Cores

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem! Dália amarela: união recíproca, amor correspondido.

Um grupo de aves resplandecia pelos céus, inalcançáveis, infinitas enquanto a barata padecia tentando alcança-las. Era uma equação simples de se fazer, afinal: um ser imundo como a barata estava negado a ter um espaço naquele céu.

— E os pombos, eu te pergunto? Eles são pássaros tão sujos quanto uma barata e o céu não se importa com eles. Acho que o que está te faltando é isso aqui — Todomatsu tocou algumas vezes a própria cabeça com o dedo indicador. — Imaginação.

Ichimatsu olhou sobressaltado para o irmão que não tinha notado até aquele momento. Depois, entrecerrou os olhos e suspirou, dizendo:

— Todomatsu, você não devia ficar xeretando o pensamento dos outros.

— Mas, ora, isso é um dom que todos nós temos! Iria ser um desperdício não usar. — Todomatsu disse, se jogando ao lado do outro, que estava sentado no banco da frente da casa.

— Que seja. — Ichimatsu disse com indiferença.

— Então? Vai me explicar essas filosofias complicadas? — Todomatsu disse, as mãos nas bochechas, o olhar com expectativa.

Ichimatsu, se sentindo desconfortável com o olhar do irmão, se encolheu um pouco e disse:

— Não quer dizer nada... você deve estar realmente entediado.

— Talvez. — Todomatsu disse em um tom divertido. — Mas pode confiar em mim quando digo que nada do que disser vai sair daqui.

— Certo... então pode tirar o celular que está no modo gravador das costas e desligar.

— Fui pego... — Todomatsu disse sem graça para depois admirado. — Você não estava brincando quando disse que tinha poderes de adivinhação, Ichimatsu-nii-san.

— Nem precisei deles.... Sei do que o “dry monster” é capaz. — Ichimatsu disse com um sorriso sombrio por se utilizar do termo do terceiro irmão.

— Por favor, não me chame assim! — Todomatsu disse, inflando as bochechas. — Já disse que tenho sentimentos... era só uma brincadeira! Sabe, para saber se você estava atento...

— Aí está uma “boa” desculpa, Totty. — Ichimatsu disse com um sorriso de canto.

— Entendo! Entendo! — Todomatsu disse aborrecido. — Não vou perguntar mais nada!

— Ah, mas agora eu estou afim, então, me escuta. — Ichimatsu disse, se aproximando mais de Todomatsu com uma expressão sombria outra vez.

— Tá... tá bom? — Todomatsu disse, pego de surpresa por aquele olhar do outro. Intimidador, contudo, ao mesmo tempo, magnético.

— Bem... — Ichimatsu disse, baixando a expressão sombria para mostrar uma mais contida, deslocada, melancólica. — Eu estava pensando na gente.

— Quê, mas que tipo de comparações eram aquelas, então? — Todomatsu disse muito surpreso.

Ichimatsu olhou para Todomatsu por algum tempo, sem entender porque as bochechas do sexto irmão estavam vermelhas. Deu de ombros, tirando aquele detalhe da atenção, e disse:

— Hum... isso foi algumas coisas que eu vi quando estava voltando para casa hoje. Pensei que pudessem ter algum significado, então, anotei e fiquei pensando sobre isso. — Ichimatsu disse, pegando o caderninho roxo que tinha próximo dele.

— Oh... isso foi bem idiota de se fazer. — Todomatsu disse muito sincero.

— Posso saber porque tem tanta certeza? — Ichimatsu disse, levantando uma sobrancelha.

— Porque não tem sentido se incomodar com algumas coisinhas que se vê por aí! Que ficar doente, por acaso? Sem ofender, claro. — Todomatsu disse ao fim com um sorriso fofo. — Você tem que se importar com as coisas grandes, nii-san, que estão na sua frente! Olha para mim!

Um olhar surpreso de Ichimatsu. Depois, um tempo de silêncio se passou enquanto se encaravam. Então, Ichimatsu disse:

— Todomatsu, você está muito perto.

— Ah. — Todomatsu disse surpreso. Desse modo, voltou a posição que antes se encontrava.

— Eu... admiro que você pense dessa forma. — Ichimatsu disse, trazendo as pernas bem próximas ao corpo para as abraçar, então esconder parcialmente o rosto. — Mas já está bom... não precisa perder seu tempo se incomodando com isso, é problema meu.

— Mas... — Todomatsu disse aborrecido.

— Sério, obrigado por me ouvir de toda a forma. — Ichi disse, se levantando.

Contudo, Todomatsu foi rápido e segurou o pulso do quarto irmão antes que se afastasse muito, se levantando também.

— Solta, Todomatsu. — Ichimatsu disse, olhando Todomatsu com o canto do olho, tentando soltar o pulso com alguma força.

— É muito fácil assim, não é? — Todomatsu disse com a voz ácida. — Fazendo com que as pessoas se preocupem com você para depois jogar elas fora!

— Não é bem assim! — Ichimatsu disse aborrecido, virando-se totalmente para o sexto irmão, as sobrancelhas franzidas. — Não é fácil! ... eu tenho medo, ‘tá legal? Não sou como o Shittymatsu que não tem vergonha de sair por aí com a roupa ridícula que tem ou tenho a sua despreocupação, a do Osomatsu-nii-san ou a do Jyushimatsu... até mesmo Choromatsu tem alguma motivação para pelo menos falar algo! Sou um lixo... um nada!

— Ah, então, se isso é verdade... — Todomatsu disse, e se aproximou bem mais de Ichimatsu e arrancou o caderno que o quarto filho tinha na outra mão, o que ocasional em reclamações a respeito que foram prontamente ignoradas. — Joga isso fora! Queima! Afinal é tudo seu e tudo que te diz respeito é um lixo também!

— Todomatsu, devolve e para agora mesmo... — Ichimatsu disse, com os dentes cerrados.

— Não mesmo, porque estou apenas começando! — Todomatsu disse, depois cutucando o peito de Ichi com o dedo indicador seguidas vezes com raiva. — Se você não existisse, quem ia aguentar o treino do Jyushimatsu? Porque nem Karamatsu-nii-san consegue e aquele irmão idiota é resistente! Quem iria parar aqueles dois irmãos mais velhos quando o Choropunheski não conseguir? E eu tenho que mencionar o tigre? Quem consegue ser amigo daquele cara?

— Todomatsu...

— E isso não é tudo, porque...

— Todomatsu! — Ichimatsu disse, com raiva, o que sobressaltou Todomatsu. — Você... não fale mais um “ai” ou eu acabo com você.

— “Ai”. — Todomatsu disse ousado, os olhos tão incendiários quanto os do outro. — Pobre de mim, como se não tivesse ouvido uma ameaça dessas antes! Quem você acha que eu sou? Queria ver você tentar de verdade...!

— Tsc. — Ichimatsu disse. Depois, puxou sua mão de vez e deu as costas para Todomatsu, sem se importar mais com o caderno que ainda estava na posse do sexto irmão. Qualquer lugar seria melhor do que toda aquela acusação.

—... filho da mãe. — Todomatsu disse, depois que o quarto irmão foi embora. — Oh, é mesmo, temos a mesma.

— Todomatsu... — Osomatsu disse com a voz animada e despreocupada. — Você viu o Ichimatsu em algum lugar?

— Eu não ligo para onde aquele irmão inútil foi! — Todomatsu disse, muito aborrecido, mexendo no celular.

— Ei. — Osomatsu disse, baixinho, para Choromatsu que estava próximo lendo uma revista. — Qual o problema dele? Acabou o hidratante? Cancelaram a manicure?

— Não faço ideia. — Choromatsu disse, sem baixar a revista. — Parece que ele e Ichimatsu tiveram uma briga.

— Sério? — Osomatsu disse surpreso. — Essa é uma dupla diferente para esse tipo de coisa... bem, eles devem se resolver uma hora.

— Certeza? Não é melhor fazer alguma coisa? — Choromatsu disse, arqueando uma sobrancelha.

— Não estou preocupado. — Osomatsu disse, se sentando ao lado de Choromatsu e pegando uma tangerina que tinha na mesa junto a outras, para então começar a descascá-la — O Todomatsu só agride e briga por um bom motivo. Falo isso por experiência própria.

— Verdade... — Choromatsu disse, vendo como Osomatsu mantinha um sorriso no rosto, mas parecia fazê-lo mais forçadamente. Isso lhe lembrou de muita coisa que eles passaram, principalmente com relação a primeira vez que tinha tentado ser independente para valer, mas decidiu não trazer à tona. Melhor assim. — Eles devem dar um jeito.

— Ichimatsu, soube que você e o Totty não estão se dando bem. — Karamatsu disse, sério, quando estavam apenas os dois em casa. — Sabe que não precisa esconder nada de seu big brother. Então, o que aconteceu?

— Argh! Qual o problema de vocês, hein? Sendo tão prestativos... — Ichimatsu disse aborrecido. O ruído que fez tinha afastado seu amigo felino, o que o deixou mais irritado.

— Bem, estamos preocupados com você. — Kara disse como se fosse uma resposta óbvia a se dar, cruzando os braços.

— Pois não fiquem! Eu não pedi ajuda! E ninguém te ajudou quando você pediu, então porque está querendo ser tão gentil? — Ichi disse, e na mesma hora se arrependeu.

Tinham demorado uma semana inteira depois daquele incidente para animar Karamatsu.

— É verdade, depois daquilo eu tive todo o direito de abandonar a family. — Kara disse, mais sério ainda, o que fez Ichi engolir em seco. — Mas não podia fazer isso, Ichimatsu. Sei bem que as vezes acabamos passando um pouco uns com os outros, mas, em geral, a family se importa. Por isso quero te ajudar, mesmo que não sejamos... hum... os mais próximos. Totty deve pensar no mesmo. Na verdade, ele...

Antes que Karamatsu pudesse terminar a fala, foi acertado sem dó no rosto por um celular.

— Oh, minha nossa, Karamatsu-nii-san! Mil desculpas! — Todomatsu disse com um sorriso fofo, pegando o celular que tinha caído no colo de Kara em segurança. — Escorregou da minha mão, hehe! Podíamos ir pescar agora, não é? Como um pedido de desculpas!

— C-Claro... como quiser, brother. — Kara disse, massageando o rosto, gemendo um pouco de dor.

O olhar que Todomatsu dirigiu a Ichi por um momento gelou a espinha do quarto irmão. Era uma mistura de revolta com uma tristeza que lhe causou um mal-estar.

— Vamos, Karamatsu-nii-san! Vou te deixar para trás! — Todomatsu disse, já de costas para os dois, se dirigindo para a saída de onde tinha vindo.

— Lembra do que eu te falei, Ichimatsu. — Kara disse, se levantando com alguma dificuldade. Um sorriso cruzou seu rosto meio machucado. — Você não está sozinho nessa... e quanto a Totty, flores sempre deixam a vida mais happy.

— Isso foi ideia do Karamatsu-nii-san, não é? — Todomatsu disse, arqueando uma sobrancelha para a flor única e meio morta a sua frente. — Apesar de que a execução com certeza deve ter sido 100% seu feitio.

— Como você soube? — Ichimatsu disse muito surpreso.

— Está escrito no seu rosto, nii-san! — Todomatsu disse, acabando por estender a mão. — Vamos, me dê, assim sua missão está cumprida, não é?

— A-Apenas se estiver tudo bem para você. — Ichimatsu disse sem jeito.

— Eu não estou zangado com você, Ichimatsu-nii-san, mas sim pelo que você não me disse! — Todomatsu disse sério.

— Não é a mesma coisa? — Ichimatsu questionou confuso.

— Claro que não... — Todomatsu disse, e provavelmente iria começar a explicar quando algo ganhou sua atenção. — Espera aí. De qualquer flor que podia ter conseguido... porque uma dália amarela?

A surpresa no tom do outro não entregava a Ichimatsu se aquilo era um bom ou mau sinal.

—... tem algo contra? — Ichimatsu disse, sem entender.

— Ichimatsu-nii-san, alguma vez já ouviu falar sobre a linguagem das flores?

Ichimatsu franziu as sobrancelhas. Tinha totalmente apostado na sua intuição, mesmo que o dono da floricultura não quisesse lhe vender o produto por estar prestes a ser jogado fora. Desse modo, não tinha muita ideia de como deveria agir se tivesse sido uma má escolha.

— E-Eu posso conseguir outra... — Ichimatsu disse, tentando apostar na fala mais segura.

— Não precisa, mesmo. — Todomatsu disse com algo diferente no olhar. — Quero acreditar que isso não foi uma coincidência... o que acha?

— O que eu acho...? Você quem disse antes para olhar para as coisas grandes, na minha frente...

— É, eu disse isso... — Todomatsu disse muito pensativo. — Mas quero me corrigir. Tem algumas coisas pequenas que requerem uma devida atenção!

Aquele rumo de conversa foi inesperado para Ichimatsu que estava acompanhando metade do entendimento. Acompanhou menos ainda quando Todomatsu se aproximou demais e então...

— Ichimatsu! Finalmente te achei! Vamos a corrida de cavalos...! — Osomatsu disse. Depois, ao perceber a situação, recuou os passos que havia dado e, atrás da porta, falou em uma indiferença simulada. — Não vi nada, não vi nada. Continuem o que faziam... ei, Punhematsu! Onde você colocou aquela sua placa?

— Que merda, já disse que não é minha! — Choromatsu respondeu do outro cômodo da casa, alto o suficiente para todos ouvirem.

— Haha, dá para entender esse cara? Se fosse honesto resolvia a maior parte dos problemas... mas, enfim, desculpa mesmo, viu? Vou comprar sushi para todos depois com o dinheiro do Karamatsu... ‘té!

Dessa forma, Osomatsu fechou a porta para continuar sua provocação ao terceiro irmão. Todomatsu não demorou em soltar um suspiro frustrado e soltar Ichimatsu, que estava congelado no lugar desde que Todomatsu o tinha segurado pelos ombros, mais ainda quando Osomatsu veio.

— Você está bem, Ichimatsu-nii-san...? — Todomatsu questionou, depois que seu aborrecimento passou um pouco. Então, ficou alerta. — Ei, você está respirando? Ichimatsu-nii-san?

— Vou morrer, vou morrer... — Ichimatsu murmurava para si em uma espécie de transe.

— Oh, nossa...! — Todomatsu disse, alto, para então correr para abrir a porta. — Choromatsu-nii-san! Vou precisar de sua ajuda aqui!

— Argh! Logo quando eu achava que estava bem mais perto de conquista-lo! — Todomatsu disse frustrado.

— Não se preocupa, Totty! Tenho certeza que Ichimatsu-nii-san te entende! — Jyushimatsu disse otimista.

— E você acha que ele sairia comigo? — Todomatsu perguntou com um fio de esperança.

— Isso é outra história! — Jyushimatsu disse, mantendo seu sorriso animado.

Todomatsu baixou a cabeça frustrado mais uma vez.

— Bem, Ichimatsu-nii-san é muito tímido! Talvez se você der um tempo para ele... — Jyushimatsu disse pensativo, colocando uma manga do moletom sobre a boca. — Quem sabe é um jackpot!

— Animador... — Todomatsu disse, nada animado. — Geralmente eu só aposto em causas ganhas, por que agora tem que ser diferente?

— Porque Ichimatsu-nii-san é o rei das bases do Totty, rei do homerun! — Jyushi disse prestativo.

— Só pode ser isso mesmo... ai. — Todomatsu disse, ao olhar para a porta e ver Ichimatsu ali, escutando sabe-se lá quanto do que falou. — Qual é! Será possível que não posso fazer as coisas sem que alguém me espie?

— Bem... são 8 pessoas morando nessa casa. — Ichimatsu disse, dando de ombros.

— Jyushimatsu-nii-san, pode ficar montando guarda do lado de fora? Prometo que não demoro muito. Pode levar o bastão se quiser.

— Matar com beisebol? — Jyushimatsu questionou feliz.

— Huhu, bom garoto! — Todomatsu disse e afagou os cabelos de Jyushi, que disparou para fora logo em seguida.

Ichimatsu observou a tudo com um olhar descrente. Depois, deu de ombros, acabando por se sentar do outro lado da mesa que estava disposta na sala. De repente, a atmosfera ficou bem mais desconfortável.

— Hum... eu queria devolver o seu caderno antes. Espere um pouco. — Todomatsu disse, e foi para o quarto deles, onde o caderno roxo estava escondido entre as suas coisas.

O que havia mesmo para conversar? Não tinha ideia! “Quando ele havia se apaixonado por Ichimatsu?" Essa provavelmente seria a primeira pergunta que receberia do quarto irmão e era uma questão complicada de se responder. Esse sentimento veio tão sutil a ponto de que quando se deu conta viu que era tão comum quanto a sua respiração. Então, devia ter sido bem cedo... um dado que causava um enjoo no sexto irmão.

Afinal, ele queria tanto ascender socialmente! Entretanto, percebeu que tinha algo que poderia condená-lo para sempre da ilha dos sonhos que sempre esperou alcançar. E não tinha volta. Apaixonava-se cada vez mais, e se indignava cada vez mais, porque o alvo de seu amor não se valorizava como merecia. Todomatsu podia fazer uma lista das coisas que amava em seu irmão mais velho, como sua atenção aos animais necessitados, a sua resistência, seu sorriso sombrio...

— Ah! — Todomatsu gritou, ao sentir alguém tocar o seu ombro.

— Ei, você estava demorando muito então resolvi dar uma olhada. — Ichimatsu disse, as mãos em sinal de rendição.

— Claro... — Todomatsu disse, e incerto estendeu o caderno roxo para o irmão. — Não li nada, mas deixei uma mensagem na última folha... Só olhe quando eu não estiver perto, ouviu?

Ichimatsu assentiu, enquanto Todomatsu ia embora, aparentemente resignado a ter a conversa com o quarto irmão qualquer outro dia além daquele. Ichimatsu percebeu as bochechas de Todomatsu vermelhas outra vez e, dessa vez, as suas próprias acabaram adquirindo essa cor.

“As baratas também podem ser voadoras.” Era o que estava escrito em uma letra medonha, que dificilmente poderia ter esperado de uma pessoa tão preocupada com as aparências como o sexto irmão. Mas, enfim, aquele poderia ser o motivo para Todomatsu apenas querer usar o celular em primeiro lugar.

De toda a forma, não era aquilo o importante, mas sim que provavelmente os dias que se seguiriam teriam um pouco mais de cor que os demais.

Notas finais
Nos vemos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!