Corações de Inverno
1 Prólogo
O inverno daquele ano chegara a Forksford com uma solenidade quase cerimonial, como se a própria natureza houvesse decidido impor silêncio e reverência à pequena cidade. Do alto de céus pesados e permanentemente acinzentados, flocos de neve desprendiam-se em queda lenta, rodopiando no ar antes de encontrar o solo. Cada um parecia perfeito em sua geometria efêmera, dissolvendo-se ao tocar o mundo e, ainda assim, contribuindo para a espessa manta branca que pouco a pouco engolia ruas, telhados e cercas.
As vias, outrora lamacentas e marcadas pelas rodas das carruagens, agora rangiam sob o peso delicado da neve recém-caída. O som era seco e ritmado, um lembrete constante do frio que se infiltrava em tudo. Ao longe, o trotar cadenciado dos cavalos misturava-se ao badalar grave dos sinos das igrejas, marcando horas curtas, dias apressados e noites longas demais. Das chaminés das casas modestas e dos sobrados mais abastados, serpentearam colunas de fumaça espessa, levando consigo o aroma reconfortante de lenha queimada, pinho fresco e carvão — um perfume quente que contrastava com o ar cortante e trazia consigo uma melancolia serena.
Isabella Swan caminhava por uma dessas ruas com passos firmes e decididos, embora o frio insistisse em alcançar-lhe os ossos, infiltrando-se pelas costuras do casaco. Mantinha o queixo erguido, como sempre fazia, recusando-se a permitir que qualquer desconforto se refletisse em sua postura. Ao seu lado, Mary Alice Swan avançava com uma leveza quase provocadora ao inverno, desviando de poças congeladas e deixando que os olhos curiosos passeassem pelas vitrines embaçadas, pelas fachadas cobertas de gelo e pelos detalhes que a maioria ignorava.
Bella envolvera-se cedo demais na capa da maturidade. Aos doze anos, perdera a mãe — e com ela, a despreocupação própria da infância. O riso fácil, os sonhos simples e a sensação de proteção desapareceram naquele inverno distante, deixando em seu lugar um silêncio pesado e uma responsabilidade que nunca pedira. Restaram-lhe o pai, Charlie Swan, um comerciante modesto, trabalhador e honesto, e a irmã seis anos mais nova, cuja proteção tornara-se, desde então, sua missão inegociável. O tempo avançara com crueldade e rapidez. Agora Alice contava dezessete primaveras — belas, vivas, cheias de promessas e impulsos — enquanto Bella seguia firme em seu papel silencioso de guardiã, sempre à frente, sempre alerta.
— Lembre-se, Alice — disse Isabella, parando diante da loja de tecidos e pousando a mão enluvada sobre o braço da irmã —, estamos aqui apenas para comprar o que realmente precisamos. Nada além disso.
Alice revirou os olhos com uma expressão divertida, os lábios curvando-se em um sorriso travesso que denunciava sua natureza incorrigivelmente sonhadora. Ainda assim, assentiu com a cabeça, mais para tranquilizar Bella do que por real convicção.
— Eu sei, Bella. Prometo tentar — a jovem respondeu, num tom suave e quase musical, que deixava claro o quão frágil era aquela promessa.
A porta do estabelecimento abriu-se com um leve rangido, e ambas foram imediatamente envolvidas pelo ar quente do interior. O contraste fez com que Isabella suspirasse quase involuntariamente, sentindo os músculos relaxarem por um instante. O ambiente estava impregnado por aromas suaves de lavanda seca, algodão limpo e seda recém-chegada. Prateleiras de madeira escura forravam as paredes, sustentando rolos de tecidos de todas as cores e texturas, organizados com um cuidado quase reverente.
Alice esqueceu-se rapidamente das advertências da irmã. Seus passos tornaram-se mais lentos, e um brilho encantado surgiu em seu olhar ao reconhecer, dispostas com destaque, sedas vindas da França. Aproximou-se como quem se achega a um tesouro.
— Bella… — ela murmurou, tocando o tecido com as pontas dos dedos, como se temesse quebrar algo precioso.
Isabella, contendo um sorriso indulgente que ameaçava surgir, seguiu em direção ao balcão, onde Leah Clearwater, a proprietária da loja, organizava cortes de lã grossa.
— Bom dia, senhorita Swan — cumprimentou Leah com familiaridade. — O frio chegou de vez este ano.
— Chegou cedo e sem piedade — respondeu Bella, com um leve aceno de cabeça. — Precisamos de tecidos quentes. Algo resistente… e acessível.
Leah sorriu, compreensiva, e começou a apresentar opções que equilibravam qualidade e preço. Isabella examinava cada peça com atenção, calculando mentalmente cada gasto, cada moeda que sairia do orçamento apertado. Ainda assim, mantinha um olhar atento sobre Alice, que agora comparava sedas como se estivesse diante de relíquias de um mundo distante.
Quando Bella já se aproximava do fim das compras, a porta de madeira da loja abriu-se novamente. A sineta acima dela tilintou com delicadeza, anunciando a chegada de novas clientes. Isabella voltou-se apenas por hábito, mas o gesto de Leah — que imediatamente endireitou a postura e fez uma reverência respeitosa — chamou-lhe a atenção.
— Lady Cullen! — disse a comerciante, com deferência.
A mulher que adentrara o recinto trazia consigo uma elegância serena, quase silenciosa. Vestia um traje de inverno em tons suaves de azul acinzentado, adornado por delicados detalhes de renda clara no colarinho e nos punhos. O tecido era de evidente qualidade, ajustado com sobriedade ao corpo esguio. Um xale de lã fina repousava naturalmente sobre os ombros, e as luvas claras contrastavam com o cabelo castanho-avermelhado, cuidadosamente preso. Atrás dela, uma criada carregava algumas embalagens, mantendo-se discreta e atenta.
Isabella sentiu um leve sobressalto ao reconhecer o nome. Lady Cullen. Esme Cullen. A ex-viscondessa, mãe do atual visconde de Masen, Edward Anthony Masen Cullen. Recordou-se imediatamente dos comentários sussurrados nas ruas da cidade — um homem frio, distante e orgulhoso, tão imponente quanto inacessível. Contudo, ao observar sua mãe, o contraste era quase desconcertante. Havia nela uma suavidade acolhedora, um olhar gentil que parecia aquecer o ambiente tanto quanto a lareira ao fundo.
Lady Esme cumprimentou Leah com um sorriso cordial e passou a dar instruções à criada sobre alguns tecidos. Seus olhos atentos percorreram a loja com curiosidade genuína, até deterem-se em Alice, que segurava um rolo de seda com visível fascínio.
— Perdoe-me a intromissão, minha jovem — disse Lady Esme, aproximando-se com delicadeza —, mas reconhece o tecido que tem em mãos?
Alice ergueu o olhar, surpresa, mas respondeu com naturalidade e segurança:
— Sim, milady. É seda francesa, provavelmente de Lyon. O toque é mais leve e o brilho mais sutil do que as demais.
As sobrancelhas de Lady Esme arquearam-se levemente, visivelmente impressionadas. Seu olhar demorou-se em Alice, notando não apenas o conhecimento inesperado, mas também a beleza fresca da juventude, os traços delicados e a vivacidade contida no sorriso.
Nesse momento, Isabella aproximou-se, sentindo a necessidade quase instintiva de intervir.
— Bom dia, milady — Bella cumprimentou, com uma breve inclinação respeitosa.
— Bom dia, querida — respondeu Lady Esme, voltando-se para ela com igual gentileza. — Posso saber o nome das jovens?
— Sou Isabella Swan, e esta é minha irmã, Mary Alice Swan — respondeu Bella. — Somos filhas de Charlie Swan, comerciante da cidade.
— Swan… — repetiu Lady Esme, pensativa. — E moram em Forksford há muito tempo?
— Desde o falecimento de nossa mãe, há 11 anos, milady — disse Isabella, com voz firme, embora sentisse o peso da lembrança. — Permanecemos aqui desde então.
Algo pareceu tocar o coração de Lady Esme. Seu olhar suavizou-se ainda mais, como se compreendesse, sem necessidade de palavras, o fardo silencioso que Isabella carregava.
— E costumam participar dos eventos sociais da cidade? — a matriarca da família Cullen perguntou, após um breve silêncio.
Antes que Bella pudesse responder com a prudência habitual, Alice adiantou-se, com uma inocência desarmante:
— Não muito, milady. Não temos muito tempo… nem recursos para isso.
Lady Esme observou-as por um instante prolongado, como se algo dentro de si fosse guiado por uma intuição antiga e profundamente maternal. Então, com um sorriso decidido, disse:
— Dentro de dois dias, celebraremos o trigésimo aniversário de meu filho, o visconde. Será um prazer recebê-las na nossa residência.
O coração de Isabella falhou uma batida. A surpresa foi tamanha que quase recusou no mesmo instante. Contudo, Alice, sempre mais rápida e menos cautelosa, sorriu amplamente.
— Seria uma honra, milady. Aceitamos com prazer.
— Excelente — disse Lady Esme, satisfeita.
Retirou então um convite selado com cera dourada e depositou-o nas mãos de Isabella.
— Ficarei muito feliz em vê-las lá.
Isabella baixou os olhos para o convite, sentindo o peso inesperado daquele papel elegante. Um simples objeto que, ainda assim, prometia mais do que uma celebração. Em seu íntimo, uma relutância silenciosa começou a se formar — lenta e inevitável — como a neve que se acumulava do lado de fora: bela à primeira vista, fria ao toque e carregada de presságios.
~*~
O visconde de Masen, Edward Anthony Masen Cullen, permanecia em silêncio absoluto em seu escritório, como se o mundo além daquelas paredes espessas de pedra tivesse sido engolido pelo inverno. Ali dentro, o tempo parecia suspenso. Diante da ampla janela de vidro lapidado, ele observava a neve cair em espirais lentas e hipnóticas, cobrindo os jardins da propriedade com uma pureza quase ofensiva.
O branco imaculado estendia-se até onde a vista alcançava, apagando caminhos, arbustos e limites — uma vastidão silenciosa que parecia zombar de tudo aquilo que nele era escuro, gasto e irremediavelmente cansado.
Entre os dedos longos e pálidos, segurava um copo de cristal lapidado, preenchido com whisky âmbar. Girou-o levemente, observando o líquido ondular contra as paredes finas do vidro antes de levá-lo aos lábios. Bebeu um gole contido, controlado, sentindo o álcool descer-lhe pela garganta como uma chama breve e inútil. O calor era imediato, quase agressivo — e igualmente passageiro. Assim como tudo o que tentara usar para anestesiar a própria existência. Nada permanecia. Nada jamais parecia suficiente.
Apoiou-se no batente da janela, deixando que um dos ombros suportasse parte de seu peso, como se até o próprio corpo começasse a ceder ao cansaço que carregava. O olhar permaneceu fixo na paisagem branca, mas não a enxergava de fato. A solidão, essa sim, era perfeitamente visível. Uma presença constante, silenciosa e fiel, que o acompanhava por todos os corredores da mansão, por cada salão repleto de convidados, por cada jantar cerimonioso e cada gesto socialmente irrepreensível. Mesmo rodeado por vozes, mesmo entre risos e taças erguidas, ela jamais o abandonava.
E dentro de dois dias, completaria trinta anos...
Para muitos homens, aquela idade representava orgulho, estabilidade, o auge da vida adulta. Para Edward, era apenas um marco cruel — um lembrete silencioso de fardos assumidos cedo demais, sem escolha, sem preparação. Títulos. Terras. Responsabilidades. Um nome antigo, pesado, herdado não apenas em brasões e documentos oficiais, mas gravado em expectativas inflexíveis, impostas geração após geração.
Trinta anos…
O pensamento surgiu amargo, deixando um gosto residual tão áspero quanto o álcool. E o que conquistei, além de propriedades e obrigações herdadas de um nome que se tornou prisão?
A sociedade jamais lhe concedera o direito à introspecção ou ao erro. Esperava dele o mesmo que sempre esperara de todos os Cullen antes dele: compostura irrepreensível, continuidade da linhagem, obediência às tradições. Um casamento vantajoso. Herdeiros saudáveis. A manutenção impecável de um legado antigo demais para admitir fraquezas humanas.
Responsabilidade. Casamento. Herdeiros.
As palavras formavam uma sequência vazia, moldada não em desejo, mas em dever e aparência. Um roteiro repetido tantas vezes que já não possuía significado algum.
Passou a mão pelos cabelos cor de bronze em um gesto exasperado, os dedos pressionando o couro cabeludo como se pudesse conter o peso dos próprios pensamentos. Apenas imaginar o futuro já lhe parecia exaustivo.
Casar.
Sim, esse era o ponto inevitável. O casamento não como escolha, mas como imposição social. Um acordo frio e calculado, firmado não por afeto, mas por conveniência, como tantos outros que sustentaram alianças nobres ao longo dos séculos.
Os mais antigos já cochichavam. Sempre cochichavam. Havia listas de nomes, sugestões disfarçadas de comentários inocentes, olhares avaliadores durante jantares longos demais. Jovens damas de linhagem impecável, sorrisos ensaiados, virtudes exibidas como mercadorias bem polidas. Nenhuma delas despertava algo além de indiferença.
Amor?
A ideia quase lhe arrancou um riso seco — curto, áspero, desprovido de qualquer humor.
Para o visconde, o amor era uma farsa perigosa. Um luxo ilusório, criado para justificar carências humanas e fantasias frágeis. O amor havia levado seu irmão à ruína. O amor transformara a alegria franca de Emmett em desespero — e o desespero, em tragédia irreversível.
A lembrança veio como um golpe surdo, direto no peito. Edward fechou os olhos por um instante, e a imagem do túmulo ainda fresco ergueu-se em sua mente com uma nitidez cruel. A lápide fria. A terra recém-revolvida. Recordou-se de si mesmo imóvel diante dela, o coração endurecido pela dor ainda crua, e das palavras que pronunciara em silêncio, como um juramento feito não a Deus, mas a si próprio.
Não cometerei o mesmo erro.
A frase ecoava agora com a mesma força daquele dia — intacta, inflexível, absoluta.
Levou novamente o copo aos lábios e bebeu outro gole, lento e meticulosamente controlado. O whisky queimou-lhe a garganta, mas não alcançou o vazio que habitava dentro de si.
Um casamento sem amor. Esse seria o caminho mais seguro.
Sem riscos. Sem perdas. Sem dor.
Uma união conveniente, com uma mulher discreta, obediente, consciente do valor do silêncio e da distância emocional. Alguém que compreendesse que o visconde não ofereceria afeto — apenas estabilidade, proteção e nome. Assim seria. Assim deveria ser.
Abriu os olhos e lançou mais um olhar à paisagem coberta de neve. O branco pareceu-lhe quase cruel em sua perfeição, como se o mundo insistisse em exibir uma inocência que ele já não reconhecia — ou que talvez jamais voltasse a reconhecer.
Atrás dele, a lareira crepitou, lançando sombras longas e irregulares pelas paredes de pedra do escritório. As chamas dançavam lentamente, antigas e pacientes, mas nem mesmo aquele fogo ancestral conseguia aquecer o inverno profundo que Edward Cullen carregava dentro de si.
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