Cores do Meu Coração
37 Dobe 15.1 - Consertando meus erros
Notas iniciais
Estava tudo confuso! Comecei a sair com Shino por um impulso, e no início até estava dando certo. Não, não estava. Quem eu quero enganar? Mas o fato dele já ser apaixonado por mim, me assustava muito. Eu gostava dele, o problema é que não era amor. Mesmo que eu tentasse, nunca conseguiria superar suas expectativas e isso me parecia muito irônico. Agora eu entendia como Sasuke se sentia em relação a mim: eu o amava, ele não me amava, e a situação com Shino era exatamente essa. A diferença era a reação do meu atual namorado: ele não exige nada de mim, entende a minha atual situação de trabalho, pois como ele mesmo disse “Quando eu te conheci, você já era modelo”. Shino não me pedia para mudar, porque ele sempre me disse que se apaixonara por mim exatamente do jeito que sou.
Mesmo assim, eu me sinto cansado. Não da companhia de Shino, mas de… Não ser eu mesmo. Eu não sei explicar, mas eu já não me sinto como antes, não me sinto… Em paz. Namorar com Sasuke era difícil, mas não era cansativo, eu não me sentia exausto mentalmente falando, eu me sentia em paz comigo mesmo. Mas agora… Está tudo um caos.
Se a situação se resumisse só a companhia de Shino, era simples de se resolver, mas não é, como sempre, nada comigo se resume só ao outro. Todo mundo sabe qual é o problema, mas ninguém comenta por respeito ao meu sofrimento. Eu estou fudidamente apaixonado pelo diabo e estar na presença dele é ao mesmo tempo bom e ruim.
Bom porque eu posso beber de sua presença. Ruim porque eu mal consigo olhar para ele sem sentir uma necessidade absurda de tocá-lo, beijá-lo, sentir seu cheiro... Kami sabe o autocontrole que exerço para não me deixar levar pelos meus desejos. É tão desesperador que eu sei que Sasuke vê tudo através de mim, aliás, o que aquele bastardo não percebe? As vezes sinto que ele tem essa mesma necessidade, e nessas horas é tão, tão insuportável estar com Sasuke, que eu tenho que me afastar, porque eu nunca conseguiria resistir a ele. E ele sabe disso.
E para deixar tudo ainda mais caótico, Sasuke continua me tratando com respeito, carinho e dignidade, como faz com os poucos amigos que tem. O miserável nem me despreza como ex-namorado, e eu tenho certeza que conviver com ele seria mais fácil se fosse assim. Mas seu jeito não mudou, isto é, eu noto que cada passo que Sasuke dá em minha presença é milimetricamente calculado e não preciso perguntar a Iruka porque. É claro para mim.
Sasuke faz o que faz para não me prejudicar porque ele reconhece os meus sentimentos por ele e a veracidade deles. Provavelmente o diabo descobriu que terminou o namoro comigo quando eu estava realmente apaixonado por ele. Como posso lidar com tudo isso?!
Não posso deixar Shino se envolver mais na bagunça que é minha vida. Ele não merece isso. Ele merece uma pessoa que vai se entregar de verdade para ele, infelizmente não posso ser essa pessoa. Eu não posso porque meu coração, minha alma, já tem dono.
Como Sasuke sempre me disse, eu tenho que parar de “achar”. Preciso de segurança, de certezas na minha vida. É certo que eu amo Sasuke, então é certo que tenho que parar de enganar Shino. Preciso deixar isso claro para Sasuke. Por quê? Porque eu o machuquei demais com o meu jeito estúpido de antes, eu preciso me redimir. Liguei para Sasuke e ele atendeu como sempre, com aquela indiferença típica do diabo.
— Boa noite, Naruto. — eu conseguia ouvir música instrumental de fundo. — Em que posso lhe ajudar? — a música era boa e eu sinto que já a ouvi antes.
— Onde você está? — perguntei, tentando esconder meu cansaço.
— Educação mandou lembrança, rapaz. — ouvi-o suspirar. — Uma dica: você apanhou aqui e em público. Eu também. — tinha dois tons de brincadeira em sua voz baixa.
— Ótimo, chego aí em dez minutos. — falei, já pegando minha jaqueta que estava no braço do sofá.
— Isso tudo é para falar comigo? Dirija com cuidado! Não quero ter que te salvar de outro caminhão desgovernado. — e desligou.
Sasuke sendo Sasuke. Peguei minhas chaves no caminho até a porta e sai de casa. Fui de carro e acabei chegando em vinte minutos, devido ao trânsito. Mentira. Acabei fazendo o que Sasuke me pediu mesmo. Aquele bastardo tem um poder ridículo sobre mim. Deixei meu carro no estacionamento do bar e me dirigi até a entrada do estabelecimento, com os acontecimentos passados naquele mesmo lugar retornando a minha cabeça como um filme. Bela ironia, não? Dá última vez que vim aqui eu não queria ver Sasuke nem pintado de ouro, agora, eu mesmo que venho ao seu encontro.
Assim que pus meus pés dentro do bar, que tocava uma música bem sensual, o vi, quer dizer, não tinha como não ver, Sasuke sempre chama atenção por onde passa. Ele estava sentado numa mesa perto da janela, por onde seu olhar estava perdido, em suas mãos: um dry martíni. Em cima da mesa, dentro de um cinzeiro, um cigarro estava aceso. Ele vestia uma camisa cinza de botões, as mangas dobradas até os cotovelos, e jeans escuro, além de um digníssimo sapato de couro. Nas mãos, as suas eternas companheiras: as luvas de couro preto. Eu só pude negar com minha cabeça, esse infeliz é sexy mesmo quando não tem intenção.
— Vejo que está bem acompanhado. — falei, assim que me aproximei dele.
— Minha companhia ainda vai chegar. — ele comentou, levantando lentamente seus olhos para mim e abrindo um sorriso de lado. Indicou uma cadeira perto de si apenas com dois dedos, a cadeira que estava servindo de apoio para seu braço.
— Acho que ela acabou de chegar — pisquei o olho em sua direção e me sentei na cadeira que ele me indicou, não sem antes hesitar um pouco. É tão torturante ficar assim tão perto dele.
Sasuke retirou o braço enquanto negava, sorrindo minimamente.
— O que vamos fazer para divertir as pessoas hoje? — encostei meu cotovelo na mesa e apoiei o queixo na mão, encarando-o.
Ele deu de ombros e então o garçom se aproximou com uma bandeja, entregando uma garrafa de Bourbon, ano 95, e dois copos para Sasuke.
— Eis a minha dama. — ele falou, servindo-se. — Agora estou bem acompanhado.
— Bela companhia. — sorri.
— E aí? Quer conversar? Só beber? Os dois? — ele serviu-me.
Suspirei.
— Vou terminar com o Shino. — fui direto, eu não conseguiria o enrolar nem se quisesse.
— Pois termine. — ele falou convictamente, tomando o resto do dry martíni. — Se acha que não dá certo… Se você acha que não vale a pena, se tem um bom motivo para isso, termine. Dá para ver pela sua cara que está achando esse namoro um saco.
— Eu já te disse. Ele é apaixonado por mim, mas eu não o amo. — encarei Sasuke e tenho certeza que ele veria mais do que eu mostrava. — Apesar de tudo, gosto dele, não quero que ele seja infeliz, ele merece alguém que se dedique de verdade a ele. Que também o ame.
Senti seus dedos tocarem de leve meus cabelos, enroscando-se neles e depois soltando-os. Fechei os olhos momentaneamente, me segurando para não suspirar que nem um retardado. É por essas e outras coisas que eu sinto que não posso ficar com mais ninguém. São esses pequenos sinais que me fazem ficar mais entrelaçado a ele. Oh droga!
— Quer para ele aquilo que você quer para si. — disse, me fitando intimamente. — E por isso não se permite fazê-lo sofrer aquilo que sofreu, pois sabe o que é amar sem ser amado. No fim das contas, você sempre será uma alma pura… — ele sorriu, baixando o olhar para o copo. — O meu extremo oposto perfeito...
Não o respondi de imediato, só olhei para a mesa, tentando me esconder. Sasuke sempre sabia o que falar. Ele me desarmava como ninguém. Sua mão saiu de minha cabeça e foi para o encosto da cadeira, eu podia sentir seus dedos tamborilando o ritmo da música que tocava no bar, e o sorriso sumiu, se é que ele estava sorrindo de verdade em algum momento.
— É exatamente isso. — bebi um gole do meu copo. — Não sei e nem quero aprender a mentir.
— Você nunca conseguiria mesmo. — disse, indiferente — Você não tem… Chaos e se tivesse, não saberia lidar com ele. — olhou-me de cima a baixo.
— Me sinto péssimo por ter envolvido Shino na bagunça que eu sou. — resmunguei, fitando o líquido que eu girava no meu copo. — Eu tenho que parar de envolver as pessoas nos meus problemas, Sasuke. — estalei a língua.
Ouvi palmas e vinha dele. Eu poderia ter me irritado, mas acabei rindo.
— Eu devo ter bebido demais, por que acabo de ver Uzumaki Naruto admitindo seus erros! — havia um tom claro de brincadeira em sua voz. — Eu te beijaria, de tão emocionado que fiquei, mas você já tem problemas demais para lidar. — ele riu baixo e tomou um gole da bebida. — Falando sério agora… — me fitou. — Que bom que percebeu. — ele me sorriu gentilmente. — Eu estou feliz que esteja enxergando melhor a sua própria vida.
— Bem até demais… — resmunguei baixinho, antes de levantar meu olhar para ele brevemente, com medo que ele visse nos meus olhos todo o amor que eu tentava esconder dele.
Ele ficou me olhando, bem em meus olhos, como se enxergasse a minha alma e tomou todo o conteúdo de seu copo de uma vez. Sacudiu de leve a cabeça e suspirou. Sasuke arqueou uma sobrancelha, ao encher o próprio copo, e me fitou.
— Tome cuidado. — ele disse — Shino não é você, ele não vai aguentar como você aguentou. — então ele percebeu como é a situação para mim? Como posso esconder qualquer coisa de alguém assim? Exato, não tem como.
— Eu sei… — suspirei. — Por que você acha que te procurei? Você consegue ver as coisas melhor que eu… — franzi meus lábios. Kami, como posso ser tão transparente assim?
— Porque eu me permito enxergar. — ele tocou um dedo em minha testa e empurrou de leve — Eu perdi o medo do futuro há muito tempo, Naruto… Mesmo sendo pai ou sendo importante para alguém, eu não tenho medo do que vai acontecer a seguir e é por isso que consigo ver. — sua mão desceu por meu rosto, numa carícia que não queria acontecer e foi para a mesa. Eu senti uma vontade desgraçada de me deixar levar, mas eu não podia e isso formava um nó em minha garganta, uma vontade louca de chorar se apossou de mim e eu tive que respirar fundo para aguentar. — Não ter medo das consequências não quer dizer que não se importa, quer dizer que tem coragem suficiente para o que der e vier. — e sorriu.
Abri minha boca para responder e arregalei os olhos quando percebi o que ia dizer. Não, não, não. Não posso dizer isso. Não essas palavras. Não agora. Ergui um dedo para Sasuke, pedindo um tempo, tampei o rosto com as mãos e respirei fundo por alguns segundos. Merda, merda, merda! Controle-se, Naruto, por Kami-sama, se controla ou vai estragar tudo de novo.
— Você está bem? — ele colocou gentilmente uma mão em meu ombro, depois de dar um trago no cigarro. Não, Sasuke. Por favor, não me toca. Não faz isso...
Assenti, ainda com as mãos no rosto, evitando o olhar, porque eu sabia que não conseguiria esconder dele, não agora. Senti sua mão se afastar e o barulho de gelos se batendo dentro do copo. Depois ouvi o copo batendo de leve contra a mesa.
— Desculpe… — disse. — Já estou tão acostumado a dar lições nos outros que não consigo evitar na maioria das vezes. — ouvi-o suspirar. — Mas ainda estou sem entender a lógica “eu enxergo melhor” com seu “futuro término”. — e uma risada baixa, típica dele.
Tirei as mãos do rosto e consegui rir.
— Você acha que me ofendeu? — ri um pouco mais alto. — Sério?!
Ele negou, ainda sorrindo.
— Você fica melhor sorrindo. Eu que sou o “cara fechada”, esqueceu? — ele cutucou a minha cintura, justamente onde sinto cócegas, me contorci um pouco, tentando fugir do contato. — Pare de drama, Naruto. — ele se levantou, veio para trás de mim e tapou meus olhos com as mãos, senti meu rosto ser levemente virado. Ele afastou as mãos e eu me deparei com a enorme lua crescente atrás das árvores. — Até a lua está sorrindo para você.
Senti meu rosto esquentar e sorri minimamente, embaraçado. Sasuke tornou a se sentar, sorrindo a sua maneira, a boca meio torta para o lado, num sorriso esperto. Merda! Esse diabo não devia ser diabólico? Por que ele é tão fofo então?
— Para de me olhar assim! — resmunguei, ainda envergonhado.
— Você que está me olhando. — ele virou a cara e serviu-se. — Você é assim com todo mundo ou só comigo? — perguntou, fingindo indiferença, porque a verdade era que ele estava se divertindo. Aliás, tentando me fazer ficar melhor.
— Por Kami! Como eu posso gostar de você?! — murmurei, num tom emburrado. Por que esse bastardo me deixa tão sem graça? — Você é tão babaca, Sasuke!
Eu vi seu copo deslizar e quase cair em cima da mesa, se ele não tivesse sido rápido e pegado no susto. Fitei-o. Os olhos arregalados e a boca um pouco comprimida. Por um segundo eu vi sua respiração se descontrolar. Ele está… Surpreso?! Surpreso?! Seu rosto baixou lentamente, a franja de seus cabelos, que estava maior, cobrindo parcialmente o rosto.
— Por favor, Naruto. — Sasuke disse, num tom que eu nunca tinha ouvido antes. — Não fale assim, não diga isso. — eu senti seus dedos apertarem o encosto da minha cadeira. — Não algo desse tipo, deste modo.
— Okay… — falei lentamente — Desculpa! — levantei meus braços, em rendição. — Mas só para ser mais claro, do que exatamente você está falando? — olhei para ele, mostrando toda minha confusão. A propósito, o que eu disse dessa vez?
Sasuke suspirou, levantou-se educadamente, bem devagar e caminhou para fora, o rosto ainda abaixado, as costas retraídas, levou unicamente o cigarro e o copo de vodka. Foi para o jardim que havia na parte de dentro do bar. Fumava e bebia de modo contemplativo.
Franzi as sobrancelhas. Sério, o que eu falei de errado? Bebi o resto da minha bebida e fui atrás dele.
— Sasuke, o que diabos foi isso? — perguntei, assim que estava de frente a ele, preocupado.
Ele arfou, jogou o cigarro no chão, apagando-o com o calcanhar e penteou os cabelos para trás.
— É sério que você não percebeu o que disse? — seus olhos possuíam uma ansiedade estranha, mesclada com… Com… Tristeza? Perda? Que sentimento é esse?
— Você sabe que eu estava brincando, não é? Você não é um babaca! — falei apressadamente, tentando me desculpar. — Quer dizer, não cem por cento do tempo. — sussurrei para mim mesmo.
Ele riu e meneou a cabeça negativamente.
— Parece que não aprendeu nada com todos esses dias de convivência comigo, não é? Ainda é alheio às suas próprias palavras. — Sasuke suspirou. — Não me refiro ao fato de me chamar de babaca, eu sei que sou várias vezes por dia.
— Eu não estou entendendo! Sério, Sasuke, do que você está falando? — insisti.
— Esqueça. — ele tocou meu ombro e sorriu. — Só temos duas opções essa noite: ou eu te ajudo a ficar bêbado ou eu te ajudo a terminar com Shino. Escolha. — ele sorriu sinceramente, aquele jeito de abrir um pouco o sorriso, mostrando pouco de seus dentes. Lindo. Muito lindo.
Suspirei, derrotado. Ele não ia me falar.
— Odeio quando você faz isso, teme. Mas acho que vou embora. Talvez eu ainda consiga falar com Shino hoje.
— Quer ajuda? — ele terminou de beber o líquido do copo.
— Está tudo bem. — dei um sorriso forçado — É algo que tenho que fazer sozinho.
Assentiu e demorou-se alguns instantes me olhando. Parecia ponderar algo. Tomou o último gole de sua bebida e então, a surpresa. Sasuke tocou a minha nuca de leve, afagando aquela região de modo lento e gentil, e puxou-me para um beijo. Apenas tocamos nossos lábios de modo breve, mas eu podia sentir o gosto de álcool em sua boca, ou seria na minha? Não importa. Puxou meus cabelos numa carícia, fitando meu rosto atentamente, e sorriu de lado ao me soltar.
Por que ele faz isso…? Acaba comigo aos pouquinhos? Mal suporto olhar para Sasuke sem ter uma vontade desgraçada de me jogar em cima dele, imagine ser tocado, quiçá beijado. O fato de ser apenas um breve toque é muito perturbador. Faz minha fome por ele crescer de forma assustadora. Bastardo filho da mãe que faz as pessoas viciarem nele!
— Boa sorte. — disse apenas.
— Obrigado. — falei, me afastando, essa proximidade toda me matava.
Ainda era cedo da noite e provavelmente Shino ainda estaria acordado, resolvi ir diretamente até ele. Não faria isso esperar mais, não faria o meu coração sofrer mais, nem enganaria mais aquele bom rapaz. Parei o carro em frente a seu apartamento e fiquei lá, sentado, com as mãos no volante, pensando na melhor forma de fazer isso, mas não chegava a nenhuma conclusão. A verdade era que não tinha melhor jeito. Suspirei e sai do carro. Bati na porta dele e esperei.
A porta foi aberta e eu recebi aquele sorriso carinhoso dele. Senti meu coração apertar de forma desesperada. Nos abraçamos e eu lhe dei um beijo na bochecha, para não complicar mais a situação. Ele abriu mais a porta e me permitiu entrar.
— O que te trouxe aqui essa hora? — ele foi sentar-se em sua cadeira da escrivaninha e eu fiquei em sua cama, observando-o.
— Queria conversar com você. — falei, sério, o encarando
Seu sorriso sumiu lentamente. Não sei se ele percebeu a minha intenção. Acho que sim. Ele desviou o olhar por um instante e depois me fitou.
— Você não está com uma cara boa… Foi algo que fiz? — indagou com o tom de voz preocupado, mas ainda tranquilo e paciente.
Puta que pariu! Como lido com uma coisa dessas? Ele ainda acha que fez algo errado quando eu que sou o desalmado sem coração na história?! Kami-sama, o que porra eu fiz dessa vez? Cuida desse pobre coração que eu estou prestes a partir.
— Não… — tentei sorrir. — Você não fez nada de errado, Shino. — franzi os lábios. Merda! Como vou dizer isso?
Ele segurou gentilmente a minha mão e acariciou os meus cabelos. Tenho que admitir: eu não senti nada, além de sua gentileza. Eu não estremeci, ou me abalei, nem se quer suspirei com seu carinho. Shino não é Sasuke, Shino não é o diabo, Shino não é o que eu quero. E eu só vou conseguir parar de compará-lo quando… É isso, não há o que se fazer.
— Aconteceu algo com você, Naruto? — indagou, olhando-me como se buscasse alguma enfermidade em meu rosto.
— Está tudo bem comigo. — suspirei. Foda-se! Não posso mais enrolar. — Só me escuta. — comecei. — Eu não te disse antes, mas na época que eu fazia parte daquela gangue, eu era apaixonado pelo líder dela… Ele não gostava de mim, no final acabou só me usando. — olhei para o chão, pois não conseguia o encarar, não quando eu falava de algo que não me orgulhava. — Eu me sentia a pior pessoa do mundo, Shino...
Havia lágrimas querendo cair de seus olhos quando voltei a olhar para o seu rosto, mas ele fazia de tudo para se manter firme. Ele já captara o rumo da conversa e o meu objetivo. Parece que isso Shino e Sasuke têm em comum: eles entendem as situações numa velocidade assustadora.
— Por que está me contando isso de repente?
— Não quero fazer a mesma coisa com você. — senti o aperto no peito ficar mais forte. — Eu não quero te fazer infeliz. Não posso fazer isso com você… — minha voz já saia embargada. Eu não sou forte como Sasuke, não consigo fingir indiferença numa situação dessas.
— Mas… — ele engoliu o choro — Eu sou feliz com você. Muito feliz. — Shino tentou. — Eu não entendo aonde você quer chegar com...
— E depois? — interrompi-o sem querer ouvir o resto. — Eu gosto muito de você, mas infelizmente não estou apaixonado. Eu quero que você seja feliz. Você é uma pessoa boa, Shino. Merece o melhor! Alguém que se entregue de corpo e alma. — tentei sorrir, mas só me senti pior.
Shino começou a chorar contidamente, enxugando suas lágrimas com as costas das mãos, não me olhava mais. Procurava algo no vazio do quarto que não estava lá. Por fim soltou o ar ao fitar as próprias mãos cruzadas entre as pernas.
— É por causa dele, não é? — choramingou. — Porque ele é sua soulmate, não é? — apertou sua cara numa face chorosa — Eu só… Só não consigo entender por que ele… O que ele tem que eu não tenho para te fazer feliz...
— Eu não sei, Shino. Não fui eu que o escolhi. — tentei me justificar. — Os deuses que quiseram assim.
— Deuses… Deuses… Deuses! — ele apertou os lábios. — Quer dizer então que os deuses escolheram a pior pessoa do mundo para ficar comigo?! — era como se ele falasse para si em voz alta, mas de repente me fitou com determinação. — Todos nós temos o direito de escolher, Naruto. — ele me fitou e se colocou de pé. — Eu escolhi não ficar com a minha, você escolheu deixar a gangue, VOCÊ ESCOLHEU SASUKE!!! — bradou a plenos pulmões. — Então por que estava comigo, seu idiota?! — franziu o cenho. — Se gosta tanto assim daquele filho da mãe idiota, por que não continuou insistindo na porra do seu namoro com ele?! — ele realmente estava com raiva e eu não podia tirar a razão dele. Se fosse comigo eu estaria do mesmo jeito, ou pior. — POR QUE DESISTIU TÃO FÁCIL E ME ACEITOU TÃO FÁCIL?!
Fechei os olhos com força, ignorando a forma que ele falava de Sasuke. Essa fixação de Shino por Sasuke é MUITO irritante, mas eu PRECISO ignorar neste momento. Não quero que as coisas saiam do controle.
— Você me ama, eu amo ele... É um ciclo vicioso, Shino. — levantei também e esfreguei os cabelos com força. — Eu sei que você entende melhor que eu… Vai todo mundo sair machucado no fim das contas! — ri amargamente. — É uma merda, mas é isso que vai acontecer. Eu prefiro sofrer sozinho do que envolver outras pessoas na minha vida confusa!
Shino, ainda com lágrimas nos olhos, meneou a cabeça negativamente.
— Então foi isso… — resmungou, sentando-se novamente. — Foi por isso que Sasuke lhe deixou, por causa desse seu comportamento patético e fraco… Eu devia ter imaginado que todo esse brilho, toda essa alegria, todo esse ouro… É falso.
Respirei fundo e voltei a sentar na cama.
— Desculpa por você achar que eu estava te usando ou te enganando, mas eu não estava, não estou… — apoiei meus cotovelos nos joelhos e repousei minha cabeça em minhas mãos, fitando-o chão. — Eu realmente tentei seguir em frente, eu realmente queria que desse certo, mas… — algumas lágrimas acabaram escapando por meus olhos, mas eu não dei a menor importância. Nunca me envergonhei de chorar na frente de outras pessoas. — Simplesmente não consegui. Não é tão fácil assim…
Ouvi-o suspirar longamente, então o vi esfregar o rosto.
— Eu nunca disse que estava me usando, Naruto, eu nunca me senti usado. — falou com mais calma. — Mas eu me senti ofendido… Ofendido por saber que você não lutou por aquilo que queria… Desde a minha adolescência que tudo o que eu sei sobre você é sobre o quanto é determinado para ter o que quer ou fazer o que acha certo… Fiquei ofendido de saber que não lutou por ele e achou que seria interessante se envolver com a primeira pessoa que disse que gosta de você ou que sorriu para você. Isso é o patético. Isso é o fraco, Naruto. — ele encolheu uma perna na cadeira e se abraçou a ela, ainda choramingando baixinho, olhando para baixo.
Acabei rindo, daquela forma amarga, novamente. Como um cara bem mais novo que eu poderia entender a vida melhor do que eu?
— Eu poderia até tentar rebater… — suspirei. — Mas sei que você está certo. Bem, não me chamam de moleque á toa, não é? — falei, rindo. Sim, rindo, mas rindo para não chorar mesmo. — Desculpa, Shino. Desculpa mesmo por não ser a pessoa que você achava que eu fosse. — franzi os lábios, me forçando a continuar. — Parece que Uzumaki Naruto não é tão incrível quanto dizem.
Shino enxugou as lágrimas finais, deu um longo suspiro e veio até mim, sentando-se ao meu lado. Ele abriu um sorriso mínimo e me abraçou com delicadeza, afagando as minhas costas. De repente, ouvi-o rir baixo, como se algo engraçado tivesse se passado em sua cabeça. Shino me soltou e me fitou, abrindo ainda mais o sorriso.
— Devia ver os vídeos do canal “Uma tapa na sua cara, vagabundo”. — comentou, dando de ombros. — É através deles que eu entendo a vida… O segundo cara por quem eu me apaixonei na vida dá “mensagens motivacionais”... — ele fez aspas com os dedos. — Lá. — ele colocou as mãos entre as pernas e suspirou. Conheço esse suspiro. É… — Eu sempre sonhei em conhecê-lo pessoalmente e quando aconteceu foi… Que nem nosso namoro. — admitiu dando de ombros.
— Isso aqui é uma competição de quem se fode mais? — resmunguei, tentando melhorar o clima. — Sério isso? — fitei-o, sorrindo. — Não é possível que você seja mais azarado que eu!
— Oh, não, querido. — ele fez um gesto de descaso com a mão. — Eu só levei uma tapa dele, umas cinco pessoas o seguraram antes que ele me matasse… Você foi praticamente atropelado pela fúria dele. — sorriu de lado. — Mas talvez eu seja mais azarado que você… Por ter me apaixonado pelos únicos homens que jamais se apaixonarão por mim.
Olhei para Shino de olhos arregalados. Pisquei repetidas vezes, tentando entender o que ele tinha acabado de dizer. Olha, eu sou lerdo, mas se o que ele disse é o que eu entendi… Não faz o menor sentido… Ou faz?
— Isso é uma piada? — perguntei, debilmente. — Sasuke? — minha voz saiu estrangulada.
Shino engoliu em seco, desfazendo seu sorriso, e assentiu, baixando a cabeça de modo culposo e com a pele corada. Ele foi buscar seu computador e me trouxe, mostrando-me um dos vídeos do tal canal. Era Sasuke conversando com um homem de terno, ele parecia estar trabalhando numa sala cheia de pessoas. Aos poucos o áudio ia sendo ajustado, como se tentasse captar bem o que ele diria.
— Mas qual seu pensamento a esse respeito? — indagava o homem de terno.
— Sério que quer saber? — o homem assentiu — Olha só, eu sou velho e tenho uma filha para criar, eu não posso perder meu tempo de vida me arrependendo de coisas que fiz ou que deixei de fazer… A vida é curta demais para esse tipo de idiotice. As pessoas que fazem isso, e se você for um. - ele riu, de modo debochado — Enfim, quem fica chorando pelas coisas que passaram, sem jamais aprender ou superar, é porque não se resolveu ainda e esse tipo de pessoa é um saco de se conviver.— fim do vídeo. OI?!
Kami-sama, que merda é essa agora? O meu atual ex-namorado é apaixonado pelo meu ex ex? Como assim? Ele nem conhece Sasuke! Merda! Isso nem é argumento, porque eu mal conheço Sasuke e sou maluco por ele! PUTA QUE PARIU!!! O que eu estou perdendo? Sério, eu não to entendendo porra nenhuma. Hum… Se bem que a fixação que Shino sempre demonstrou por Sasuke faz todo sentido agora. Argh, vou ter dor de cabeça mais tarde.
Shino fechou bruscamente o computador e jogou sobre a parte da cama desocupada. Nele havia um claro desconcerto, como se eu fosse a mãe que pegou o filho no flagra, se masturbando pela primeira vez. Não sabia para onde olhar ou o que fazer com as mãos. Ele disse que estava apaixonado por mim e por Sasuke?!
— Ao mesmo tempo? — indaguei, com medo da resposta.
Ele assentiu, ainda mais preocupado.
— Mas eu sempre tive medo de Sasuke e, ao mesmo tempo, desejo de saber quem é ele, de verdade… — admitiu, entrelaçando as mãos. — Só que todo esse encanto foi quebrado quando eu senti o peso da realidade. — tocou de leve o rosto. — Sasuke é tudo aquilo que um ser humano normal não é… Ele não tem remorso, nem piedade, nem medo, nem ganância, é como uma força da natureza… Sasuke apenas existe… Sem propósito. — arfou de maneira cansada, como se falasse algo que não queria mencionar.
— Você sabe que não gosto quando fala assim dele, não é? — falei, num tom de voz que demonstrava todo o meu cansaço. — Você não sabe porque ele estava daquele jeito naquele dia. Pare de o julgar.
Shino me olhou e simplesmente deu de ombros.
— Tudo bem, Naruto. — suspirou. — Faz o seguinte. — tomou a minha mão e sorriu. — Vai atrás do que é seu e eu vou continuar procurando pelo meu. Um dia, quem sabe, nos encontraremos de novo para contar um ao outro como vencemos na vida. — ergueu-se e me levou para a porta. — Eu tentei, você tentou e não deu certo, nem para mim e nem para você. — abri-a e me deu um abraço gentil. — E vamos combinar que eu não tenho chance contra Uchiha Fucking Sasuke, concorda? — e riu largamente de suas próprias palavras.
— Isso é tão estranho… — fiz uma cara de desgosto. — Você não vai me odiar depois disso, não é? — perguntei, preocupado. O que posso fazer? Shino é um cara legal e eu gosto dele.
— Eu até te odiaria… Se seu amor fosse por uma pessoa que não fosse de um cacife melhor do que eu. — e riu de novo, para então acariciar o meu rosto. — Se você me ensinar como odiar Uzumaki Naruto, eu vou te odiar!
Respirei aliviado e o abracei. Aqueles abraços apertados que as pessoas fazem questão de dizer que odeiam, mas que no fundo todo mundo adora. Larguei-o e beijei sua testa. Ele apenas fechou os olhos pelo breve momento do beijo e engoliu o provável nó que se fazia em sua garganta. Merda! Eu estou fazendo com ele a mesma coisa que Sasuke faz comigo.
Shino cruzou os braços, como se quisesse segurar suas próprias mãos para que elas não me tocassem e se afastou um passo.
— Vai. — disse. — Não torne isso pior do já está… Para mim e para você… Vai. — ele enxugou rapidamente uma lágrima. — Só lembre que… O máximo que vai receber é um “não”, então coragem… N-Não desista facilmente de novo… — agora ele enxugava lágrimas dos dois olhos com suas mãos trêmulas. — Só vai ser feliz…!
Assenti e tentei sorrir, ainda pensei em respondê-lo, mas preferi só ir embora mesmo. Sabe quando você tem que fazer algo e sabe que aquilo vai doer muito, aí fica enrolando e enrolando até o ponto que não dá mais para prorrogar, mas que logo depois que você faz o alívio é instantâneo? Sabe? Que bom, porque eu não sei. A dor ainda pulsava insanamente no meu peito.
Ouvi a porta sendo fechada e fiquei parado ali, no meio da calçada, pensando na forma que eu estava levando minha vida. As coisas iam de mal à pior. Alguns segundos depois escutei um baque surdo na porta e soluços agoniados. Apertei meus punhos, sentindo raiva de mim mesmo. No fim eu era só uma criança perdida, assim como Sasuke afirmou várias vezes.
Entrei no meu carro, batendo a porta com força.
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