Corações Rendidos
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Mike carregava Loki no colo, enquanto andava pela rua indicada por Emily. Não adiantou xingá-la de todos os adjetivos que conhecia. Ela somente riu e dissera que o adorava principalmente quando estava nervoso. Aquela mulher merecia ir pra um manicômio isso sim. Andava em passos rápidos. Não fazia idéia de como ela sabia que Anne sairia para a rua aquele horário para caminhar. Devia ter investigado a garota. Era difícil entender o motivo de Emily querer tanto um homem que ela despreza por palavras. Do qual ela nem ao menos fala com carinho, não demonstra amor nem nada. Apenas loucura. Praguejou algo quando quase tropeçou. Avistou um pouco ao longe uma garota de blusa branca e calça jeans enrolando um pouco antes de começar a andar. Devia ser ela.
Anne quando ia começar a correr, quase bateu de frente com algo. Olhou para cima e observou o homem que segurava um cachorro. Era o mesmo homem do Double Dutch. Mike. Deu graças a Deus por Tom não estar com ela e estar muito ocupado com a banda. Estava muito bem com ele e queria manter assim.
— Anne? – Ele demonstrou surpresa.
— Oi, Mike. – Forçou um sorriso. – O que houve com esse cachorro? – Indagou, preocupada.
— Eu não sei, o encontrei dessa forma. Ele está muito mal.
— E por que não o levou ao veterinário logo?
— Era pra lá que eu estava indo, mas... Acho que esse horário já está fechado...
Anne observou Mike. O rapaz estava nervoso, era visível. O animal devia ser dele. Não pensou duas vezes. Tom chegaria mais tarde, pois estava com a banda no estúdio e demoraria bastante pelo que falara. Pediu para Mike acompanhá-la para dentro da casa de Keifer e por sorte, havia trazido alguns materiais da França. Era raro se separar de sua pequena bolsa, pois nunca sabia quando iria encontrar um bichinho ferido e precisando de cuidados. Deixou que Mike deitasse o cão na mesa de centro, tirando tudo o que havia em cima da mesma. Ele desenrolou o animal de um cobertor e Anne começou a tratá-lo. Não demorou muito tempo para ela notar que o cão fora envenenado. Só não sabia qual era o tipo de veneno. Fez o que pôde para o animal ficar um pouco mais estável e recolheu algumas informações de Mike ao longo do tempo em que cuidava de Loki. Deu um leve sorriso. Aquele cachorro combinava muito bem com o nome. Era um belo pastor alemão e aparentemente muito bem cuidado.
— Bom, fiz o que pude, mas peço que vá a um veterinário amanhã no primeiro horário, Mike. – Disse, limpando as mãos.
— Sim, eu irei. Obrigado, Anne. Não sei o que faria se não a encontrasse. – Aproximou-se dela. As narinas de Mike foram invadidas por um cheiro delicioso. Era o cheiro daquela garota.
Ela se afastou um passo. Ficou sem jeito na presença de Mike. Era mulher! Não podia negar que aquele cara era muito bonito, mas não conseguia sentir nem um mísero tipo de desejo por ele. Amava tanto Tom Keifer que chegava a se admirar do tamanho de seu sentimento.
— De nada... Bom, acho melhor você ir. O Tom vai chegar daqui a pouco e...
Ele pegou Loki no colo com uma incrível habilidade e rapidez e se dirigiu para a porta devagar.
— Certo, não quero te causar problemas com seu namorado. Mas obrigado de novo. – Ele deu espaço para que ela abrisse a porta.
— De nada. Só... Me mantenha informada sobre ele. Gostaria de saber se ele melhorou. – Anne sorriu e abriu a porta.
Quando Mike se colocou para fora, quase bateu de frente com algo, mas retornou um passo antes que a colisão acontecesse. Olhou nos olhos azuis-piscina cheios de raiva. Era o tal Tom. Ele o encarava com fúria no olhar e Mike tentou manter seu olhar sereno e os lábios curvados num leve sorriso. O que mais gostava era de atiçar o adversário antes de uma boa briga. Pena que não aconteceria naquele momento... Ou aconteceria? Desviou o olhar do cara por um segundo ao ouvir um pigarro atrás dele. Era o filho da mãe do Eric. Olhou fixo para ele por um momento e notou que sem a franja cobrindo metade de seu rosto, conseguia vê-lo melhor. Até mesmo com o boné de baseball que ele usava. O loiro era bem parecido com alguém que conhecia. Um amigo de infância. E que possuía o mesmo primeiro nome.
— Tom, eu to me mandando. Até mais. Boa sorte ai, cara. – Tom ouviu Eric falar atrás dele e sair em passos largos. Conseguiu ouvir uma risadinha do loiro e teve vontade de sair correndo atrás dele e matá-lo.
Aquela não era uma situação para rir. Suas mãos ansiavam por matar aquele cara infeliz. O que ele fazia dentro de sua casa e com Anne?
— O que significa isso, Anne Danielle? – Indagou entre dentes, fixando seu olhar na cara de cínico do irmão de Beth. Arrancaria aquele sorriso no soco.
Eric entrou em seu carro e saiu em disparada quase rindo de Tom. Agora ele também tinha um problema com um dos irmãos de Elisabeth. Queria muito ter ficado para saber no que daria aquilo, mas uma parte sua queria ir embora dali. Era a forma que estava se sentindo durante os últimos dias. Só queria fazer seu trabalho e beber. Mais nada, além disso. Estava à alguns dias sem nenhuma mulher e isso estava matando-o. Nos tempos em que ficava são, Beth lhe vinha à cabeça e logo tratava de cheirar um pouco e encher o copo de whisky ou pegar algumas cervejas na geladeira. Até que trabalhar intensamente como estava trabalhando era bom. Por um lado sentia-se bem, mas por outro... Tratou de afastar o pensamento que lhe vinha e deu uma longa tragada no cigarro, soltando a fumaça logo em seguida.
Parou em um bar num lugar pouco movimentado. Além de não querer ser reconhecido, queria um pouco de paz. E aquele parecia ser um local bem calmo. Entrou e sentou-se no balcão. A música que tocava fez Eric quase pedir para que a mudassem. Era a música em que tinha beijado Beth pela ultima vez. Bryan Adams. Heaven. Sentiu o gosto dos lábios dela de novo nos seus e por instinto passou a língua entre eles, molhando-o, fechando os olhos. Uma de suas mãos repousava em sua testa, apoiando-a. Eric escondia seu rosto. Perdeu-se nas lembranças daquele ultimo contato até a música acabar. Ao longe ouvia alguém chamá-lo, uma voz feminina. Não levantou a cabeça antes de a música finalizar e Beth sair de sua mente por um segundo. Olhou para frente e viu uma garota, aparentemente bem mais nova, uma adolescente, vestindo um uniforme preto e cabelos amarrados num rabo de cavalo.
— O que foi?
— Perguntei se quer algo para beber. – Ela disse, limpando o balcão onde Eric estava apoiado, fazendo-o se desencostar.
— Quero uma cerveja. – Pediu e imediatamente a garota foi buscar. Pela primeira vez não se sentiu inclinado a olhar para o traseiro de uma menina.
Não sentia nenhum tipo de vontade de fazer qualquer coisa do tipo. Estava doente, só podia ser. Segundos depois ela lhe trouxe a cerveja e foi atender outros clientes. Se incomodou apenas com uma coisa naquele bar pouco movimentado. Ali só tocavam musicas românticas e ele já estava de saco cheio. No momento o som que preenchia o local era do Nazareth. Aquilo só o fazia pensar em uma pessoa e não agüentava mais. Tomou um gole da cerveja e acendeu um cigarro. Ficaria ali mais um pouco, mesmo com o som do local não sendo um dos melhores.
Tomou mais quatro cervejas e fumou metade de seu maço de cigarros, e resolveu ir embora. No final o som tinha melhorado um pouco, mas não estão a fim de ficar ali sozinho. Ao menos se Tom o tivesse acompanhado, ou Fred... Jeff... Só que ninguém conversava com Eric, a não ser coisas sobre a banda. Ninguém aceitava sair com ele pra beber... Ou será que era porque ele não convidava? Ah, que se danasse. Pagou o que havia consumido para a mesma moça que o servira todas as vezes e assim que se levantou para ir embora deu de cara com olhos castanhos em sua frente. Ficou parado por alguns segundos. Olhou-a de cima a baixo. Era uma garota e muito gostosa. Os cabelos bagunçados, cacheados e também castanhos. Pele bronzeada... As roupas da garota logo o fez saber do que se tratava. Era uma puta querendo dar por grana. Respirou fundo e encarou-a. Ela sorriu e passou a mão em seu tórax, arranhando seu peito pela parte da camisa que estava aberta. Aquilo fez o corpo inteiro dele se arrepiar e em pouco tempo seu membro começou a reagir.
— Percebi que ficou o tempo todo sozinho... – Ela disse, numa voz suave e sedutora. Como todas da laia dela tinham...
— Sim, fiquei.
— E... Vai ficar assim pelo resto da noite? – A mulher olhou-o nos olhos e aproximou sua boca da dele. Sem saber o motivo, Eric afastou-se alguns centímetros.
— Acho que sim.
— Mas é um desperdício isso. A noite está tão bonita e você não merece ficar sozinho... Não quer companhia? Eu posso ser uma companhia muito... Mas muito... – Aproximou seus lábios do queixo do loiro. – Boa. – Deu-lhe um selinho no queixo.
Ah Eric iria adorar a companhia daquela mulher. E como iria... Mas não conseguia. Algo o impedia de alguma forma. Não sentia nada com ela próxima de seu corpo, ou com os lábios dela em seu pescoço como estava no momento. O arrepio havia passado, apenas seu membro continuava reagindo. Uma reação involuntária de seu corpo.
— Ah, eu sei que você seria. Uma excelente companhia. – Disse, afastando-a. – Mas hoje não, ok? – Afastou-se. – Hoje vou recusar. Estou com alguns problemas e... – Não tinha que se explicar para ela. E porque estava sendo tão educado? – Eu não estou a fim de te foder hoje, garota. – Se sentiu melhor ao usar aquelas palavras diretas, como ele adorava falar.
Eric virou-se e saiu do bar, empurrando a porta com força. Entrou dentro do carro e demorou alguns segundos. Que diabos o impedia de comer aquela vagabunda? Não conseguia saber o que era. Seria melhor ir para sua casa. Era realmente o melhor a fazer. Chegaria, pegaria a merda de seu contrabaixo e ensaiaria mais um pouco. Trabalho demais não faria mal algum. Pelo contrário faria bem, assim não pensaria que estava recusando uma puta por causa de Beth. O que era a mais pura verdade, mas ele estava tentando se convencer de que não era isso. Tentando se enganar. Como sempre.
Chegou a sua casa, retirou o baixo do carro e entrou apressado, fumando um cigarro. Jogou a case no sofá e fechou a porta. Encostou-se nela e parou por um minuto. Retirou o cigarro da boca e ficou segurando-o. Agora se enfiaria ali, naquela casa, mais uma vez por que era imbecil. Sim, era imbecil. Sentou-se no sofá, abriu a case e retirou o baixo. Pegou algumas tablaturas e ensaiou até se cansar, ali, sozinho na sala parcialmente escura com seus cigarros e a metade de whisky que ainda tinha.
Depois de horas, parou. Seus dedos que já estavam acostumados com as cordas do baixo começaram a incomodá-lo, a doer. Deixou o baixo de lado e passou a mão no rosto. Já fazia um ano e não conseguia esquecer aquela transa. Por que marcara tanto? Não conseguia entender isso. Não se lembrava nem da garota que tinha comido semana passada e se lembrava de todos os detalhes de sua transa com Beth. Até do cheiro da pele macia dela... Dos cabelos sedosos... Do gosto dela.
Aliás, fazia dias que Eric não sabia o que era ter uma garota em sua cama. Aquilo estava se tornando um caso muito sério. Tinha que parar de pensar naquela garota. O que sentia por ela não era recíproco e ela nem ao menos pensava nele nem um pouco. Devia estar às mil maravilhas com o tal médico. Só de pensar seu coração deu aquele aperto. O mesmo que sentia desde o dia em que ela fora embora do hotel. Era o sentimento de perda que tinha. Tinha perdido Beth. Apesar de que nunca a tivera na verdade. Suspirou e resolveu ir dormir. Não queria mais pensar, não estava a fim de se drogar naquela noite e muito menos a fome atacava seu estômago. Só queria encostar sua cabeça no travesseiro e dizer a si mesmo que tinha se apaixonado inutilmente. Que era um idiota, um imbecil e tudo o mais.
Tomou um banho rápido e se deitou apenas de short. Aquela noite na Filadélfia estava quente.
***
Tom se revirou no sofá mais uma vez. Tinha tentado arrancar algo de um dos dois, mas não conseguira. O desgraçado somente o cumprimentou e saiu andando com um cachorro nos braços. Não engolira a desculpa que Anne tinha dado e nunca engoliria. Ele estar ali por causa do cachorro? Não tinha como. Há vários veterinários na Filadélfia e nem ali ela trabalhava, para ele ter ido procurar logo por ela. Não acreditava e ponto final. Depois de entrar em sua casa, não dera uma palavra com ela. Tinha perdoado-a, concluído que fora um idiota no dia do Double Dutch, mas agora não sabia se conseguiria fazer isso de novo. Ela dera motivos agora. Conseguiria confiar em Anne? Nada explicava aquele cara dentro de sua casa. Não acreditaria em nada que ela lhe falasse e nenhuma desculpa que desse. Tom estava com seu orgulho ferido. Com raiva dos dois. Seria possível que... Anne o traíra com o irmão de Beth? Não queria pensar nisso.
Dormir naquele sofá estava sendo horrível, mas preferia não dividir a cama com a francesa naquela noite. Ela iria querer concertar as coisas com ele na cama e Tom não queria isso. Estava nervoso demais para dormir ao lado dela. Virou de lado e descobriu-se até a metade. Estava com calor e todo torto. Aquela não seria uma boa noite e tinha certeza que seria longa... Muito longa.
Anne se desencostou da parede da sala. Seus olhos estavam vermelhos pelo choro. Tom estava nervoso, chateado e o entendia. Maldita hora em que enfiara Mike ali para tratar de Loki. Devia ter recusado qualquer ajuda, porém não conseguia fazer isso. Era impossível negar ajuda para alguém que está com um animal ferido ou doente. Era de sua natureza isso. Era boba demais. Só que não baixaria a guarda. Sabia que não tinha feito nada de errado, não tinha traído-o e muito menos encostado um dedo em Mike. E nem ele nela. Mas Tom não vira e nem acreditara.
Virou-se, voltando para o quarto. Se continuasse daquela forma, poderia manter o relacionamento a diante? Duvidava disso. Ao se deitar na cama e virar de lado, teve um grande desejo de voltar para a França e para o seu trabalho. Só que o amava tanto... Ainda tinha dois meses de férias. Uma lágrima rolou por seu rosto. Não agüentaria ficar dois meses naquela situação com Keifer. Uma pergunta se formou em sua mente: Será que ele a amava mesmo? Da forma como ela o amava? Um relacionamento tinha bases. E uma das bases era a confiança, o que ela percebia que não tinha da parte dele. Doía em seu interior só um olhar de desprezo ou desconfiança dele. Apertou os olhos, mais duas lágrimas se desprenderam. Seu maior desejo era estar bem com ele. Estar deitada naquela cama, sendo esquentada pelo corpo dele. Pelo abraço de Tom. Como fora nas noites anteriores. Não sabia o que faria se descobrisse que ele não nutria o mesmo sentimento intenso que ela possuía. Sentiu dores no peito ao imaginar ele pronunciando as palavras que davam medo a ela: Eu não te amo. Não queria ouvi-lo falar tal frase...
Tentaria dormir... Seria seu melhor remédio para não pensar.
Je t’aime... Moi non plus... Não, ele não podia falar algo desse tipo quando ela dissesse que o amava. Não... Não...
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