Corações de Gelo
3 Encontros e Confissões
Notas iniciais
– RONC! – alguém roncou alto.
Abri os olhos assustada com esse barulho em meu ouvido e me deparei com uma cena inexplicável em meu tapete:
# Minha cabeça e minhas mãos recostadas no peito de Gray
# Seus braços ao redor dos meus ombros
# Seus pés esquentando os meus
# Ambos no tapete
# Ele continuava só de cueca
# Todo o lugar estava cheio de lã rosa.
Levantei espantada prestes a começar a gritar para manda-lo ir embora, mas ao olha-lo dormindo com os braços onde eu estivera segundos antes... Algo me fez voltar a sentar no tapete e ficar quieta, deixa-lo continuar dormindo. E não era a minha dor de cabeça.
Olhei seu rosto passivo lembrando-me do ocorrido lá na banheira, ele dizendo que faria Natsu pagar e que não era para eu chorar mais... E agora quando eu cheguei bêbada em casa... Será que ele só queria se aproveitar da minha casa ou... Ou cuidar... De mim?
Esfreguei os olhos tentando aliviar minha primeira ressaca, mas não adiantou. Fui ao banheiro e abri a torneira para lavar o rosto, e pensei que tomar um banho quente talvez amenizasse meu pós-bebedeira. Então lembrei que não estava sozinha e apenas tomei um copo de água, voltando para minha sala-quarto.
– Lucy... – Gray balbuciou mexendo os braços enquanto roncava.
– Ahn? – murmurei ajoelhando-me do seu lado e observando-o.
– Ihnnha! Como é bom estar de volta! – escutei uma voz extremamente conhecida falar do lado de fora.
Natsu. Eles tinham chegado.
Um arrepio perpassou meu corpo deixando o copo cair, molhando Gray que acordou assustado.
– Lucy! – chamou-me preocupado.
– Shiii! – falei tremendo tentando escutar mais alguma coisa.
– Estou com saudade de Mira-nee e Elf-nii-chan! – ouvi Lisanna dizer enquanto se afastavam.
– Como deve estar a Charle? Olha Natsu! É a casa da Lucy! – falou Happy com a voz distante.
Comecei a tremer descompassadamente, as lágrimas escorrendo em excesso. Coloquei as mãos no rosto tentando evitar chorar, mas cada vez que eu pensava em como seria rever Natsu junto com Lisanna e em como a cerveja de ontem não adiantou em nada, as lágrimas brotavam mais ainda.
– Grrr... – escutei Gray trincar os dentes. Ele estava de costas para mim com os punhos fechados tremendo. – Como ele pode fazer isso com você? Ele que sempre dá lição de moral de como se deve tratar seus companheiros!
– É o cheiro do Gray! – escutei Natsu gritar perto novamente.
– Será que ele tá na casa da Lucy?– riu Happy.
– Grrr! Vou desafiá-lo para uma luta! – gritou o Dragon Slayer do Fogo.
– Ah, depois você luta com ele, vamos ver o pessoal! – chamou Lisanna.
Natsu aceitou relutante e então afastaram-se no meio de gritos e risadas.
Fumaça gelada saía dos punhos de Gray quando ele decidiu ir atrás do rival. Enquanto ele caminhava em direção à porta eu levantei-me e corri desesperada para impedí-lo.
Passei os braços pela sua cintura e tocando minha testa em suas costas pedi que parasse.
– Por favor... – falei em meio as lágrimas.
Ele não respondeu, apenas mantinha o corpo rígido com os punhos fechados.
– Fique aqui... Comigo...- murmurei.
Então seu corpo relaxou, mas ele não se virou.
– Está chorando. – foi a única coisa que disse.
– Fique... – murmurei enterrando a cabeça em suas costas enquanto ele segurava minhas mãos na altura do seu peito.
– Eu... Eu... Não quero te ver chorando, Lucy. – confessou. – Eu não suporto... Ver você chorar...
Desencostei-me de Gray, confusa, enquanto ele se virava de frente para mim com os olhos sérios de um jeito que eu nunca tinha visto.
– Gray... – murmurei espantada com o estado dele. Era como se tudo o que eu sentisse estivesse estampado no rosto dele. Dor, medo, vergonha.
Numa movimento rápido ele me puxou para perto, num abraço. Senti seus braços protegendo minhas costas e passei os meus pela sua cintura novamente e deixei minha cabeça pender no seu peito.
– Eu... Te amo, Lucy Heartphilia. – falou me abraçando mais forte. – Me deixa proteger você. – pediu, fazendo-me chorar mais ainda.
– Gray... – sussurrei surpresa com a sua declaração.
Então ele ergueu minha cabeça e enlaçou seus lábios com os meus.
Gray Fullbuster tinha um hálito gelado, talvez típico de um mago do gelo, pensei.
Seu beijo fez meu coração acelerar. Eu podia estar amando o discípulo de Ul. Eu podia...
Ele afastou seu rosto do meu, desgrudando nossos lábios e ficou me encarando. Como eu não sabia o que dizer, aquela pausa se tornou um silêncio constrangedor. Até que ele resolveu falar:
– Você não me ama, não é?
Não respondi. Só fiquei pensando no Natsu e depois em Gray e, em Natsu e depois em Gray e...
– Não sei. – falei por fim.
– Tudo bem. – ele suspirou tranquilo. – Não esperava que dissesse sim.
Gray começou a se afastar de mim, caminhando em direção à porta.
– Aonde você vai? – perguntei.
– Sei lá. – disse dando de ombros.
Quando sua mão já estava na maçaneta, comecei a sentir um frio na barriga. Medo. Vergonha. E todos aqueles sentimentos ruins estavam voltando para me atormentar. Tentei me controlar, pois queria conseguir ser forte diante de tudo isso, mas... Se Gray fosse embora, eu não teria mais ninguém do meu lado.
Ninguém que percebesse o que havia de errado.
– Você vai ficar bem? – perguntou percebendo minha cara que esbanjava angústia.
– Vou. – menti.
– Você vai conseguir, Lucy. Você é forte. – disse antes de sair pela porta, finalizando tudo com uma piscadela.
– É... Eu... Vou... – murmurei controlando o choro. Sentei na cama e fiquei ali. Fiquei ali lembrando e relembrando, numa espécie de transe onde não existia felicidade nem infelicidade. Havia apenas eu e a dúvida de levantar ou não da cama para realmente começar o dia.
“Você vai conseguir, Lucy. Você é forte.”
Tudo bem. Levantei e fui até a banheira arrastando-me. Evitei ficar muito tempo na banheira para não acabar pensativa demais e chorar de novo. Coloquei um short jeans e um moletom azul, apenas fiz um coque no cabelo e deixei o chinelo de dedos nos meus pés. Na hora em que fui pegar as chaves lembrei-me de quanto tempo fazia em que não via Loke. Talvez ele pudesse me acompanhar até a guilda.
– Portão do Leão, abra-te. Leo! – gritei.
– Lucy! – saudou em posição de ataque.
– Oi, Loke. – falei ao vê-lo.
– Ué? Não está sendo atacada ou algo assim? – perguntou olhando para os lados.
– Não. – foi minha resposta. – Eu só... Queria que... Me acompanhasse até a guilda... – pedi de cabeça baixa.
Num piscar de olhos ele estava com os braços ao redor dos meus ombros.
– Vamos assumir o nosso namoro finalmente?
¬¬’
– É claro que não. – falei com a mão no rosto. Esse Loke...
– Então quer dizer que estamos mesmo namorando?
– Não! Não foi isso que eu quis dizer! – corrigi sacudindo as mãos.
– Tudo bem, tudo bem. Você só sentiu saudade do meu charme. Mas quer que eu me faça de difícil, né? – chutou, piscando um olho para mim por trás dos óculos.
– Loke. – chamei.
– Sim, meu amor.
– Quero que você me acompanhe até a Fairy Tail.
– Só isso?
– Só.
– Ok.
Abri a porta em silêncio e deixei-o passar.
– Você está bem, Lucy? – perguntou enquanto descíamos as escadas.
– Aham. – menti. De novo.
– Pelo que notei, chamou poucos espíritos nos últimos meses.
– É. – concordei. – Na verdade foi por mais ou menos um ano. – adicionei.
– Um ano? – repetiu com espanto, parando nos últimos degraus. – Por quê?
– Por que eu não saí quase da guilda.
– Não estou entendendo.
Na hora em que tive a ideia de chama-lo, parecia fácil contar tudo a ele. Não parecia ser uma história ridícula. Mas agora... Achei que ele pudesse rir ou sei lá.
– Algum problema? – ele insistiu. – Poderemos resolver tudo com o nosso amor, Lucy. Não se preocupe. – galanteou ele e eu não consegui evitar rir.
Passei por ele e abri a porta que dava para a rua.
Assim que a abri vi alguém sentado na mureta de frente para o rio e de costas para mim.
Gray Fullbuster.
Ele congelava uma fina camada de água, quebrava e congelava outra de novo, num ciclo.
Loke me olhou com uma expressão confusa e preocupada e eu apenas sorri com o canto da boca. Caminhamos até ele e demorou um tempo para perceber que estávamos ali.
– Ah? Lucy e... Loke? O que você está fazendo aqui, cara? – perguntou Gray um pouco mais feliz enquanto sentávamos um de cada lado dele.
– Vim visitar Lucy. – mentiu.
– Ah... – o mago do gelo falou e olhou para mim em seguida.
– Mas igual sei que não tenho que me preocupar porque nosso amor supera qualquer barreira não é, xuxu? – gabou-se Loke.
¬¬’
– Aham. – concordei sarcasticamente e Gray riu.
– Estávamos indo para a guilda. Você não quer ir com a gente? – perguntei colocando um sorriso acima das minhas preocupações e do meu medo.
– Você estav... – ele começou a falar confuso com os olhos arregalados.
– Sim. – confirmei arqueando as sobrancelhas à espera de uma resposta.
– Não sei. – ele falou por fim. – Podem ir indo na frente... Eu vou depois.
O que? Por que ele estava agindo assim? Seria ciúmes ou tristeza? Raiva ou decepção? O que estava acontecendo? Ele sabia que eu precisava dele para conseguir olhar nos olhos de Natsu!
Mas, de igual modo, não perguntei se ele estava bem ou o que, eu sabia que ele não estava e resolvi deixa-lo ali.
– Tudo bem. Vamos, Loke. – falei levantando, mas meu espirito de Leão não fez o mesmo. – Você não vem, Leo? – perguntei.
– Você se importa se eu for depois, Lucy? – perguntou com um ar preocupado.
Aquilo me deixou chocada. Eu tinha o chamado ali para me dar força e ele resolve consolar o Gray? Tudo bem que eles eram superamigos, mas...
Fiquei tão irritada que virei as costas sem nem responder e eles nem me chamaram para voltar. Esqueci inclusive de fechar o portão de Loke. Caminhei em cima da amurada que rodeava o córrego, até chegar no ínicio da rua onde ficava a guilda.
Desacelerei o passo em direção à Fairy Tail e continuei andando a sós com meus pensamentos. Estava curiosa para saber sobre o que os dois estavam conversando. O que seria tão importante? Será que Loke tinha conhecimento dos sentimentos do Gray por mim?
Eu já estava perto da porta quando bateu aquela ansiedade. Eu não queria ver Natsu e mesmo assim estava indo ao seu encontro. Por quê? Depois de tudo o que ele fez? Meus sentimentos começaram a pulsar mais forte que meu sangue, aquela vontade de desaparecer voltando.
Ao invés de passar pela porta, amarelei e dei meia volta. Continuei andando mais um pouco até encontrar uma loja de tortas, na qual resolvi entrar.
Fiquei olhando os doces e chocolates nas prateleiras, tão perfeitinhos que até dá dó de comer.
– Vai querer alguma coisa, moça? – perguntou um velhinho baixinho que reconheci ser amigo do mestre, mas não me lembrava seu nome.
– Ah, não. Obrigada. Só estou olhando. – agradeci.
– Se quiser alguma coisa é só pedir. – falou com a voz rouca.
– Obrigada.
Analisei os doces e bolos por mais uns dez minutos antes de ser interrompida por ninguém menos que Gray Fullbuster. Sozinho.
– Oi. – ele disse quando me viu.
– Oi. – respondi. – Cadê o Loke? – perguntei olhando procurando ao redor.
– Foi embora.
– Como assim foi embora?
– Foi embora. – repetiu dando de ombros. – Você não ia ir à guilda?
– Para falar a verdade, não quero. Mas ao mesmo tempo, eu quero. Só... Falta a coragem, sabe.
– Sei. – ele riu.
– Tudo bem. Vamos de uma vez. – falei saindo da confeitaria.
– Vou dar uma surra no Natsu. – disse Gray com um olhar maldoso.
– Ei! Cadê as suas roupas?! – questionei reparando na pobreza de vestimenta no corpo dele.
– Eita! – ele surpreendeu-se, mas continuou a andar. — Devo ter deixado na sua casa.
*Folgado*
Andamos em silêncio até chegar na Fairy Tail.
– Lucy! – chamou-me Bickslow rindo com a língua de fora como sempre. – Senta aqui com a gente! Vamos apostar quem bebe mais.
– Vejo que o pessoal gostou da Lucy bêbada. – comentou Gray.
– Ha ha ha. – ironizei.
Sentei no balcão, aliviada por não ter avistado Natsu em lugar nenhum, nem Lisanna. Talvez já tivessem partido em outro trabalho.
Fiquei meio chateada com essa hipótese, pois significava que o Dragon Slayer do fogo não sentia mais minha falta. Enquanto eu passei um ano sentindo falta dele. Que ódio.
Mira serviu sucos para mim e para Gray e saiu logo para servir cerveja aos que estavam.
– Não vi o “olhos puxados” por aqui. – ele disse.
– Ainda bem. – suspirei com um sorriso e ele riu com minha reação.
– Não precisa ficar nervosa.
– Eu sei. Mas é que eu não superei tudo isso ainda. Tenho medo de chorar na frente dele ou de todos. Eu não quero parecer fraca de novo. – confessei.
– Você não tem que ter medo disso. Toma um gole, vê se se acalma. – ofereceu.
– Obrigado. – bebi um pouco e então resolvi perguntar sobre a conversa que ele tivera com meu espírito celestial. – O que Loke queria com você?
Ele engasgou um pouco e ficou pensativo.
– Perguntar o que aconteceu.
– Ah. Ele sabe sobre... Você... – continuei, mas fui interrompida pelo meu coração que quase saltou da boca.
Natsu Dragneel acabava de passar pela porta com Happy e Lisanna.
Continuei de costas, paralisada.
Eu não sabia o que era esse medo ou essa vergonha, mas era igual a uma fobia.
Gray apenas ficou olhando com seu suco na mão cada vez mais gelado.
– Para de falar em peixe! Eu aqui procurando o Gray e você só sabe falar sobre... – então eu acho que ele nos viu. — GRAY! – gritou vindo correndo.
– Ice Make Floor! – gritou o mago do gelo saltando da cadeira enquanto eu me virava para olhá-los.
– Kayruu no Tek...! – começou a gritar Natsu, mas logo ficou enjoado de deslizar no chão congelado.
– Ice Make Lance! – disse Gray, lançando outro ataque.
– Karyuu no Kagitsume! – contra-atacou o Dragon Slayer. – Por que você estava na casa da Lucy? – perguntou surpreendendo-me.
– Não interessa a você, idiota. Ice Make Cannon! Fica longe dela!
– Me deixa passar “olhos caídos”! Karyuu no Yoku Geki!
– Ice Make Hamer! – gritou Gray com um martelo de gelo nas mãos.
– Karyuu no Houko! – rugiu Natsu.
– Ice Make Shield! – falou o mago do gelo trocando o martelo por um escudo que resistiu ao rugido do Dragão de Fogo.
Os dois se encararam por um tempo, toda a atenção da guilda recaída na luta que acabara de começar.
– Sai da frente, seu bosta! – gritou Natsu.
– Suma daqui. – falou Gray calmamente. – Por que faz tanta questão de vê-la?
– Lucy! – chamou Happy vindo ao meu encontro. – O que está acontecendo?
Não tive coragem de olhar para o gato azul. Eu queria falar com ele, mas de certo modo ele também me abandonara.
– Lucy! – repetiu. – Diz pro Gray parar com isso.
Tudo o que eu menos queria estava acontecendo agora. E inevitavelmente lágrimas começaram a rolar pelas minhas bochechas. E toda a atenção do pessoal agora em cima de mim.
– Não, Happy... – murmurei.
– Ahn? – perguntou confuso. Todos pareciam ter ficado confusos. Alguns sabiam por que tinham notado, outros nem perceberam que nesse um ano em que Natsu ficou fora eu tinha sofrido muito.
– Não. – repeti.
– Lucy, o que há com você? – perguntou o mago dos cabelos rosa. Então ele se voltou para o Gray: — O que você fez com ela, seu maldito?
– Ele não fez nada. – respondi. Era meu problema e eu iria resolver. – Ele só está com ciúmes. – expliquei deixando até o mago do gelo confuso. Saltei do banquinho e fui caminhando até ele, reunindo toda a coragem que queria me escapar para fazer o que eu faria a seguir.
Se Natsu tinha escolhido a Lisanna, eu escolhia o Gray.
Cheguei mais perto dele e o beijei. Beijei-o na frente de todo mundo. Coloquei minhas mãos no seu pescoço e ele enlaçou as suas na minha cintura, puxando-me mais para perto.
Dane-se tudo, pensei.
Afastamo-nos e, então entrelacei minha mão com a dele e falei para uma multidão perplexa:
– Nós estamos namorando.
A galera foi à loucura. Uns ficaram tristes afirmando que me preferiam com o Natsu, outros como o Bickslow, Wakaba e Macao comemoravam, e Reedus sorria para mim com o polegar para cima.
– Vocês o que? – perguntou Natsu.
– Lucy... – murmurou Happy, com visível desapontamento. – Como pôde fazer isso com a gente?
– Não fale assim, Happy. – pedi.
– Achei que você era minha parceira! – gritou o Dragon Slayer do Fogo. – É só eu dar as costas que...
– EU achei que éramos parceiros! – gritei de volta. – E um dia eu chego aqui e você saiu sem mim! Por um ano! Como você acha que eu fiquei? Você nem se importou em dar uma explicação!
Quando terminei de falar percebi que ele tremia de raiva, talvez. Eu sei que ele me abandonou, mas agora não dava mais para voltar atrás. Meus sentimentos mudaram...
Caminhei até meu antigo parceiro e o abracei um pouco chorosa ainda.
– Eu senti muito a sua falta. – sussurrei apenas para ele. – Não acreditava que você partiu sem mim. Mas agora você tem uma nova parceira.
Afastei-me dele e voltei para Gray.
Ele me acompanhou até em casa, mas ficamos em silêncio o trajeto todo.
Quando paramos na porta, ele me perguntou:
– Aquilo lá, sobre estarmos namorando... Era mentira né?
Pensei por um instante, era um pouco confuso, mas eu gostava do jeito dele. E também o achava bonito. Eu não queria afirmar, mas não queria negar nada. Porem, de qualquer modo, se eu dissesse “sim”, eu o estaria iludindo e eu não queria isso.
– Não sei. – falei por fim.
– Hmm. Tudo bem. Até.
– Você está bravo comigo? – perguntei.
– Não sei. – ele riu.
– Desculpe. Não quis brincar com seus sentimentos, de verdade.
– Ok. Estou indo. Vejo você... Mais tarde?
– Talvez eu esteja na guilda.
– Beleza. – disse e saiu andando para o lado oposto da Fairy Tail.
Fechei a porta e subi as escadas para o meu apartamento.
Joguei-me na cama e fiquei pensando nos acontecimentos do dia. Parecia que ontem e hoje de manhã tinham acontecido há um milhão de anos.
Resolvi escrever mais um pouco da minha novela, já que fazia um ano que eu não acrescentava palavras a ela.
...
Nem percebi o tempo passar. Fiquei escrevendo um tempão que só me dei conta do horário quando minha barriga roncou de fome.
Olhei pela janela e já estava escuro e o céu estava bem estrelado, significava que amanhã seria um dia ensolarado.
Tomei um banho rápido e coloquei a mesma roupa, já que daqui a pouco voltaria para dormir.
Caminhei até a guilda com Plue pela mureta do córrego. As lojas já estavam fechando só a Fairy Tail ainda aberta cheia de magos lá dentro.
Passei pela porta e sentei com a mesma mesa de ontem, agradecendo por Natsu não estar ali.
– Hey Lucy! Cadê seu namorado? – perguntou Bickslow.
– Até que enfim você arranjou alguém. É o Gray, né, mas pelo menos é alguém. – comentou Cana lembrando-me Aquarius.
– Não vá encher a cara como da última vez. – avisou Wakaba.
– Não, não. – falei sorrindo.
– Ah! Mas não me diga que vai ficar só no suquinho? – debochou o mascarado com a língua para fora. – Mira! Traga cerveja para a Lucy!
– Não precisa, não! – recusei.
– Precisa, sim! – insistiu.
– Tô indo! – gritou e logo já estava ali na mesa nos servindo.
– Obrigada, minha Lady! – disse Bickslow e percebi que ele estava “dando em cima” da Mirajane.
– De nada, Bick!
– Um brinde á Lucy! – gritou e todos na mesa bateram suas canecas e as entornaram num gole.
– Olha o seu “namoradinho” ali, Lucy... – apontou Cana com a voz embriagada.
Olhei para a trás e vi Gray entrando pela guilda.
Imediatamente, vi o erro de ter dito que estávamos namorando quando não estamos. Teríamos que fingir agora na frente de todos e isso iria doer nele.
– Vem sentar com a sua “namorada” Gray... – mandou Cana.
Ele arregalou os olhos e então sentou do meu lado, meio acuado, e agora decentemente com roupas.
– Mira... Traz mais cerveja, não vou dividir meu namorado com ninguém! – impôs a maior bebedora da Fairy Tail agarrada ao seu barril.
Levou alguns minutos para a mais velha dos Strauss trazer outra rodada, que foi recebida com elogios.
Peguei outra caneca e Gray pegou uma também. Ficamos conversando com Bickslow enquanto logo que terminávamos uma outra rodada vinha. Eu não estava bêbada, mas já estava na quarta caneca e Gray na quinta. Não lembro como ele passou de mim, mas notei que ele já tinha experiência em madrugar na guilda.
Percebi que ele pôs seu braço esquerdo por volta dos meus ombros em algum momento em que eu não prestei atenção. E nossos corpos estavam tão juntos que parecíamos mesmo namorados.
De repente fui flagrada por uma vontade de abraça-lo, porém eu me senti estranha com essa sensação e decidi acabar com a bebedeira por hoje. Queria poder conseguir voltar sozinha para a casa e iria aproveitar que ainda estava meio sóbria para isso.
– Mira! – gritou Wakaba e percebi que ele estava realmente bêbado.
Bickslow deu uma gargalhada e comentou:
– Você tá completamente podre, Wakaba!
– Você também. – respondeu soltando a fumaça do charuto na cara do companheiro.
– Vou indo, pessoal. – anunciei levantando da cadeira.
– Mas já? – perguntou Bick.
– Já, não quero ficar que nem da última vez. – expliquei.
– Ah, Lucy!
– Desculpa, gente.
– Tudo bem, na próxima você dorme aqui. – falou piscando um olho para mim.
– Tchau galer... – eu estava passando por Gray quando lembrei que tinha que fingir que ele era meu namorado.
Fiquei em dúvida no que fazer, se o beijava ou não, mas a verdade era que eu queria que ele me beijasse de novo. Não queria fingir mais.
Voltei e dei um selinho nele, que ficou surpreso com a minha atitude. Desgrudei nossos lábios e cheguei mais perto de sua orelha. Eu garanto que meu rosto estava vermelho de vergonha a essa altura.
– Se você quiser saber, eu te amo. – sussurrei e sai acenando para todos da mesa.
– O que foi isso? – perguntou Bickslow rindo.
Mas não escutei nenhuma resposta do Gray.
...
Cheguei em casa na companhia de Plue e coloquei direto meu pijama. Fiquei lendo um pouco e brincando com meu espírito celestial do Cão Menor quando fui dominada pelo sono. Desliguei a luz e caí na cama de qualquer jeito.
...
TOC TOC TOC
– Ahn? – acordei com alguém batendo na porta. – Quem é? – perguntei, mas não obtive resposta. Fiquei receosa para abri-la já que devia ser tarde da noite. — Quem é?! – perguntei com a voz firme.
– Sou eu. –escutei a voz de Gray.
– Gray? – falei.
– Sim, Lucy. Abre logo.
Abri a porta e tão logo ele já estava dentro da minha casa.
– O que foi aquela despedida? – perguntou com os olhos cansados e novamente sem camisa, mas pelo menos com calça.
– O-o que? – gaguejei.
– Por que você falou aquilo? – perguntou com a respiração pesada.
– Aquilo, o-o que?
– Aquilo que você sussurrou no meu ouvido, não se finja de idiota! – falou alto.
– G-Gray... – murmurei tentando formular uma frase.
Ele chegou mais perto de mim.
– Por que falou aquilo? Se não era verdade p-porque...
– Era verdade. Eu acho que estou gostando de você. – jorrei as palavras para o ar.
– Você...
– Eu estou amando você. – completei.
Num piscar de olhos e me puxou para um beijo quase que “selvagem” ou desesperado e eu retribui na maior sintonia do mundo.
Subitamente ele se afastou de mim e fechou a porta girando a chave que estava nela.
– Posso passar a noite aqui? – perguntou. – Não quero fazer nada, posso até dormir no tapete.
– Pode passar quantas noites quiser, aqui. – falei retomando nosso beijo de segundos atrás.
Coloquei Gray contra a parede, passando as mãos por seu cabelo enquanto a suas passavam pelas minhas costas subindo até meu pescoço.
De repente ele segurou minhas coxas levantando-me para o alto e virou o jogo prensando-me na parede.
– Eu te amo. – eu falei mostrando a ele que eu não estava de brincadeira.
– Você não sabe quanto tempo eu esperei para que dissesse isso. – sussurrou entre um beijo e outro.
Ele me “desprensou” da parede e me levou para a cama ficando em cima de mim.
– Tem certeza? – perguntou.
Nem me dei o trabalho de responder, apenas o beijei e deixei que ele desabotoasse a parte de cima do meu pijama.
Apenas posso dizer que foi uma noite inesquecível.
P.S.: Gray tem um tanquinho lindo!
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