Cores do Meu Coração
41 Dobe 16 - Nosso segredo é revelado
Notas iniciais
Não sei se posso ser considerado um masoquista, mas com certeza gosto de como as coisas com Sasuke estão andando. Faz três meses que ele está “me treinando”, palavras dele. Disse que eu ainda não estava pronto para conhecer seu quarto e sinceramente não sei o que isso significa. Durante esse tempo vivenciei coisas que nunca me imaginei experimentando, como ser vendado ou amordaçado, mas não se enganem, não é sempre assim. Por incrível que pareça, Sasuke pode ser muito carinhoso. Sim pessoas, o diabo também faz amor. Eu sei, eu sei, não precisa fazer escândalo, eu também não acreditei de imediato.
Lembram da questão de ele não transar comigo porque minha aparência é a minha ferramenta de trabalho? Agora eu entendo e como, literalmente, senti na pele. Eu acreditava piamente que eu era um ciumento possessivo, mas nada se compara à satisfação que Sasuke sente ao me ver cheio de marcas de toda sorte, mas todas leves, como ele mesmo admitiu. Eu devo estar me tornando um especialista em deixar a pele como nova, até Kurenai tem percebido como estou usando bem a maquiagem para o preparo da pele.
Bem, como devem imaginar, nosso relacionamento não se resume somente a isso. Damos nossas escapadas de vez em quando, o que para mim é bem impressionante, porque mesmo que seja muito ocupado, Sasuke sempre dá um jeito de estar presente na minha vida. Ele chegou a ver até alguns dos meus desfiles pessoalmente, Shisui achou que fosse uma miragem, eu só fiz rir. Saímos de vez em quando, sempre discretos, pois a mídia não sai do nosso pé. Brigamos também, o que não é surpresa, visto que no final das contas, ele se irrita facilmente com algumas coisas que faço. Não posso culpá-lo, eu mesmo tenho vontade de enforcá-lo as vezes, mas me controlo, porque sei que vou acabar sentindo sua falta.
Não sei se vocês lembram, mas Sasuke devia uma viagem a Maiko. No final, fomos para o Caribe, nós três. Maiko passou a viagem toda numa empolgação maior que a minha, e olha que isso não é pouca coisa. Sasuke havia dito a ela que tínhamos voltado e ela não poderia estar mais feliz pelo pai, o que para mim foi um alívio. Se tem um coisa que eu não queria, era problemas com “minha afilhada”. Ela me adorava e até me acompanhou algumas vezes no trabalho, Shisui só faltava vomitar arco-íris quando via ela no estúdio da Fashion Walker.
No mais, posso resumir nossa relação em duas palavras: namoro sério. Apesar de ser secreto, eu sei, isso parece ir contra tudo o que aquele bastardo diz sobre atitudes de filmes de adolescentes, mas chegamos a um acordo — um bem adulto, então não ria — que se quisermos dar certo dessa vez, teríamos que evitar os holofotes. Então, namoro secreto. Só Maiko sabe e ela nem ousa comentar, por temer desafiar a autoridade do pai.
Fora ideia minha, pois eu não queria ninguém dando pitaco no meu relacionamento e todo mundo adora se meter na minha vida. Agora eu entendo que nós temos que construir um relacionamento firme e, se for da vontade de Kami, quando estivermos seguros disso, talvez levemos a público. Por hora, o fato de Sasuke cuidar do meu patrimônio tem sido uma boa desculpa para termos momentos de namorados em seu escritório ou em sua casa.
É como Shisui sempre diz e só agora eu entendo: a raça de Fugaku sempre dá um jeito para contornar e reverter as coisas, nada ficará como é para sempre.
Falando em Shisui, minhas aulas como futuro sócio da Fashion Walker já começaram. Agora mesmo vou me encontrar com ele no seu estúdio. Estamos montando a nova coleção, e é a primeira vez que faço parte do processo criativo, ativamente falando, claro. Estamos muito empolgados com essa nova perspectiva.
Não tem um dia que eu não agradeça aos deuses por ter ouvido o meu pai quando ele me aconselhou a aceitar a proposta de Sui há catorze anos.
— Você está atrasado vinte minutos… — ouvi Shisui falar assim que entrei no estúdio, sem nem tirar os olhos do livro com os novos looks que montávamos.
— O trânsito ‘tá um inferno hoje! — me justifiquei. — A propósito, bom dia para você também, Sui. — fechei a porta.
— Bom dia, Naruto. — ele me encarou e sorriu, depois franziu o cenho. — Foi o trânsito mesmo ou sua companhia da noite passada que te atrasou? — nem tentou esconder seu divertimento ao perguntar.
— Minha companhia da noite passada era Kurama, não vejo como ele me atrasaria… — arqueei uma sobrancelha.
— Querido, tem alguma infestação de morcego na sua casa ou você foi atacado por um vampiro? — gargalhou.
Aproximei-me de sua mesa e me sentei ao seu lado, numa banqueta alta de madeira que havia ali. Shisui continuava com suas anotações, seus riscos e suas colagens. Coloquei minha bolsa num canto e o encarei, sem entender bem do que ele falava.
— Sui, do que você ‘tá falando? Ficou louco de vez?
— Naruto, é óbvio que essa marca no seu pescoço é de um chupão! — ele passou o indicador no local para mostrar do que falava.
Puta que pariu, esqueci da maquiagem hoje! Eu já disse a Sasuke para ter mais cuidado, sempre que ele inventava isso, eu pedia para ser em locais menos visíveis e geralmente ele o fazia. Só que eu também não resistia aos seus beijos no meu pescoço. Por isso Sasuke me comprou uma maquiagem que até hoje ele recusa em me dizer o preço, só para eu possa cobrir esses “deslizes”, ou “as provas do crime”, como ele diz quando está de bom humor.
Shisui me perguntava porque “aparentemente eu havia terminado com a mulher possessiva que eu estava saindo”. Então só podia ser outra pessoa.
— Hum… Por onde começamos hoje? — tentei driblar o assunto.
— Você não vai me contar, não é? — seus olhos negros brilharam de curiosidade.
— Não. — por que eu sempre me ferro com os Uchihas? Por que, Kami?
— Sabe que mais cedo ou mais tarde vou descobrir, não é? — Sui teve a ousadia de dar aquele sorriso Uchiha. Bufei.
— Sei, mas vou adiar o máximo que conseguir...
Nossa conversa foi interrompida por um homem inesperado entrando no estúdio, depois que a secretária de Shisui avisou de sua presença. Ele entrou e eu suspirei aliviado por ser apenas o carteiro com flores e uma pequena caixa nas mãos. É dia dos namorados e com certeza Itachi resolveu dar uma de romântico, como era de se esperar.
— Acho que é para você. — comentei por alto, quando o carteiro veio se aproximando, admirando o ambiente.
— Creio que não… Itachi sempre me dá rosas vermelhas, não girassóis. — ele me encarou como se tivesse me pego no ato do crime.
O senhor do correio veio até nós e sorriu.
— Senhor Uzumaki? — ele falou, lendo com dificuldade a etiqueta de entrega.
Ergui minha mão e ele me entrou o buquê com cinco girassóis grandes, além da caixa com um bilhete em cima. Eu assinei o documento de recebimento e ele saiu sorrindo, Shisui ainda me fitava com aquela cara de “Me explica isso agora, que eu quero ver”. Sorri com aquelas flores tão vivas, tão brilhantes, amarradas por uma fita negra vistosa. Depois dediquei-me ao bilhete: havia um carimbo diferente, duas letras unidas, um U e um S.
Abri-o e acabei lendo em voz alto, pois eu senti que se não fizesse isso, Shisui me mataria.
— “Provavelmente alguém já viu seu descuido, então decidi lhe enviar isso. Um anel não faz meu estilo, uma coleira denunciaria o que não quero, então lhe estou dando outro objeto para assegurar o nosso compromisso. Por que girassóis? Porque são como você: um pedaço de sol aqui na terra. P.S: eu estou contigo, então não há o que temer” — engoli em seco, apesar do meu sorriso de orelha a orelha. — “Assinado, Uchiha Sasuke”.
— Não, não. — Shisui negou com a cabeça, sorrindo. — Não tem como você ter conseguido esconder isso de mim! Há quanto tempo? — me fitou, encantado.
— Três meses. — mordi o lábio inferior enquanto sorria.
— UAU! Nem mesmo Itachi estava sabendo disso. Você não está tirando uma com minha cara, está? — falou, estreitando os olhos, mas depois sua expressão suavizou. — Não, só Sasuke conseguiria escrever esse bilhete. Como isso aconteceu?
— Você já sabe que terminei com Shino. — ele assentiu. — Logo depois eu e Sasuke nos resolvemos, inclusive naquela semana que te pedi uma folga eu estava viajando com ele e Maiko. — senti meu rosto quente.
— Bem que Itachi comentou que era estranho vocês terem viajado ao mesmo tempo… — Sui parecia distraído, provavelmente lembrando dessa cena. — Abre aí, para a gente ver o que Sasuke te mandou. — ele me lembrou.
Assenti e abri o fecho, para só então levantar a tampa. Era como uma caixa de joias e bem no meio do estofado azul marinho havia um bracelete fino feito de ouro muito reluzente e com algumas pedras pequeninas azuis, safiras, encrustadas formando uma linha externa, que dava um charme todo especial a joia. Observei a assinatura do fabricante. Era ouro 24 quilates. Ao redor de cada safira, havia como um pó brilhante de tom branco. Talvez “pó de diamante”? Na parte interna da tampa havia inscrições.
— “Pertencer a alguém não é estar preso, mas obter uma liberdade conjunta.” — e de novo aquele emblema US bem abaixo da letra bem caprichada.
— O que você anda fazendo com ele? — Shisui perguntou, espantado. — Não vejo Sasuke sendo romântico desde… Desde… Muito tempo! Eu diria que da época que ele era casado!
Meu rosto só ficou mais quente. Nunca sei como reagir a esse tipo de comportamento de Sasuke. Ele irritado, impaciente, indiferente, muito fácil. Mas ele romântico? Minhas pernas amolecem, quer dizer, tudo derrete, não sei lidar.
— Eu não estou fazendo nada demais. Só estamos namorando… — dei de ombros, tentando esconder a vergonha enquanto olhava a peça.
Shisui abriu a boca para falar, mas ficou parado, a boca aberta, olhando para algum fantasma atrás de mim, só podia ser. Virei-me com medo e o que vi? Ele, vindo até mim, na companhia dela. Não pude evitar um enorme sorriso de satisfação por vê-lo.
— Desculpe, Shisui, interromper seu trabalho. É que estou procurando um loiro mais ou menos dessa altura — ele deixou a mão na altura do queixo. — Pele amorenada, que se veste bem, olhos azuis, emanando alegria e com um chupão bem aqui. — ele apontou para o local em si e parou diante de mim. — Você viu? — seus olhos encontraram os meus.
— Não sei se serve, mas tem esse aí. — Sui apontou para mim com um olhar divertido.
Sasuke sorriu, tocando a minha nunca e me puxando para um beijo rápido.
— É esse mesmo. — ele afagou o meu rosto. — Recebeu meu presente? — assenti, apontando para a mesa. Sasuke pegou o bracelete de dentro da caixa e tomou o meu braço. — Não sou babaca que nem meu irmão. — seus dedos habilidosamente colocaram o objeto em meu pulso e então ele beijou a minha mão. — Não vou levar uma vida inteira para ter o que é meu. — sorriu de lado, dando outro beijo em meus dedos.
— É maravilhoso… — o encarei, provavelmente com uma cara de bobo apaixonado. — Eu adorei, Sasuke. — sorri timidamente. — Obrigado.
— Você merece. — ele piscou um olho para mim. — Ei, Shisui, vou deixar Maiko com vocês agora pela manhã, porque ela não tem aula, e a noite ela pode ficar na sua casa, Naruto?
Maiko sorria como uma criança que estava esperando o momento certo para armar um arte.
— Sempre. A propósito, Kurama vai adorar.
Uma coisa que talvez os surpreendam. Kurama simplesmente é apaixonado por Maiko. Nem de mim ele gosta tanto como da menina. Seus olhos felinos chegam a brilhar quando ela aparece lá em casa. Sasuke acha isso hilário.
— Obrigado. — Sasuke colocou a bolsa da menina perto da minha. — Eu vou ter que viajar, coisa rápida, dois dias apenas, vou hoje e chego amanhã. Estarei na Alemanha, caso perguntem por mim. — ele me fitou e piscou um olho, sorrindo de forma sacana. — Vou aproveitar e comprar vodka stolichnaya para… Bom, você sabe, Naruto. — ele acenou rapidamente para Shisui e, percebendo que Maiko fora abraçar o tio, Sasuke se curvou mais para perto de mim, para beijar meu pescoço exatamente onde estava o chupão, depois lambeu de leve para completar com um beijo perto da minha orelha. — É uma reunião importante… Se você me ligar mais tarde eu vou me desconcentrar completamente. Então, amanhã nos resolvemos, pode ser?
Mais um beijo naquela região e seu olhar sugestivo com uma sobrancelha arqueada.
— Entendi, Sr. Uchiha. — sussurrei e pisquei um olho para ele.
Nos beijamos mais uma vez e então ele se despediu de nós. Assim que ele saiu, eu recebi uma mensagem em meu celular. Era dele e dizia “Ainda bem que não mordeu os lábios.”. E eu acabei mordendo os lábios por causa daquilo. Droga, ele sabe me fazer pirar, não tem para onde correr. Fitei a mesa. Ao lado da caixa, e não estava antes lá, estava o produto que eu sempre uso para cobrir as marcas do Sr. Uchiha. De novo, esse bastardo salvou a minha vida.
Pedi licença a Shisui e Maiko e fui até o banheiro para cobrir o chupão com a maquiagem. Depois disso o dia se passou rapidamente. E até que foi bem produtivo, eu e Shisui conseguimos montar dois looks novos no livro e discutimos outras peças que queríamos trazer a atualidade, algo vintage. Maiko nos dava sua opinião e eu vou te contar, a danadinha tinha estilo e moda nas veias, bem, com o pai e o tio que tinha, não se espera menos, não é mesmo?
Assim que saímos do estúdio, perguntei a Maiko se ela queria fazer algo ou ir para algum lugar, mas acho que ela estava mais empolgada para ver Kurama do que fazer qualquer outra coisa. Então fomos para casa. Mal abri a porta da frente e a garota já chamava o gato. Ele veio correndo de dentro de casa e pulou nos braços da menina.
— Eu realmente acho que Kurama não entende que Sasuke é o seu pai! — neguei com a cabeça enquanto dava uma risadinha. Esse gato era mesmo uma figura!
Logo que o gato ouviu o nome do meu namorado, sibilou, raivoso, olhando para os lados. Provavelmente procurando-o para tentar matá-lo pela milésima vez. Suspirei. Será possível que eles nunca se dariam bem?!
Maiko sentou no sofá com o gato no colo enquanto eu fechava a porta.
— Calma Kurama, o papai não está aqui. — ela o acariciava e ele ronronava, feliz, fechando os olhinhos. Até parece que não é o diabinho que quase cegou Sasuke.
— O que você vai querer para janta? Pensei em fazer macarronada, já que não chego nem perto de ser o chef de cozinha que seu pai é. — franzi o nariz. Isso de Sasuke ser bom em quase tudo era de certa forma frustrante.
Maiko colocou-se pensando por um instante e deu de ombros.
— Papai só sabe cozinhar porque viveu só desde sempre… Vovó não podia cozinhar, então ele fazia tudo pra ela. Nem sempre ele fez comida boa.. Tio Itachi que diz. Quando ele era novinho, papai queimou quase todas as panelas da vovó tentando cozinhar. — ela riu bobamente, coçando a cabeça de Kurama.
— Bem, não seria surpresa nenhuma se ele já fosse um expert mesmo sem nunca ter feito nada em uma cozinha, não é mesmo?
Fui andando até a cozinha e coloquei o avental, logo depois de dobrar as mangas da minha camisa até o cotovelos. Lavei minhas mãos e fui pegar os ingredientes na geladeira e no armário.
— Seria… — ouvia-a dizer com um tom divertido, mesclado com saudade. — Seria sim. É como vovó dizia… — ela suspirou. — Nem tudo que brilha amarelo é de ouro.
— Meu cabelo é a prova disso. — ri da minha piada idiota.
Ela suspirou, forçando um riso de lado. Tão Uchiha. Tão Sasuke.
— Papai sempre me disse. — ela franziu as sobrancelhas e engrossou a voz. — “Ninguém nasce sabendo ou perfeito, Maiko. Ninguém pode ser perfeito, aliás”. — ela se levantou do sofá, colocando Kurama de lado e fez uma pose parecida com a dele. — “Você pode querer ser o melhor de si mesmo e lutar todos os dias para ser. Veja, quando você nasceu, eu nem sabia o que fazer com você, nem lhe segurar nos braços, mas eu sou pai!” — ela ergueu uma mão para o alto. — “Tenho que ser o melhor pai que eu posso ser. Por isso, sempre seja o melhor de si e assim conquistará o mundo!” — ela me fitou e sorriu.
— Ninguém pode discordar que ele é um ótimo pai. — dei de ombros. — Vai me ajudar ou passar o dia imitando ele? — apertei os lábios, tentando não rir e parecer sério.
Ela fez uma cara típica dele: revirou os olhos e bufou, emburrada.
— Você nunca pega o espírito da coisa, Tio Naruto… — ela veio balançando os braços como só crianças emburradas fazem. — É por isso que o papai me disse para eu não falar difícil com você. — ela fez um bico e meneou a cabeça negativamente, estalando a língua em seguida. — Está bem! Eu ajudo. O que quer fazer, Tio Naruto?
— Você gosta de almôndegas? — ignorei propositalmente o assunto anterior, já não basta Sasuke me fazendo parecer um idiota, o pacote tem que vir completo.
Negou, sorrindo, os braços atrás do corpo, fazendo seu vestido solto girar.
— O que quer colocar no macarrão então? — sorri.
— Num sei… — ela deu de ombros, ainda sorrindo, arteira. — Não conheço a cozinha daqui, não sei o que tem! Se fosse lá em casa, eu saberia. Mas aqui eu não sei.
— Não se preocupe com isso, tem um mercadinho aqui perto, qualquer coisa que não tiver, posso comprar para você. — Deus me livre não fazer tudo o que Maiko quiser, depois tenho que me ver com o diabo versão protetora, o que pode ser bem pior que a versão normal.
— Já comeu macarrão picado e passado no azeite, depois flambado no vinho branco? — ela perguntou, olhando para as minhas panelas com uma curiosidade infantil. — Com umas paradazinhas brancas por cima que parecem frango, mas não é e outras paradazinhas verdes? — ela olhou para uma frigideira como se se olhasse no espelho. — Sabe fazer?
— Bem, podemos fazer, só temos que ter cuidado na hora de flambar… Não queremos um incêndio. E quem seria flambado seria eu... Por seu pai. — estremeci com o pensamento.
Ela colocou a frigideira em cima do balcão e esfregou as mãos na roupa.
— Então esquece… Porque eu também não sei fazer. — ela me fitou e deu de ombros. — Pode ser macarrão com linguiça. É gostoso! — ela começou a rir sozinha de alguma piada interna, talvez alguma que Sasuke lhe contara. — Sabe fazer, Tio Naruto?
— Agora você está falando minha língua! — pisquei para ela. — Quer saber, eu me viro sozinho por aqui. Porque você não vai tomando seu banho? — ela assentiu. — Tem toalhas limpas no meu closet, do lado dos lençóis, e sabonetes novos no armário do banheiro. Me chame caso precise de algo.
— Tudo bem, Tio Naruto. — ela respondeu, antes de me dar as costas e sair da cozinha.
Fiz o jantar e nenhum acidente aconteceu, o que me deixou muito orgulhoso, aparentemente minhas aulas de culinária estavam dando resultado. Maiko acabou se prolongando no banho. Eu tinha sugerido que ela usasse a banheira, já que a comida demoraria um pouco para ficar pronta. Jantamos assim que tomei meu banho também. Depois que lavei os pratos, nos sentamos no sofá para assistir um filme qualquer, com Kurama ronronando no colo de Maiko. Depois de meia hora de filme acabei cochilando ali mesmo, eu tinha dormido pouco na noite passada, já que Sasuke tinha me feito uma “visita”.
— Tio Naruto, acorda! O filme já acabou! — a garota me cutucava na barriga, o que me fez um pouco de cócegas e eu ri.
— Ok, ok, ‘to levantando! — esfreguei os olhos para espantar o sono. — Desculpa, dormi mal noite passada… — bocejo.
— Insônia, Tio Naruto? — vi preocupação nos seus olhinhos e sorri.
— É… Algo do tipo. Mas que tal me fazer companhia enquanto dou uma arrumada no meu quarto?
— Vamos, Kurama, temos que ver essa cena inédita! — ela colocou o gato no chão e deu aquele sorrisinho típico dos Uchiha. Revirei os olhos e bufei.
Fui andando na frente e quase desisto do meu intuito assim que entrei no quarto. Tinha roupas e sapatos jogados em todo lugar, alguns papéis, que eu testava combinações de looks para a nova coleção da Fashion Walker, em cima da poltrona no canto do cômodo. Suspirei, já cansado de um serviço que eu nem tinha começado.
Maiko sentou na cama e ficou me observando enquanto eu juntava a roupa que estava suja e me dirigia até o banheiro de minha suíte, onde ficava o cesto. Ela buscou seu celular e sorriu de lado, eu pude ver que a foto da tela de bloqueio era ela e o pai fazendo caretas divertidas. Seus olhos escuros me encontraram e Maiko fez um bico pensativo.
— Você gosta mesmo do papai, não é, Tio Naruto? — a garota me perguntou assim que eu voltava do banheiro. Sorri com sua pergunta.
— Na verdade eu o amo, princesa. — senti minhas bochechas ficarem quentes. Ótimo, corei!
— Pensei que odiasse o meu pai. — ela comentou, saindo da cama. — Ele sempre me falou que seus olhos transpareciam sentimentos ruins em relação a ele… — então saiu do quarto, se dirigindo para a sala.
Retornou com a mochila nas costas. Colocou-a sobre a poltrona e foi tirando seu pijama dela.
Comecei a dobrar as roupas que estavam limpas e as empilhar em cima da cama, pensando na resposta certa.
— Eu e seu pai estávamos sempre nos atracando. Como eu olharia para ele com sentimentos positivos quando a gente estava tentando se matar? Você tinha que ver como ele me olhava também! — estremeci. — Mas a verdade é que nunca tive um motivo concreto para o odiar e você mesma sabe a pessoa maravilhosa que seu pai é, mesmo que ele insista em dizer que é o diabo. — ela deu uma risadinha. — Sasuke é gentil, responsável, charmoso, se preocupa e cuida de mim, é incrivelmente sedutor, essa parte você fingi que eu não disse! — pisquei para ela. — E romântico, e olha que ele diz que não sabe ser, mas você viu o que ele fez hoje. — acariciei o bracelete no meu pulso e sorri bobamente. — Com ele eu me sinto completo, em paz. De uma forma que nunca me senti antes.
Ela estreitou o olhar e cruzou os braços. Parecia pensar sobre algo, como um investigador. Daquele jeito ela ficava ainda mais parecida com Sasuke.
— Teria coragem de deixá-lo se fosse preciso? — Oi? Foi uma criança que me fez essa pergunta? Maiko continuava séria e com ares especulativos.
— Provavelmente sim, pequena. Se fosse o melhor para ele... Embora isso não me deixasse nem um pouco confortável ou feliz. — franzi o nariz, em uma careta de desgosto.
— Uma vez eu fugi de casa. — ela foi para o banheiro e fechou a porta, para se trocar. — Desapareci por um ano. — arregalei os olhos e a boca.
— Porque? Como? Peraí! Você está brincando, não é?
Ouvi-a rir e depois de alguns minutos, ela abriu a porta. Escovava os dentes. Negou, ainda que sorrisse e eu vi em seus olhos que era verdade cada palavra sua. Ela cuspiu, lavou a boca e veio para a cama, engatinhando sobre o colchão.
— Fugi de casa quando tinha cinco anos, depois de ter assistido ao filme do Forrest Gump, conhece? — sentou-se e me fitou com sua carinha infantil.
— Já ouvi falar.
— Esse é o nome do filme. Forrest Gump. — ela começou a gesticular, era como se eu estivesse vendo uma cópia de pijama rosa de Sasuke. — Tem uma cena depois da morte da mãe do protagonista que o Forrest simplesmente saí correndo e só parava para dormir, comer, ir ao banheiro. Depois de três anos correndo, ele voltou para casa.
— Onde você quer chegar com tudo isso? — perguntei, confuso. — Você não fugiu por causa de um filme… Ou fugiu? — Kami-sama, Sasuke deve ter enlouquecido!!!
Ela suspirou e deu de ombros.
— O filme me mostrou como fazer isso… Eu fugi de casa porque meu pai queria que eu gostasse da minha mãe, eu odiei isso, odiei tanto que fugi chorando, correndo pelas ruas, sem rumo, por dias e dias… — ela suspirou pesadamente e afastou a perna da calça, mostrando uma cicatriz de cirurgia perto do tornozelo — Eu vivi em orfanatos… Fui para duas famílias, mas acabava fugindo, porque… — ela engoliu em seco.
Notei que ela se segurava para não chorar, empurrando aquele nó goela abaixo. Sentei do lado dela e a abracei pelos ombros, olhando para baixo, para o seu rosto.
— Tudo bem. Pode falar. Sei como você se sente… Eu também já fugi de casa. — dei um sorriso triste, lembrando daquela época sombria.
— Acho que foi diferente. — ela me fitou. — Papai me disse que você fugiu de casa. Ele me contou que você precisou de um tempo sozinho para se encontrar.
Tempo sozinho para me encontrar?! Acho que Sasuke só estava sendo delicado. Fugi de casa por ser um moleque sem noção, isso sim! Essas várias facetas de meu namorado sempre vão me surpreender. Ele sempre me fala que sou muito inocente, as vezes acho que isso é só uma idealização dele, quer dizer, parece mais um desejo.
— Não importa aonde eu estivesse, para onde fosse ou o que eu fizesse, papai sempre estava lá… Não a sombra, ou uma pessoa me seguindo, era meu papai. — suas lágrimas caíram ralas e tão logo cessaram. — Papai que só me dizia “aishiteru”, sempre, sempre, sempre e me deixava seguir. — respirou fundo e sorriu de novo. — Papai largou tudo para me seguir e me proteger, por isso digo que foi diferente de você. — outro suspiro. — Eu voltei para casa por ele e enfrentei minha mãe por ele. Por isso eu te perguntei se o deixaria pelo bem de meu papai. Eu enfrentei meus problemas por ele, eu queria saber se você enfrentaria os seus por ele também.
— Ele já fez tanto, tanto por mim. Eu faria qualquer coisa por ele. — suspirei, imaginando Sasuke pulando na frente de meu pai, tentando o livrar da morte. As vezes não dá para acreditar na ironia. Sorri enquanto negava com a cabeça.
Ela desatinou a rir da minha cara e se esticou por cima dos travesseiros.
— Nunca faria qualquer coisa por meu pai!!! — ela gargalhou como se eu tivesse dito a piada mais engraçada do mundo. — Você não é um Uchiha, não tem culhões, como diz meu pai aos empregados dele!!! — ela respirou fundo. — Você o ama demais, tio Naruto, para fazer algo como deixá-lo. Se meu tio Shisui tiver certo, você daria um jeito de continuar com ele, mesmo que isso significasse uma briga horrível!!! — voltou a rir folgadamente.
— Primeiro mocinha, seu pai deixa você falar esse tipo de palavreado?! — estreitei meus olhos. — Segundo, vocês Uchihas são todos malucos. Eu sei do que seu pai é capaz! Juízo bateu ali e voltou. — bufei. — E terceiro, porque o interrogatório? — cruzei os braços, a encarando.
Ela parou de rir e retomou o fôlego, cruzando os braços.
— Acha que eu não vejo? — ela estreitou o olhar e fez um bico que eu só conseguia ver em mim mesmo quando eu o fazia. — O tipo de namoro que você quer com meu pai? Sou uma Uchiha! Posso ver tudo! Eu sei qual são os seus planos, mocinho...
Eu não acredito nisso! O que diabos estava acontecendo aqui? Essa menina só pode estar tirando onda com a minha cara, não é possível!
— Maiko... — falei sério. — Eu já tive essa conversa com seu pai e entramos em um consenso. Ele é adulto e inteligente o suficiente para entender minhas intenções para com ele, que sempre deixei bem claro, devo dizer. — falei delicadamente, escondendo minha frustração. Só esperava que ela não me pressionasse mais, porque todo mundo sabe que Uzumaki Naruto não foi agraciado com paciência.
Ela fez um bico para conter seu sorriso.
— Eu sei que no fundo, no fundo, você quer casar com meu pai! — ela ergueu os braços ao se colocar de pé. — Casar! Já sei até que fazem coisas de casados!
Kami-sama! Onde esse mundo vai parar?! Essa menina é tão terrorista quanto o pai. O que porra eu vou responder? Olhei para ela desconfiado.
— Não acho que Sasuke gostaria de casar… — resolvi ignorar o resto. Eu sinceramente preferia ficar calado, vai que eu solte alguma besteira e depois Sasuke tente me matar.
— Isso prova que papai tem ainda mais razão! — ela começou a pular na cama. — Você não o conhece e também não presta atenção no que diz! — deu um saltou e no ato rolou para fora da cama. Só ouvi o baque surdo no chão e sua gargalhada. — Você quer sim se casar com meu papai! — ela falou, sem se levantar, entre um resmungo e outro.
Senti meu rosto e minhas orelhas esquentarem. Definitivamente Maiko era filha do diabo! Eu só queria me enfiar debaixo da cama e não sair mais de lá.
— Eu deveria estar arrumando o quarto, não batendo papo com você! — virei o rosto, com os braços cruzados e um bico emburrado.
— Pode fazer isso enquanto conversa! — outra gargalhada e então ela apareceu, jogando minhas camisas em cima da cama. — Estavam embaixo da cama. — ela cruzou os braços e suspirou. — Eu gostaria de ter dois papais… Principalmente um papai tão bonito e de olhos azuis. — Maiko veio para a cama. — Se quiser casar com o meu papai um dia, eu deixo.
— Você não nega que é filha de Sasuke mesmo, não é? — ele era que tinha esse costume, me irritar, me deixar envergonhado, para depois falar algo fofo. Eu só sabia ficar vermelho como tomate, de irritação e vergonha.
Ela sorriu e veio para o meu colo, me abraçando e suspirando.
— Seria perfeito… — ela riu e me fitou de um jeito infantil e arteiro. — Eu teria um papai para brincar todos os dias! Um bem bobão!
— Como é mocinha? — fingi indignação.
Me estiquei sobre a cama e peguei um travesseiro, ela deu um sorriso enorme e seus olhos brilharam divertidos. Percebendo minhas intenções, Maiko correu em volta da cama e pegou o outro. Corri atrás dela, tentando a acertar com o travesseiro, mas ela subiu em cima da cama e atacou minha barriga enquanto gargalhava. Me protegi como pude e a puxei pelo pé, fazendo-a cair no colchão, comecei a rir da brincadeira boba também. Ela tentou se levantar e eu aproveitei a oportunidade para dar a volta na cama, correndo, e a atacar pelas costas. Maiko se virou e ficou em pé. Ela estreitava os olhos, como se estivesse pensando em alguma estratégia. De repente correu e tentou me acertar na barriga de novo, usei o meu travesseiro como escudo, mas de última hora ela desviou o ataque e acertou o meu rosto. Gargalhamos alto e continuamos naquela brincadeira por um longo tempo.
Cansados, nos jogamos na cama ainda rindo. Kurama logo se juntou e se estirou entre a gente. Alguns minutos depois, fui escovar meus dentes e voltei para a cama. Dava para ver que Maiko já estava com sono.
— Posso dormir com você, Tio Naruto? — ela me pediu com olhos pidões. Como negar um pedido dessa a essa carinha?!
— Claro, princesa. — sorri.
Fui até meu closet e vesti um pijama, geralmente eu dormia apenas de cueca, mas para Maiko eu teria que abrir uma exceção. Quando voltei para o quarto, ela já estava deitada na cama, me esperando. Deixei o ar-condicionado ligado em uma temperatura amena, acendi a luz do abajur e apaguei a do quarto.
— Boa noite, princesa. — falei, enquanto me enfiava debaixo do edredom.
— Boa noite, Tio Naruto. — ela bocejou logo em seguida.
Vinte minutos depois, Maiko já dormia. Eu estava quase dormindo, até que ela se mexeu. Quando percebi, ela apoiava a cabeça no meu braço, deitada de costas para mim, eu estava deitado de barriga para cima. Vi uma movimentação com a visão periférica e quando olhei para o lado, vi Kurama se enroscando nos braços de Maiko. Sorri com aquilo. Agora eu tinha uma nova família, pena que faltava alguém ali para ela estar completa.
Peguei meu celular e tirei uma selfie nossa. Já que eu não podia ligar para Sasuke, podia pelo menos desejar boa noite, não é mesmo? Anexei a foto e enviei um email com os seguintes dizeres: “Espero que esteja dando tudo certo por aí, por aqui estamos tendo um boa noite de sono. Amo vc :*”
Suspirei, satisfeito, apaguei a luz e agarrei meus “filhos”.
Alguns minutos depois eu recebo um email de resposta. Droga, será que eu o interrompi de novo? Fiquei até meio temeroso de abrir o email do meu diabo. Mas minha curiosidade venceu o medo e peguei o celular, para logo em seguida visualizar o email. Dizia: “Não sei quem tem mais sorte. Vc ou o gato.”.
Estreitei meu olhar. Qualquer coisa dita pelo diabo tem segundas intenções. Resolvi entrar no jogo dele e devolvi o email.
“E você? Está fazendo oq? Ñ deveria estar em uma reunião? Como arrumou tempo pra visualizar fotos?”
Ele demorou para responder. Acabei perdendo o sono por causa disso. Levantei-me com cuidado e fui para o puff que havia em meu quarto. Enfim, sua resposta chegou. Demorou para carregar. Um vídeo, talvez? Não. Uma foto e com a seguinte mensagem: “Depende do tipo de reunião, Naruto. A que estou me permite muito mais do que visualizar fotos”.
Abri-a e vi algo que me deixou paralisado. Era uma selfie feita pelo celular de Sasuke, mas não era ele que segurava o aparelho, mas um rapaz albino, talvez mais jovem que eu, com dentes parecidos com os de Kiba. Sasuke estava mais ao meio, no meio de homens e mulheres que eu não conheço, numa especie de boate e rodeado de bebidas, mas sua cara não dizia que ele estava bêbado, estava sóbrio e com seu típico semblante de cafajeste, que eu tenho certeza que era para mim.
Respirei fundo. Contei até dez, vinte… Respirei fundo de novo… FODA-SE!!! O QUE PORRA SASUKE ESTÁ FAZENDO NO MEIO DESSE MONTE DE URUBU? Quer saber? Ele vai ter que me explicar isso!!! Comecei a digitar furiosamente no meu celular.
“QUERIDO! Posso saber oq vc está fazendo com esse monte de gente em cima de vc? Pensei q vc estivesse em uma reunião muito importante! TRABALHO, Sasuke! Ñ DIVERSÃO!!! Ò.Ó”
Ele demorou de novo. Eu nem tinha mais unhas para esperar. Kurenai vai me fuzilar, mas só depois que eu fuzilar Uchiha Sasuke pela mensagem que ele enviou para mim.
“Existem vários tipos de reunião… Mas… Acha que não falta alguém aqui?”.
Nada de explicações, apenas essa maldita mensagem vinda do inferno.
“Sabe o que falta? Juízo nessa sua cabeça e paciência em mim, pq isso é uma coisa que Kami ñ me deu! Boa noite, Sasuke. Amanhã nos resolvemos… ”
Sinceramente, eu não estava com saco de ficar brigando com Sasuke por mensagem. Amanhã quebro os dentes daquele imbecil.
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