Cores
1 Capítulo único
Notas iniciais
Essa fic estava pronta há um tempo já, mas como eu estava sem internet...
~Matt~
Eu não hesitei. Mello me pediu ajuda e eu a cedi, sem nem mesmo pensar em dizer o contrário. Negar nunca passou pela minha cabeça, mas também, por que negaria?
E agora isso.
Nunca imaginei que fosse realmente acabar desse jeito, verdade, mas nem isso serviu para fazer eu me arrepender.
Desci do carro, crente de que ia conseguir dar um jeito de me livrar daquela confusão imensa e perigosa na qual me meti, e não vou negar que fiquei realmente surpreso ao sentir o número incontável de balas transpassar meu corpo.
Surpresa. Choque. Dor.
Ótimas sensações para se ter nos últimos momentos de vida. Últimos momentos sim, porque eu não era ingênuo a ponto de realmente pensar que havia alguma escapatória. Talvez pensasse, antes de virar queijo suíço.
Eu sabia que estava morrendo. Eu sabia que seriam precisos apenas alguns segundos, talvez um só bastasse.
Mas foi o segundo mais longo de toda a minha vida.
Passou-se devagar, quase como se não passasse. Ou melhor, eu não o sentia passar. Minha mente flutuava em um espaço desprovido de som, e a dor, a princípio tão intensa, também perdeu seu lugar ali. Aos poucos e muito lentamente um véu nebuloso ia cobrindo tudo, e em um pensamento sem nenhuma noção de momento me lembrei da Deusa grega Nyx, a Deusa da Noite. Assim como a noite das histórias mitológicas, eu sentia como se o tal véu fosse sendo puxado, cumprindo seu papel de cobrir e escurecer tudo.
Eu sabia que na realidade eu já deveria estar no chão, ou a caminho deste, com o cigarro pendendo nos meus lábios já quase sem vida, mas eu não sentia isso. Morrer parecia ser tão demorado assim? Talvez para quem não estivesse vendo de fora.
Mas se bizarramente minha mente ganhou alguns segundos a mais para trabalhar, não sou eu quem vai reclamar.
Porque um único pensamento centralizou-se durante este tempo. O pensamento que ocupou minha mente pora quase minha vida toda.
Mello.
Será que a parte dele será bem sucedida? Espero que sim. Torço para que sim.
Seria um final digno de história romantista se nós dois morrêssemos nisso tudo, mas se for para viver esses últimos momentos com a perspectiva de tê-lo morto, então sinceramente, eu prefiro morrer sozinho.
A solidão neste momento é bem mais bem-vinda do que a companhia dele nesta experiência.
Prefiro ele vivo.
Mesmo que eu não possa mais vê-lo, tocá-lo, ouví-lo, sentí-lo.
Como eu disse antes, eu já não sentia nem via nada, mas uma coisa eu vi.
Luzes.
Não, não era a tal “luz branca” ou o que seja. Acho que eram as luzes dos faróis dos carros que me cercavam.
Faróis amarelos.
Um amarelo que me fez lembrar justo de quem? Não é difícil de advinhar, né? Incrível como a mente trabalha nos momentos mais estranhos.
Amarelo... Seria a cor perfeita para descrevê-lo. Intenso, radiante, imponente.
“Diz-se que o amarelo é a cor que contribui para a felicidade, e eu tenho que concordar. Porque duvido que eu pudesse ter sido feliz como fui, se não fosse por você. Um tipo meio torto, que muitos provavelmente não compreenderiam, mas sem dúvida, felicidade. E não importa que fim estou tendo agora, o que importa é o que me levou a esse fim. E é por isso que eu aceito ser envolvido pelos braços da morte. Porque foi por você.”
~Mello~
Ainda não queria acreditar.
Matt estava morto? De verdade? Não... Era difícil demais digerir isso...
Por minha culpa.
A quem eu quero enganar? É minha culpa sim. Droga...
Fui eu quem puxou ele pra isso tudo, fui eu quem pediu sua ajuda, e agora...
Eu nem sei como é que eu ainda não bati esse caminhão. Não estou nem conseguindo enxergar direito o que está à minha frente! Acho que agora tudo o que eu queria era bater de uma vez...
...
Não fique pensando que eu sou suicida, tá legal? Tanto porque Matt ficaria furioso caso eu agisse desse jeito. Eu não sou, é só que... Agora tudo parece tão sem sentido...
Por que tudo isso? Por que eu estava lutando contra Kira? Para vencer Near? Para vingar L? Para saciar meu próprio desejo de justiça? Mas qualquer um desses motivos agora pareciam tão... Desprovidos de sentido.
Engraçado, não? O que antes parecia tão importante agora soava tão inútil... Acho que tudo perde o sentido se a pessoa com quem você mais se importa não está mais.
Apenas sentia que tinha que levar aquela droga de plano adiante, como uma obrigação. E era mesmo uma obrigação, afinal, Matt acabou morrendo por causa disto. O mínimo que eu podia fazer era ir até o fim.
Mas... Esta obrigação acabou sendo uma meta impossível de cumprir, no final.
Uma pontada. Um aperto. A dor alucinante.
Foi muito de repente. Sem aviso nenhum, senti uma forte pontada no peito, que logo se transformou em um aperto maior ainda, aperto este que só aumentava mais e mais.
Meu coração.
Droga, eu sabia o que isso significava.
Pior que eu sabia. Aquela mulher maldita...
Inconscientemente soltei o volante e levei minha mão ao meu peito, como se pressionar o local que parecia estar sendo retorcido em um apertado nó pudesse ajudar de alguma forma.
Foi questão de segundos.
Perdi totalmente o controle do caminhão, mas o espaço de tempo até a batida foi apenas um flash para mim.
Apenas uma coisa chamou minha atenção.
Minha visão estava turvada, por isso não tive certeza do que era aquilo que passou, mas a cor vermelha se destacava das demais e era o único detalhe que eu consegui identificar. Pode ter sido uma placa ou uma alucinação causada pela dor. Eu não sei. E não importa.
Vermelho.
Matt...
Sempre achei que essa cor combinava com ele.
“A cor do amor, da paixão, do desejo. Tudo o que eu sinto e sempre senti por você. Também já ouvi que vermelho relaciona-se com vitalidade e poder, e mesmo nunca admitindo em voz alta, era exatamente isso que você sempre representou para mim. Uma necessidade não para eu viver, mas para eu gostar de viver. E é por isso que não estou dando tanta importância quanto deveria pelo fato de estar morrendo. Porque você não está mais aqui.”
~Near~
Acabou.
Finalmente... Acabou.
Se eu disesse que não estou satisfeito com o desfecho que essa história de tanto tempo teve, estaria mentindo. Não tenha dúvidas disto.
Mesmo tentando refrear isso dentro de mim, no fundo, eu sempre desejei um final parecido com este.
Parecido, não igual.
Eu não queria que eles tivessem morrido, e essa é uma parte que eu com certeza mudaria se pudesse escolher.
Graças ao plano inconsequente do Mello, eu pude, enfim, arranjar um meio de pôr um fim definitivo nesta batalha. Foi graças aos dois, que tudo terminou.
Não nego que os momentos em que pude humilhar Kira, ver sua expressão alucinada e derrotada, ter a confirmação da “vitória”, foram muito satisfatórios. Esses momentos eu não gostaria de mudar.
Agora...
Não conseguia deixar de pensar que o sacrifício que proporcionou esses instantes tinha sido grande demais.
Talvez seja porque eu os conhecia há muito tempo, porque apesar das constantes disputas em que nos víamos envolvidos, apesar de todos os apesares, eles eram, de uma forma estranha, as pessoas mais próximas de mim. E ao receber a notícia de suas mortes, pela primeira vez em muito tempo eu senti a dor da perda.
Não importa a máscara de frieza que ostentei para todos, a dor foi bem real.
Sinto um pouco de falta da época do orfanato...
...
Mas estou divagando demais aqui.
Deixei um suspiro pesado sair de minha boca e me levantei do chão, deixando esquecidos os bonecos que havia feito detodos os envolvidos no caso junto ao simples castelo de dados que construí nas duas últimas horas. Esquecidos. Sem-graça.
Eu estava no prédio que antes era usado pela SPK, mas no momento ele estava vazio. Exceto por mim. Tinha dispensado todos, querendo ficar sozinho um pouco, cansado de manter minha máscara de sempre.
Caminhei a passos lentos para a sacada do quarto que ocupava, deixando com certa satisfação, o ar fresco me engolfar.
Era pôr-do-sol.
A cor laranja, tão bela daquela altura, dominava todo o céu de fim de tarde.
Laranja...
Uma vez eu tive que pesquisar sobre o significado de cada cor para um trabalho sobre superstições populares, e apesar de não acreditar nessas coisas, tenho que concordar que certos aspectos são bem parecidos com a realidade.
Talvez seja uma comparação idiota de se fazer, mas sempre considerei laranja a cor perfeita para aqueles dois. Ora, vermelho com amarelo dá laranja, não?
Laranja: libera as emoções negativas, estimula a mente e diz-se ser o perfeito antidepressivo.
E não era isso mesmo?
“Eu tinha inveja deles, sempre tive. Assim como a cor que lhes atribui, eles esbanjavam energia, e na maioria das vezes em que estavam juntos, alegria e felicidade. Eu também gostaria de ter algo assim. Eu também queria ter alguém. Desde a infância, eles estiveram juntos. Não tenho certeza de quando a relação deles evoluiu para esse nível, mas também não importa. Eles sempre estiveram juntos, e agora, acabaram morrendo assim também. De modos diferentes, em lugares diferentes, mas juntos.”
Notas finais
Nem lembro mais de onde surgiu essa ideia das cores, mas eu gostei ~
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