04 de Abril — Terça-feira

Faltam 363 dias

Sakura Haruno

Tsunade: Sakura… acorde! — ela chamava enquanto batia na porta pela terceira vez — Já são quase oito horas… daqui a pouco Sasuke vem aqui e te leva pro rancho de pijama mesmo!

É, aquele caipira escroto era bem capaz disso mesmo! Vencida pela insistência da governanta, e internamente preocupada com a falta de senso do Uchiha, joguei as cobertas para o lado e fui ao banheiro tomar um banho. Decidi que hoje nem iria me demorar muito, pra ficar o dia inteiro com aquele bando de pirralhos não preciso me arrumar. Só tomei uma ducha rápida, fiz uma make bem leve, só pra dar um up na cara e fui para o meu novo closet abarrotado com as minhas roupas. Eu não sabia se a minha coleção era grande demais, ou aquele closet era muito pequeno, pois as minhas peças estavam todas espremidas, mal dava pra escolher direito. Optei por uma calça jeans branca, uma blusinha de seda caríssima que eu trouxe de Milão e um saltinho quinze básico, porque ninguém precisa saber que o que eu tenho de linda, não tenho de altura né! Apesar de tentar selecionar as peças mais simples que eu tinha, ainda estava bem arrumada demais pra aquele lugar. Mas enfim, ser glamorosa era minha única escolha!

Quando desci pra tomar café da manhã, já preparando meu psicológico pra aceitar aquelas bombas calóricas logo cedo, me deparei com uma figura nova sentada na mesa

Sakura: Quem é você?! — perguntei assim de supetão mesmo

A garota que olhou pra mim me deixou meio estarrecida por um momento. Gente, aquela menina era linda! Parecia uma modelo de capa de revista! Os cabelos na altura dos ombros eram loiros e ondulados, parecia que ela tinha acabado de sair do salão. E os olhos azuis como o céu não tinham um grãozinho de maquiagem. Como ela consegue ter aquele rosto tão perfeito?! Pra minha sorte, ela também não era muito alta — aí seria muita humilhação — e também não era tão magrinha quanto eu, era um pouco mais curvilínea. Ponto pra mim! Quando ela abriu um sorriso, exibindo aqueles dentes branquinhos e alinhados, aí eu tive vontade de chorar. Alguém tira essa garota da minha frente por favor!

Mey: Oi!!! — ela disse animada — Você deve ser a Sakura não é?!

O que?! A Miss Perfeita sabia quem eu era?!

Sakura: Aham…

Antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, ela levantou da mesa e veio na minha direção, me dando um abraço, como se fôssemos amigas que não se viam a tempo. Fiquei sem entender nada

Mey: Que prazer finalmente te conhecer! — falou e se afastou um pouco — Itachi me falou sobre você por telefone… ele me disse que você era linda mas não imaginei que fosse tanto! Que cabelo legal que você tem!

Oi?! Itachi falou de mim pra essa garota?! E disse que eu era linda?! Okei, agora estou perdida de vez! Alguém pode me explicar o que está acontecendo?!

Sakura: Er… desculpe… o seu nome qual é mesmo?!

Mey: Ah… que falta de educação a minha... hehehe! Meu nome é Mey… eu sou noiva do seu irmão Itachi! Nós somos cunhadas!

Opa!!! Para tudo! A Miss Perfeita e Simpatia é noiva do Itachi?! Claro que era! Por que eu estava surpresa?! Itachi também é perfeito e simpático, nada mais justo que ele se casar com uma garota perfeita e simpática! Só que eu sei que Itachi tem trinta e quatro anos e essa garota deve ter o que?! Vinte e quatro ou vinte e cinco no máximo! A mesma idade que eu! Seria mais apropriado que ela fosse noiva do Sasuke não?! Se bem, que aquele jagunço jamais saberia lidar com uma moça como aquela. Aliás, essa pobre coitada deve amar muito o Itachi, pra aguentar um cunhado brutamontes como o Sasuke. Será que ele é grosso com ela e a carrega pra lá e pra cá nos ombros também?!

Mey: Vamos sentar! — ela fala me puxando pela mão para sentarmos na mesa — Eu fiquei esperando você descer pra tomarmos café da manhã juntas! Pra gente papear um pouquinho antes de ir trabalhar!

A única coisa que eu consegui fazer foi dar um sorrisinho amarelo. Aquela garota estava me tratando com tanta cordialidade. O que será que o Itachi falou de mim pra ela?! Será que ele contou o real motivo por eu estar nessa fazenda?!

Mey: Então?! Me conta o que você está achando da fazenda… da sua nova casa. Os meninos estão tratando você bem?! Como era a sua vida na capital?! Nossa eu não estou deixando você falar… me desculpa! Me fala um pouquinho sobre você!

Sakura: Er… bem… — balbuciei meio sem saber o que responder. Será que ainda havia alguma coisa sobre mim que essa garota não saiba?! — Bom… o meu nome você já sabe… que eu vim da capital também… e… que eu sou filha do Fugako ao que parece também sabe…

Mey: Ah… pois é… Itachi me contou. Que história maluca não é?! Fiquei fascinada quando ele me disse que descobriu que tinha uma irmã da mesma idade que eu! Isso é muito emocionante… daria até pra escrever um livro!!!

Sakura: Você acha?!

Mey: Sim!!!

Gente, aquela garota não existia. Ela era tão alegre e radiante. Como ela não sentiu um certo receio com a minha história com os Uchiha. Eu sou uma filha bastarda afinal de contas! Fugako traiu a mãe do noivo dela! Ela achava mesmo que isso era digno de um livro?!

Sakura: Er… bom… eu não tenho muito o que falar de mim! — continuei me servindo de uma caneca de café e pegando um pãozinho francês — Como você sabe… eu vim da capital quando fui informada da morte do Fugako… e agora estou aqui esperando pra ter acesso a minha parte da herança!

Mey: Sim sim… Itachi me contou sobre isso também! — ela respondeu pegando uma fatia de bolo — Ele está bem preocupado com as contas da fazenda agora que a herança está bloqueada… mas aí eu disse que pelo menos tem um lado bom nisso tudo!

Sakura: Qual?!

Mey: O lado bom é que vocês três vão poder conviver juntos e se conhecerem!

Esse era o lado bom que essa garota via em toda essa confusão?! Na minha opinião, toda essa história nem tinha um lado bom!

Mey: A vida inteira vocês ficaram separados por conta desse segredo… mas agora vão poder recuperar o tempo perdido e estreitar os laços de família! Isso não é ótimo?!

Não!!! Isso não é ótimo, isso é péssimo! Essa garota tem minhocas na cabeça só pode! De onde ela tirou esse argumento ridículo?! Eu queria chacoalhar aquela Miss Perfeita, esfregar na cara dela o quanto era horrível pra mim estar aqui! Queria escancarar a minha frustração pra ela ver, mas a única coisa que eu consegui dizer, foi

Sakura: Me passa a manteiga?!

Terminamos o café da manhã e ela se dispôs a me acompanhar até aquela maldita fazenda pra encontrar aqueles moleques ranhentos. Durante todo esse meio tempo, Mey não parou de falar um minuto. Apesar de ela irritar com essa tagarelice, eu não conseguia perder a paciência e mandar ela parar. Algo nessa garota me impedia de ser rude e única coisa que pude fazer foi escutar. Ela contou que já estava noiva de Itachi a dois anos, mas que o casamento estava marcado pra dali a alguns meses. Ela também disse que trabalha como zootecnista da fazenda e antes disso era o pai dela. Também falou que conhece os Uchiha desde pequena e que já era apaixonada pelo Itachi em segredo desde os doze anos de idade

Mey: Eu me declarei pra ele no meu aniversário de dezesseis anos! — ela confessou ruborizada de vergonha — Escrevi uma carta e fiz ele ler na minha frente… quando ele terminou não sabia nem como me olhar direito. Ficou totalmente sem jeito!

Sakura: Eu acredito! — posso até imaginar a cena

Mey: Daí ele disse que isso era uma confusão da minha cabeça… que eu era muito nova… e vários outros pretextos pra gente não ficar junto. Mas eu não desisti! Tentei… tentei… tentei… até que finalmente ele cedeu e começamos a namorar! Ele me confessou que também era apaixonado por mim… mas que tinha medo da nossa diferença de idade! Nada a ver né?!

Sakura: É! — sei lá!

Essa garota continuou falando pelo resto do caminho, enquanto eu lutava pra andar naquele gramado fofo com os meus saltos. Mesmo tendo escolhido um salto bloco dessa vez, que não entrava na terra, ainda assim era difícil de caminhar! Apesar de estar me apoiando em Mey, ainda assim eu virava o pé de vez em quando

Sakura: Ah… mas que porcaria de grama! — resmunguei quando quase caí pela vigésima vez — Por que não mandam asfaltar essa fazenda?!

Mey: KKKKK asfaltar a fazenda?! E o gado comeria o que?!

Sakura: Hump… a cozinheira daquela casa poderia cozinhar para o gado! — sugeri — Aposto que só a mesa do café da manhã de hoje engordaria a boiada dessa fazenda toda!

Mey: Acho que não seria uma boa idéia! Outro alimento que não fosse o trato ou a ração… poderia provocar doenças graves no gado e nos cavalos! Isso sem contar na perda de qualidade da carne e do leite!

Sakura: Urgh!!!

Mey: Por que você não deixa esses saltos em casa?! Se andasse com botas como as minhas… não estragaria seus sapatos.

Assim como todo mundo naquele lugar, Mey também se vestia como Maria Breteira. Camisa xadrez, calça jeans colada, botas e chapéu de cowboy. Gente, isso é muito cafona! Será que ninguém ali vê uma Vogue?!

Sakura: Nem pensar… eu sou uma lady… e uma lady nunca desce do salto… nem no meio de um fim de mundo desses!

Mey: Bem... você é que sabe não é?!

Finalmente, depois de algum sofrimento, chegamos naquele espaço cheio de crianças e animais fedorentos que eles chamam de “Fazendinha”. Mey abriu o portão e deu espaço para que eu pudesse entrar. Na mesma hora, as crianças largaram tudo que estavam fazendo e vieram na nossa direção.

Pedrinho: Tia Sakura… tia Sakura! Cê tá boa?!

Gina: Tá duenti?!

Juca: Num vai mais podê ficá cum nóis?!

Todos aqueles tampinhas me olhavam com o que parecia ser preocupação no rosto. Será que era impressão minha?! Ou eles realmente ficaram apreensivos comigo ontem?!

Mey: Calma molecada… a tia Sakura só teve um mal estar ontem… — ela falou pra eles com calma. Itachi deve ter contado o episódio do desmaio pra ela também — Mas não se preocupem… hoje ela está muito bem e pronta para as atividades… não é tia Sakura?!

Sakura: É… — respondi meio temerosa

As crianças gritaram e comemoraram como se aquela fosse a notícia mais legal do mundo. A inocência das crianças realmente era uma coisa cômica!

Vini: Intão vamu começá logo… temo us cabrito pa dá de comê...

Marcinha: I us porquim da índia...

Lucas: I a paia das codorna pá trocá!

Mey: Eu tenho uma idéia melhor! – interviu chamando a atenção da garotada – Como a tia Sakura ainda não é acostumada com os bichinhos da fazenda… por que vocês não ensinam ela a cuidar da horta e do pomar primeiro?! Daí aos pouquinhos vocês vão ensinando ela a cuidar dos animais também.

As crianças concordaram em uníssono e imediatamente algumas meninas pegaram a minha mão e começaram a me puxar na direção da horta

Ana: Vamu tia Sakura! Vamu cuidá dus pé di ispinafre!!!

Sakura: Mey… tem certeza que essa tarefa é tranquila?! — perguntei encarando a loira por cima do ombro

Mey: Claro que é… você vai se sair bem! — ela disse com um sorriso animado — Bom… eu tenho que ir agora… nos vemos no almoço!

Sakura: Não… espera… você não pode ficar aqui um pouquinho?!

Mey: Não posso… eu preciso ir para o laboratório! Até depois!!!

Aquela palpitação nervosa começou a bater mais forte no meu coração a medida que Mey se afastava. Parece que eu não tinha outra opção! Teria que ficar ali aguentando aqueles pivetes barulhentos.

Durante toda aquela manhã, me vi em apuros. Aquelas menininhas de vestidinho e botas me fizeram mexer naquela horta lamacenta por um tempão, plantei pés de tomate e alface, colhi batatas e reguei os pimentões. O resultado daquelas horas intermináveis foi o esmalte das minhas unhas todo lascado, minha sandália coberta de lama e uma mancha enorme de barro vermelho na bunda da minha calça. Não acredito que eu estava me sujeitando a isso! Quando finalmente bateu o horário de almoço eu parecia mais uma primitiva dos tempos das cavernas do que uma garota da capital! Corri direto para o meu quarto pra tomar um banho e trocar de roupa novamente

Sakura: Argh… como é que vocês conseguem lidar com esse tipo de coisa todo santo dia?! — perguntei saindo do banheiro ainda usando meu roupão — Meu cabelo está cheirando a galinha… minha calça John John está arruinada… e tem tanto barro embaixo das minhas unhas que daria pra aterrar a China!

Tsunade: Não exagera Sakura… — ela falou segurando um risinho — Um pouquinho de barro não mata ninguém!

Sakura: Aff...

Cansada e frustrada, me sentei na cama pra poder almoçar. Assim como no dia anterior, mandei que Tsunade trouxesse o meu almoço até o meu quarto, para que eu pudesse comer sozinha e em paz, ao invés de ir lá embaixo com os Uchiha. Quanto mais tempo eu pudesse passar longe daqueles irmãos idiotas, melhor pra mim!

Tsunade: As crianças disseram que você é engraçada!

Sakura: Huh… deve ser porque eu caí de bunda em cima dos pés de tomate umas dez vezes… — resmunguei em resposta. Minhas nádegas ainda estavam doloridas — Eu não sei o que eles viram de tão hilário! Não achei graça nenhuma nisso!

Tsunade: Não deixe Sasuke saber que você caiu em cima dos pés de tomate!

Sakura: Ué… por que?!

Tsunade: Ele adora tomates! — ela falou — Vai encher seu saco se sonhar que você amassou algum...

Sakura: Hump… estou tão preocupada com isso… acho que nem vou dormir à noite!

Sem nem esperar que aquela governanta sem noção se tocasse, comecei a comer o meu almoço com ela ali, me olhando mesmo. E que baita almoço! Arroz, feijão, frango grelhado e uma saladinha só pra dar um verdinho no prato. E pensar que há dois dias atrás, meu almoço era apenas duas folhas de alface e algumas rodelinhas de pepinos. Quando eu sair daqui, vou ter que me internar na UTI de algum spa pra ver se consigo recuperar meu corpinho

Sakura: Vai ficar aí me olhando até quando governanta?! — questionei começando a ficar irritada com a presença dela — Você não tem horário de almoço não?!

Tsunade: Ah… claro… tenho sim… é só que… — ela titubeou — Sakura… por que você não quis almoçar lá em baixo?!

Sabia! Estava demorando pra ela me perguntar!

Sakura: Sasuke e Itachi estão lá! – respondi com a boca cheia de frango mesmo. Aquela mulher dispensava meus bons modos – E também aquela moça... a Mey…

Tsunade: Ué… e qual é o problema?!

Sakura: Eu teria que socializar… teria que falar com eles!

Tsunade: E o que tem demais nisso?!

Sakura: Argh… mas que saco! — ralhei consternada — Olha aqui governanta… eu não tenho que ficar dando satisfações pra você não ok?! Eu almoço onde me der vontade! Se eu quiser… eu me escondo dentro do armário pra almoçar... tá bom!

Tsunade: Tudo bem… calma… não está mais aqui quem falou! Eu só achei que…

Sakura: Você achou errado! — rebati sem nem esperar ela falar — Aliás… não precisa achar nada! A única coisa que você precisa fazer é trazer meu almoço e janta todos os dias! Agora desinfeta vai! Me deixe pelo menos almoçar em paz!

Tsunade: Okei… você é que manda! — ela respondeu por fim — Com licença!

Fiquei só olhando enquanto a loira de rodeio saia e batia a porta do quarto. Finalmente só! Essa mania dessa mulher de tentar se aproximar de mim estava me deixando nervosa. E como se não bastasse ela, Itachi e Mey também pareciam querer me tratar como alguém da família. Será que eles não entendiam que eu não quero vínculo com eles?! A única coisa que me interessa ali é a herança! Às vezes eu não sei o que é pior, ter que lidar com a cordialidade excessiva deles, ou com a hostilidade de Sasuke!

Sakura: Hump… eu sei o que é pior! — falei pra mim mesma — Ter que ficar o dia inteiro presa naquela fazendinha suja com aqueles pestinhas irritantes!

Graças a Deus aquela semana horrível terminou e finalmente é noite de sábado! Se estivesse na capital, a essas horas com certeza eu estaria em algum salão de beleza luxuoso me preparando pra uma bela noitada regada a champagne até o sol nascer. Em vez disso, eu estava aqui nessa fazenda, deitada na minha cama, olhando para o teto, incapaz de me mexer. Moída era muito pouco pra expressar como eu me sentia depois de tanto trabalho! Essa semana foi uma verdadeira amostra grátis do inferno. Nem os cativos da Segunda Guerra sofreram as atrocidades que eu sofri naquela Fazendinha desumana. Aquela horta e aquele pomar acabaram com as minhas unhas stiletto e eu manchei três peças de grife essa semana.

Sakura: Ai… — suspirei derrotada — Desse jeito não vou conseguir aguentar muito tempo!

Sentindo todos os músculos do meu corpo doer, me viro de lado pra poder olhar o pôr do sol pela parede de vidro da minha suíte e tento me lembrar qual foi o acontecimento mais emocionante daqueles últimos dias. Ah claro, não teve nenhum! A semana inteira se passou e nada de interessante aconteceu. De manhã eu ia pra Fazendinha ajudar as crianças e só voltava ao entardecer. A noite eu só tinha tempo de tomar um bom banho e capotar na cama. Meu sono estava tão pesado, que a mesma posição em que eu deitava era a que eu acordava. Continuei comendo meu almoço e janta no meu quarto, pra continuar mantendo uma certa distância dos Uchiha e dos demais, o que estava dando muito certo, pois quase não tive contato com nenhum deles. As poucas vezes em que topei com Sasuke pelos corredores ou no rancho ele fingia que não me via. Perfeito! Já Itachi, coitado! Ele andava tão ocupado tentando conciliar o trabalho no rancho com a administração da fazenda, que mal tinha tempo de respirar, quem dirá notar a minha pessoa. A única que me abordou sobre o meu afastamento foi a Mey, mas eu desconversei, dizendo que ainda me sentia muito envergonhada pra fazer as refeições com eles. Tsunade eu só via de manhã, quando ela vinha me acordar, depois ao meio dia e a noite, quando ela trazia minhas refeições. Todo santo dia essa Maria Breteira fora da validade insistia em me cumprimentar com bom dia, boa tarde ou boa noite. Como se eu fosse me dar ao trabalho de responder a uma reles empregada! No mais, foram dias monótonos e tediosos.

Mas graças a Deus o expediente desse lugar é só de segunda a sexta. Finalmente hoje eu pude tirar o atraso do meu sono, dormindo até meio dia. A tarde, aproveitei o tempo livre pra cuidar de mim. Transformei essa suíte em uma verdadeira clínica de reabilitação, cuidei da pele, das unhas, do cabelo. Só me faltou alguém pra me fazer uma massagem relaxante. Não foi o dia de princesa que eu merecia, mas pelo menos deu pra dar uma revigorada na minha imagem.

Sakura: Bom… agora é hora dar uma espiadinha nas redes!

Durante toda aquela semana eu mal tive tempo de olhar para o meu celular. Só espiava rapidinho pra ver se tinha alguma ligação da minha mãe, com notícias boas pra mim, mas nada. Nem as minhas mensagens no Whats App ela foi capaz de responder!

Sakura: Mas que megera desalmada!!! — resmunguei incrédula

Como a minha própria mãe teve coragem de esquecer de me ligar?! Será que ela não sabe que eu estou quase morrendo de aflição aqui?! Bom, deixando minha mãe desnaturada pra lá, passei a checar as outras mensagens. No domingo à noite, quando cheguei aqui, fiquei horas e horas mandando mensagens para todos os meus amigos, explicando o motivo de eu ficar as próximas semanas ausente e ressaltando o quanto eu estava triste por isso. Achei que ia chover mensagens de força e motivação no meu celular e ligações desesperadas. Mas não! Só uma amiga ou outra que respondeu com um “Que pena!” ou “Volte logo!”. Dos meus contatinhos, nenhum se dignou a mandar um emoji sequer.

Sakura: Que gente mais sem solidariedade!

Se nas conversas privadas não tinha nada, os grupos por outro lado estavam bombando. Milhares de mensagens do pessoal combinando festinhas e viagens. Fotos e mais fotos da galera nas baladas mais tops da capital e em passeios de iate. Muito legal! Todo mundo curtindo e eu aqui plantando couve-flor! Resignada, resolvi deixar o Whats de lado e entrei no Facebook esperando ver pelo menos alguns comentários fofinhos na minha selfie na bad que postei. Nada! Só um gif ridículo da minha tia avó escrito “Jesus te ama!”

Sakura: Aff tia Carmem… dá um tempo vai!!!!

Droga, olhar o Facebook foi uma péssima ideia! Ainda mais frustrada do que antes, fui para o Instagran, só pra desencargo de consciência e lá estavam elas de novo. As malditas fotos e vídeos dos meus amigos ostentando nas festas e esfregando suas riquezas na cara da sociedade!

Sakura: Argh... desisto! – ralhei quente de raiva largando o celular no criado mudo – Parece que ninguém está sentindo minha falta! Bando de falsos!!!

Como a galera conseguia se divertir sem mim?! Eu sempre fui o centro das atenções nas festas, sempre a mais bem vestida, a mais popular. Nenhum boy passava por mim sem babar no meu shape! Ninguém ousava fazer nem um mísero chá das cinco sem me convidar! Como tiveram a coragem de me descartar tão rápido?!

Sakura: Hump… espera só até eu ficar rica e sair daqui! — falei pra mim mesma ainda olhando a paisagem da fazenda pela vidraça — Vou fazer a festa mais luxuosa da história e não vou convidar nenhum deles! Nem você mamãe!!!

É isso aí! Minha vingança seria maligna! Já podia até imaginar aquele bando de otários implorando por um convite pra entrar na minha festa de retorno bafônica! E eu vou dizer “voltem todos para suas festinhas xexelentas de antes!”. Eu estava tão animada com meu plano diabólico de vingança, que até tomei um susto quando meu celular começou a tocar. Apressada, me sentei na cama e alcancei o aparelho do criado mudo. Minha pressa em atender foi tanta, que nem olhei o número ou no nome na tela, só deslizei o ícone de atender para o lado e falei

Sakura: Alô!

???: Sakura meu amor! — falou a outra pessoa — É a mamãe!

Sakura: Mãe?! — repeti num sussurro. Meu Deus, era verdade mesmo?! Minha mãezinha estava me ligando?! Ai que maravilha! Toda a raiva e a frustração de antes até evaporou do meu peito. Está me dando até vontade de chorar de alegria — Mãe… que bom falar com você… como você está?! Eu estou sentindo tanto a sua falta… tanto… tanto… que nem dá pra explicar! Meu coração não aguenta mais ficar longe de você! Por favor… vem me ver… por favor!!!

Mebuki: Nossa minha filha… como você está carente! Eu hein!

Não sei por que, mas alguma coisa no tom da minha mãe me desagradou. Caramba, a gente estava sem se falar a semana inteira! Como ela queria que eu estivesse?! Meu nó na garganta pareceu se apertar ainda mais depois dessa! Se bem que ela até tinha um pouco de razão, eu estava carente demais. Esse sentimentalismo todo não combina comigo! Com um pouco de dificuldade, engoli o choro e endireitei os ombros recuperando minha autossuficiência, como se ela estivesse ali na minha frente agora

Sakura: Hump… me desculpe! — pedi com a voz mais firme agora — Por que você não me ligou?! Fiquei esperando sua ligação a semana toda!!!

Mebuki: Eu estava ocupada tentando resolver nossos problemas querida! — ela disse — Mas conta pra mamãe… como foi sua semana?! Eles trataram você bem meu anjinho?!

Sakura: Ai mãe minha semana foi horrível! — choraminguei de novo me jogando na cama. E lá se vai a minha dignidade outra vez — Eles me fizeram trabalhar na fazenda todos os dias… tive que aguentar um bando de crianças ranhentas a semana inteira… e ainda por cima… não tem meu iogurte light pra comer de manhã!!!

Mebuki: Ai meu tesouro… meu coração se estilhaça por saber que você está tendo que passar por isso… — aham, sei!

Sakura: Mas você disse que era por pouco tempo lembra?! — é sempre bom recordar! — Você disse que ia falar com aquela sua amiga advogada… pra que eu possa voltar pra casa logo!

Mebuki: Sim sim… e é por isso que estou te ligando! Eu me encontrei com a Gertrudes essa tarde…

Sakura: E o que ela disse?! Disse que tem como derrubar o testamento do Fugako?! Eu já posso voltar pra casa?!

Mebuki: Calma Sakura… deixe a mamãe terminar! — ela rebateu meio seca — Gertrudes ainda está verificando essa questão… mas... ela falou uma outra coisa muito mais valiosa minha filha… algo que nem eu tinha me dado conta!

Sakura: O que?!

O que poderia ser mais valioso do que sair desse inferno?!

Mebuki: Eu contei pra ela toda a sua história… de como Fugako foi um pai ausente na sua infância e na sua adolescência… e que você sentiu muito por nunca ter tido a figura de um pai na sua educação…

Oi?! É o que?! Gente de onde a minha mãe tirou isso?!

Sakura: Mãe… pelo amor de Deus! Fugako nunca foi um pai ausente! — respondi achando um pouco de graça na situação — Você é que nunca deixou que ele tivesse muito contato comigo! E depois… você se casou diversas vezes... a última coisa de que eu senti falta nessa vida foi da figura de um pai né!

Mebuki: Sakura… isso é só um detalhe… não vem ao caso! O que importa é que… diante dessa ausência do Fugako… e do fato de você ser a única filha biológica dele… você pode alegar que se sente lesada em relação aos outros dois filhos dele… que sempre tiveram a companhia e o carinho dele.

Sakura: Hump… tá! — grande coisa! — E o que eu ganho alegando isso?!

Mebuki: Sakura… para pra pensar! Você pode entrar com um processo judiciário… pedindo uma indenização por essa falta…

Sakura: Indenização?! — essa palavra soa bem!

Mebuki: Isso! A Gertrudes já me orientou quanto a isso. É perfeitamente legal… e já houveram vários casos antecedentes! E sabe o que é melhor?! A Gertrudes me garantiu que essa indenização nada mais é que…

Sakura: Que?!

Mebuki: Cem por cento da herança! Aaahhh!!! Não é maravilhoso?!

Sakura: Cem por cento?! – indaguei perplexa – Você quer dizer… que a herança inteira seria minha?!

Mebuki: Isso! Inteirinha! — ela confirmou quase sem conseguir conter a animação — Tudo que foi do Fugako… pode ser seu minha querida!!!

Ok, Sakura, um minuto para reflexão. Se só o um terço da herança que já é meu por direito já era um bom dinheiro, a herança inteira então era uma grana preta! Pilhas e mais pilhas de cédulas verdinhas pra gastar com quantas festas eu quisesse. Eu já estava até vendo uma chuva de dinheiro caindo em cima de mim e um sorriso idiota já estava se abrindo em meu rosto. Mas aí, do nada, um pensamento incômodo assaltou a minha mente

Sakura: Espera… mas daí Itachi e Sasuke vão ficar sem nada?!

Mebuki: Sim… será tudo nosso! — ela afirmou — Quer dizer… como somos muito generosas… podemos deixar eles levarem um cavalo... pra não andarem a pé! KKKKKKKK

Não pude evitar sentir um certo desconforto ao imaginar Itachi e Sasuke indo embora da fazenda de mãos abanando. Durante toda aquela semana eu vi o esforço que eles dedicam ao patrimônio que o Fugako deixou e o respeito com que eles lidam com os peões. Mey até me falou que eles estão ficando toda noite até tarde na biblioteca pra cuidar da parte financeira e administrativa. Não sei bem por que, mas de repente não me pareceu certo que eles percam tudo aquilo que trabalharam tanto pra conquistar

Mebuki: Amorzinho… você está aí?!

Sakura: Hãm?! Aqui… estou aqui! – respondi voltando a realidade – Er… mãe… você acha certo a gente entrar com esse processo e deixar eles sem nada?!

Mebuki: O que quer dizer com isso minha filha?!

Sakura: Quero dizer… eles viveram nesse fim de mundo a vida toda… de repente nós duas arrancamos tudo deles… assim… de supetão!

Mebuki: Mas é claro! A vida toda eles desfrutaram da riqueza do seu pai… e você que é filha de sangue nunca teve nada! Agora as coisas apenas vão se inverter!

É, se fosse olhar por esse lado, ela estava certa! Mas mesmo assim, alguma coisa me deixava com o pé atrás

Sakura: Olha mãe… eu não sei se isso é uma boa…

Mebuki: Sakura… nós duas estamos na pior! Essa é a chance que temos de tirar o pé da lama e nunca mais nos preocuparmos com dinheiro!

Sakura: Eu sei... mas é que daí Itachi e Sasuke vão ficar na pior! — argumentei — Fora que nós duas nem sabemos administrar uma fazenda! Como vamos lidar com isso tudo?!

Mebuki: Nós podemos contratar os dois pra continuar cuidando da fazenda… como nossos empregados claro. Aí eles não ficam na pior e nós ganhamos pilhas e mais pilhas de dinheiro até o fim das nossas vidas! Não seria fabuloso?!

Sim, com certeza seria fabuloso! Mas é fabuloso demais pra ser verdade!

Sakura: Ai não sei mãe… e se esse processo não for ganho?! — tinha isso ainda — É bem capaz desses dois roceiros acharem um jeito de me excluir do testamento como vingança! Aí sim estamos lascadas!

Mebuki: Meu amor… não tem porque ter medo… essa causa já é nossa!

Sakura: Mas…

Mebuki: Nada de mas Sakura! — ela retrucou quase grosseira — O que há com você?! Não vai me dizer que bastou uma semana nesse lugar pra você começar a gostar de viver entre os porcos…

Sakura: Claro que não mãe… ficou maluca?! — falei depressa. Ora onde já se viu?! Eu, gostando de viver nesse lugar — Não vejo a hora de botar a mão no dinheiro e sumir desse buraco de uma vez por todas!

Mebuki: Então faz o que a mamãe está falando… dê entrada no processo de indenização e vamos botar a mão na fortuna Sakura!

Ai meu Deus, e agora?! O que eu faço?! Não acho que seria certo eu abrir esse processo e passar a mão em tudo que é dos Uchiha. Por outro lado, eu também não queria decepcionar minha mãe. Mas se parar pra pensar, que garantia eu tenho de que aqueles dois irmãos não iriam arquitetar alguma coisa pra me excluir do testamento?! Eu não sei, mas alguma coisa me diz que essa ideia de eu ter que trabalhar nessa fazenda é algum truque para que eu desista da minha parte. E do jeito que as coisas estavam indo, isso não ía demorar muito tempo. Se eu desse entrada nesse processo, pelo menos a grana estaria garantida! Era melhor prevenir do que remediar! E mamãe também está certa, eu tenho muito mais direito a essa herança do que aqueles dois caipiras! É isso, está decidido! Vou dar entrada no processo!

Sakura: Tá… você venceu! — falei soltando um suspiro — Mas como eu faço pra dar entrada nesse processo?! Não posso sair daqui... lembra?!

Mebuki: Presta atenção meu amor… já está tudo esquematizado! — nossa, minha mãe não dorme no ponto mesmo! — Gertrudes mandou pra você por e-mail… um arquivo com o documento inicial para a abertura do inquérito. Tudo que você tem a fazer é assinar na última página e enviar pelo correio para o endereço que está no corpo do e-mail.

Sakura: Só isso?!

Mebuki: Só… esse documento que você vai assinar… dá ela plenos poderes pra te representar durante o processo! Ela mesma já vai se encarregar de procurar o promotor de justiça e dar todo o andamento no caso! Nós só vamos precisar nos preocupar em pegar o dinheiro!

Sakura: É mesmo?! – indaguei desconfiada. Isso estava me parecendo fácil demais — E quanto que ela vai cobrar por todo esse trabalho?! Com certeza não vai ser pouco!

Mebuki: Amor não vamos pensar nisso agora… primeiro nos concentramos em ganhar o processo… depois vimos esse detalhe!

Sakura: Ai… tá bom… — ela tem razão, uma coisa de cada vez — Tem um computador na biblioteca… acho que posso imprimir esse documento lá!

Mebuki: Isso vai lá… e não se esqueça de pegar o endereço pra enviar o documento!

Sakura: Tá… eu não vou esquecer! — repeti — Mãe… agora… vamos deixar esse assunto de lado! Vamos conversar um pouquinho… como foi essa semana sem mim aí?!

Mebuki: Ai meu amor… mamãe adoraria conversar… mas vamos ter que deixar pra outra hora! As minhas amigas do Poker estão chegando!

Sakura: Mas mãe… a gente nem se falou direito!

Mebuki: Mamãe precisa desligar agora minha princesa! Até loguinho!!!

Sakura: Tá… er… me liga essa semana! — falei, mas ela já tinha desligado — Te amo...

Soltei um suspiro desanimado e me joguei na cama de novo. É, parece que, diferente do que eu pensava, o mundo não parou de girar só porque eu fiquei presa nessa fazenda. Pelo contrário, parece que as coisas estão indo muito bem sem mim. Mais um motivo pra eu dar entrada nesse tal processo que a Gertrudes falou. E eu precisava aproveitar que hoje os dois Uchiha não estariam trabalhando na biblioteca, pra ir lá e usar o notebook. Sem perder tempo, pulei da cama e corri em direção a saída da suíte. Andando pelos corredores, tive a sorte de não encontrar ninguém. Se bem que nos finais de semana, as empregadas domésticas trabalham em escala e horário reduzido, então eu não precisava me preocupar em topar com nenhuma abelhuda no meio do caminho. Chegando na biblioteca, nem me dei ao trabalho de acender a luz, até porque, a luz da lua já iluminava o suficiente. Só me apressei em ligar o notebook que fica a disposição na escrivaninha de Itachi e entrei no meu e-mail. Lá estava ele! O documento que dava abertura ao processo de indenização! Enquanto as folhas eram impressas, aproveitei pra escrever o endereço da advogada em um post it e em seguida desliguei o notebook. De novo aquele frio estranho se passou pelo meu estômago quando peguei as páginas do documento e uma caneta pra assinar. Será mesmo que eu deveria fazer aquilo?! Será que eu não estava sendo precipitada?! Talvez eu devesse dar uma lida naqueles parágrafos antes de sair assinando qualquer coisa. Se bem que, provavelmente, eu não vou conseguir entender nada do que está escrito aqui. Ainda com os pensamentos divididos entre assinar e não assinar, sou pega de surpresa quando as luzes da biblioteca se acendem!