Cores do Meu Coração

46 Teme 18 - Lar doce Lar


Notas iniciais
DiAngelo: Oi, pessoinhas! Tudo bem com vcs? Esperaram muito pela gente? Espero q ñ! :3 Então, preparados pra treta? Num sei nem o q falar desse cap, tá tão grande q acho q rola de tudo um pouco '-' Treta, zuera, fofura, só ñ putaria, pq? Pq nóis num quis... kkkkkkkkk Mas isso logo virá, escrevam o q digo! Hum... Hoje to sem inspiração para as notas, então vamo simbora. Ah, antes que eu me esqueça, o cap de hoje é dedicado a Bitizw, pelo review da semana. Espero q vc goste, querida, pq tem ação sim! :3 PS: Nonna e eu criamos uma page no facebook para atualizar vcs das novidades das fanfics e para q vcs pudessem interagir com os outros leitores! Curtam, principalmente pq precisamos de pessoas para nossos planos de interações. Um spoiler: Alguns envolvem diálogos entre os personagens, corram lá para conferir: https://www.facebook.com/sociedadeprovadoresgaspacho/?ref=bookmarks Nonna: Sooooooooooooolta negada!!! E quem achou que a fic não teria mais ação, se enganou! Toca o Mortal Kombat, dj! Negada, cap de hj tem de tudo um tikim, então preparem a pipoca pq tá coisa de cinema. '-' Que mistérios guardam a floresta para o nosso casal mais zuero de todos os tempos? E a casa de Sasuke? Será q eles vão chegar um dia? Tantas perguntas, tantas respostas e um so cap. Coisa de louco, então preparem seus punhais pq a treta vai começar!

Lobos. Lobos cinzentos das montanhas. Criaturas que decidiram, eu não sei por que motivo macabro, só caçar a noite, rondando suas vítimas e atacando-as na escuridão.

Tirei meu arco, busquei uma flecha e virei meu rosto um pouco de lado. Não sei se vocês sabem, mas quando estamos no escuro, nossa visão periférica é bem melhor do que a visão frontal, por isso muitos caras não são pegos de surpresa quando estão atentos aos lados. Comecei a caminhar lentamente, Naruto ainda mais perto, olhando em volta. Os uivos pareciam estar ao nosso redor. Eu não podia ouvir, nem ver os lobos, mas eu sabia que eles estavam ali. Sempre estiveram, nos vigiando, nos obrigando a ficar trancados.

— Naruto. — guardei a flecha e o arco, puxei devagar o meu punhal. Fitei-o, não olhando exatamente para ele, mas para a floresta atrás dele. Ouvi a chuva.

De repente, como só o filmes de terror podem providenciar, ela caiu contra nós, não tão forte, quanto eu esperava, os relâmpagos iluminando o mundo e revelando as silhuetas quadrúpedes justamente atrás de nós. Mas que merda. Posso fazer nada sem arrumar briga?

— Você não falou nada sobre lobos! — ele choramingou.

— Olha para mim. — segurei seu rosto com a mão livre e o obriguei a me fitar. — Vai correr, sem olhar para trás, não importa o que aconteça. Não é como nos filmes, tem como escapar. — estavam nos rondando, esperando o primeiro passo. Respirei fundo. Isso é uma caralha mesmo. — Sempre em frente, Naruto, não mude de direção, não importa como, sempre em frente, ouviu? — ele respirou fundo.

— Tudo bem, entendi. — Naruto apertou os lábios e me olhou com um pouco mais de firmeza.

Sorri de lado e afaguei seu rosto.

— Cante bem alto Geração Coca-cola. Conhece?

— Conheço.

— Cante alto, para que eu possa te ouvir e te achar, viu? — continuei sorrindo. A iminência do ataque era uma loucura, a adrenalina explodindo dentro do meu corpo como gasolina. Os lobos começaram a descer o barranco. — VAI!!! — gritei, empurrando-o na direção. — CORRE, NARUTO!!!

Ele cambaleou por causa do empurrão, mas logo se firmou e começou a correr, acelerando mais a cada instante e de repente começou a cantar, quer dizer, gritar a música com toda a força dos seus pulmões. Sorri de lado e fitei a alcateia. Sete lobos. Sendo que um deles era negro.

O alfa. É muita ironia cinematográfica. Por que lobos negros sempre aparecem em noite chuvosas com relâmpagos e quando se está sozinho?

Eu desamarrei a minha jaqueta, deixando-a cair no chão, tirei meu arco e minhas flechas, ficando munido apenas do punhal.

Girei o punhal na mão, deixando a lâmina para baixo e assim que o primeiro lobo saltou para me atacar, eu acertei um soco em sua barriga, jogando-o contra outro que vinha. Os lobos agem como família, atacando em conjunto, de modo que um alvo desatento pouco terá de defesa em seu favor. Mesclei os golpes de impacto do kick boxing com os movimentos ágeis da capoeira para me esquivar e, quando conseguia, acertá-los. Tenho que admitir. Eu estava com medo, meu corpo tremia de medo, às vezes escorregando inconvenientemente na lama.

Não tenho medo de carros, de armas, de homens, de mulheres ou de bombas. Tenho medo da natureza, pois não há controle nela, não há como controlar ou adivinhar seus movimentos, ela é senhora de si e de quem estiver dentro dela. É disso que eu tenho medo, dessa imprevisibilidade.

Um lobo saltou para morder o meu pescoço, soquei-o na barriga ao me jogar no chão, mas acabei sendo mordido por outro. Chutei seu focinho, rolando ao mesmo tempo para fugir dos outros dois. Parei abaixado e fitei minha perna.

Graças a calça e a bota, eu não me ferira. Passei o punhal numa pedra a minha frente, fazendo fagulhas cintilarem na escuridão e gritei alto, intimidando-os. Tenho que tentar parecer ameaçador para ter uma chance de escapar.

Quando me ergui, fui derrubado barranco abaixo, pelo líder. Ouvi os latidos do resto da alcateia descendo, enquanto tentava me livrar de sua boca grande tentando comer a minha cara, ao mesmo tempo que rolávamos. Nos chocamos contra uma árvore. Arfei de dor e fui logo me levantando, procurando o punhal que eu deixara cair.

Droga, eu não enxergo quase nada com essa lama toda. Limpei meu rosto e fitei o meu redor. Eu estava cercado. Respirei fundo. Tirei minhas luvas, apertei meus punhos, limpei meu rosto e fiquei em posição de combate, encarando o alfa.

— PODE VIR! — gritei, intimidando-o com minha cara de fúria. — NÃO VAI ME MATAR! NEM HOJE, NEM NUNCA, PORQUE EU SOU O DIABO!!! OUVIU?! — gritei mais alto e as orelhas do lobo se ergueram, ele estava atento. — NÃO VAI ME MATAR!

Todos os lobos pararam, não me atacaram, quando o alfa deu um passo a frente, parecendo ainda maior. Ele aceitou o meu desafio, com certeza. Eu morro, mas o levo comigo. Aliás, não posso morrer, não com Naruto perdido na mata e com Maiko esperando por mim. O lobo veio, seu pêlo reluzindo a cada relâmpago, suas patas arrancando tufos de plantas rala e fazendo as poças de lama explodirem a cada passada. Minha respiração acelerou, meu coração bateu mais rápido, eu senti todos os meus músculos ficarem tensos e então o soco.

Soquei bem no meio da boca aberta do lobo e deixei o punho ali, impedindo-a de se fechar e ele me morder, mas ele começou a se debater quando tentei segurá-lo e derrubá-lo. Era horrível ouvir os sons animalesco que o lobo emitia. Do pânico que me assolara por causa de seus olhos enormes brilhantes me encarando, eu caí e o soltei.

Droga, eu estou com medo. Seus dentes reluziam, ele vinha devagar, calculando a que momento deveria me matar, como iria me atacar, chegar ao meu pescoço e rasgá-lo. Não, eu não posso morrer, não ainda. Fechei meus olhos e respirei fundo, me levantando.

— I am the Darkness. — coloquei-me de pé. — I am the Immensity. — endireitei minha postura. — I am the Evil. — abri meus olhos e eu não preciso de espelho para saber que eles estão vermelhos como fogo. — I am Greatness. — um raio despencou do céu, rasgando o mundo. — I am Freeman. — arregalei meus olhos e abri os braços. — Eu sou Uchiha Sasuke e não vou morrer aqui!!!

Meu brado soou mais alto que os trovões. O lobo olhou-me nos olhos. Eu me vi ali e ele me viu nos meus, era como se, de alguma forma, estivéssemos conectados. Baixei meus braços e fui me curvando, colocando-me de joelhos, em geno-flexão, baixando o meu rosto.

Não posso vencer a natureza, não posso derrotá-la, mas isso não quer dizer que eu serei humilhado por ela. Agora eu entendo. Devo ser humilde, respeitoso, como eu era como criança, cujos animais não ousavam me ferir porque eu não ousava feri-los.

— Não me mate. — falei baixo. — Eu… Tenho… Uma família que me ama de verdade. Eu finalmente encontrei alguém que me ama e não posso perder a oportunidade de me curar das doenças da minha carne impura… Deixe-me viver, deixe-me seguir. — encarei o lobo. — Mestre.

Ele sentou-se e aos poucos a chuva foi afinando, os sons estrondosos diminuindo. O lobo veio até mim, caminhando devagar e colocou-se bem em frente a mim. De novo eu me vi nele e ele em mim, conectados como em tempos de outrora. Sorri, finalmente lembrando. Fiquei com os dois joelhos no chão e abracei o pescoço dele. Não consigo crer.

— Você está vivo… Kuro. Meus deuses… — então a chuva parou tal como começara. O lobo começou a balançar a cauda e lamber o meu rosto. — Oh, meu velho amigo! Está vivo! Minhas preces foram ouvidas! — recostei minha testa em sua cabeça e ele me fitou. — Eu sei, Kuro, eu sei que estou bem velho… Mas olha só você, tem família, é líder. Quem diria?

Nem sempre criei cães. Quando morava aqui, nessa montanha isolada da terra, meus únicos amigos eram os lobos e Kuro foi o último que eu conheci, o que, como mamãe dizia, era a extensão animalesca da minha alma. Kuro me entendia só de me olhar. Ele é um lobo gigante das montanhas, na época o último, mas agora vejo que era mentira. Sobreviveu e sua família também, escondida, tal como eram os Uchihas.

Abracei-o mais um pouco e me levantei, encontrando, finalmente, meu punhal perdido.

Subi o barranco rapidamente, apesar das dores no corpo e fui atrás das minhas coisas. Fitei o barranco enquanto vestia minha jaqueta. Kuro veio aos pulos atrás de mim, feliz como um filhote, com sua matilha vindo atrás. Afaguei-lhe as orelhas.

— Preciso ir agora… Tenho que encontrar uma pessoa importante. — seu pelo esparso é macio e brilhante como veludo. — Nos vemos, meu bom e melhor amigo.

Saí correndo na direção que eu indicara a Naruto. Ouvi rosnados e então vi Kuro ao meu lado, correndo comigo. Franzi o cenho e sorri. Entendi bem o que era aquilo. Eram os velhos tempos retornando. Dediquei um olhar sério para Kuro e ele uivou alto. Dois lobos menores, cinzas, correram em disparada a frente.

Parei numa “encruzilhada” e fechei os olhos.

— Vamos, Naruto… — murmurei, querendo ouvi-lo. Corri mais um pouco, desviando de troncos, buracos, galhos e toda sorte de coisa. Parei e foquei o silêncio. Ouvi um murmúrio. Abri meus olhos, sorrindo, e corri naquela direção. — NARUTO! — gritei.

Esperei pela resposta. Essa mata está um breu dos infernos, eu espero que ele tenha lembrado que há uma lanterna no bolso externo da mochila, de modo que poderá fazer um facho de luz indicando uma direção para mim. Continuei correndo, com os lobos por perto, como se fossem a minha escolta pessoal. Isso chega a ser divertido de tão estranho que é. Gritei mais uma vez seu nome, esperando por alguma resposta sonora. Eu ainda ouvi-o cantar. Garoto obediente, vou recompensá-lo bem por isso, continua fazendo barulho.

Estalei minha língua e Kuro parou quando a voz de Naruto estava bem perto. Ele latiu alto e os lobos esperaram. Afastei alguns arbustos e vi-o apoiado numa árvore, no meio de uma clareira, numa parte mais baixa da floresta, um terreno rebaixado por causa de um antigo córrego que passava por ali. Ele estava olhando ao redor, tentando respirar corretamente, o corpo molhado e o rosto corado. Ele queria sorrir, mas não o fazia por não saber de onde vinha a minha voz.

— Aqui! — ele falou, com a voz rouca.

Desci rápido, pisando em tudo o que estava no meu caminho para que eu pudesse me equilibrar, segurei num galho e me impulsionei para frente, caindo numa cambalhota, desviando do arbusto com espinhos venenosos que havia logo abaixo.

Os lobos vieram logo atrás, aos pulos, indo para um canto da clareira, onde estava Kuro.

— Naruto. — chamei-o, assim que me pus de pé. Nos fitamos.

Naruto veio para mim e me abraçou com força, afundando o rosto no meu peito. Nem se importou com a quantidade de lama que havia em mim, me abraçou com carinho, com preocupação, com sei lá que sentimentos, apertando minhas roupas entre seus dedos.

— Você tá bem! — ele suspirou, aliviado. — Puta que pariu, Sasuke! Você quase me mata do coração! Não faz mais isso, por Kami!

— Ei, ei, calma, eu estou aqui, não estou? — afaguei seus cabelos. — Eu disse que ia te achar.

— Não estava preocupado com isso, você ficou sozinho! E se acontecesse algo? — ele me encarou com os olhos brilhantes de lágrimas.

— Tudo bem, fica assim não. — afaguei seu rosto e beijei sua testa. — Eu pensei estar em perigo, mas na verdade eu estava com velhos amigos… — apontei para os lobos.

Naruto se agarrou inconscientemente a mim quando percebeu Kuro a menos de um metro de distância, deitado numa pedra alta, balançando o rabo com as orelhas baixadas. Os outro lobos estavam mais distantes, deitados uns por cima dos outros, todos balançando as caudas e com as orelhas baixas, me fitando com expectativa.

— Quem… O que… Como… Sasuke! — ele me fitou desesperadamente.

— Aquele é Kuro. Meu lobo e meu melhor amigo. — falei, sorrindo. — E aqueles são os Seis Cinzentos: Vento Cinzento. — um de pelo cinza mais escuro se levantou. — Fantasma. — o todo branco ficou de pé. — As gêmeas Lady e Nymeria. — duas lobas de pelo cinza claro sentaram-se de forma ereta. — Verão. — o menor e de pelo prateado ergueu as orelhas e pôs a língua de fora. — E Cão Felpudo. — o maior de todos, porém menor do que Kuro, com um tom manchado de cinza, latiu. num salto.

— Hã? Eles são seus? — Naruto franziu as sobrancelhas, claramente confuso.

— Você tem um gato. Eu tenho sete lobos. E daí? — soltei-o e fitei-os. Estalei a língua duas vezes e eles dispararam para a mata, Kuro sendo o último a ir. Sorri, limpando a lama seca das minhas mãos e encarei a cara confusa de Naruto, meio boquiaberto. Com um dedo, eu empurrei levemente seu queixo para cima, fechando-a. — Está machucado? — perguntei, afagando seu queixo com o indicador curvado.

— Não. E você? — ele começou a analisar meu rosto, a procura de ferimentos.

— Nada de mais. Vamos montar logo acampamento. Os lobos vão nos vigiar durante a noite. — falei, dando uma olhada ao redor. — Vou buscar madeira para a fogueira.

— Tudo bem. Espero que seus lobos simpatizem comigo, porque se eles me amarem tanto quanto Kurama te ama, eu juro que surto de vez.

Dei um beijo em sua boca.

— Enquanto estiver com meu cheiro em seu corpo, eles não vão pensar em te machucar. — beijei-o mais um pouco e fui até as árvores, longes dos espinhos, buscar alguns galhos que estivessem secos. Catei-os e olhei ao redor, vi Nymeria passar por mim balançando a cauda, depois sumir na escuridão quando o uivo de Kuro ecoou no mundo.

Retornei e fiquei assistindo Naruto tentando montar uma barraca enquanto eu preparava a fogueira. Tirei meu isqueiro do meu cinto de utilidades, acendi um cigarro que estava em outro bolso e fui buscar um pouco de mato “seco”. Achei com algum custo, entrando novamente na floresta, sem que Naruto visse, pois estava concentrado demais na sua tarefa, prendendo a lanterna nos dentes para enxergar melhor no escuro.

Acendi a fogueira e garanti que ela ficasse acesa. Assobiei alto quando a chama pegou forte na madeira e fez uma boa brasa. Os lobos vieram de várias partes, aconchegando-se perto das chamas, uns por cima dos outros, numa brincadeira gostosa. Fitei Naruto. Para o meu espanto, ele conseguiu montar direitinho a barraca e agora desenrolava o colchonete para dentro dela, ficando de joelhos e admirando com orgulho o seu trabalho.

— Isso é que é um homem. — comentei ironicamente, segurando um sorriso.

— Uzumaki Naruto não é só beleza, querido! — ele fingiu que lixava as unhas.

Fiz uma cara de “estou impressionado”. Levantei-me, pois eu estivera de cócoras até aquele momento e desamarrei minha jaqueta, colocando-a sobre uma pedra. Tirei meu pulôver e deixei perto do fogo, pendurando numa vara que eu fincara na terra, secando.

— Trouxe o que para comer? — perguntei, ao ouvir o sonoro ruído de seu estômago.

— Algumas frutas, cereal, iogurte e peixe grelhado. — falou, fazendo uma careta. — Mas preferia rámen.

Tão óbvio que chega a ser chato.

— Vai comer o que disso tudo? — perguntei tirando o cinto, derrubando-o perto do pulôver. Levei o cigarro aos lábios e dei um trago longo, saboreando a nicotina queimando o meu interior. Soltei a fumaça devagar, ainda olhando para Naruto.

— Depois dessa maratona, o peixe é uma boa pedida. — ele suspirou. — Odeio essa dieta infernal. — falou, frustrado.

— Certo… Quer tomar banho antes de comer? — perguntei, segurando um sorriso safado.

Eu sei que a missão de Naruto aqui nessa terra, atualmente, é me ver nu. Esse cara não tem outra coisa na cabeça além disso e do fato de que me ama, coisa que Naruto gosta de deixar constantemente claro para mim. No dia que isso acontecer, se acontecer, eu acho que ele vai se decepcionar, porque eu não sou essas coisas todas pelado, estou sendo sincero.

— Com você? — seus olhos brilharam e ele sorriu como se o natal tivesse chegado mais cedo.

Neguei, pegando meu arco e três flechas. A expressão de Naruto murchou instantaneamente.

— Eu vou caçar. O local é perto das termas, onde você pode tomar um banho tranquilo e quente, com Lady e Nymeria ficando de guarda. São as mais dóceis, porém mais protetoras.

— Um homem pode sonhar, não é mesmo? — deu de ombros.

Eu ri baixo.

— Quer ir de toda forma? — eu não esqueci de dar o agrado a ele por ter sido tão obediente durante o momento de sufoco, e também pelo susto que passara.

— Sim, seria ótimo.

— Pegue o que for preciso e vamos. — estalei meus dedos duas vezes e as duas lobas vieram comigo. Fitei Kuro e fiz um gesto circular com o indicador.

Não era longe do acampamento, inclusive a chama da fogueira ainda ficava visível. As termas são fontes naturais de água quente que brota do chão, suas águas são uma mistura da água da fonte com as águas de um córrego que passa por ali perto. Era completamente aberto, as árvores formaram uma espécie de muralha ao redor e as pedras que ficavam pelas bordas, recostos para quem iria tomar banho. O vento soprava de leve, e a lua sorria atrás de algumas nuvens, algumas plantas dançavam com os ventos e deixavam os cheiros aromáticos de suas flores impregnarem o ambiente, tornando-o confortável.

Aproximei-me das águas, coloquei um dedo dentro, verificando a temperatura, provei a água e fitei o fundo da terma. Não havia peixes grandes, só algas. Fitei Naruto.

— Aproveite. — eu endireitei minha postura. — Estarei caçando meu jantar por aqui perto. — apontei para uma parte menos densa da mata, na direção oposta da que viemos. — Se precisar, grite. — ele olhava o ambiente com atenção. — Gostou?

— Muito agradável para um banho no meio da natureza.

Assenti, sorrindo minimamente.

— Itachi me disse que quando era moleque… — apontei para uma árvore que havia atrás de nós, bem na frente da fogueira, uma árvore larga. — Que ficava ali atrás, assistindo Shisui tomar banho e, as vezes… — baixei me tom de voz, aproximando meu rosto do ouvido de Naruto. — Se masturbava, porque essas águas são rasas e bem limpas, de modo que tudo fica bem visível.

— Credo, quem quer saber disso? — ele fez uma careta. — Olha, do jeito que Shisui é, era capaz de ele saber e fazer isso só para provocar mesmo! — riu, de forma divertida.

Eu ri e me afastei, indo para a direção que eu indicara.

— Eu iria querer saber, caso a pessoa que eu gosto estivesse se banhando e eu nunca pudesse ver por n motivos. É uma boa oportunidade. — entrei na mata.

Alguns minutos e corridas depois, atrás de lebres, em companhia de Cão Felpudo, — ele adora caçar — eu finalmente consegui acertar duas flechadas em duas lebres. Retornei ao acampamento e preparei os animais, dando as vísceras e os restos para os lobos comerem. Cacei uma terceira lebre e dei a Kuro. Esperei os pedaços enfiados na flecha assarem, vendo Naruto comer avidamente o peixe que trouxera.

Aproveitei o tempo de espera para tirar minhas botas e deixar as meias secando, dá uma olhada nas minhas pernas, principalmente na que fora mordida. Havia uma “discreta” marca vermelha de dentes ali e, por algum milagre, a pele não fora rasgada. Aqueci-me no fogo, o frio começando a crescer com o vento e a recente chuva.

Sempre munido da minha pimenta, coloquei um pouco na carne e comi sem me importar com os grunhidos pidões de Verão perto de mim. Eu olhei para Naruto. Limpo, com outras roupas, sem arranhões e parecia desgostoso com algo.

— Quer um pedaço, Naruto? — ofereci, depois de mastigar e engolir o que estava em minha boca.

— Não estou afim de ser assassinado por Shisui. — bufou. — Ele sempre adivinha quando eu saio da dieta.

— Mas você ainda está com fome? — perguntei, mordendo um pedaço.

— Todo tempo. — gargalhou.

Fui para perto dele, levando o meu “espeto”, sentei-me ao seu lado, tirei um pedaço e coloquei em sua mão, para depois eu lamber a ponta dos dedos.

— Coma. — mandei. — Se Shisui reclamar, peça a ele para vir falar comigo. Estou pouco me lixando para sua dieta, eu não quero que desmaie de fome no meio dessa mata. Agora coma.

Ele parecia relutante.

— Antes de mais nada… — aproximei meus lábios de seus ouvidos. — Você é meu submisso e deve me obedecer. — beijei sua têmpora. — Coma.

— Gosto do seu argumento. — falou e depois começou a comer, com os olhos fechados, soltando resmungos de satisfação.

Sorri e deixei mais dois pedaços no prato do peixe.

Depois de alimentados, tanto nós como os lobos, eu me recordei do meu plano.

— Bom, Naruto. Eu vou tomar banho na terma. — falei, indicando a direção. — Não espere por mim para dormir. — pisquei um olho, pegando meu cinto de utilidades e indo descalço para lá. — Kuro. — chamei e o lobo veio. — Vento Cinzento, vigie o fogo. — ele latiu em resposta.

Eu me despia, recordando todas as vezes que eu viera para essas águas com a mais variadas intenções, desde as mais alegres até as mais tristes. Aqui eu tomava banho com a minha mãe ainda bebê, sendo ensinado sobre as coisas “do mundo”, coisas que muitas poucas pessoas sabem ou conseguem ver. Dobrei minhas roupas e as coloquei sobre uma pedra, roupas eu digo minha calça e a cueca, entrei na água devagar, deixando as sensações tomarem de conta de meu corpo, juntamente com as lembranças.

Kuro ficara atrás de mim todo o tempo, seu corpo da altura da minha cintura, sua cabeça chegando até as minhas costelas, ele ficava olhando em volta, vigiando a mata, ouvindo sons que eu não poderia mais ouvir por ter perdido a sensibilidade. Quando eu entrei, Kuro se deitou, servindo de almofada para o meu corpo cansado.

Relaxei, relaxei longamente e tirei um cochilo de mais ou menos quinze minutos naquelas águas. Saí ao acordar e me demorei sentando na borda, as pernas ainda dentro da água, com Kuro ainda deitado atrás de mim, cochilando. Ouvi um barulho conhecido, algo que me é tão familiar quanto a escuridão dessa mata: um resmungo de um “animal” inconformado.

Peguei minha cueca, vesti-a e me levantei, passando por cima de Kuro. Fui até uma pedra e me sentei ali, para fumar um pouco, a luz da lua iluminando todo o ambiente, deixando tudo mais em paz, mais tranquilo, sereno. Fiquei recostado, curtindo o cigarro até ele acabar. Só depois disso eu vesti-me e retornei ao acampamento, rindo do barulho que o “animal” fazia ao correr de volta para o seu “habitat”. Cheguei e vi Naruto de quatro dentro da barraca, a bunda virada para mim.

— Posso saber por que ainda está acordado, little bitch, e ainda mais nessa posição?

— Eu estava esperando você… Eu deixei meu colar cair, quer dizer, achava que tinha deixado cair. — ele segurou o pingente de cristal e fingiu uma cara de surpresa. — Ah, olha ele aqui!

Estreitei meu olhar. Sei, colar. Fui buscar minhas roupas, vestindo-as e fitei Naruto deitado dentro da barraca, a cara de quem cometeu uma arte e a mãe não pode saber.

— Boa noite. — eu disse. — Não tem mosquitos aqui, mas se cubra por causa do vento frio. Nos vemos amanhã de manhã. — entrei e lhe dei um beijo nada discreto de boa noite. — Durma bem.

— Boa noite, Sasuke. Até amanhã. — ele começou a se cobrir e sorriu. — Eu amo você.

Fitei-o e dei outro beijo, demorando-me, precisando sentir o seu sabor.

— Desculpa pelo susto de hoje. — afaguei seu rosto. — Eu fui pego de surpresa… — mais um beijo, nossas línguas se abraçando com carinho. — Eu estarei com você amanhã. — sussurrei.

Saí da barraca. Assobiei alto de novo e vi os lobos começarem a se reunir perto da fogueira, ao lado da barraca, Kuro veio saltitante e deitou-se, Cão Felpudo ficou do lado dele. Deitei-me entre os dois, o corpo sobre Kuro e as pernas sobre Cão Felpudo. Verão pulou em cima de mim e assim eu dormir, no meio da matilha.

No dia seguinte, depois do café da manhã improvisado com um faisão que eu caçara e com o iogurte de Naruto, nós recomeçamos a marcha, indo por um túnel de árvores curvadas, que se fechavam no alto, permitindo que apenas alguns raios de sol escapassem. Naruto fez questão de tirar milhares de fotos suas naquele lugar, de tão lindo que era. Foi uma longa caminhada em curvas e encruzilhadas, como num labirinto, por esses túneis naturais.

De vez em quando achávamos estátuas antigas dos deuses protetores da minha casa. Como um bom Uchiha, eu parava para fazer minhas preces, colocando-me de joelhos, com os punhos cerrados no chão ao lado de cada perna.

Depois disso, a trilha virou uma antiga escadaria de degraus que se transformaram em batentes cada vez mais altos, chegando ao ponto que eu tinha que usar as raízes das árvores que cresciam neles para subir.

— Não querendo ofender, mas vocês eram fugitivos? Porque moravam no fim do mundo? Não que não seja um lugar bonito, mas… Saudades civilização. — ele perguntou de repente.

Parei e fitei Naruto uns quatro batentes abaixo de mim. Sentei-me e esperei-o, pensando na resposta. Eu estava tão absorto em minhas lembranças que por um segundo eu o esqueci.

— Na verdade, o clã Uchiha foi um clã criado longe de tudo. Inicialmente feito para a guerra, nas antigas dinastias… Meu pai quis nos criar assim também, por isso morávamos no topo do mundo. — corrigi-o, pois subíamos. — Mas não deu certo. Itachi só ficava em casa e eu vivia na floresta. Por que a pergunta? — levantei-me e subi mais um batente.

— Nada. Só curiosidade mesmo.

— Sério? — parei e fitei-o. — Quer que eu leve a mochila um pouco?

— Não mesmo, depois de suas peripécias de ontem, você não deveria nem ‘tá forçando tanto a coluna, além de eu não ser uma mocinha delicada. — bufou.

Estreitei meu olhar.

— Oh animal, eu só estava querendo aliviar para você. Correu dois quilômetro com isso tudo nas costas debaixo de chuva ontem. Eu imaginei que estivesse cansado. — virei-me e comecei a subir um pouco mais rápido — Isso é o que o cara ganha por tentar ser gente boa com as pessoas. — Depois de subir quase tudo, eu parei ao lado do maciço de pedra e fiquei esperando. — Babaca. — falei alto, vendo-o arquejar, mas subir.

— Você também é um amor de pessoa, Sasuke. — ironizou. — Não vou reclamar, todo esse esforço vai servir de alguma coisa. Mais magro com certeza eu devo ficar. — deu uma risada alta.

Suspirei e me sentei no batente.

— Mais babaca, menos burro. — acrescentei, apoiando minha mão no queixo. — E é porque eu estou, como você disse, com as costas fudidas. Imagine se eu não tivesse… — resmunguei baixo, vendo seu esforço ao subir cada batente.

Em um ele escorregou e quase caiu, mas se segurou. Eu? Só de boa, olhando. Subimos mais, eu sempre uns dez batentes a frente que ele. Se alguém já viu Senhor dos Anéis, vai lembrar da escada de pedra que o Gollum guia os hobbits para chegar em Mordor. Pois bem, a escada que estamos subindo é parecida, só que maior, muito maior e mais larga.

— Tranquilo aí, Naruto? — eu perguntei, depois de tomar um gole de água da antiga fonte que eu achara escondida entre as pedras e as árvores que adornavam o lugar.

— Está sim. — ele arfava.

Estávamos subindo, dessa vez, cada vez mais alto, a escada ficando mais íngreme. Observei o alto e suspirei. A próxima parte da escada é praticamente uma escalada. Será que ele vai conseguir? Vai, Naruto é bem ágil e eu estarei ajudando-o.

Depois de uma hora de subida, escalando os degraus, chegamos ao topo do maciço de pedra. Naruto se jogou no chão, ficando estirado lá, quase morto. Olhei em volta e sorri. A floresta parecia um tapete fofo verde que se estendia por quilômetros e quilômetros de extensão. Abri os braços, o vento forte esfriando o meu corpo suado. Uivei alto, usando as mãos em concha como amplificador. Aproximei-me da borda e ri dos uivos em resposta. Eles já estavam lá, seguindo pela rota alternativa mais longa e mais perigosa.

Esperavam-me. Olhei para a imensidão do mundo e me sentei em posição de lótus. Dizem que o nosso lar é onde nos sentimos acolhidos e bem. Acho que essa floresta amaldiçoada sempre foi o meu lar, o meu refúgio, o meu paraíso. Respirei fundo e fiquei quieto, apenas sentindo e ouvindo o vento, as montanhas, o céu, o sol, as nuvens e a minha alma dialogar com tudo isso.

— A gente errou o caminho? — Naruto me olhava com uma cara confusa. — Pensei que íamos visitar seus pais...

— E vamos. Eles moram ali. — apontei para o monte em frente. Dava para ver o telhado negro de onde nós estávamos. As nuvens formavam rios entre montes e a floresta eram suas ilhas verdes. — Moravam, moram, depende de quem fala.

— Da próxima vez o helicóptero não pode deixar a gente lá? — choramingou.

Neguei.

— O que importa é o caminho, Naruto, não o destino. — fitei-o. — Agora temos que ver como iremos para o outro lado.

— Tirolesa? — ele brincou.

— É. — falei, apontando para cima.

Lá estava o cabo de aço que eu mandara instalar há uns dez anos e que eu venho mantendo. A cara de assombro que Naruto fez me deu uma crise de riso tão longa e forte que me deixou sem fôlego por alguns instantes. Fiquei estirado no chão, braços e pernas afastadas.

— Sério?! Eu sempre quis experimentar descer na tirolesa! — ele bateu palmas de empolgação.

— Só tem um problema maroto. — falei, rindo. — Não tem aparelhos de suspensão para descer. É só o cabo de aço ligando as duas montanhas. Alguma ideia?

Encarei-o e cruzei minhas mãos em frente a barriga.

— Você sabe como estragar o momento. — revirou os olhos.

Levantei-me e respirei fundo, relembrando-me do que eu fazia para atravessar antes do cabo e depois do cabo. Caminhei até o ponto onde havia um breve escalada para o cabo, tirei meu cinto e o passei para o outro lado, fazendo um suporte. Escorreguei até chegar na pedra que havia de frente a Naruto e me virei para ele.

— Vem aqui. — mandei, referindo-me ao ato de subir a pedra onde eu estava. — Vou te amarrar bem apertado a mim. — pisquei um olho.

— Porque você está tentando nos matar desde de ontem? — perguntou com uma careta de desgosto e depois se aproximou, contrariado.

Soltei o cinto e puxei minha jaqueta.

— Te matar? — agarrei-o e o fiz ficar praticamente colado em mim. Comecei a nos amarrar. Tirei o cinto de Naruto e enrosquei junto com o meu, para dar maior sustentação — Não está vendo que só quero que fique seguro? — sussurrei em seu ouvido. — Pronto?

Eu estava de costas para a montanha, com Naruto amarrado na minha frente.

— Para essa loucura, nunca! — ele respirou fundo e me apertou com força.

Beijei-o.

— Imagina que a gente está transando. Esse… — afastei-me um pouco, o barulho das pedrinhas caindo, fez ele arregalar os olhos ao olhar para baixo. — É o momento em que estou prestes a entrar em você, aquela ansiedade que contrai o seu estômago e te faz ficar sem fôlego. — ele me fitou. — Faça como sempre faz: me abrace com força e me deixe te enlouquecer.

— Kami, por favor, que eu não morra sem sentir isso de novo. — ele olhou para cima e depois me encarou, dando uma risadinha nervosa.

— É uma experiência única.

Naruto cravou os dedos em minhas costas e eu nos puxei para baixo. A gravidade fez o resto. Deslizamos em alta velocidade pelo cabo de aço. Naruto só gritava de emoção, enroscando as pernas em minha cintura olhando para o caminho e para baixo. Minha preocupação era só os cintos em atrito com o aço. Eles tinham que aguentar até o fim. Foram os trinta segundos mais gritados da minha vida, não por mim, que só ria, mas por Naruto.

E adivinha o que tinha no fim da tirolesa? Isso mesmo que você está pensando e foi exatamente isso que pagou o pato. Não ria, poderia ter sido com você.

Pois é. Uma pedra polida nos esperava. Mas abaixo dela havia um lago fundo o suficiente para uma pessoa mergulhar sem problemas. E como tudo em mim é premeditado, assim que nos chocamos contra as árvores, minha jaqueta se soltou e caiu no começo do lago.

— Solta! — mandei para Naruto, só que ele estava tão absorto que só se soltou de mim quando nos chocamos contra a pedra e caímos dentro do lago.

O que se fudeu? As minhas costas, é claro, quem mais seria? E por que? Porque eu estava com o arco e as flechas nas costas, então… Não vou comentar. Simplesmente caímos dentro da água, Naruto gritando e eu de todo jeito, meio desorientado. Fiquei boiando no lago, sentindo minhas costas e minhas pernas arderem, enquanto Naruto nadava para margem, sua mochila atrapalhando seu intento. Era mais divertido quando eu era mais novo.

Naruto tem uma capacidade admirável de lesar nas horas importantes da vida. Falando na peste, ele estava sentado, ofegante, olhando para um lado e para o outro, e, de repente, começou a reclamar o quanto era ruim estar molhado com roupa e tudo, que ficaria doente, que estragaria o desfile, que Shisui mataria ele, que se ferraria no outro dia, que sua barriga estava doendo porque caíra de barriga na água, que aquilo era uma loucura que nunca mais iria fazer e mais outras coisas que eu não ouvi porque meu corpo todo latejava.

Eu só me ferro nessa merda mesmo. Oh vida sivirina, como já dizia um finado conhecido meu. Eu escuto um grito, um chamado, e viro o rosto. Naruto estava na margem, em pé, sacudindo os braços na minha direção, gritando meu nome.

— Kami-sama! Você está vivo? Está bem? — jogou a mochila no chão e pulou na água, sem mais nem menos, nadando para perto de mim.

— Não. Morri, virei um fantasma e vou te atormentar pelo resto da sua… Oe? Vai fazer o que? — saí da posição que eu estava e me empurrei para o fundo, mergulhando depois de tomar fôlego. Vi-o de baixo, nadando em círculos.

Fui para a borda, nadando o mais rápido que eu podia antes que ele me alcançasse e eu morresse afogado. Cheguei, apoiei minhas mãos na pedra, icei-me para fora e dei uma carreira para o portal de entrada, ofegante. Ele fala que eu tentei matá-lo, e ele? Está conseguindo me ferrar. Deuses, o que foi que eu fiz para merecer isso?

Senti minhas costas doerem, como se agulhas me perfurassem.

— Eita ferro… — resmunguei. — Eu devia ter uma coluna de aço…

Ouvi-o sair da água vindo em minha direção. Essa não. Lá vem ele querer me agarrar. Forcei minha coluna para frente, gritando de dor, e disparei pela trilha através do portal. Corri como se uma cruz me perseguisse, afinal eu sou o diabo e deixo um trocadilho infame para vocês. Ouvi os gritos indignados de Naruto.

— CORRE, MISERÁVEL! — gritei comigo mesmo, inclinando-me para frente e acelerando.

Arfei e vi uma árvore quase caída bem a frente. Tive uma ideia.

— PARA DE CORRER, IDIOTA! VOCÊ ESTÁ INDO PARA ONDE? — ele gritou.

Saltei no ar, antes que ele fizesse a curva e me achasse, agarrei no galho e subi. Ligeiro feito um macaco, apesar da dor infernal, eu subi a árvore, indo de um galho para o outro, cortando caminho até o alto e fiquei lá, quieto, ou quase, porque eu ofegava. Sentei-me doloridamente e fiquei observando o caminho, esperando ele passar.

— Quer saber, não vou passar o dia correndo atrás de você! Vou estar no lago me secando. Passar bem! — falou do chão, olhando para os lados, me procurando. Depois deu meia volta e saiu andando. Um andar decidido, firme, injuriado pelo fiasco que foi a sua tentativa de me salvar, eu acho, Naruto seguiu até sumir de minhas vistas.

Eu nada disse. Fiquei lá até o anoitecer, pendurado, pensando em tudo o que acontecera nesses dias, todas as vezes que eu ferrara as minhas costas, que fora atacado, as caças, as quedas, a aventura por um todo. Valera a pena. Até mesmo as dores.

Saí de meu esconderijo e fiz o caminho de volta para o lago. Me peguei sorrindo enquanto andava. Naruto tentara me salvar. Quem diria que alguém, que não fosse Itachi, tentaria me salvar da morte? Logo eu? Penteei meus cabelos e suspirei, satisfeito. Eu fiz exatamente como aquele passarinho que constrói uma casa e prende a fêmea dentro, só para si. Eu construi a minha casa e tranquei Naruto dentro, fazendo-o só meu.

Cheguei ao lago depois de dez minutos praticamente arrastando os meus pés, relembrando todas as vezes que eu correra por ali em minha infância na companhia de meu irmão ou sozinho, e vi Naruto deitado no colchonete em posição de conchinha, observando as estrelas, sua boca se movia sem parar. Meneei a cabeça negativamente.

Ajoelhei-me com sua cabeça entre meus joelhos e o beijei.

— E aí, negão? — sua pele estava mais bronzeada que o normal, provavelmente pelo sol que ele tomou na margem do lago. — Está menos irritado? — mais um beijo, passeando meus dedos por seu peito.

— Não estou irritado, estou chateado. O que foi aquilo, posso saber? — resmungou.

Deitei-me de perfil, minha cabeça encostada em suas pernas, e suspirei.

— Eu não queria ser afogado. — respondi, dando de ombros. — Você parecia agoniado demais para fazer um salvamento bem sucedido… E outra, eu estava boiando, não morrendo.

Ele suspirou.

— Como você está? — perguntou, preocupado.

Sentei-me e puxei-o para um beijo faminto. Sinceramente? Cansado, esgotado, exausto, mas eu não diria a ele. Fui me inclinando para trás e quando dei por mim, eu estava deitado, sendo beijado por Naruto, no pescoço, no rosto e na boca, enquanto suas mãos acariciavam o meu tórax numa massagem boa.

— O que você acha? — rebati, fazendo cafuné nele.

— O que acha de uma massagem? Eu sei que suas costas não estão nada boas.

Assenti e fui me virando, deitando-me de bruços em cima do colchonete, sentindo ele sentar-se sobre a minha bunda. Fechei meus olhos, respirei fundo e apoiei-me o melhor que eu podia. Naruto começou a apalpar de leve, perguntando onde doía, até mapear tudo.

— É melhor você tirar a blusa. — ele disse e já começava a puxar o tecido.

— Como é a história?- fitei-o por cima dos meus ombros.

— É sério. Não ‘to tentando nada. — revirou os olhos. — Colabore. É para o seu próprio bem.

Naruto se afastou quando eu assenti. Abri o zíper e dobrei a camisa como se fosse um apoio para o meu rosto. Deitei-me de novo e suspirei, meio cansado.

— Merda! — ele reclamou, preocupado.

— Que foi? — perguntei, fitando-o por cima de meus ombros.

— Você tem uns hematomas feios aqui. — passou os dedos de leve para mostrar os lugares.

— Relaxe, já estive pior.

Ele se inclinou sobre mim e começou a me tatear. Primeiro foi para os meus rins, lá estava a maior de todas as minhas cicatrizes e que mais me orgulho. Depois subiu fazendo um pouco de pressão nas minhas costelas esquerdas e apertei minha mão em punho, sentindo uma pontada de dor ali. Por último, meus ombros. Senti outra pontada no ombro direito.

— Se doer demais, avisa.

— Certo. — eu estiquei meus braços para trás e fiquei com o rosto de banda.

Ele dedilhou a parte de trás do meu pescoço e depois apertou com os dedos, descendo pelos ombros. Suspirei, satisfeito. Eu conseguia sentir todo o meu estresse por baixo da minha pele sendo pressionado por Naruto. Apertava com mais força a cada ir e vir de suas mãos, desfazendo os nós de tensão. Ele se demorou bastante naquela área, mas depois começou a descer pelos lados, esfregando a pele de leve, antes de começar a dedilhar e apertar novamente meus músculos doloridos. Suspirei mais uma vez, de satisfação.

— Dedos mágicos… — murmurei, sorrindo. — Você é bem habilidoso nisso, Naruto. Onde aprendeu?

— Paris. Fui posar para uma capa de revista e a material principal era sobre novas técnica de massagem que estavam sendo desenvolvidas num spa famoso de lá. — eu ouvia tudo com atenção. — Fiquei curioso e fui experimentar. A dona era uma fã, me aproveitei disso e meio que fiz um curso… — ele tossiu sem graça.

— Sei… — eu sorri. — Ela te deu quantas aulas práticas no quarto dela? — soei sacana.

— Algumas. Aquela mulher fazia milagres com os dedos, acredite! — ele riu.

Virei-me e me sentei em posição de lótus, com ele em meu colo.

— Melhorou? — indagou, enquanto jogava minha franja para trás com seus dedos.

Assenti e assobiei alto. Os lobos apareceram alguns minutos depois. Estiquei-me sobre o que se deitara atrás de mim e arfei, confortável. Quente, macio, peludo e quieto, isso sim é que é descanso. Olhei o tom do pêlo. Era Vento Cinzento. Encarei Naruto em meu colo.

— Vamos dormir? — perguntei, cruzando as mãos atrás da cabeça.

— Leu minha mente. — sorriu.

— Li tão bem que sei que você quer se deitar aqui comigo. — eu estiquei meus braços para acolhê-lo e Naruto se aconchegou em meu peito. Lady, com ciúme, ficou se esfregando nas costas dele, empurrando mais para cima de mim. — Acho melhor você deitar direito, é isso o que ela quer.

— A concorrência só aumenta! — Naruto disse, brincando, enquanto se ajeitava. — Posso passar a mão nela ou ela vai tentar arrancar fora?

Eu ri baixo.

— Nem todos os bichos do mundo são como Kurama, Naruto. — encarei-o. — Não é porque eles são selvagens que são de má índole. Lady adora carinho. Vem cá, Lady. — bati do outro lado e ela saltou por cima de nós, ficando de frente a Naruto, com a cara em cima da minha barriga. — Vai em frente.

Naruto estava deitado de lado, com uma perna sobre as minhas e os braços encolhidos entre as minhas costelas e o meu peitoral, seu rosto estava sobre o meu ombro esquerdo, meu braço circundando a sua cintura.

— Ei! Kurama só não gosta de você, ele não é de má índole! — bufou.

Aos poucos o resto da matilha se aconchegou como pode perto de nós.

Naruto esticou a mão para tocar nela e Lady baixou as orelhas, aproximando-se mais dele, entregando-se completamente. Essa loba é muito dócil. Se fosse um gato, estaria ronronando agora com os carinhos na cabeça, pois até fechar os olhos ela fechou, curtindo. Sua cauda balançava, seu corpo meio de lado, indicava sua felicidade.

Lady lambeu a mão de Naruto, como agradecimento se enfiou debaixo do meu braço, dando espaço para Verão subir por cima dela e ficar com a cabeça em meu baixo ventre, pendendo de lado, a língua de fora, como um idiota. Me lembra alguém. Não sei quem.

Dormimos com os lobos e acordamos sem eles. Quando abri os olhos, me peguei completamente enroscado em Naruto, numa posição possessiva que há tempos eu não dormia assim. Nossa, isso é novo. E para terminar de completar, Naruto estava possessivo de igual maneira, sem querer me soltar por nada nesse mundo. De vez em quando, a cabeça em meu peito, ele beijava-me ali ou esfregava o rosto. Eu correspondia abraçando-o mais perto.

— Que preguiça… — resmunguei, colocando inconscientemente minha mão para dentro da bermuda dele, apenas para ficar lá mesmo. — Bom dia, little bitch.

— Bom dia, Pelinegro. — ele riu pelo nariz.

Beijei o topo da sua cabeça e habilmente me soltei, virando para o lado, ainda sonolento.

— Dormiu bem…? — bocejei, deitado de perfil, a cabeça apoiada em meu braço, de costas para ele.

— Melhor só na sua cama!

— Vou nem comentar que é pior. — sorri de modo sacana sem ele ver.

Sentei-me de súbito e esfreguei o rosto. Fui me levantando e me espreguiçando, ouvindo os velhos ossos voltarem para seus lugares, reclamando pelo caminho. Sacudi minha cabeça e penteei meus cabelos com os dedos. Peguei meu pulôver e o vesti.

— Você é formado em “como estragar aquele momento”? — ele revirou os olhos enquanto fazia aspas com os dedos.

— Que momento? — estiquei minha mão para ajudá-lo a se levantar.

— Qualquer momento que tenha um clima legal! — bocejou e depois se espreguiçou.

Naruto pegou a minha mão e eu o puxei de supetão para os meus braços, aproveitando para beijá-lo com carinho.

— Eu sonhei com você. — falei, indo para o portal por onde tínhamos corrido no dia anterior. — Foi… Diferente. — ele me seguia, esfregando os olhos.

Peguei a mochila dele e a carreguei.

— E como foi o sonho? — perguntou, curiosamente.

— Sonhei que a gente se casava. Eu de preto e você de branco, num antigo jardim colonial. Maiko levava as alianças. — bocejei, refazendo caminho. — Sonho estranho, não?

— É… Estranho! — notei que ele baixara o olhar, de uma forma que eu nunca vira, como se pensasse em algo e se frustrasse.

Parei a marcha e toquei seu ombro. Nos fitamos. Eu estava sério.

— Por algum acaso… — franzi a sobrancelha, realmente relevando a possibilidade de ser isso mesmo o que provocara aquela angústia. — Não achava que nos casaríamos, achava?

Seus olhos me disseram tudo.

Notas finais
DiAngelo: E esse final? Q q tá con teseno? '-' Naruto se entregou mia gente! *bate na testa* Ô homi demente! :') Mas e do cap? Vcs gostaram? Contem nos reviews! Até quarta :* Nonna: Negada.... :') E esse final, minha gente? Como assim? Pq, onde, quando, como? E essas tretas que never be end? Como os corações podem lidar com tudo isso? Eu estou criando a campanha, em homenagem a DiAngelo: #LendoNoChão, pq eu sei que tem gente que tá no chão desde o cap trasado e ainda não se ergueu... Aliás.... DiAngelo, vc ainda tá no chão? '-' Comentem, favoritem, espalhem no mundo, recomendem e sejam felizes. Té, negada :') DiAngelo: Sim... Eu ainda to no chão! '-' Vou até postar um foto na page pra tu ver...