Corações de Inverno

3 Capítulo 02: Rosas e Espinhos


Isabella permanecia onde estivera durante grande parte da noite: à margem, observando. Seus olhos seguiam Alice pelo salão com a atenção constante de quem jamais se permite distrações. A irmã mais nova dançava agora com mais um cavalheiro — sorria, rodopiava, deixava-se conduzir com uma leveza que parecia recém-descoberta. Havia nela uma alegria franca, quase contagiante, uma confiança que Isabella acompanhava com orgulho… e com cautela.

Aquele brilho nos olhos de Alice era belo, mas também frágil. Isabella sabia reconhecer quando a felicidade se tornava vulnerável.

Foi nesse estado de vigilância silenciosa que Lady Esme Cullen aproximou-se.

— Senhorita Swan — disse a matriarca, com voz suave, mas firme o bastante para não passar despercebida.

Isabella voltou-se imediatamente, compondo o semblante com respeito e a postura ereta.

— Milady.

Lady Esme observou-a por um instante mais longo do que o habitual, como se a avaliasse além das convenções. Em seguida, lançou um breve olhar ao redor, percebendo o isolamento discreto da jovem — afastada da pista, distante dos convites, quase invisível aos olhos menos atentos.

— Diga-me, minha querida… já dançou esta noite?

A pergunta foi simples, mas Isabella hesitou um breve segundo antes de responder.

— Não, milady.

A negativa pareceu pesar mais do que deveria. Lady Esme franziu levemente o cenho, como se aquela resposta representasse uma falha que precisava ser corrigida.

— Isso não está certo — ela disse, com um leve meneio de cabeça. — Uma jovem como você deveria ter ao menos uma dança nesta noite.

Isabella abriu a boca para responder, mas não teve tempo.

Lady Esme já havia dado alguns passos adiante, os olhos atentos percorrendo o salão em busca de uma solução imediata. Foi então que avistou o próprio filho aproximando-se, o semblante controlado, a postura impecável, como se nada naquela noite tivesse sido capaz de deslocá-lo de seu eixo.

— Edward — Lady Esme chamou, sem rodeios. — Tire a senhorita Swan para dançar.

Não foi um pedido. Foi uma ordem.

Isabella sentiu o desconforto subir-lhe à garganta, quente e imediato.

— Milady, não é necessário… — ela tentou intervir, a voz contida.

— É sim — respondeu Lady Esme, com um sorriso firme demais para admitir recusas.

Edward deteve-se diante de Isabella por um instante. Seus olhos percorreram-na com atenção silenciosa, avaliando não apenas a aparência, mas a rigidez contida em seus ombros, o modo como mantinha o queixo erguido, como se estivesse preparada para resistir.

Então, com um gesto contido, ofereceu-lhe o braço.

— Conceder-me-ia esta dança, senhorita Swan?

Havia cortesia em sua voz. Também havia algo mais — uma curiosidade fria, controlada.

Contra a própria vontade, Isabella assentiu.

Ele a conduziu para a lateral do salão, afastando-se do centro mais movimentado. Ali, sob a luz dourada e mais suave dos candelabros, outros casais dançavam com discrição, criando um espaço onde as conversas pareciam menos vigiadas, mais perigosamente íntimas.

Edward fez uma breve reverência antes de posicionar-se corretamente. Seus movimentos eram precisos, ensaiados por anos de etiqueta e domínio social. Quando sua mão tocou a cintura de Isabella, o impacto foi imediato.

Não foi dor. Não foi prazer. Foi um arrepio súbito, elétrico, que percorreu-lhe a pele como uma advertência instintiva. A pressão de seus dedos era firme, segura — consciente demais. Isabella sentiu o corpo reagir antes da razão e odiou-se por isso. Inspirou fundo, concentrando-se não na sensação, mas na desconfiança que sentia por aquele homem.

Edward, por sua vez, observava-a com atenção quase analítica. Notou a rigidez momentânea, o controle forçado da respiração, o olhar que se mantinha firme demais para ser apenas timidez.

— Posso perguntar — disse ele, enquanto iniciavam os primeiros passos — por que uma jovem tão… solicitada não dançou com ninguém antes?

Isabella ergueu o olhar para ele, a expressão fechada.

— Prefiro manter meus pés firmes — Bella respondeu, sem rodeios. — Assim posso proteger e cuidar da minha irmã de possíveis perigos.

A pausa entre os passos foi quase imperceptível, mas Edward a sentiu.

— Perigos? — ele repetiu, a voz suavemente carregada. — Devo sentir-me ofendido se a senhorita refere-se a mim dessa forma?

— Não me refiro... — retrucou Isabella, com frieza calculada. — Apenas considero prudente deixar claro que minha irmã é doce, jovem e sonhadora. Seria um erro… e uma ofensa… se alguém resolvesse brincar com o coração dela.

O tom não deixava espaço para dúvidas. Aquilo não era opinião. Era um aviso. E uma ameaça.

Edward arqueou levemente a sobrancelha, sentindo algo inesperado despertar-lhe o interesse. Aquela jovem não se parecia em nada com as demais. Não buscava agradar. Não recuava. Não sorria para suavizar verdades desconfortáveis.

— E acredita que eu o faria? — perguntou o visconde, a voz baixa, medida, quase suave demais para a gravidade da insinuação.

Isabella não desviou o olhar. O salão continuava a girar ao redor deles — casais rodopiavam, tecidos se encontravam, risos surgiam e se dissipavam —, mas para ela o mundo havia se reduzido àquele homem à sua frente.

— Acredito que homens acostumados a terem o que desejam — ela respondeu com firmeza controlada — muitas vezes esquecem o valor do que tomam.

Edward deu um passo à frente.

O movimento foi integrado à dança, natural aos olhos de quem observava de longe, mas carregado de intenção suficiente para que apenas eles dois o percebessem. A distância entre seus corpos diminuiu, e a mão dele, ainda pousada à cintura de Isabella, tornou-se uma presença consciente demais.

— A senhorita me julga com uma convicção notável — ele murmurou — para alguém que mal me conhece.

Isabella ergueu o queixo. O gesto era simples, mas carregava desafio. Seus olhos encontraram os dele sem hesitação, escuros, atentos, absolutamente destituídos de submissão.

— Talvez não seja preciso conhecê-lo — ela disse, com calma perigosa — para reconhecer o perigo quando ele se apresenta.

Por um instante, Edward permaneceu em silêncio.

A música seguia, os violinos insistiam em sua cadência elegante, mas algo havia se deslocado fora do compasso. Ele a encarava com uma atenção que não fingia mais indiferença. Havia nela uma força contida, um orgulho silencioso, uma centelha indomável que o desconcertava profundamente. Não era beleza comum. Não era doçura. Era resistência.

Um riso baixo escapou-lhe — breve, rouco, quase involuntário.

— E o que faria, senhorita Swan — o visconde perguntou, a voz descendo um tom — se descobrisse que esse perigo é real? — Fez uma pausa mínima, deliberada.

— Que existe, de fato, um interesse pela sua irmã…

Isabella não pensou. Não avaliou. Não hesitou.

— O enfrentaria.

A resposta foi imediata, clara, definitiva.

No mesmo movimento, deu um passo à frente e, com precisão surpreendente, cravou o salto do sapato sobre o pé dele. Não foi um gesto impulsivo ou descontrolado — foi calculado, firme, carregado de intenção.

Edward conteve o sobressalto apenas por pura disciplina.

O músculo de sua mandíbula contraiu-se, os olhos cintilaram com algo muito próximo do choque. A dor foi breve, secundária diante da surpresa absoluta. Ninguém — absolutamente ninguém — ousara machucá-lo daquela forma antes.

E então, como se o mundo tivesse escolhido aquele exato instante para selar o momento, a música cessou.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas denso.

Isabella afastou-se imediatamente. Soltou a mão dele, deu um passo atrás e fez uma breve inclinação de cabeça — respeitosa, fria, definitiva. Não havia pedido de desculpas. Não havia explicação. Virou-se e afastou-se sem olhar para trás.

Por um instante, seu perfume permaneceu no ar — leve, discreto, persistente — como uma lembrança indesejada que se recusava a desaparecer.

Edward Anthony Masen Cullen ficou parado.

Observou-a desaparecer entre os convidados, a postura firme, os passos decididos, como se nada tivesse acontecido. Sentiu-se tomado por uma estranha mistura de incredulidade e… admiração.

Ninguém jamais ousara tratá-lo daquela forma.

E, para sua própria surpresa, enquanto o salão lentamente retomava o murmúrio habitual, ele não soube dizer se aquilo o ofendera — ou se, pela primeira vez em muitos anos, o fizera sentir-se verdadeiramente desperto.

~*~

Na manhã seguinte ao baile, a casa da família Swan despertou de maneira incomum.

Ainda antes de a luz do dia alcançar plenamente os telhados cobertos de neve de Forksford, batidas firmes ecoavam à porta principal. Uma após a outra. Persistentes. Respeitosas. Cada toque parecia cuidadosamente medido, como se quem estivesse do lado de fora temesse ser inconveniente — e, ainda assim, incapaz de se afastar sem cumprir o dever.

Isabella foi a primeira a perceber que algo estava fora do habitual.

Sentada na pequena sala da frente, junto à janela embaçada pelo frio, mantinha uma manta leve sobre os ombros. O silêncio da manhã era quebrado apenas pelo estalar distante da madeira na lareira e pelo resfolegar tranquilo de um filhote de corgi, recém-chegado à casa, aninhado confortavelmente em seu colo. Isabella afagava-lhe a cabeça com movimentos distraídos, quase automáticos, enquanto observava o exterior com atenção serena.

A primeira batida soara cedo demais. A segunda, cedo demais para ser coincidência. A terceira… confirmara-lhe a suspeita.

Do corredor, ouviu-se o som apressado de passos leves. Seth — o jovem criado da família Swan, ainda imberbe e sempre solícito — apressou-se até a porta. Era incomum que tivesse tanto trabalho logo ao amanhecer, e isso se refletia em seu semblante curioso quando girou a maçaneta.

Poucos instantes depois, retornou à sala carregando um buquê cuidadosamente envolto em papel claro.

— É para a senhorita Alice — ele anunciou, com um leve rubor de empolgação, estendendo as flores à caçula.

Alice surgiu logo atrás dele e tomou o ramalhete com um sorriso aberto, os olhos brilhando. Mal tivera tempo de admirar o primeiro arranjo quando novas batidas soaram.

E depois outras.

Seth passou a fazer pequenas viagens entre a porta e a sala, cada vez retornando com mais flores, até que Alice mesma decidiu acompanhá-lo.

— Outro?! — exclamou ela, entre surpresa e encantamento, ao receber mais um buquê.

Aos poucos, a mesa simples da sala começou a se transformar. Ramalhetes de todos os tamanhos e cores eram dispostos com cuidado, um ao lado do outro, cada qual acompanhado de pequenos cartões presos por fitas delicadas. O ar, antes frio e neutro, encheu-se de perfumes variados: rosas abertas demais para o inverno, lírios discretos, violetas suaves e flores do campo que pareciam ter desafiado a estação.

Alice caminhava de um lado a outro, ora recebendo as flores das mãos do criado, ora inclinando-se para examiná-las à luz da janela. Seus olhos brilhavam como se ainda estivesse sob os lustres dourados do salão de baile.

— Bella, olhe este! — ela disse, erguendo um buquê com cuidado. — E este tem um cartão tão gentil…

Isabella observava tudo em silêncio.

Seus dedos continuavam a acariciar o pequeno cão, mas o olhar tornara-se atento, avaliador. Não havia surpresa em seu semblante — apenas cautela. A beleza e a doçura da irmã sempre atraíram olhares; ela crescera sabendo disso. Ainda assim, a rapidez com que os admiradores surgiam, como se despertados por um sinal invisível, causava-lhe um desconforto difícil de ignorar.

Charlie, que havia descido pouco depois, permanecia próximo à porta, acompanhando a movimentação com uma expressão entre espanto e incredulidade.

— Nunca vi nada parecido — ele comentou, coçando a cabeça enquanto observava a mesa quase tomada por flores. — Tudo isso… por uma noite apenas.

— Acho que causei uma boa impressão — respondeu Alice, rindo, sem esconder o orgulho inocente.

Isabella permaneceu em silêncio. Foi então que a batida seguinte soou diferente. Mais contida. Mais formal.

Seth abriu a porta e, desta vez, não encontrou um mensageiro comum, mas um criado trajando roupas discretas e impecavelmente cuidadas, claramente pertencente a uma casa de maior prestígio. Sua postura era irrepreensível, o gesto contido, o silêncio respeitoso. Em seus braços, trazia um buquê maior e mais elaborado do que todos os anteriores.

Isabella sentiu algo mudar no ar.

Quando o arranjo foi trazido para dentro e colocado sobre a mesa, destacou-se imediatamente. Camélias brancas e rosadas dominavam a composição, acompanhadas por azaleias delicadas e folhagens verdes de brilho profundo. Não havia exagero — apenas harmonia. Cada flor parecia escolhida com intenção precisa, cada espaço calculado. Aquele buquê não falava apenas de admiração. Falava de intenção.

Alice levou a mão aos lábios, os olhos arregalados.

— São… lindíssimas — a caçula murmurou, quase em reverência.

O criado visitante entregou o cartão com uma breve inclinação de cabeça e retirou-se em silêncio, como se sua função estivesse plenamente cumprida.

Alice abriu o pequeno envelope com dedos cuidadosos e leu o nome do remetente em voz alta.

— Edward Anthony Masen Cullen.

O coração de Isabella pareceu falhar por um breve instante.

Um arrepio gélido percorreu-lhe a espinha, como se o inverno tivesse atravessado as paredes da casa e se instalado em seu peito. Seus dedos cessaram o movimento no pelo do cachorro, que ergueu o focinho em silenciosa curiosidade. O olhar de Isabella endureceu, atento, quase defensivo.

Charlie ergueu as sobrancelhas.

— O visconde? — ele perguntou. — Você dançou com ele, Alice?

— Dancei, sim — respondeu a jovem, o sorriso tornando-se mais contido, sonhador. — Ele é… muito bonito, papai. E elegante. Diferente de todos os outros.

Isabella endireitou-se no assento, tentando conter o incômodo que se manifestava com mais força.

— Não percebi nada de mais no visconde — Bella disse, com firmeza controlada. — Os outros rapazes que dançaram com você eram bem mais bonitos.

Alice voltou-se para a irmã, surpresa.

— Bella!

— Estou sendo honesta — continuou Isabella, mantendo o tom calmo, embora os olhos denunciassem vigilância. — Além disso, flores não significam intenções claras. Apenas… interesse passageiro.

Alice abraçou o buquê com cuidado, como se temesse danificá-lo.

— Talvez — ela disse, suavemente. — Mas gosto de acreditar que algumas intenções podem ser boas.

Isabella desviou o olhar por um instante e voltou a acariciar o pequeno corgi, que se acomodou novamente em seu colo. Tentou ignorar a sensação incômoda que persistia em seu peito — uma inquietação profunda, silenciosa, carregada de um mau pressentimento que ela ainda não sabia nomear.

~*~

O início da tarde chegou envolto em um frio persistente. Do lado de fora, o inverno ainda dominava Forksford com mãos firmes, mas o sol — tímido, quase hesitante — refletia-se na neve acumulada ao longo da rua, espalhando um brilho pálido que suavizava a paisagem. Havia naquele momento uma quietude enganosa, como se o dia respirasse fundo antes de avançar.

Foi então que a batida à porta soou novamente.

Não era apressada como as entregas florais da manhã, tampouco insistente. Tratava-se de um toque firme, educado, carregado de intenção clara — impossível de confundir com mera formalidade.

Charlie levantou-se da cadeira quase de imediato e foi ele próprio atender.

À porta encontrava-se um jovem alto, de postura impecável, acompanhado por dois criados que aguardavam alguns passos atrás, imóveis e discretos. Vestia-se com sobriedade elegante: casaco escuro de corte preciso, camisa clara impecavelmente abotoada, luvas bem ajustadas. Nada nele parecia excessivo, e ainda assim tudo comunicava posição e disciplina. O semblante era aberto, respeitoso, e o olhar atento jamais ultrapassava os limites da cortesia.

— Senhor Swan — disse o jovem, inclinando levemente a cabeça —, chamo-me Jasper Whitlock. Sou filho do comandante Whitlock. Tive o prazer de dançar com sua filha ontem à noite.

Alice, que observava da sala com curiosidade mal disfarçada, sentiu o coração acelerar.

— Vim convidar a senhorita Alice para um chá da tarde — continuou ele, no mesmo tom calmo e medido —, em um passeio até a casa de chá no centro de Forksford, se me permitir.

Charlie hesitou.

O convite era irrepreensível na forma, mas ainda assim inesperado. Seu olhar desviou-se instintivamente para o interior da casa, buscando apoio onde sempre encontrava: Isabella.

Ela aproximou-se com passos tranquilos, o semblante sereno, mas os olhos atentos. Observou o jovem com critério — os gestos contidos, o tom respeitoso, a forma como mantinha as mãos visíveis, a postura ereta sem arrogância. Não havia pressa, nem presunção. Havia cuidado. Reconheceu-o da noite anterior, assim como dos comentários discretos que ouvira: um moço gentil, educado e ajuizado.

Após alguns segundos silenciosos, Isabella meneou levemente a cabeça para o pai, num gesto quase imperceptível, mas inequívoco.

— Muito bem — disse Charlie, por fim. — Você pode ir, Alice… desde que esteja acompanhada por uma criada da casa.

Alice mal conseguiu conter a alegria.

— Obrigada, papai! — ela exclamou, já se movendo para escolher um de seus melhores vestidos, o rosto iluminado por uma expectativa quase infantil.

Pouco depois, a jovem partiu radiante, envolta em entusiasmo, acompanhada pela criada e pelo jovem Whitlock. O som da carruagem afastando-se pela rua branca ecoou por alguns instantes, até que o silêncio voltou a se instalar na casa.

Isabella permaneceu.

Arregaçou as mangas com um gesto prático e voltou-se para a sala tomada por flores. Com expressão concentrada, começou a organizar os inúmeros buquês espalhados pela mesa e pelos aparadores. Reposicionou vasos, separou flores semelhantes, descartou embalagens, abriu novamente os cartões — um a um.

Leu nomes conhecidos e desconhecidos. Frases ensaiadas. Gentilezas excessivas. Promessas veladas demais para serem levadas a sério. Revirou os olhos diante de alguns bilhetes carregados de lirismo vazio.

Até que se deteve.

O ramalhete do visconde.

As camélias permaneciam impecáveis, as pétalas alvas e rosadas intocadas pelo tempo. As azaleias exibiam uma perfeição quase provocadora, como se desafiassem qualquer tentativa de indiferença. Isabella tocou-as com cuidado, os dedos deslizando pelas pétalas macias, sentindo um incômodo que se espalhou lentamente pelo peito.

A lembrança veio sem ser convidada: as mãos firmes do visconde em sua cintura, a pressão consciente durante a dança, o olhar atento demais; e, logo em seguida, o tom seguro — quase proprietário — ao mencionar um possível interesse em Alice.

— Pretensioso — ela murmurou, em voz baixa, mais irritada do que pretendia.

— Nem sempre.

A voz masculina soou atrás dela.

Baixa. Controlada. Carregada de um divertimento contido que fez o ar parecer mais denso.

Isabella sobressaltou-se.

Virou-se bruscamente, o coração acelerando num golpe seco contra o peito — e então o viu.

O visconde estava encostado ao batente da porta como se aquele fosse seu lugar natural. Vestia-se com elegância impecável: casaco escuro perfeitamente ajustado aos ombros largos, camisa clara que contrastava com o tom pálido da pele, botas limpas apesar da neve do lado de fora. Tudo nele era ordem, precisão e domínio.

Era belo de uma forma quase incômoda. Os traços eram marcados, o maxilar firme, os cabelos cuidadosamente alinhados, e os olhos — intensos, claros demais — fixavam-se nela com uma atenção que não pedia permissão. Havia algo de afiado em seu semblante, algo que sugeria controle absoluto… e perigo.

Seus braços estavam cruzados com displicência calculada, e um sorriso discreto — quase perigoso — curvava-lhe os lábios. Uma risada baixa ainda parecia ecoar em seu peito, como se tivesse sido contida apenas por educação.

Isabella sentiu o choque percorrer-lhe o corpo inteiro. Não apenas por ele estar ali. Mas pela certeza imediata de que aquela presença, inesperada e dominante, não traria nada de simples — nem de inofensivo — consigo.