, soluçando, encolhendo-se entre os meus braços, com seu pequeno corpo tremendo. — Nós fazemos nossas escolhas e devemos aceitar as consequências delas… Papai está recebendo o resultado do que fez há muito tempo… — beijei sua testa e tentei sorrir. — Mas você sabe, não é, que eu nunca vou te deixar.
Ela apertou o rosto com força e se atracou ao meu corpo, gritando de tanto chorar desesperadamente. Encolhi-me na cama, entre seus travesseiros, abraçando-a com mais vontade, com saudade, sentindo minha menina, com medo de perdê-la. Depois de tanto tempo, eu temi a morte, depois de tanto tempo aceitando-a, eu estremeci com o fantasma nefasto da dama de preto rondando a minha alma. Não, eu não quero morrer. Não quero deixar a minha filha, ainda não estou pronto para isso.
Chorei, abafando a minha voz no corpo trêmulo de Maiko. Era doloroso demais para alguém como eu suportar, mas eu tinha que ser forte. Fitei a minha sombra, no canto do quarto. Eu tenho que ser forte por ela, não posso me deixar abalar, não agora. Eu aceitei meu destino, eu aceitei a vontade dos deuses para que Maiko não sofra como Itachi e eu sofremos pagando pela negligência e a arrogância de meu pai.
Eu não sou Fugaku. Sou Uchiha Sasuke. O diabo. O homem mais forte do mundo, que criou uma criança sozinho. Eu aguentei o mundo nas minhas costas. Preciso aguentar mais essa se quiser ser digno de ter minha presença aqui, como a de minha mãe.
Enxuguei meu rosto e afaguei o de Maiko.
— Papai vai embora, mas vai ficar comigo? — ela engoliu a saliva que escorria pelo canto da boca.
Talvez você jamais entenda o significado dessa pergunta. Não precisa quebrar sua cabeça com isso. Certas coisas só cabem a nós, Uchihas, entender. Somos um clã espiritualista, em constante contato e choque com os deuses que regem nossa realidade, os Uchihas são conhecidos no mundo inteiro por suas histórias de terror envolvendo fantasmas, sombras, demônios, espíritos e outras coisas sobrenaturais. Sempre achei que meu clã era uma raça de seres humanos amaldiçoados por alguma razão vingativa dos deuses, perdida no tempo. Mas, já não penso assim, eu acho que somos abençoados.
Nós fomos abençoados com a oportunidade de, caso sejamos dignos, ficarmos por tempo indeterminado, cuidando daqueles que amamos incondicionalmente.
Eu assenti, sorrindo gentilmente para minha menina.
— Eu já te abandonei alguma vez antes? — Maiko negou. — Eu sou, acima de tudo, seu pai e sua soulmate. — beijei sua testa de novo. — Soulmates estão juntas para sempre e o amor de um pai jamais morre. — afaguei seu corpo lentamente. — Eu estarei para sempre com você, meu primeiro grande amor. — sorri docemente para ela.
Maiko tornou a chorar, silenciosamente, e eu chorei junto com ela.
— Eu te amo papai. — ela sussurrou com a voz embargada. — Te amo muito e para sempre! — ela me abraçou. — Viu? Eu te amo muito, papai. — seu rosto afundou na curva do meu pescoço.
Eu chorei feito criança, mas em silêncio. Não mais de tristeza, não mais. Eu estou chorando de felicidade, eu estou chorando por estar sentindo meu espírito ficar em paz. Soltei o ar devagar, sentindo o nó da minha garganta se desfazer e meu coração voltar a bater normalmente.
— Eu também te amo, muito, mais do que a minha própria vida, mais do que tudo nessa vida. — falei de olhos fechados, pegando-a em meu colo e a embalando da mesma forma que eu fazia quando ela era bebê. — Você é a razão do meu viver, meu amor, você é tudo para mim. — Maiko se abraçou ainda mais a mim e suspirou, cansada de tanto chorar copiosamente.
Ela me fitou, seus olhos negros haviam ficado tão vermelhos quanto os meus.
— Eu não vou contar para ninguém… — ela disse.
— Precisa guardar esse segredo até amanhã. Pode fazer isso? — ela assentiu. — Boa menina.
Segurei Maiko em meus braços e a embalei, murmurando uma antiga canção de ninar que eu sempre cantava para que ela pudesse dormir a noite. Fiquei caminhando pelo quarto, com ela aconchegada em meus braços, ressonando e chorando, mergulhada num sono de exaustão e sofrimento. Eu devo ter ficado quase uma hora naquele quarto, com Maiko comigo, abraçada em mim, mas não com tanta força como antes, pois o cansaço vencera.
Deitei-a na cama, retirei a minha camisa social, ficando só de camiseta, enrolei-a com a peça e assisti seu semblante se acalmar, serenar.
Deixei a porta entreaberta e saí do quarto, indo para a cozinha. Fiz o pedido para que almoço fosse deixado no quarto e fui dormir com Naruto, fingindo que meu cansaço mental se dera por causa do intenso sexo entre nós dois. Dormimos de conchinha, bem aconchegados, por talvez umas três horas seguidas.
Acordei com o corpo pesado, abatido, fadigado, como se quem tivesse levado a surra, fora eu. A minha cabeça latejava. Olhei para a janela e vi um corvo negro pousado nela, por um segundo, eu pensei ter visto seus olhos ficarem vermelhos ao me fitar, mas antes que eu pudesse comprovar, o corvo alçara voo e sumira bosque adentro.
Estava chegando a hora. Engoli em seco, sentindo um arrepio sombrio percorrer a minha espinha e roubar brevemente meu fôlego. Sentei-me na cama e sorri ao ver Naruto sentado a mesa, comendo o almoço que as empregadas haviam trazido durante o meu sono. Sacudi meus cabelos, eu esfreguei o meu rosto, fingindo afastar o sono, quando na verdade eu estava tentando afugentar a sensação ruim provocado pelo presságio maligno.
Levantei-me e fui até Naruto, beijei seu rosto e me sentei de frente a ele, na outra cadeira, evidentemente cansado. Tomei um gole de suco e suspirei, de olhos fechados. Uma brisa fria correu por dentro do quarto, soprando as cortinas de seda e os nossos corpos. Arfei baixo e comecei a me servir do almoço que a cozinheira preparara.
— Dormiu bem? — perguntei, comendo um pedaço de fruta.
— Uhum. — Naruto resmungou, enquanto mastigava a comida. — Embora eu preferisse passar o resto do dia na cama. Temos que ir mesmo para essa festa? — falou, assim que terminou de engolir o que comia, fazendo um pouco de manha.
Sorri para ele.
— Você só vai se quiser, eu vou ser homenageado, então minha presença é necessária. — descasquei uma maçã, cortei-a em pedaços e comi com o almoço. — Maiko já disse que irá, como minha primeira dama, mas se sentir indisposto, pode ficar aqui ou no meu apartamento. — ele me fitou, pensativo. — Eu peguei um pouco pesado ontem, então você decide.
Pisquei um olho para ele.
— Nah, vai que aparece mais alguma maluca querendo te apalpar… — me olhou com uma cara sapeca e gargalhou.
— Não, não… — pisquei um olho. — Aquele não vai ser o lugar para isso… Alguma pode me paquerar, mas eu não vou nem perceber, afinal, por que eu perderia tempo procurando lá fora o que tenho aqui? — comi um pedaço de maçã.
— Desse jeito você vai me deixar mal acostumado. Gosto desse bom humor! — sorriu, antes de voltar a comer.
Tive um momento especial com Naruto, então não acho que ele queira estar comigo nesse momento nefasto. O mesmo vale para Maiko, mas ela insistiu e não vou impedi-la de ir. Comi com calma, sentindo cada sabor que os alimentos poderia oferecer para mim.
— Então… — terminei meu prato. — Se quiser ir, posso te dar um dos meus ternos nunca usados… Tenho vários, você vai poder até escolher.
Ele assentiu distraidamente, prestando mais atenção na comida.
As horas foram se passando devagar, parece que algum deus me fez a gentileza de fazer o tempo correr mais devagar para que eu pudesse curtir minhas horas finais ao lado da minha família, do meu irmão e do meu primo, do meu namorado e minha filha amada. Ainda tive tempo de me divertir um pouco em uma conversa com Hinata, Shikamaru e Kakashi.
Dizem que toda pessoa que vai morrer, tem um momento de felicidade e lucidez. Os Uchihas tem uma crença que esse momento é para que o futuro finado possa se desculpar de seus erros e conquistar a dignidade do céu e da próxima encarnação. Eu não sei se serei digno de alguma coisa, mas espero pelo menos deixar uma última lembrança de felicidade em minha mente.
Então a tarde chegou e com ela os preparativos para a festa. Como eu dissera, Naruto ficara em minha casa e eu lhe dera um dos meus ternos para que usasse. Maiko iria conosco e ela me dissera que iria usar o mais lindo vestido que tivesse para ir a festa, Kurenai, que veio preparar Naruto para a festa, cuidou do cabelo e da maquiagem de Maiko.
Eu só observava tudo sorrindo. Uma das minhas salas, a que costumo usar para descanso quando estou na mansão, tornou-se um camarim e a animação estava grande por ali. Hinata e Shikamaru também estavam lá, diziam que faziam questão de ver aquele momento histórico de gratidão de Konoha para comigo. Eu deixei aquele grupo animado de pessoas e fui para o quarto que uso para dormir, que era perto do de Maiko e daquela sala.
Naruto veio atrás de mim, eu podia sentir seus olhos sobre mim.
Entrei no quarto e fui para o closet, abri a parte onde ficavam todos os meus ternos e smokings, e comecei a procurar o que eu usaria. Naruto sentou-se na cama e eu o fitei.
— Que foi? — perguntei, escolhendo uma camisa de seda chinesa branca.
— Você parece estranho, não sei… Eu sinto isso. — falou, entrelaçando as mãos.
— Diferente depressivo?
— Não. — ele meneou a cabeça e sorriu. — Você parece mais feliz do que nunca e isso é estranho! — fez uma cômica cara de surpresa.
Acabei rindo. Escolhi um smoking de certa forma simples, feito sob medida por um dos alfaiateiros mais famosos de Konoha e do mundo, Sir. Richard, um lord inglês especialista em ternos e smokings de alta costura. Fitei Naruto e indiquei a porta. Ele foi lá fechá-la e quando se virou, eu já estava só de cueca, colocando a peça escolhida sobre a cama.
— Eu sou um homem feliz, Naruto, sempre fui, porque sempre tive motivos para ser feliz. — comentei, observando-o. — Fique à vontade para escolher. — falei, indicando o closet.
Vesti a calça, junto com a faixa que fica por cima do cinto e fui para outro armário. Abri-o e lá estavam todos os meus pares de sapatos para todo tipo de situação, inclusive alguns foram feitos sob medida. Escolhi um par italiano preto sob medida também, bem lustrado. Busquei as meias nas gavetas e calcei os sapatos, para então retornar para perto de Naruto, onde estava o resto do meu smoking. Abri outro armário e tirei um colete a prova de bala e uma camisa preta parecida com o colete. Fui para o banheiro, levando a camisa preta, o colete e a camisa social de seda. Eu não posso me proteger, não posso fugir do meu destino, mas posso proteger Naruto com o colete, que uso em locais onde eu vou me encontrar com gente que eu não gosto.
Eu pus a camisa preta, depois a de seda, como se eu tivesse posto um colete também.
Retornei vestido e com o colete na mão. Naruto sorria como um idiota para mim enquanto procurava algo para si nas minhas roupas.
— Gosto do seu bom gosto. — elogiou-me. — Hum… O que acha desse? — me mostrou um terno azul caneta ainda no cabide.
— Fica bom em você. — falei, dando de ombros. — Comprei ele por causa de uma festa de aniversário de Maiko, em que ela queria porque queria que eu fosse vestido como a princesa do gelo daquele filme Frozen. — ri baixo. — O que um pai não faz pela sua filha, não é?
Ajustei melhor a minha camisa e fui para frente do espelho para colocar a gravata borboleta.
— Querido, o que não fica bom em mim? Essa seria a pergunta certa! — deu uma risada charmosa.
Sorri de lado e assim que ele pôs a calça, eu fui até ele e lhe mostrei o colete.
— Vista. — ele me olhou confuso.
Era um colete diferenciado, com pouco peso e deformidade de aparência, mas muito resistente, gastei muito para fabricar ele. Parecia uma camisa cavada de tecido grosso, bem parecido com a que eu estava usando, para assim enganar quem o visse. Resistente e prático.
— Algum motivo especial para isso? — arqueou a sobrancelha enquanto vestia o colete.
— Proteção. — desabotoei dois botões e mostrei a minha camisa preta discretamente, depois fechando-a. — Eu também estou usando um. Uma apresentação pública não escapa de ser um momento perfeito para matar alguém importante.
Naruto o pôs e terminou de vestir sua roupa. Eu fui terminar de ajustar a minha gravata e por o blazer que complementava o smoking. Terminei de aprontar a roupa e fui para um gavetão dentro do closet, puxando-o como se fosse uma gaveta de necrotério. Havia relógios, pulseiras, anéis, óculos, colares e outros acessórios de meu gosto.
— Não gosto disso… — Naruto comentou, em um tom de desgosto.
— Eu vou ficar mais tranquilo se usar. — falei, afagando seus cabelos. — Vai haver um momento que ficarei longe de você, então eu me sinto mais tranquilo se você usar.
Observei o gavetão/vitrine e eu escolhi um Rolex de prata e um dos anéis que pertenceu ao meu pai, que ficava no indicador, feito de ouro branco e um rubi. Ouvi resmungos e ergui meu olhar, sorrindo com Naruto de frente ao espelho apanhando para a gravata, ele estava com o colete aberto e parecia que ele iria se enforcar a qualquer momento.
— Gravata, um, Naruto, zero. — comentei, rindo, buscando um relógio.
Peguei sua mão e coloquei o acessório em seu pulso, perto do bracelete que combinava claramente com toda a sua roupa.
— Essa é a parte que Shisui se encarrega. — bufou. — Eu nem gosto de usar terno. Inclusive se eu tiver três é muita coisa.
Sorri e me aproximei, tomei suas mãos, beijei seus dedos e segurei o tecido da peça ao redor do seu pescoço.
— Vou te ensinar. Presta atenção. — ele assentiu e baixou o olhar, meio corado. Fiz o nó da gravata bem devagar e desfiz, repeti o processo duas vezes e então pedi-o para fazer. Ele fez meio desajeitado, mas pegara o jeito. Sorri e fiz para ele. — Entendeu como se faz? — beijei sua testa. — Pratique de vez em quando e você vai pegar o jeito.
— Acho que consigo me virar de uma próxima vez. Obrigado. — sorriu, enquanto terminava de fechar o colete do terno.
— De nada. — afastei-me, indo ao balcão onde estavam os meus perfumes. — Fico feliz que tenha decidido ir comigo. — fitei-o enquanto borrifava um dos perfumes em meu corpo. — Eu vou entregar uma surpresa a você, depois da premiação, o seu presente de um ano de namoro.
— Ah não! Eu tinha esquecido disso, agora vou passar o resto da noite curioso. — resmungou, emburrado. — Sasuke! — repreendeu-me.
— Isso é bom. — ofereci um perfume a ele. — Assim você não sairá das minhas vistas.
Eu pedi que Naruto fosse ver como Maiko estava e se precisava de alguma coisa enquanto eu atendia um “cliente”. Era Sasori e ele viera entregar a minha encomenda. Observei o objeto com carinho, agradeci a ele e perguntei quanto custaria.
— Nada. — arregalei meus olhos. — Eu fiz isso como uma forma de devolver um dos vários favores que você fez por mim. — suspirou, sorrindo. — Jamais poderei pagar pela proteção que…
— Esqueça. Esqueça isso. Não quero… — suspirei. — Que essa noite termine com minha mente com boas lembranças. — Sasori assentiu e me abraçou com força.
Senti naquele abraço um adeus. Depois que Sasori partiu, eu fui ver Kakashi e assinei os documentos que ele prepara sob minha supervisão. Terminadas essas situações, fui ver como estava Maiko e Naruto. Ambos estavam sendo maquiados por Kurenai, com Shisui rindo de alguma história contada em minha ausência e Itachi apenas ouvindo com um sorriso discreto no rosto. Olhei para o relógio e para a janela. A lua cheia despontava no céu, me recordando de que faltava pouco tempo para o cumprimento do meu destino.
Fitei Naruto e ri de sua atitude de marcar bem mais seus olhos com um lápis de olho preto. Franzi o cenho e meneei a cabeça quando ele me fitou pelo reflexo do espelho, alargando seu sorriso. Não pude deixar de achar que seus olhos azuis ficaram ainda mais sexys com aquele destaque todo. Ao fim de alguns minutos, todos estavam prontos e Juugo nos esperava do lado de fora, com a limusine que eu escolhera para nos levar para o salão cerimonial da Konoha’s Enterprise.
Naruto fora ao meu lado e fazia questão de manter a mão entrelaçada na minha, enquanto Maiko ficara em meu colo, encolhida, mantendo-se quieta.
— Vocês parecem muito bem juntos hoje. — comentou Shisui, num tom curioso. — Algum motivo especial para isso?
— Um ano de namoro. — comentei, observando o reflexo dos meus parentes no vidro da porta. — Naruto quis comemorar e comemoramos. — dei de ombros. — Mas é culpa dele… — segurei meu riso.
— Ah, cala a boca que você gostou também! — Naruto resmungou, num tom envergonhado, empurrando meu ombro de leve.
— Todo artista gosta da sua obra prima. — rebati e vi o semblante de Shisui tentando entender. Eu acabei rindo e neguei. — Mas eu ainda acho que a culpa é dele.
— Sasuke! — sussurrou para mim. — Fica quieto!
Virei lentamente o rosto para ele e arqueei uma sobrancelha.
— Então responda apropriadamente o seu professor se quer que eu não diga nada. — sussurrei de volta, em seu ouvido.
— Ei, ei, crianças, se acalmem. — Shisui disse, gesticulando com a mão e rindo.
Itachi riu.
— Isso aconteceu porque você tocou num ponto que Naruto não gosta. — ele disse, me olhando de forma sagaz e eu só pude rir mais.
— Até você, Itachi?! — Naruto falou, chocado. — E eu pensando que você ia me defender! Esses Uchihas… — resmungou baixinho, num tom emburrado.
— Naruto, meu caro. — levantei sua mão entrelaçada a minha e dei um beijo nela. — O nome disso é curiosidade. — pisquei um olho. — Ele está se contorcendo de curiosidade, mas é fino demais para demonstrar. Certo, Itachi?
— Digo nada, só observo. — respondeu risonho.
— Admita, você só faz isso para me ver sem graça, não é? — Naruto falou baixinho, cutucando minha cintura.
— Eu te acho lindo sem graça, mas a culpa é de Shisui, com suas perguntas capciosas. — beijei seu rosto e afaguei os cabelos de Maiko com a minha mão livre.
Acabei sorrindo com a gargalhada que Shisui deu ao dizer aquilo, Maiko também sorriu. Fitei minha menina e ela me fitou. Estávamos tão em sintonia que conversávamos só com a troca de olhares. Ela estava com medo, com muito medo, internamente, mas eu a encorajava a não desacreditar, a continuar forte, que no fim tudo daria certo.
Ao fim de meia hora, chegamos ao salão cerimonial. Um milhão de repórteres nos esperavam do lado de fora do carro, com suas câmeras e suas perguntas gritadas. Itachi e Shisui foram os primeiros a serem bombardeados por eles ao saírem do carro antes de mim e de Naruto.
Fitei Naruto e suspirei.
— Pronto? — perguntei a ele enquanto Maiko se levantava e arrumava o seu vestido, nos fitando.
Ele assentiu e sorriu, apertando minha mão com força.
Saímos e eu quase ceguei com a quantidade de flashes. Caminhamos pela zona delimitada por cordas de segurança e um enorme tapete vermelho. Naruto ia com um braço passado pelo meu, que estava no bolso, enquanto que Maiko segurava a outra, com muito força, seu corpo tremia de leve, mas ela conseguia se manter firme, sorrindo e posando para as fotos que nós três tirávamos para efeito de formalidade. Naruto era todo sorrisos cheios de simpatia e dentes, enquanto eu apenas exibia meu olhar sério com uma sobrancelha arqueada e minha filha portava-se com uma verdadeira Uchiha, sorrindo, poderosa.
Então seguimos para a área onde os repórteres teriam cinco minutos para perguntar ou fazer alguma entrevista breve. Eu não vou mencionar todas as perguntas, mas citarei uma.
— Podemos dizer que vocês são a representação de uma família que viveu de tudo? — perguntou um representante de uma revista televisiva de fofoca.
Fitei Naruto, me questionando se ele iria responder. Ele apertou o braço ao redor do meu, como se dissesse que eu tomasse as rédeas da situação. Afaguei os cabelos de Maiko, e ela sorriu para mim, para então fitar o homem que perguntara.
— Não. — falei, sorrindo de lado. — Chame isso de uma relação estável entre duas pessoas envolvendo uma criança. — ele ficou sem entender. — Família é uma palavra muito pequena para ser usada conosco, mas… — fitei Naruto, soltei seu braço e pousei minha mão em sua nuca e beijei sua testa, enquanto afagava os cabelos de Maiko. Ouvi um bilhão de fotos serem tiradas. — É a única palavra que existe para definir nós três.
Saímos do tapete vermelho e entramos no salão gigante, com algumas mesas já servidas e uma maior de buffet, uma orquestra tocava ao fundo, perto do palco onde aconteceria a premiação do evento. Todas as pessoas com mais de cinquenta milhões na conta e com envolvimento em projetos sociais que funcionavam em Konoha ou ao redor do mundo.
Várias pessoas me cumprimentaram, falaram sobre todo tipo de coisa e de futuras associações de empresas, além de trocas clássicas de cartões e brindes com taças cheias de champagne. Mas lá num canto, perto da mesa de buffet, me fitando como se pudessem me matar só com o olhar, estavam os gêmeos Hyuuga, além de suas esposas e alguns futuros herdeiros, e eu senti que um deles seria o meu carrasco. Respirei fundo e mantive-me firme.
Um dos garçons nos levou para a mesa reservada para nós três. Notei que Itachi, Shisui, Hinata, Shikamaru, Kakashi, Tenten e Ino ficaram em outra mesa, a nossa era mais a parte, ao que me pareceu, pela decoração particular, mais dedicada aos premiados e homenageados. Sentamo-nos e, durante um animado discurso de Sarutobi Hiruzen que fazia o possível para não se emocionar sempre que me olhava, o jantar foi servido.
Maiko, que ama doces e guloseimas, se recusou a comer muita coisa, só beliscava de vez em quando a fatia de torta doce em seu prato. Suspirei e afaguei as costas dela, fazendo-a me fitar e apertar os lábios, num sorriso infantil de segurar a tristeza.
— Eu te amo. — murmurei para ela, só movendo os lábios.
— Eu te amo mais. — respondeu da mesma forma.
Ela tentou comer alguma coisa e eu dediquei um pouco de atenção a Naruto, porque ele de vez em quando virava o rosto para trás, olhando para os gêmeos. Nos encaramos.
— Os Hyuuga estão te fuzilando. — Naruto falou, espantado. — Porque?
— Me odeiam. — falei, tomando um gole do champagne. — Profundamente. Eles estão na lista longa de pessoas que desejam me ver morto, que você já participou por um tempo.
— É por causa do seu envolvimento com a saída de Hinata da família? — perguntou de forma curiosa.
O discurso de Hiruzen já andava pelo fim e eu notei uma estranha movimentação na mesa dos Hyuuga, movimentação de homens vestido de terno preto e de garçons. Estremeci sutilmente, sentindo um arrepio gélido na minha coluna. Um garçom passou por mim carregando um jarro com doze flores brancas. Pisquei rapidamente e soltei o ar. Estava se aproximando.
— Exato. — falei, passando um braço por cima do recosto da sua cadeira. — Eles me odeiam porque eu sou, por assim dizer, o anjo protetor dela. — então contei toda aquela história que vocês já conhecem sobre os meus problemas judiciais com os Hyuugas, o romance de Hinata e a fuga de Neji, bem como toda a proteção que eu dera até os dias de hoje a eles. Fitei Naruto, depois de contar tudo. — Acho que ninguém me odeia mais do que eles, nem você em verões passados.
— Você namorou Hinata?! — seus olhos arregalaram-se. — Por que não consigo sentir ciúmes dela? — franziu as sobrancelhas, claramente confuso.
— Porque ela era mais minha amiga do que namorada, eu não sentia atração física por ela, eu sempre a vi como minha irmãzinha caçula, por isso que você não sente ciúmes dela e por isso eu a chamo de honey. — dei de ombros.
Então as premiações começaram. Um a um, os benfeitores de Konoha foram convocados ao palco, para receberem a homenagem e o prêmio em nome de suas ações. Hizashi foi convocado e recebeu um prêmio pelo orfanato que ele mantinha numa zona precária de Konoha, um orfanato “de primeiro mundo”. Batemos palmas porque todos batiam. Depois de algumas pessoas, Hiruzen se levantou e foi ao microfone, pois quem estava chamando as pessoas era Konohamaru. Ele me fitou e sorriu.
— Eu gostaria de chamar ao palco o diabo mais bem feitor de Konoha. — eu sorri e me levantei, quase me ofuscando com os holofotes sobre mim. — Esse homem, que dizem ser o pior de se lidar do mundo, o mais insuportável, o mais terrível patrão e o mais voraz investidor dos mercados, na verdade tem o maior coração do mundo. — todos me aplaudiram.
Eu subi ao palco e abracei seu corpo baixo. Ele me entregou uma plaqueta de ouro com meu nome gravado nela e mais algumas inscrições, bem como a razão por eu estar sendo homenageado naquela noite.
— Uchiha Sasuke, resolvemos fazer essa cerimônia para que o mundo saiba o que você faz nos bastidores de Konoha. — ele falou, apertando a minha mão. — A razão por este homem está sendo homenageado essa noite é por ser aquele que garante que o Hospital Geral de Konoha funcione com sua tecnologia de ponta, além de seus projetos sociais com jovens aprendizes em cada escola pública de Konoha e... — ele fitava os presente. — Sua habilidade única de relações públicas para resolver os maiores problemas diplomáticos e de caráter político de Konoha!
Fotos, filmagens, assobios, barulho e palmas.
Suspirei e me aproximei do microfone quando ele me indicou. Fitei Maiko e Naruto, depois fitei meus amigos e a minha pequena família, para então encarar, sorrindo, os Hyuuga e no fim todos os presentes. Acho que posso dizer algumas palavras.
— Não tenho grandes discursos, nem me preparei para esse evento. — falei, colocando as mãos nos bolsos. — Na verdade, eu não queria ser homenageado hoje, porque minha mãe me ensinou que devemos fazer o possível para os outros sem pensar em receber alguma coisa em troca. Não fiz o que fiz porque queria ser capa de jornal, eu odeio jornais e eles sabem disso. — pessoas riram. — Eu só… Faço o que meu coração pede. — suspirei. — Fui criado com base na honra, no respeito e na dignidade. É isso o que me move e, se possível, gostaria de receber de volta. — dei de ombros. — Por que o diabo fez boas ações? — sorri. — Porque é divertido.
Peguei minha plaqueta e saí do palco, indo para a minha mesa. Sentei-me ao lado de Naruto, ouvindo os elogios de várias pessoas ao meu redor. A festa rolou tranquila. Afaguei o objeto que eu guardara nos bolsos da minha calça. Isso me lembrou de que eu ainda tinha algo para fazer antes do meu destino se cumprir.
Fui ao encontro de Itachi, levando Maiko comigo. Ele me cumprimentou com um abraço e Shisui só ria, ao lado de Kakashi e Shikamaru. Abaixei-me e sorri para minha menina.
— Meu amor… — ela engoliu o choro que queria despontar. — Eu vou conversar com Naruto agora, preciso que fique com Itachi. — ela me abraçou com força, afundando o rosto no meu pescoço, eu a apertei contra meu peito e beijei seu rosto. — Seja forte. — sussurrei só para ela ouvir.
Nos fitamos e sorrimos.
— Ainda estarei com você amanhã. — dissemos ao mesmo tempo e rimos, encostando as nossas testas. Entreguei Maiko a Itachi e tomei a mão de Naruto, levando-o para o jardim do salão.
Caminhávamos sem pressa, e assim que estávamos do lado de fora eu puxei uma carteira de cigarro negros com aroma de menta, comecei a fumar, saboreando os últimos cigarros da minha vida. Naruto caminhava perto de mim, afinal não havia bafo ou cheiro forte de nicotina.
— O que Maiko tem? Ela parece bem triste hoje. — perguntou, preocupado.
— Ela teve um sonho ruim comigo e estava preocupada que se realizasse. — falei, fitando-o. — Coisa de crianças, nada com que você precise se preocupar. — empurrei seu ombro com o meu.
Nós rimos e continuamos caminhando.
Nos sentamos num banco de concreto, embaixo de um carvalho e, sem que ele visse, retirei do meu bolso o tal objeto. Por ser pequeno e discreto, eu consegui esconder no meu punho fechado com o isqueiro de prata. Fitei-o. Ansiosíssimo.
— Sabe, Naruto, ontem foi… — soltei o ar devagar. — Uma das melhores noites da minha vida. Eu só posso dizer obrigado por tudo.
— Não tem nada para agradecer, não seja bobo. Eu que deveria agradecer por ter cuidado de mim mesmo quando não me conhecia. — sorriu ternamente enquanto falava. — Ontem foi uma das melhores noites da minha vida também. — seu rosto corou levemente e suas mãos se mexeram inquietas. Ele estava nervoso.
Assenti e fitei-o, afagando seu rosto com a ponta dos dedos.
— Você é bem especial para mim, Naruto, é meu melhor amigo e a você eu confiaria minha filha. — sentei-me melhor no banco, sentindo a superfície do objeto contra a minha pele. — Você cuidaria de Maiko se algo me acontecesse? — falei, sorrindo, dissimulando a minha preocupação, meio sagaz, como sempre faço. — Seria um pai para ela? Teria essa capacidade, Naruto?
— Eu não sei se seria um bom pai, mas eu tentaria. Você sabe os problemas que tive com meus pais. Não fui um bom filho, Sasuke. Como poderia ser um bom pai? — falou com uma preocupação sincera, um pouco temeroso até.
Sorri e me levantei, puxando-o para perto de mim.
— O fato de ter sido um filho confuso no seu passado não quer dizer que será um pai ruim. — beijei sua testa. — Você é um homem incrível, que defende o que acredita com unhas e dentes, apaixonado, carinhoso, gentil, meio irresponsável, um pouco confuso, mas um grande homem.
Joguei a ponta do cigarro no chão e respirei fundo. Ouvi corvos escondidos nas árvores. Fitei a lua cheia iluminando a nós dois. Um vento frio me avisou que a hora era iminente.
— Ouça, Naruto, eu confio plenamente em você, se eu confio é porque você é capaz de fazer qualquer coisa. — tomei sua mão. — Eu não me arrependo de ter te conhecido em uma mesa de bar, ter quase morrido por suas mãos e sou feliz por ter te salvado daquele caminhão. — um arrepio sinistro percorreu meu corpo e eu fitei Naruto seriamente. — Eu…
— Ora, ora, pombinhos apaixonados se pegando na escuridão! — a voz ecoou pelo jardim e nós olhamos para o lado. Era Hiashi, usando seu gigante casaco branco, um braço atrás do corpo e o outro gesticulando enquanto falava. — Uchiha Sasuke, o homem do coração de ouro, o homem que só salva, o diabo que quer ser anjo!
Respirei fundo e mantive a minha postura. Não tenho mais razões para fugir ou temer, eu estou pronto para o meu destino. Hiashi parou a uma certa distância e sorriu. Ele estava com um aspecto doentio, louco, fora de si.
— Vá embora. — falei por causa da adrenalina indo para o meu sangue, o instinto de proteção falando mais alto em minha mente. — Nossos assuntos são na bancada de um tribunal.
Ele fechou a cara numa expressão furiosa.
— Eu cansei, Uchiha Sasuke, cansei de seus molequismos, cansei de ser humilhado por você, cansei de você interferindo nos meus atos! — ele moveu o braço que estava atrás do corpo e revelou uma espingarda moderna calibre doze. Apontou para mim e engatilhou-a. — CANSEI DA SUA EXISTÊNCIA, UCHIHA SASUKE!!! — ele gritou.
— Por favor, Hiashi, abaixe essa arma, antes que cometa algo que…
— EU NUNCA VOU ME ARREPENDER DISSO!!! — ele gritou a plenos pulmões. — NUNCA VOU ME ARREPENDER DE LIVRAR O MUNDO DO DIABO!!!
Naruto foi instintivamente para a minha frente, ficando entre mim e Hiashi. Provavelmente ele pensava que o colete iria salvar a nós dois, porém eu conheço o poder de fogo daquela arma e sei que o colete só irá salvar a Naruto numa distância mais longa. Olhei discretamente para o céu e vi as estrelas aparecendo por trás das nuvens. Sorri. Os deuses me enviaram o sinal. Eu sou digno de seguir em frente, eu sou digno de compartilhar da benção de minha mãe.
Fitei Naruto a minha frente, ofegante e assustadíssimo. Seus cabelos brilharam contra a luz da lua, um brilho dourado. Eu sorri de lado e abracei sua cintura. Ouvi Hiashi apertar o gatilho. A realidade me pareceu caminhar em câmera lenta: consegui jogar Naruto para detrás do banco e então o ardor seguido pelo rompimento da minha pele, estourando de fora para dentro, acompanhado pelo barulho alto da arma disparando. Senti que meu corpo fora perfurado em vários locais, eu não preciso me olhar para entender isso.
Eu não caí. Eu ainda tinha forças. Se eu morro, eu levo alguém comigo. Virei-me, expelindo sangue pela boca, caminhando devagar, cambaleante, até Hiashi. Ele me olhava desesperado, a arma pesando em suas mãos, de modo que ele disparou de novo, porém acabou acertando o meu braço esquerdo. A dor é dilacerante, como se meu corpo fosse consumido por ácido, queimando como o inferno. Respirei fundo e cheguei bem perto dele.
— POR QUE VOCÊ NÃO MORRE?! — minha sombra pegou a arma dele e me entregou num movimento rápido. — COMO…? — apontei o cano para sua cabeça e ele congelou. — Por… Favor...
Franzi o cenho e disparei, estourando metade do seu crânio. Morto. Enfim. Larguei a arma, sentindo meu corpo fraquejar, eu não sentia mais o meu braço esquerdo e nem minhas pernas, de modo que caí de joelhos.
Minha visão embaçou, estava frio, muito frio, e tudo estava ficando cinza, escurecendo e perdendo completamente o foco. Fitei a minha sombra, ela parecia um borrão escuro com pontos vermelhos cintilantes no vazio. Arfei pesadamente, a gravidade me puxando para baixo, meu tronco não tinha mais forças, de modo que caí deitado na grama fria. Meus pulmões tinha dificuldade de se mover, eu ouvia um chiado, provavelmente eles foram perfurados, meu ombro esquerdo formigava e meu corpo estava ficando dormente.
Engoli em seco, tentando manter o foco nas estrelas que brilhavam no céu negro e limpo. Ouvi passos distantes e então eu fui sacudido. Movi-me de lado. Era Naruto, ele estava desesperado, atônito, inquieto, enfim, sendo ele mesmo em momentos de tensão.
— Não, Sasuke, de novo não. Você não pode morrer! Está me ouvindo. Não morra! — ele falou desesperadamente, as lágrimas começando a banhar seus olhos, que me olhavam com medo, angustiado. — Não acredito que isso está acontecendo de novo! — virou o rosto para trás, gritando por cima do ombro. — SOCORRO!!! ALGUÉM ME AJUDE!!! — voltou os olhos chorosos para mim, soluçando baixinho. — Não morra, Sasuke, não morra, por favor!!!
Tossi, quase me sufocando com o sangue que voltava dos meus pulmões. Cuspi tudo de lado, vomitando sangue na grama. Naruto apoiou-me em seu colo e colocou uma mão em meu rosto.
— Eu… — tossi. — Não vou morrer… Não antes de te dar isso… — estiquei a minha mão e abri-a, revelando o anel de ouro, com uma pedra laranja e diamantes minúsculos ao redor.
Ele pegou o anel, a mão trêmula e meu braço caiu, sem forças.
— Ouça… Eu quero que cuide… De Maiko… Seja o pai dela… — engoli o nó em minha garganta.
— Você mesmo diz que sou um moleque! Não posso cuidar de uma criança sozinho! — as lágrimas grossas desciam vigorosamente por suas bochechas, deixando um rastro preto de maquiagem borrada pelo caminho. De repente soltou um gemido dolorido, como o de um animal ferido e me olhou horrorizado. — Você sabia! Por que não me falou? Poderíamos ter evitado! — Naruto tentava soar coerente, mas os soluços e o medo não deixavam.
Eu ri com sua preocupação tola. Estapeei sua testa com dois dedos e suspirei. Esse moleque.
— Eu não vou morrer… Se você for atrás de ajuda… — acabei rindo, mas eu já não conseguia ver nitidamente seu rosto, por mais que ele estivesse perto de mim. — Eu… Vou ficar bem, Naruto… Não tenha medo… Eu sempre estarei com você… — toquei seu ombro, exatamente onde eu mordera. — Se era para acontecer, ninguém poderia impedir… — eu percebi que minha voz estava ficando cada vez mais fraca, mais falhada, então me esforcei. — Eu… Te amo, Naruto… E se sobreviver a isso… — tossi mais sangue. Sirenes tocavam bem longe, como ecos, e eram acompanhadas por vozes desorientadas. — Se eu sobreviver… Eu me caso com você… Meu Naruto… — estava escuro, eu mal via os olhos azuis de Naruto. — Seremos… Uma família… Feliz… Você, Maiko e eu… — seu rosto sumiu, mas o brilho suave de seus olhos se mantinha. — Eu te amo tanto… Meu Naruto. — segurei sua nuca com meu último sopro de força, recostando nossas testas. Pela última vez eu sentiria aquele gentil calor. — Eu ainda… Estarei com você… Amanhã… — o azul de seus olhos foi ficando distante, vazio, escuro.
Então eu não ouvi, nem vi, nem senti mais nada. Eu estava imerso numa escuridão densa, sombria, pesada, uma escuridão que me sufocava e me imobilizava. Eu estava preso. Havia pessoas comigo, ou apenas reflexos do que um dia elas foram em vida. Eu estava cercado, tomado, sozinho, caminhando por uma longa estrada deserta numa noite que eu senti que iria durar para sempre. Não havia sol, nem lua, nem estrelas, era eu e a imensidão.
Atrás de mim, as sombras nefastas acorrentadas ao monstro que eu próprio me tornara na escuridão de minha alma, eram arrastadas a cada passo que eu dava. Fitei o mundo e senti um aperto, um forte aperto, como se meu coração fosse explodir. Caí de joelhos, desesperado, louco por todo aquele vazio silencioso e angustiante. Gritei, gritei por minutos, por horas, por dias, por anos, por eras. Gritei, mas tudo o que eu ouvia era o silêncio, me engolindo, me tragando, me fazendo desaparecer na densa escuridão.
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