Cores

1 Capítulo Único


Cores.

Muitas cores acima de sua cabeça.

Vermelho, azul-claro, azul-escuro, laranja, amarelo, branco, pincelavam o céu numa estonteante perfeição enquanto os últimos raios de sol colorizavam tudo sobre si à medida que o crepúsculo se fazia presente.

Baixou os olhos. A mudança era feroz.

Alguns metros atrás, árvores. Alguns metros à esquerda, árvores. Alguns metros à direita, árvores. Muitos metros à frente... mais árvores.

Todas cinzentas, apagadas, inglórias, desvanecidas e feias.

Feias. Feias. Feias. Feias.

A beleza do quadro que se pintava acima não mascarava a sombriedade da situação abaixo. O ar, denso. O cheiro, carregado. Sua respiração, vagarosa. Seu coração, pesado.

Pesado, cansado, nervoso, oprimido, cheio, cheio, cheio. Disso, daquilo, de tudo.

Os dedos de moviam numa dança inconsciente, para cima, para baixo, para cima, para baixo, fazendo a pedrinha deslizar para um lado e para o outro, subindo e descendo a escada imaginária que seus dedos formavam enquanto a consciência dava voltas aqui e ali. Enjoou e parou.

Descruzou as pernas a sua frente, dobrou os joelhos um para cada lado. À sua frente, água. Inclinando-se e com as mãos apoiadas no chão engatinhou alguns míseros centímetros pela terra molhada sujando-se com gosto, até seu rosto ir surgindo aos poucos na água enegrecida do lago.

Viu a pele. Continuava branca feito neve. Bizarramente branca. Esquisita.

Viu os cabelos. A perfeita divisão entre o branco e o louro. Estranhos. Harmonizavam com seu tom de pele morto.

Viu os lábios. O mesmo tom de branco que sua pele. Se camuflavam. Encontrou com dificuldade as saliências na imagem sob si.

A feição a mesma. A aparência a mesma. A cor a mesma. Tudo continuava o mesmo.

Os olhos varriam todas as direções da imagem, cada detalhe da reflexão, e varriam, varriam, varriam. Tudo o mesmo.

Pele, cabelo, lábios, olhos. O mesmo. Tudo o mesmo.

Já não conseguia mais reconhecer quem era essa criatura exoticamente pálida. Pálida de pele, pálida de cabelo, pálida de lábios. Branca de quase tudo. Menos de olhos.

Os olhos eram dois abismos negros.

Pretos. Pretos. Pretos.

Deixavam seu retrato ainda mais anormal. Estranho, excêntrico.

Singular.

As cores eram abrangentes. Azul, verde, cinza, amarelado, castanho.

Tão azuis como o céu. Verdes como o oceano ou esmeralda. Cinza feito uma tempestade. Amarelados como uma avelã. Castanhos feito o chocolate. Tantos para se ter.

Ganhou preto.

Preto? Sombrio. Tenebroso. Desanimador.

Tão belos quanto o ônix? Após uma última olhadela para imagem na água voltou a sentar-se na terra.

Preto-ódio.

Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Sorriu ironicamente.

Isso reconhecia.

Reconhecia muito bem.

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