Corações Rendidos
1 As vestes da minha vergonha
Meus passos estalam a grama pouco queimada pela geada desse inverno, o qual temos sido vítima. Aproximo-me da casa. Os babados de meu vestido completamente básico, todo rendado se debate com o vento, que faz meus cabelos soltos e ondulados chicotearem meu rosto.
Ao pisar sobre os degraus da varanda do grande casarão branco que lembra muito meu lar, eles rangeram. Piso mais forte massageando a madeira para escutar mais o barulho. Sorrio em meio a aquela angustia e vergonha. Já tenho saudades de casa!
Puxo a campainha que balança o sino e espero. Estou com fome. — Droga!
Ao abrir da porta, meus olhos caem diretamente sobre uma moça de pele escura. Uma cozinheira limpadora de banheiros e tinas, percebo. Suas vestes estão imundas e as botas molhadas, o que me permite perceber que ela lidou com terra ao amanhecer. Está com um vestido comprido, sem graça verde oliva, com tule e anágua. Está visivelmente apertado.
- Posso ajudar? – Se dirige a moça a mim me avaliando de cima a baixo.
Ajeito minha postura como sempre faço, empino o nariz e junto as mãos, as quais estão carregando uma reticule grande, branco e pesada, feita por mim antes de sair de casa e própria para carregar as poucas coisas mais importantes para mim.
- Pode! – bato a reticule contra o peito da garota a fazendo segurar. – Me deixe entrar, quero falar com o senhor da casa!
- Ham, o senhor Salvatore não está, mas a senhora sim! Quem é você? – Interroga a moça estranhando meu comportamento. Ridícula!
- Sou Elen... – me interrompo olhando para trás vendo o cocheiro me observar na carruagem dos donos do casarão. Ele franze o cenho dilatando uma veia em sua testa, me estranhando. – Sou Diana Constantinova! – corrijo rapidamente e recomponho minha postura.
— Olha me desculpa. Mas você não pode entrar pela porta da frente senhorita! – previne, ela.
- Como? – questiono desacreditada com a audácia.
- Me acompanhe, por favor! – pede ela, e então sai da casa pela varanda dando a volta por todo o jardim, rodando a casa. Sigo-a de má vontade até chegar à parte de trás do palácio branco no qual há uma porta pequena de madeira, composta por uma escadinha caindo aos pedaços.
- Que nojeira! – Faço careta e ergo o meu vestido subindo as escadas. Levanto a mão e bato levemente.
Assim que bato, escuto uma risada baixa logo atrás de mim. Viro-me para a moça de pele escura que carrega minhas coisas. Percebo que é de mim que ela ri.
- Pare de rir limpadora de tinas! – Ordeno com fúria nos olhos.
- Aqui você não precisa bater! – Ela passa por mim balançando a cabeça negativamente em um grande sorriso meio tortinho. Então abre a porta e entra.
Entro logo atrás dela levantando a barra do meu último e pior vestido, dando de cara com a cozinha impregnada de muito vapor pelas panelas e o fogo. Meu coração dispara em pânico em ver três cozinheiras soando de calor dentro daquelas roupas asquerosas de chita. Entre elas um rapaz magro e loiro, de boa aparência. O vejo entrando com um carrinho de mão trazendo beterrabas, batatas, e outras raízes ainda cheias de terra. Sinto vontade de desmaiar. O cheiro de água fervendo sobe contra meu rosto, fazendo-me tossir sufocando.
A garota suja a qual me atendera solta a reticule de pano enlaçado com couro, no canto da cozinha, estalando um barulhão pelo chão da mesma. – VOCÊ É LOUCA? – Corro até a bolsa e exito em me ajoelhar nas cinzas daquele chão, com certeza não limpo há séculos. Olho para a menina e agarro a parte superior de seu avental e o puxo rasgando uma das alças. – GAROTA ESTÚPIDA! TEM COISAS MUITO VALIOSAS AQUI DENTRO, SEJA MAIS CUIDADOSA! Principalmente comigo.
- Heeei! – Ela segura o avental arrebentado. – Calma aí! Você não é mais do que ninguém aqui senhorita Diana! Dá pra ver que está procurando um lugar pra ficar. Mas pra isso, com certeza a senhora da casa irá propor que trabalhe. E aqui todos se respeitam!
O rapaz o qual vi entrando, pega sete pedaços de lenha para fazer a troca nos fogões. Ele se ajoelha a abre a tampa da labareda. No mesmo instante as lenhas de dentro estouram, cuspindo cinzas para fora. Com agilidade ele desvia se jogando para o lado do fogão.
- Não levante a voz comigo, aqui quem tem que ser respeitada, sou eu! Mantenha-se no seu lugar, e nunca mais seja tão... – As cinzas impregnam completamente meu vestido e um terço da cozinha. – AAAAAAAHHHH... – grito.
- AEEEEEEEE!!! – Todos na cozinha vibram e batem palmas. – Ele vive fazendo isso... – Comenta uma cozinheira jovem, branca, dona de grandes olhos azuis.
- Olhe pra mimmmm!!! Eu estou horrível! IDIOTAAA!! – Me abaixo e começo a lhe dar tapas nas costas e nos ombros do rapaz. – Meu vestido... O único vestido que eu tinha! Você o arruinouuuu!!!
- Aaaaai! – Ele ri. Então segura meus pulsos com suas mãos cheias de terra e de cinzas para que eu não o esbofeteie. – Isso dói!
- Não me toque seu imundo!!! – Grito e me solto dele bruscamente.
- Não se preocupe, nós daremos outro para você! – Diz a garota a qual acabo de humilhar, sacudindo um pano para abaixar as cinzas.
- O que? Usar isso aí? – Aponto seu vestido verde oliva, imundo e gasto. – Eu não vou vestir isso!
- Pelo menos está mais apresentável! — Comenta o rapaz caçoando de mim.
- É verdade! – Sorri a garota. – E meu nome é Bonnie, se não se importa!
O rapaz aproxima a mão de meu queixo. Lhe meto um tapa nas costas da mão. Ele ri e sai andando. – É arisca!
- QUE GRITARIA É ESSA AQUI??? – Vejo uma jovem, não muito mais alta que eu, quase que embrulhada em um vestido armado, estranho, branco com estampas, não costuradas, mas como manchadas. Não é de cetim, e parecia que o tecido grosseiro e áspero tinha caído na água com tinta. Queria estar morta!
- Desculpe-nos senhora! A moça se assustou com o fogo! Matt não sabe mexer com o fogão a lenha! – argumenta a jovem de olhos azuis arregalados em meio sorriso. Os outros voltam aos seus afazeres.
- E esta garota quem é Rose? – Pergunta a senhorita de vestido estranho apontando diretamente pra mim.
- Ah, eu... –Tento me explicar passando as mãos pelo meu vestido creme completamente entorpecido de cinzas.
- Eu já ia a levar para a senhora, madame! – defende Bonnie – Ela está procurando um... Um...
- Um abrigo! – intervém, Rose – Trouxe apenas esta sacola de pano! – ela ergue a reticule com minhas coisas.
Arregalo os olhos e corro pegando minha bolsa– Cuidado vai derrubar!
- Abrigo? Então saia e vá procurar por um abrigo no centro da cidade... – ordena a jovem entrando na cozinha.
- Nã-não é bem... Abrigo, que eu procuro... Eu preciso... De... – Suspiro fechando os olhos, engolindo em seco. Estremeço só de pensar.
- O que menina? – Ela se aproxima de mim e estende a mão esquerda para mim, coberta por uma luva. Por início não entendo, e recorro meu olhar para as cozinheiras.
Rose levanta uma sobrancelha para mim e inclina a cabeça, sinalizando.
-Ah! – seguro a mão dela e me inclino um pouco a reverenciando. A que ponto cheguei, meu Deus! Ruborizo e direciono meu olhar para sua mão coberta pela luva. Em seu dedo anelar, uma aliança de ouro.
— Fique ereta! – ela ordena me avaliando e então ajeito minha postura.
- Eu preciso de um lugar para trabalhar, senhora...?
- Salvatore! Duquesa Nicolle Houston Salvatore!
Deus, porque me desamparastes? Deixar que eu trabalhe para uma classe mais baixa que a minha? É só o que consigo pensar.
- Senhora Salvatore... e de um lugar para morar! Eu... – penso um pouco – Fui despejada hoje de manhã. Minhas coisas estão sendo penhoradas pelo governo e...
- Vamos conversar na biblioteca de meu marido, por favor? – ela me interrompe – Não vai querer contar parte de sua vida na frente dos empregados não é?
Balanço a cabeça negativamente e logo em seguida a vejo saindo da cozinha. Olho para os outros e saio da cozinha a seguindo, rodeada por olhares.
- Acha que a madame vai comê-la viva? – Pergunta Bonnie lavando as mãos em uma bacia de alumínio.
A mesma recebe um leve empurrão de Rose. – Boba! – As duas riem e começam a descascar batatas.
Ando pelos corredores escuros sobre o carpete avermelhado e estampado de marrom e branco. A silhueta do grande vestido rodado da duquesa Salvatore andava a minha frente. Os olhares dos fundadores nos quadros pareciam me acompanhar. Mantenho minha cabeça erguida durante todo o percurso do largo corredor.
Ao chegar à sala de jantar elevo meu olhar ao grande teto, alto e firme, apoiado em grandes e grossos pilares em sintonia com os lustres. A sala possui um tom avermelhados aconchegante. Olho ao meu redor vendo castiçais e velas perto das janelas e nos cantos do grande cômodo. A mesa é quadrada, diferente da de minha casa que era oval. A porta é de madeira, mas com frestas de vidro. Muito bonita, melhor do que pela qual entrei, “a porta dos fundos”. Que humilhante Elena Gilbert.
Saindo da sala de jantar, as grandes escadarias cobertas por um tapete vermelho, com corrimões lustrados. À frente da escadaria, a porta da frente a qual pretendia entrar. Dois metros de altura acima de minha cabeça. Continuo caminhando até uma porta branca com dois compartimentos. A duquesa abre e dá espaço para que eu entre. Então entro.
Ela caminha pela biblioteca e se senta em uma grande poltrona vermelha atrás de uma mesa retangular posta na horizontal. Eu nunca vira tantos livros dentro de uma casa. As próprias paredes são compartimentos abarrotados dos mesmos.
Aproximo-me para sentar-me à sua frente.
- Não! –Me repreende – Vai sujar! – Explica sem olhar para mim dando um gole de chá em uma pequena xícara de porcelana – Me diga menina... Qual seu nome, de onde vem, e porque está nessa situação.
Suspiro fundo, mantendo-me ereta e olho em seus olhos – Meu nome é Diana Constantinova. Não sou herdeira de nenhum título como pode perceber. Infelizmente eu fui despejada pelo governo, tendo todas as minhas coisas e bens penhorados. Meus pais... Bem, eles morreram quando eu ainda era pequena, então fui criada pelo meu irmão mais velho, que foi enviado como recruta para o exército. Quando se tornou soldado, ele entrou para a guerra. “Desaparecido em combate”! Desde então, as dividas de minha família me sucumbiram até eu não poder mais solucionar minha situação.
- E a casa? Hipotecada?
- Foi um incêndio... – apelo – Ele tomou conta de minha propriedade. A única na qual eu ainda possuía. Por isso estou aqui! Eu preciso de um trabalho, não importa a área em qual eu tiver que atuar. Preciso apenas de um trabalho, e de um teto.
- Você parece ser muito delicada e educada em comparação aos outros empregados que trabalham aqui. Você nunca trabalhou, isso é evidente! Sinto muito por você, minha querida. Mas talvez você tenha aparecido na hora certa pra mim, e na hora errada para você. Eu preciso e quero uma arrumadeira! E quanto mais serviçais melhor! Boa hora para agradar meu marido, se ele logo voltar. Ele ficará feliz quando souber que tenho uma arrumadeira exclusivamente para mim. E meus pêsames pelo seu irmão! – a vejo abrir um relógio de bolso banhado a ouro já escurecido, que estava em cima da mesa logo acima dos papéis. Não sei ao certo o que ela está olhando, mas acaricia o que há dentro – Meu marido foi para a guerra também. Faz quase três anos, mas não canso de pensar nele um só segundo... Todos os dias... – comenta ela, olhando para o relógio, que deduzo conter uma foto de seu marido.
- Eu lhe agradeço pela oportunidade, senhora. Tenha total certeza de que a senhora não vai se arrepender mediante os meus trabalhos. E eu também sinto muito pelo senhor Salvatore!
Ela levanta seu olhar para mim e começa rir – Muito confiante para alguém que nunca pôs as lindas e delicadas mãos na massa. Você tem muito que aprender Diana! E para sua informação, ele está vivo! E logo retornará para ocupar seu lugar nesta casa. Eu só me encarrego de deixar tudo tinindo por aqui, para que quando ele volte não se decepcione. – Ela puxa as a corda na parede que dá para a cozinha, chamando alguém. – E precisa de roupas!
Mãos na massa? Isso ressoa em minha mente. Assinto de imediato, acatando suas ordens. Logo vejo Bonnie batendo e abrindo a porta da biblioteca.
- Sim, senhora?
- Bonnie, leve essa moça ao seu quarto e lhe ceda alguns de seus vestidos. De preferência preto ou creme! Depois quero que a leve para o quarto que ela ocupará, ao lado do porão! É o melhor quarto da casa para empregados! Mostre a ela como as coisas funcionam por aqui! – então ela se dirige a mim – E esteja atenta para quando eu a convocar! Tente manter as mãos e sapatos limpos! Você frequentará meu quarto todas as manhãs, quando eu acordar, quando eu tiver de me arrumar, antes do jantar e me ajudará e me preparar para dormir. E me obedecerá quando eu mandar que faça algo fora disso! Terá suas horas vagas! Dúvida?
- Não senhora! – respondo-lhe, não decorando nenhuma de suas imposições. A única coisa a qual ouvi foram sobre as horas vagas.
Minhas pernas amolecem logo que ponho os pés fora da biblioteca acompanhada por Bonnie, que me guia para seu quarto. Acompanho-a para as partes mais obscuras da casa. Logo vejo uma escada alta que leva para o sótão. Subo-as estremecendo e com medo que os degraus rachem, quebrem, eu caia, quebre meu pescoço e morra. Até que não seria uma má idéia, com tudo o que têm acontecido.
Ao chegar ao topo, há várias portas no mesmo estilo, de madeira, porém menores, podres e quebradiças. A primeira portinha é a do quarto de Bonnie. Ela gira a chave enferrujada e entra.
Entro no espaço sentindo cada nervo de meu corpo se arrepiar de pânico. Meus olhos passeiam pelas paredes amareladas pela umidade. Vários flocos de poeira nas extremidades das paredes. Já a cama, tonalizada em marrom e à sua frente um armário escuro rubro, com duas portas com puxadores quebrados e descascados. O chão de madeira no qual eu piso range a cada pequeno passo. Meus olhos encontram o chão a base de tábuas abaixo de meus pés, úmidas, o que é estranho! O chão provavelmente não havia sido limpo, levando em consideração a camada espessa de sujeira.
Assim que ela tira os “vestidos” do armário rubro, ela os estica sobre a cama.
Trapos!
Meus olhos se alternam sobre eles. Os olhos de Bonnie acompanham cada movimento meu, com as mãos para trás. Me aproximo e deslizo a ponta dos dedos sobre os farrapos sob a cama. Ergo na frente de meu rosto analisando cada detalhe da anágua que não servirá para inflar a saia de um de meus vestidos de cetim, mas sim para esfregar em minha cara, minha própria decadência. Meus lábios entre abertos demonstram um misto sentimentos de pânico e assombramento. Pisco várias vezes analisando a peça e suspiro fundo puxando todo o ar que consigo. Estreito meu olhar encarando a próxima peça. Uma saia de algodão com misto de sarja preta e sem nenhum detalhe. Lisa. O material apresenta péssima qualidade e costura, porém bem adaptado para as atividades as quais desempenharei.
Sinto meu corpo tomado pelo nojo e engulo em seco tentando conter qualquer instinto de vomitar sobre aquelas vestes. Ergo a próxima peça com as pontinhas dos dedos, segurando as mangas compridas. Uma camisa da gola alta em mais um mesclado, desta vez feita em algodão e lã. Meu Deus! A que estado deplorável eu cheguei! Nem em meus piores pesadelos eu poderia me imaginar a mercê do cafona ou do brega.
Meus olhos avistam ainda sobrado sobre a cama, um avental de algodão junto a uma espécie de goro para cobrir os cabelos. E por último e fechar com chave de ouro (ou de ferrugem), meu passo direito para a morte! Um par de botinas de couro com amarração de cadarços feitos de linho. Se esses fios fossem fortes o suficiente, eu estaria os usando para me enforcar!
- Vamos Diana, se vista! Ainda preciso levá-la conhecer seu quarto e então apresentá-la a todos os empregados da casa... – argumenta Bonnie.
Ótimo! Antes apresentada aos herdeiros dos títulos dos fundadores, agora apresentada aos empregados que servem os mesmos e que deveriam me servir... Definitivamente é o fim.
Elevo minhas mãos para as costas próximas a cintura, e puxo o cordão soltando meu corpete.
Notas finais
Como será para ela tentar descascar batatas, aguentar o peso de um esfregão ou pentear os cabelos de uma dama prepotente?
Será que a nossa querida senhorita Elena aceitará e acatará as ordens de bom grado? Ou uma rebeldia estérica está prestes a abalar o "palácio"?
~Em breve postarem o próximo capítulo! Fiquem atentos! ;)
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