Corações Perdidos
16 16. Fantasmas do passado, pt. III
Notas iniciais
A CHUVA CAÍA torrencialmente naquela noite fria e incomum da Califórnia e eu agradecia infinitamente por ter me lembrado de pegar um casaco.
A cidade estava estranhamente quieta; pouco movimento de carros, estabelecimentos vazios e quase nenhum pedestre nas ruas. Não que eu tivesse tempo para admirar a paisagem, uma vez que meu olhar estava completamente focado no veículo à minha frente, buscando nunca perdê-lo de vista, mas é sempre bom reparar no quanto Los Angeles fica linda à noite.
Meu pai já havia me ligado inúmeras vezes, todas elas sem sucesso. Eu já decorara o azul que inundava a tela do celular toda vez que sua foto aparecia no identificador de chamadas. Mas eu não ia atendê-lo, não agora; eu sabia que ele só tentaria me fazer voltar para casa, e isso eu não faria de jeito nenhum.
“Eu te amo, Emma, você e o papai, não se esqueçam disso, por favor”. As últimas palavras de Alice dançavam em minha mente, me deixando ainda mais irritada. Por que ela fizera aquilo? Não havia absolutamente motivo nenhum.
A menos que ela esteja realmente cansada disso tudo, pensei. Todos cansam, em algum momento.
— Droga, Alice! — murmure para mim mesma, dando um tapa no volante. — Por que você nunca disse nada?
Nesse momento, o telefone tocou mais uma vez, só que agora, o brilho no visor era vermelho. Automaticamente me virei para o banco do carona, onde meu celular estava jogado e vibrando incessantemente; me surpreendi ao notar que o nome no identificador não era o de meu pai.
Era o de Alice.
— Imaginei que ligaria — falei, já colocando o aparelho no viva-voz.
— Eu avisei ao papai que não viesse atrás de mim — Alice falou, seu tom demonstrava irritação. — Será que vocês dois não conseguem me ouvir nunca?
— Adam não está aqui, só eu — retruquei secamente. — Você me deve algumas explicações, irmãzinha.
Pude ouvi-la suspirar do outro lado da linha.
— Eu deveria saber que não o ouviria — ela deixou escapar uma risada curta. — Você nunca foi do tipo que segue regras.
Não pude conter o sorriso irônico que se abriu em meu rosto.
— Que bom que dezesseis anos de convivência serviram para te ensinar uma ou duas coisas sobre mim — falei, a voz sem emoção alguma. — Vai me dizer por que está abandonando sua própria família pra viver com alguém que conheceu há três semanas, ou prefere deixar o mistério no ar?
Quase pude vê-la revirando os olhos ao me ouvir dizer aquilo.
— Só depois que você der meia volta e parar de seguir meu carro — ela respondeu. — E se quer saber, são cinco semanas — acrescentou categoricamente.
Olhei através do para-brisa; o sedã preto mantinha sua velocidade constante, sem acelerar — mas eu sabia que era apenas questão de tempo até que isso mudasse, afinal, estávamos em uma rodovia comprida e plana, o solo perfeito para manobras ousadas de velocidade. Se não fosse pela chuva.
É, talvez eu saiba um pouco sobre carros.
Ambas ficaram em silêncio. Nada foi dito durante longos minutos e nenhum movimento precipitado foi feito pelos veículos; a única coisa que me fazia ter certeza da presença de Alice na linha era sua respiração entrecortada e rápida.
— Por quê? — eu me vi dizendo após os intermináveis minutos de quietude. Minha voz saiu mais baixa e falha do que o planejado. — Por que, Alice? Achei que estivesse tudo bem com isso, com o nosso... trabalho — minha voz tremeu ao dizer a última palavra.
Imaginei que ela não houvesse escutado, porque se manteve quieta como estava; mas após alguns segundos pude ouvir sua voz novamente:
— Não era pra mim, M. Nunca foi — ela estava chorando, consegui perceber isso. Preciso admitir, faltava pouco para que eu fizesse o mesmo. — O que nós fazíamos... O que você e papai fazem, isso não é pra mim.
— Então por que disse que gostava? — eu soava estupidamente suplicante, até mesmo para mim. — Me diga, Alice, por que é que mentiu todo esse tempo?
Agora eu estava com raiva. Ela não era obrigada a adorar a vida que tínhamos; embora não tivesse do que reclamar, Alice não precisava gostar de ser uma caçadora. Ninguém precisa amar um trabalho onde se mata criaturas assassinas que deveriam ser fictícias, mas que, ao invés disso, são bem reais e tentam te matar todos os dias. Ela não precisava gostar.
Mas também não deveria fingir.
— Eu... — Alice tentou encontrar palavras, mas estas pareciam presas em sua garganta, impossibilitadas de sair. Provavelmente pela culpa, pensei. — Eu não menti. Eu gostava, realmente gostava. Mas preciso proteger nossa família. E esse é o melhor jeito de fazer isso.
Franzi o cenho, momentaneamente confusa.
— Proteger nossa família? Do que você est... — fui interrompida pelo grito de Alice do outro lado da linha, me assustando.
— Cuidado!
De repente, o sedã preto deu uma girada brusca para a direita, rodopiando na pista encharcada inúmeras vezes. Puxei o freio de mão com tudo, mas isso não impediu a batida, os carros estavam próximos demais.
Aconteceu lentamente. Primeiro o veículo em que Theo e Alice estavam deu um último giro, atingindo o barranco ao lado da pista e deslizando ladeira abaixo; depois o meu carro teve o mesmo destino, batendo em uma placa de limite de velocidade e deslizando em direção ao lago que se encontrava a poucos metros da rodovia, indo direto para ele. Pude jurar ter visto uma silhueta na pista, poucos segundos antes de começar a descer.
A última coisa que vi antes de afundar e perder o fôlego, foi o carro onde Alice se encontrava segundos atrás, pegando fogo em frente a uma árvore, completamente destruído.
***
Você nunca sabe quantos vampiros é capaz de matar em um único dia até ser forçada a isso.
Assim que eu e Dean pusemos os pés além da porta, dois vampiros vieram para cima de nós, as presas afiadas expostas e prontas para o ataque. Dean se encarregou de ambos, enquanto eu me apoiava na parede, já que estava desarmada e me recuperava do senhor chute que Mandy tinha me dado. Se aquela vadia já não estivesse morta, iria pagar bem caro pela dor que eu estava sentindo naquele momento.
— Precisamos te arranjar uma arma — o Winchester disse assim que demos de cara com outro sanguessuga. Dean deu um chute no vampiro e antes que este pudesse se recuperar, cortou sua cabeça em um único golpe. — Consegue caminhar sozinha?
Assenti rapidamente. Ele estava com uma aparência para lá de cansada; a camisa de flanela estava suja e amassada, seu rosto estava ensanguentado e suor lhe empapava as roupas e pescoço. É claro que eu não estava muito melhor, mas foi inevitável reparar.
— Não tem nenhuma adaga aí com você? — perguntei a ele, já que o único facão disponível estava em sua posse e eu não achava possível ele estar levando outro consigo.
Dean balançou a cabeça, negando.
— Não. De qualquer jeito, não seria de grande ajuda — respondeu. Então enfiou a mão debaixo da blusa, retirando-a e colocando em minha mão o que havia pegado: uma 9mm carregada e pronta para atirar. — Toma, isso aqui deve dar para o gasto.
Assenti brevemente e retirei o pente, checando a munição; havia um problema: as balas não eram de prata.
— Munição normal? — eu encarei o loiro com uma expressão um tanto confusa. — O que eu devo fazer com isso? Fingir que mata pra que os vampiros saiam correndo? — ironizei.
Dean abriu um sorriso debochado.
— Se quiser tentar essa tática, tudo bem — disse com sarcasmo. — Mas eu não garanto sucesso.
— Vá se ferrar, Winchester! — praguejei. O loiro apenas riu, sem se importar com minhas palavras.
Dean tomou a minha frente com o facão em mãos, pronto para o ataque. Ao constatar que o caminho estava limpo, acenou para que eu o seguisse. Entramos no que parecia uma sala de jantar — o que diabos uma sala de jantar estava fazendo em um galpão? —, nenhum sinal de luta era visível ali; ainda assim, por precaução, destravei a arma e a mantive preparada para disparar — não era muita coisa, mas era melhor que nada. O loiro correu os olhos pelo lugar, franzindo o cenho, como se duvidasse do que via.
— Eles ainda não chegaram aqui, Sam os está mantendo ocupados — Dean me encarou. — Parece que só aquela ruivinha veio se encarregar de que você não saísse viva daqui.
— Que bom que ela não conseguiu então — falei e o caçador abriu um sorriso. Vi que ao seu lado estava uma divisória, então andei até lá e espiei atrás da parede.
Havia uma escada no fim de um corredor, ao lado do cômodo em que estávamos, onde outro vampiro — um cara negro e alto, com músculos que fariam Thor se encolher de inveja — parecia montar guarda. Cutuquei Dean no ombro, fazendo sinal para que ele se mantivesse calado e desse uma olhada no sujeito.
— Parece que aquele ali vai dar trabalho — o loiro comentou, espiando atrás da parede e sussurrando. Então se virou para mim e falou: — Mire no coração. Somente no coração, me entendeu?
Eu devo ter ficado com a maior cara de sonsa naquela hora. Ia dizer a Dean que as balas normais não surtiriam efeito em um vampiro, muito menos um daquele tamanho, mas o loiro me impediu antes mesmo que eu começasse:
— Confia em mim? — ele perguntou, segurando minha mão. De algum modo, eu sabia que a minha resposta não faria sentido apenas naquele momento, mas futuramente. Respirei fundo, balançando a cabeça afirmativamente. O loiro sorriu; um sorriso lindo e sincero. — Ótimo, então mire no coração, e não entre em cena até ser necessário.
Dean apertou minhas mãos uma última vez e saiu de trás da parede, focando sua atenção no muro em forma de gente que se prostrava no topo da escada.
— Ei, você aí com pose de segurança de estrela do pop! — ele gritou e precisei me segurar para não rir. Eu ainda estava escondida atrás da parede, mas imaginei que o cara houvesse se virado naquele instante. — Você é grande demais para ser só a cadela de guarda, não acha?
Por um momento achei que o tal vampiro não iria dizer nada, que ia apenas atacar e tentar matar, como todos os outros costumam fazer. Mas ao invés disso, ele retrucou:
— Não é um cargo tão ruim — disse, sua voz grossa e áspera exalava pretensão. — Às vezes aparecem alguns petiscos pra se degustar.
Que tipo de caras ainda dizem “degustar”? Fala sério!
— É... Deve ser por isso que você tá com essa forma de ouro — Dean debochou com um sorriso cínico. — Quem sabe não pode me mostrar sua dieta? Parece eficiente.
O vampiro gargalhou.
— Que tal pularmos as alfinetadas e partirmos pra parte em que eu mato você? — ele sugeriu, parecendo confiante em suas palavras.
Mas tudo o que o Winchester fez foi rir, como se aquilo não passasse de uma piada. E eu não duvidava de que fosse.
— E quem vai me matar, você? — Dean perguntou, parecendo mais chocado do que realmente devia estar. — Não me leve à mal, mas eu já enfrentei dragões, demônios e anjos. Comparado a eles, você parece mais um patinho de borracha falante. — Ele ergueu o facão, encarando o vampiro fixamente. — Então por que não deixa de pose e tenta não ser um dos vários idiotas que eu vou matar hoje?
Tudo o que eu escutei a seguir foi o som dos sapatos do outro cara batendo contra o chão enquanto ele avançava em Dean, furioso. O Winchester simplesmente se jogou para o lado, sem muito esforço, e o cara se chocou contra a parede, batendo direto em uma cômoda e partindo-a em duas; aquilo não pareceu afeta-lo significativamente. Ele se virou para Dean, ficando de costas para mim, e desferiu um chute poderoso na barriga do loiro assim que este avançou em sua direção. O caçador foi arremessado de encontro à parede, o que fez com que largasse o facão, que foi rapidamente chutado para fora de seu alcance.
O vampiro caminhou até ele, erguendo-o pelo colarinho e desferindo um poderoso soco em seu rosto, e outro, em seguida empurrando-o contra a parede e impedindo o outro de se defender.
Dean cuspiu sangue e abriu um sorriso teimoso.
— É só o que tem? — debochou. — Vamos lá, senhorita, me mostre do que é capaz.
Isso pareceu enfurecer ainda mais o homem, que levou uma de suas mãos ao pescoço do loiro e expôs as presas imediatamente, se preparando para o bote final.
Não tão rápido, pensei.
— Ei! — gritei apontando minha arma em sua direção. O vampiro se virou para mim, momentaneamente surpreso com a minha presença. — Eu não gosto que ameacem meus amigos, e o idiota que você está tentando matar é um deles — falei, então puxei o gatilho. O disparo ecoou por todo o cômodo, a bala atingindo diretamente no coração. Para a minha surpresa, o grandalhão despencou como uma muralha, instantaneamente inconsciente.
Nem tive muito tempo para pensar nisso, porque corri até Dean imediatamente. O Winchester estava com as costas curvadas e tinha as mãos em volta do pescoço, recuperando o fôlego.
— Machucou muito, princesa? — perguntei e ele me fuzilou com o olhar imediatamente, recebendo um sorriso tranquilo em resposta. Passei minhas mãos em seu pescoço, checando os danos. — Isso vai ficar marcado — constatei. — Está tudo bem?
Dean assentiu lentamente, aprumando o corpo.
— Sim. Você mirou no coração? — ele ofegou.
Fiz que sim com a cabeça, observando o corpo estendido no chão, a poucos metros de nós.
— Ele morreu? — falei, me referindo ao gigante adormecido no meio do corredor. — Achei que balas normais não fizessem efeito em vampiros.
— E não fazem. Essas não são balas normais — Dean abriu um sorriso. — Foram banhadas em sangue do morto. Ele não morreu, só apagou. Mas essa parte eu resolvo agora — ele deu alguns passos na direção do facão caído, mas suas pernas fraquejaram e seu corpo tombou, em um segundo eu já estava ao seu lado novamente, ajudando-o a se levantar. — Droga — o loiro resmungou.
Peguei o facão do chão e entreguei a arma a Dean, que me olhou desconfiado.
— Acho que está na hora de trocarmos os papéis — falei, mesmo sabendo que ele não aprovava a ideia. — Vou na frente, você me dá cobertura, OK?
Ele não pareceu muito feliz com a ideia, mas não apresentou relutância. Passamos pelo corredor e descemos as escadas rapidamente. No andar de baixo havia o que parecia ser uma sala em construção, só que totalmente destruída. Se no outro andar não havia sinais de luta, nesse, eles eram até excessivos; móveis revirados e destruídos, sangue nas paredes e no chão, vidros quebrados espalhados pelo carpete. Torci mentalmente para que Sam estivesse bem.
— Tome cuidado — Dean sussurrou, olhando ao redor. — Pode haver mais deles à espreita.
Concordei com um aceno rápido. De onde estávamos, dava para ouvir mais móveis se partindo e o som de golpes cortando o ar, sinais claros de luta. Olhei para Dean, que concordou com um aceno e então caminhamos na direção da briga.
Infelizmente, fomos barrados mais uma vez. Foi impossível não reconhecer os cabelos loiros e os olhos azuis da minha antiga companheira de... cativeiro? É, acho que posso classificar assim.
Caroline. Fora assim que Justin a chamara — a loira que me fizera companhia juntamente com Mitchell na primeira vez que acordei nas mãos dos capangas desse idiota. E ela estava bem ali, com um sorriso meio macabro no rosto e de braços cruzados, bem na nossa frente.
— Eu sabia que eventualmente acabaria matando um de vocês dois... — ela finalmente disse algo. Sua voz era tão irritante quanto eu conseguia me lembrar — mas os dois juntos? Isso é um prêmio muito melhor — ela riu. — A propósito, senti sua falta, Dean.
Franzi o cenho e olhei para Dean, confusa. Para minha total surpresa, o Winchester estava perplexo, como se não acreditasse no que via. Os olhos arregalados e a palidez em seu rosto apenas confirmavam isso.
— Carol? — sua voz saiu tão desacreditada quanto eu mesma estava. Eles se conheciam?!
E as surpresas não paravam por aí.
Fale com o autor