Corações Rendidos
22 Capítulo 22
—Pronto, desabafe Tom. – Eric tomou um gole de cerveja e acendeu um cigarro.
Tom pegou sua lata de cerveja e se sentou de frente para Eric. Tinha dito a ele assim que saíram da gravação, que precisava conversar com alguém. E que esse alguém poderia ser apenas ele. Estava mais confuso e perdido que cego em tiroteio. Haviam ido à um restaurante apenas para conversar. Pediram cervejas e um lanche para cada um.
— Ah cara, eu não sei mais o que faço. – Passou a mão nos cabelos, bagunçando-os. – Depois do que eu encontrei ontem... Não sei mais.
— Ah nossa. Achei que sempre fosse seguro das coisas que fazia. – Eric ironizou.
Tom fingiu que não entendeu o que Eric queria dizer e tomou um gole de cerveja, encarando o nada.
— Não sei se houve algo entre eles, o que ele estava fazendo na minha casa. Mas ainda não acredito na história do cachorro.
— Por que você é um cego idiota, Tom. Desculpa mas você é. O cara estava com um cachorro doente no braço, ou será que você não viu?
Sim, ele vira o cachorro. Mas e se fosse de propósito aquilo? E se Anne tivesse dado algo para o animal, apenas para se certificar de que ninguém perceberia o que eles fizeram ali dentro? Não fazia sentido... Ou fazia? Não conseguia confiar nas mulheres, era uma tarefa difícil.
— Eu, cego? Falou o campeão de visão! Eu vi, mas não sei Eric... Não sei.
— Tom, você quer um conselho? – Eric se endireitou na cadeira.
— Acho que foi pra isso que quis conversar com você.
— Só te digo uma coisa: Você não sabe se ela te traiu ou não. Então, não tem o por quê desprezar a garota como sei que você está fazendo. Fica com ela, Tom. Essa garota faz bem pra você.
— Mas e se eu estiver certo, Eric? Vou ficar com uma mulher que me trai? Se fosse assim, era melhor eu ter continuado com a Emily. – Tomou um longo gole de cerveja, nervoso.
— E você sabe se ela não te traía? Eu não tenho tanta certeza disso.
Naquilo, Eric estava certo. Tom não sabia se Emily era totalmente fiel. Deu um longo suspiro e colocou as mãos na cabeça, apoiando os cotovelos na mesa. Antes tivesse mantido sua vontade de ficar sozinho, quando Emily fora embora. Talvez não estivesse assim no momento.
— Não, eu não sei. Acho melhor eu ficar sozinho mesmo. Não tenho sorte com relacionamentos.
— Tom, dê uma chance, cara. Conversa com a Anne. Eu não acho que ela seria capaz de te trair. Ela não iria vir da França pra cá, pra fazer isso. Seria mais fácil ela te trair lá, não é? Ao menos você não estaria vendo e nem ficaria sabendo. Além do mais... – Eric olhou-o nos olhos. – É uma merda viver sozinho. Ainda mais quando se gosta de alguém.
O vocalista ficou a encarar Eric, que não mais olhava. Apagara o cigarro e dava sua primeira mordida no lanche que pedira. Entendeu muito bem o que ele falara, e esqueceu de seus problemas por um momento, concentrando-se no baixista. Eric estava gostando de alguém? Aliás, ele estava gostando de Beth ainda? Talvez. O loiro estava se dedicando muito em produzir o novo disco e há tempos não falava mais em quantas garotas tinha pego na noite anterior, ou como havia transado, como ela era... Nada. Ele permanecia calado, sempre. Gravava o que tinha que gravar, dava palpites, tudo sobre o Cinderella, mas nada referente à sua vida pessoal, da qual antes falava muito.
— Eric...
— Fala. – Mordeu mais um pedaço do lanche, evitando olhar para Tom.
— Você tá gostando de verdade, de alguém? – Indagou, com um pequeno sorriso no rosto.
Eric engasgou. Bateu no peito duas vezes para desentalar, já que não alcançava suas costas.
— NÃO! – Apressou-se à responder, quando parou por um momento de tossir.
— Ah sim. – Tom desconfiou – A Beth sumiu do mapa... – Jogou verde.
— Que ótimo.
— Sinto saudades dela. Era uma ótima garota. Bonita, geniosa... Engraçada, legal...
Eric mordeu o lanche, cravando seu olhar em Tom, com raiva. Seu peito começou a queimar, assim como seu rosto e praticamente seu corpo inteiro. Se não soubesse dos problemas daquele infeliz e que ele era apaixonado por Anne, pensaria que ele sentia algo por Beth. E o socaria, até deixar aquela boca maior e mais inchada do que já era.
Tom quase riu da cara do baixista. Era óbvio que Eric ainda pensava na garota. Ele assumira, certa vez, que gostava dela, mas depois de um tempo passou a negar. O loiro estava se contradizendo em todos os momentos. Nunca acreditou que ele se esquecera dela. Um sentimento não se apagava assim tão fácil. Não mesmo, e ele próprio era uma prova disso.
— Você foi um idiota, por não ter ficado com ela.
— Eu comi a Beth. Foi o suficiente. E nem precisei ficar com ela pra isso.
— Imbecil. – Tom murmurou.
— Tom, você vai calar a boca ou prefere comer esse lanche pelo rabo? – Eric disse, nervoso.
— Hey, calma! Trocamos de lugar? Antes esses tipos de frases eram minhas. Mas tudo bem, eu fico quieto.
— Acho bom.
Ambos continuaram a comer em silêncio.
Tom começou a digerir as palavras de Eric. Sim, ficar sozinho quando se gosta de alguém é horrível. Experimentara isso quando não estava com Anne. E quando estava sem Emily também. Respirou fundo. Poderia estar dividido entre as duas? Sim. Fora um erro, uma ironia do destino, Emily ter aparecido em sua porta, e bem no momento errado. Na hora em que estava aborrecido com sua atual namorada. E também fazia sentido, Anne não o trairia ali se ela podia fazer isso muito bem na França e sem ele ficar sabendo. Mas... Mike estava ali e não na França. Ah! Como estava bagunçada sua cabeça!
Foram embora ainda sem falar um com o outro. Ambos aborrecidos e confusos com os assuntos do coração.
***
Eric chegou a sua casa e fechou a porta, sentindo um pesar. Mais uma vez, estava em casa e ficaria sozinho por longas horas. Podia ter groupies, prostitutas ali com ele? Podia. Mas ele queria uma mulher fixa e não tinha. Estava sem uma mulher para comemorar sua chegada, quando voltasse de turnê, do estúdio... Sem uma mulher para lhe dar beijos, abraços e uma noite quente. Sem carinho, sem consolo quando estivesse chateado ou nervoso, sem NADA. Seria Fast Food de novo, ao invés de comida de verdade, preparada por quem se ama. Ah! Estava ficando maluco daquele jeito. Não precisava daquelas coisas, sabia disso, mas queria-as. Queria e só imaginava uma pessoa fazendo tudo aquilo: Elisabeth Mountbatten.
Apertou os olhos com a ponta do dedo polegar e do indicador. Com a outra mão, mexeu num dos bolsos da calça jeans e retirou um pedaço de papel. Olhou-o. A letra de Fred – horrível – Com o telefone de onde Beth estava. Pedira a ele e no mesmo momento, o baterista conseguiu o numero com o irmão dela. Ryan... Já tivera um melhor amigo com aquele nome. Nunca se esquecia daquela época em Salisbury. Eram bons tempos.
Sentou-se no sofá e pegou o telefone. Por quê fazia aquilo? Não sabia, mas queria falar com ela. Ao menos ouvir a voz daquela garota.
Discou os números e aguardou. Ninguém atendia. Aquele número deveria estar errado...
— Opa, alô?— Ouviu uma voz feminina, de repente.
— Oi... Eu... Eu queria falar com a Elisabeth.
— Ah sim. Quem gostaria?
— Meu nome é... – Não podia falar seu nome. – Fred Coury.
— Vou chamá-la.
Eric aguardou e ouviu do outro lado da linha, a moça berrar o nome de Beth. E segundos mais tarde ela chamá-la por um nome... Loren e indagar quem era ao telefone. Também já conhecera uma garota que possuía aquele nome. Tudo que envolvia Beth estava fazendo-o se lembrar de coisas que deixara para trás há muito tempo.
— Fred! Oi! — Beth atendeu alegre.
Eric ficou mudo. Engoliu em seco. Nem sua respiração saía normalmente. O coração acelerou e deu uma dorzinha leve. O que falaria para ela, naquele momento? Como explicaria que não era o Fred? E se ela perguntasse o motivo de sua ligação, o que falaria? E se o destratasse e desligasse o telefone?
— Fred, ta aí? Alô?
— Beth... Sou eu... – Sua voz saiu quase inaudível.
— Fred?— Ela chamou mais uma vez.
Eric não conseguiu falar mais nada. Ela desligou o telefone. O loiro suspirou e colocou o aparelho no gancho. Passou a mão no rosto e sentiu-o queimar. Ela tinha uma voz tão doce pelo telefone... E aparentava estar tão feliz. Praguejou.
***
Beth deu de ombros e saiu de perto do telefone, indo em direção à porta de saída da casa. Loren a seguiu. Fred não ficaria mudo no telefone. Ele falaria alguma coisa. Era um tagarela. E como ele soubera o número da casa de sua avó? Não havia contado à ele que iria para lá e nem ao menos dera o telefone. Ryan devia ter dado a ele. Ou Mike. Mas aquela voz... Aquela voz não era de Fred. Tinha quase certeza disso.
— O que foi, Beth? – Loren indagou, assim que passaram à caminhar pela rua.
— Nada. Loren... Tem certeza de que era o Fred?
— Tenho. Ele me disse o nome. Fred Coury.
— Certeza?
— Absoluta! Por que?
— Ele não falou nada. – Pensou e se recordou. – Aliás, falou sim. “Beth, sou eu.” Não entendi. Eu sabia que era ele.
Loren ficou pensativa, assim como Beth por alguns momentos, até chegarem a uma pequena praça na rua da antiga casa de Beth.
— Talvez não fosse o Fred. – A ruiva disse.
— Mas acho que era ele! Quem mais conseguiria o telefone daqui e além do mais, como se passaria por ele?! – Indagou, sentando-se num dos bancos da praça com ela.
— O Eric?
Beth congelou. Suas pernas tremeram só de ouvir aquela droga de nome. Uma chama de esperança começou a acender em seu coração. Seria possível? Eric procuraria seu telefone e ligaria? Mas para quê ele faria isso? Muitas perguntas se formaram em sua mente,mas não queria, não podia se enganar.
— Tá maluca, Loren? Você sabe sobre o Eric, ele nunca me procuraria.
A amiga concordou e ambas se calaram. Há muito Beth queria voltar a aquela pequena praça. Tinha muitas recordações daquele lugar. E todas elas eram de uma briga com Eric, pois insistia em seguir ele e os meninos, acompanhada de Loren, apenas para irritá-los. E quem mais ficava nervoso era o próprio infeliz por quem era apaixonada agora.
—Beth...
— Quê?
— Lembra daquele dia, que pegamos Eric, Gary, Mike e Ryan fumando aqui?
Beth ao se lembrar riu. Ouvia-os sempre falar de um tal de 4:20 e sair por esse horário, indo para a pracinha, sozinhos. Certa vez, curiosas, ambas os seguiram e os pegaram fumando. Arrumaram uma briga ainda maior com os meninos, mas nem ligaram. Eles as fizeram jurar que não contariam nada à ninguém. Anos mais tarde foram descobrir o que eram aqueles cigarros: Maconha.
— Ah sim... 4:20...
Depois de darem mais risadas e se recordarem de tudo o que houve naquele dia e nos que se seguiram, permaneceram em silêncio, até ele ser quebrado por Loren.
— Quando você vai contar pro Eric?
— Contar o quê? – Ela olhou-a , confusa.
— A verdade, oras. Que você é a irmã chata do melhor amigo dele, com quem ele brigava todos os dias e todas as horas.
— Melhor amigo que quase o quebrou na porrada, se não fosse por mim! Não, nunca vou contar Loren. Se não se lembram um do outro, eu vou fazer essa “bondade” de contar que eram inseparáveis antigamente? Não, sem chances. Quero que o Eric morra sem saber e sem se lembrar.
— É errado isso.
— É errado eu ficar procurando um cara que não me quer, só pra contar idiotice! E além de tudo, juntar ele, Ryan e Mike de novo e eu ficar chupando dedo, ainda gostando dele! Pensa, Loren!
Mais uma vez entraram em um profundo silêncio. Beth estava certa. Aquilo só a magoaria. Ryan, Mike e Eric se reaproximariam e ela iria ter contato com ele. Amando-o e não sendo correspondida. É, era melhor não contar nada a nenhum dos três.
Beth suspirou.
Será que era ele?— Pensou. – Não, não podia ser.
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