Corações Feridos
79 Questões do Coração
Notas iniciais
Julie não estava com vontade de sair, ainda mais depois da confusão com a Bia. A única coisa que Juliana queria naquele momento era pegar Bryan em seus braços. Era seu único desejo. Mas ela balançou a cabeça para cima e para baixo. Finalmente respondeu ao pedido de Daniel e ele sorriu de lado. — Vem… — Segurou seu braço e a levantou do chão.
Acabaram um pouco próximos. Ele levantou sua mão para tocar no rosto de Julie, mas antes que pudesse fazer algo ela cortou o olhar e se virou para o lado. — M-mas… Não é assim! Eu tenho todo um ritual antes de sair de casa! — Disse passando pela sala.
Foi até a cozinha e Daniel a seguiu.
- Olha! Quantos cereais espalhados na mesa! — Reclamou. — Eu tenho que ajeitar tudo! E… na verdade, eu também tenho uma lista de tarefas que cumpro todos os dias! — Foi até a geladeira.
Encontrou uma receita com alguns comprimidos e o nome de uma injeção que Julie deveria aplicar em Daniel todos os dias para seu organismo ganhar a proteína e assim, o sangue coagular.
Ela parou, agora olhava concentrada para o papel em suas mãos. Tentava pensar em algum jeito de dar esses remédios para ele sem precisar dizer que ele tinha hemofilia. — Julie? — Ele a acordou.
- Você… Precisa tomar isso! — Ela esticou seus braços e pegou uma caixinha de remédios que estava em cima da geladeira. Daniel olhou curioso para a caixinha, queria descobrir o que era. — Senta. — Ela pediu séria.
Ele se sentou na cadeira, não conseguia entender nada.
- Tudo bem… — Ela respirou fundo depois que abriu a embalagem da injeção descartável. — É só pegar o remédio, colocar na injeção e furar sua veia… Só isso… — Dizia para si mesma, como um exercício de alto confiança. Queria ter certeza de que era capaz de fazer isso.
- O que vai fazer? — Daniel sussurrou.
- Sch… — Mas Julie continuava concentrada. — É fácil… — Sussurrava, deu umas batidinhas na injeção para o remédio misturar. Pensou em fazer igual ao médico. — Relaxa o braço.
Daniel não conseguia entender. — M-mas… Porque preciso tomar isso?
- Anda! Se não perde o efeito! — Ela segurou seu braço. — Tá bom… — Respirou fundo. E por fim furou sua pele com a agulha. Não foi tão difícil. — Nossa, foi rápido… — Estava aliviada. Pegou um algodão para limpar um pouco do sangue que escorria.
Até que sentiu a mão de Daniel sobre a dela.
Lembrou da noite passada. Sentiu um arrepio na espinha, não queria deitar junto com ele. Na verdade, ela pretendia dormir no sofá até Daniel recuperar a memória, mas ontem estava morta de sono e não conseguiu nem pensar direito, acabou dormindo com ele. Não queria que ele achasse que isso ia se repetir todos os dias.
Ela tirou sua mão dali. — Bom, sobre ontem… — Começou. — Eu só dormi lá na cama com você porque eu estava com sono e… — Corou. Daniel estava sério. — E você não tocou em mim, certo?
- Certo. Eu não toquei em você.
- Ótimo. — Ela suspirou se levantando. Daniel só a encarava, ainda sentado na cadeira. — Não sei se isso vai dar certo.
- O que?
- Eu sei que você me pediu uma segunda chance. Mas… Você está sem memória, está confuso também e isso me deixa muito mais confusa ainda. E acho que piora mais a situação. Então vamos deixar as coisas como estão, seremos… Amigos.
- Amigos? — Seu tom de voz estava triste, mas ele sabia que Julie tinha razão. Por isso logo escondeu sua tristeza. — Mas e o bebê?
- A gente cuida do bebê juntos. — Sorriu.
- Então… — Abaixou a cabeça. — Está certo. — Deu um sorrisinho de lado e se levantou. — Eu vou dar uma volta, por aí…
- Sozinho? — Ele assentiu. — E se você se perder? Ou ser assaltado? Sequestrado? Torturado? Morto? Existem tantas formas de você morrer andando sozinho… Pode ser atropelado, ou pode simplesmente ter um ataque cardíaco fuminante e morrer no meio da rua! — Pausou. — E você não queria sair comigo?
- Queria. Mas… Não sei… — Estava chateado. — Você ainda vai se arrumar… Isso deve demorar.
- Não, eu vou assim mesmo, estou bem. Só vou prender o cabelo…- Prendeu suas madeixas com um coque mal feito. Ela também não queria ficar sozinha em casa, afinal, não ia controlar seus pensamentos e acabaria lembrando de Bryan…
[...]
Andavam na rua, Daniel olhava para os pedestres que caminhavam na calçada, lembrou das coisas que Julie disse. O ‘’verdadeiro’’ Daniel não daria ouvidos as loucuras de Juliana. Mas esse era diferente. Não conseguia parar de pensar que as pessoas poderiam tirar uma faca do bolso e o matar. — Hm… — Estava incomodado. Já Julie, caminhava normalmente. Ele também não pensava só em si mesmo, pensava na moça ao seu lado. Era tão linda e delicada… Queria a proteger. — Posso segurar sua mão? — Ele pergunta apertando os passos e se aproximando.
Ela levantou o rosto para ele. — N-não precisa.
- Ah, e… — Olhou para os lados. — Para onde estamos indo?
- Uma padaria. Vem. — Gesticulou com as mãos. — Vamos atravessar a rua…- Atravessaram juntos.
Chegaram na padaria que parecia mais uma lanchonete, era linda, toda colorida e lá se servia tudo! Desde doces à salgados, tinha pães, açaí… Milkshake…
Daniel ficou parado na porta, o lugar era enorme. — Vamos. — Julie o cutucou.
Foram até o balcão, enquanto uma mulher estava sendo atendida Julie olhava para a variedade de lanches e cafés. Sempre tinha dois ou três menus em cima do balcão. Ela estava concentrada, queria encontrar algo perfeito para comer. Já Daniel, estava distraído.
- Deu oito e cinquenta. — Disse o caixa.
- Só um instante… — A mulher revirava a carteira, jurava que tinha algumas moedas ali… — Que droga… — Sussurrou se virando para o lado. E no momento que virou, acabou deixando sua bolsa cair de cima do balcão.
Daniel se abaixou para pegar. — Deixou a bolsa cair senhora. — Ele cutucou a mulher.
Ela se virou depois de encontrar os trocados que restavam na sua carteira.
Deu um sorriso lindo e aberto, Daniel sorriu junto. — Senhorita. — Ela corrigiu. Tinham quase a mesma idade, ela deveria ser apenas dois ou três anos mais velha. — Obrigada. — Pegou a bolsa. — Sou mesmo uma desastrada.
- Que isso, claro que não… — Ele balançou a cabeça.
Agora Julie observava aquela cena. Observava mulher alta, olhos azuis que Julie cismavam que eram lentes, o cabelo batia no umbigo e eram loiros, bem loiros e ondulados. Estava bem arrumada, diferente de Julie que usava uma calça jeans e um moletom. A mulher estava de salto e um vestido florido que batia no meio de suas coxas. Seu jeito e sua aparência lembravam Thalita. E isso deixou Julie mais incomodada ainda. Ela via os dois rindo, conversando e se conhecendo, claro que Daniel puxava todas as perguntas e Julie ficava cada vez mais irritada.
Se sentia minuscula, como um verme, queria que Daniel pelo menos a notasse ali, mas ele estava ocupado de mais babando pela mulher.
Julie pediu um milkshake de morango, até perguntou para Daniel o que ele queria, mas ele não a ouviu e continuou virado para o outro lado. Deixou o dinheiro no balcão e nem se importou em esperar o troco, não aguentava ficar mais nenhum minuto ali.
Foi se sentar com a bebida na mesa do canto, ao lado da janela para poder se distrair. Mas era em vão, ela não conseguia pensar em mais nada a não ser no Daniel e naquela mulher. ‘’ Ela já é alta, para quê usar um salto? Que ridicula. ‘’ — Olhou para os dois. — ‘’ E o Daniel nem para disfarçar um pouco… ‘’
Não pensou antes de agir. Se levantou, deixando seu milkshake ainda cheio na mesa. Foi até o balcão, disfarçou e pegou o troco que o caixa deixou ali. Depois se aproximou dos dois. — Daniel. — Forçou um sorriso para esconder sua raiva.
- Eu tenho um filho de quinze meses… Mas a mãe dele não quer nada comigo. Então não sei direito, me sinto confuso sabe… — Ainda conversava com a mulher.
- Nossa! Como o assunto chegou rápido na vida particular! — Julie o cutucou. — Você não vai se sentar não?
- Ah, oi Julie! Não te vi ai...
- Hm. — A morena cruzou os braços.
- É sua irmã? — A mulher pergunta.
- Não, ela é minha… — Julie não o deixa terminar, ela puxou o seu braço.
- Mas que falta de educação! — Reclamou.
- Falta de educação é me ignorar o tempo todo! — Ela se senta na mesa. — Pode me dar pelo menos cinco minutinhos de atenção?
- Me desculpe. — Pediu alisando a mão de Julie que estava sobre a mesa, ela se soltou, ainda com a cara amarrada. Bebeu seu milkshake. — É que aquela mulher me lembra alguém.
- Hm. Quem será né? — Rosnou.
- Como assim?
- Ela se parece um pouco com uma ex namorada sua.
- É mesmo? — Daniel se virou para trás, a mulher ainda estava no balcão.
Sorriram juntos. Julie revirou os olhos.
- Aqui. — Ele mostrou um papel. — Ela me deu o número do celular.
- Ah, já trocaram números?
- Não. Eu não sei se tenho celular… Então não dei meu número para ela. Só o número de casa.
- Hm. — Ela mexia o milkshake com o canudinho. — E você disse para ela que tem filho?
- Disse. — Sorriu. — Ela me falou que é lindo ver um homem responsável. Julie? — Segurou seu braço depois que a viu se levantar. — Onde vai?
- Quero ficar sozinha. — Se soltou bruscamente e foi até o banheiro.
Se olhou no espelho. Estava com uma cara de sono. Soltou os cabelos, penteando os mesmos com os dedos. Estavam grandes, mas era liso escorrido, fácil de pentear. Lavou o rosto, ficou alguns minutos parada na frente do espelho, tentando entender o que estava acontecendo com ela. Não queria pensar que estava com ciúmes, afinal, se tem ciúmes é porque existe sentimento, e por enquanto ela não tinha certeza se gostava do Daniel com amnésia.
Ela saiu do banheiro um pouco mais ‘’ arrumada ‘’ seu cabelo estava solto e penteado, foi em direção a sua mesa e viu que Daniel tomava seu milkshake. Não se importou, a essa altura já tinha perdido a fome.
Apenas pegou a sua bolsa, não queria passar mais tempo do que o necessário ali. — Onde vai? — Daniel pergunta sem entender sua reação;
- Vou embora… — Ela respondeu o olhando torto.
Daniel se levantou da cadeira. — Eu te acompanho.
- Não! Não precisa! — Estava irritada. — Se quiser, pode ficar ai. Eu não ligo. A moça ali ainda está olhando pra você, vai, faz amizade com ela.
- Você está bem?
- Estou! — Levantou a voz, atraindo a atenção de algumas pessoas. — Estou muito bem e sabe o que mais, eu… Vou pra casa arrumar aqueles quadros nas paredes, eu sempre arrumo eles de três em três dias. Não gosto quando eles ficam tortos, precisam estar bem alinhados! Eu vou varrer o chão e até lavar as roupas do bebê. Eu… Não posso ficar aqui para me divertir um pouco, eu tenho muitas coisas para fazer. — Quando se virou, quase esbarrou em um garçon que passava segurando o menu. Ela passou por ele sem pedir desculpas.
O garçon parou e olhou para trás, reparando na moça que saia. Continuou a olhando sem disfarçar até que Julie passou pela porta e saiu. Ele se virou para frente de novo. Só ai percebeu o olhar assustador de Daniel para ele. Engoliu em seco e voltou ao trabalho.
Daniel ficou preocupado com a reação dela, apesar de não conhecer muito bem o seu jeito agora, ele sabia que Julie estava nervosa. Mas tinha medo dela descontar esse nervosismo nele e acabarem brigando de novo.
Por esse motivo ele voltou a se sentar, tomou o restando do milkshake, mesmo com o canudo entupido de morangos.
- Olá. — A mulher que conversava com ele no balcão se aproximou da mesa.
Daniel sorriu. — Pode se sentar. — Ele pediu, ainda sorrindo.
Ela assentiu com a cabeça e arrastou a cadeira para sentar. Cruzou as pernas e abaixou mais a saia do vestido. — Ela não era sua irmã. — Afirmou.
- Não. — Balançou o canudo para misturar o milkshake. — Diz ela que somos amigos.
- E você gosta dela?
Ele olhou para a mulher, estava sério. Ela até achou que não deveria fazer essa pergunta. Mas ele estava era pensativo, demorou um pouco para responder. — Definitivamente, eu não sei. — Respondeu com muita seriedade. O que deixou a mulher até um pouco sem graça. — Ela é mãe do meu filho. — Explicou.
- Oh. — Corou. — Vocês dois devem se gostar muito.
- Esse é o problema. Não nos gostamos. — Pausou. — Há poucos dias sofri um acidente e perdi a memória. — A mulher se impressionou com suas palavras. — Desde então ela decidiu que só moraríamos juntos para cuidar do bebê. N-não sei se eu gostava dela antes do acidente. Não sei de mais nada.
Se levantou, a mulher ficou o encarando. — Eu vou atrás dela. Ela é um pouco doidinha.
- Ah, claro. — Se levantou também. — Hoje eu estava muito triste, foi bom conversar com você. — Segurou as duas mãos dele. — Obrigada Daniel.
Ele sorriu de lado. A mulher beijou o seu rosto. Um pouco perto dos seus lábios. Dessa vez ela sorriu. Seus rostos estavam próximos. Mas Daniel se afastou dizendo. — A gente se vê outro dia…
Passou por ela. Enquanto passava ainda chingou o garçon em sussurro. Foi para a rua, não sabia muito bem para onde ir, nem o caminho de volta. Mas precisava tentar, apertou seus passos, estava quase correndo na calçada quando entrou em uma ruazinha na qual ele não tinha certeza que era o caminho.
Mas ele teve sorte. Conseguiu cortar uma boa parte do trajeto por essa rua. E acabou encontrando Julie esperando os carros pararem para atravessar.
Ele se aproximou por trás, lentamente. Alisou seu braço e ela saltou de susto. — Daniel. — Suspirou. — Como chegou aqui tão rápido?
- Não faço a mínima ideia. — Sorriu.
Julie o encarou, Daniel continuava sorrindo. — Porque essa cara de sonso?!
- Oi? — Balançou a cabeça. — Não é nada. — Desfez o sorriso. — Só fiquei pensando, na Aline, a mulher que eu conheci. — Julie virou o rosto para o outro lado, tentava ignora-lo mas Daniel continuava a falar. — Ela me disse que é professora de química. Deve ser uma mulher muito inteligente. — Rapidamente segurou a mão de Julie. — Vamos… — Foi atravessando a avenida.
- DANIEL OLHA O CARRO! — Um carro vinha em direção deles, mas Daniel continuava atravessando. — Vamos morrer! — Ela fechou os olhos sentindo seu corpo trêmulo. Ele a arrastou e quando ela percebeu.
Os dois já estavam do outro lado, na calçada. Ela respirou fundo, agradecida por não estar morta ou seriamente ferida. Ela costumava atravessar só quando a pista estava totalmente limpa, sem carro nenhum, as vezes demorava… — Então eu disse para ela. Química deve ser legal. Ai ela riu e perguntou para mim o que era isóbaros. — Sorriu. — Eu não sei o que eu respondi direito, só sei que ela disse que eu quase acertei. — Julie continuava olhando para os lados, queria se distrair com qualquer coisa. — Está me ouvindo? — Ela não respondeu, continuou andando. — O que houve? — Ele a envolveu pela cintura.
Mas Julie tirou suas mãos dali e apertou os passos. — Porque está me seguindo?
- Porque eu sei que você não está muito bem… E eu só queria ficar com você.
Ela o encarou por alguns segundos. Mas abaixou a cabeça em seguida. — Olha, eu estou indo para casa. E eu sei que você não quer ficar preso lá dentro então faça o que quiser, vai dar uma volta por aí, conhecer mais pessoas…
- Mas se você vai pra casa eu também vou. — Conseguiu pegar a mão dela. — É que nem o padre diz, na saúde e na doença. — Sorriu. — É isso mesmo? Eu não lembro direito… — Julie revirou os olhos.
Soltou suas mãos. — É! É isso! Mas não somos casados! — O cortou. — Mas já que quer conversar como foi o seu dia… Vamos conversar! Agora é minha vez de contar o meu. — Daniel parecia interessado. — Não vou falar de mulher mas… Vou falar de homem. Não sei se você reparou, mas eu quase esbarrei no garçon hoje. Tipo, que nem nos filmes! Sabe aquela cena de quando o mocinho e a mocinha se esbarram e algo cai no chão e os dois se agacham para pegar? Daí eles começam a se olhar e se sentem atraídos um pelo outro? Então… Depois que eu quase esbarrei nele… Fiquei muito irritada porque eu deveria ter esbarrado, entende? — Ele estava sério. — Mas mesmo assim eu notei que ele era um homem lindo, não tinha aliança, os olhos eram uma cor de mel, perfeitos. O cabelo lisinho, e o melhor, ele era moreno! Sempre gostei de morenos. E ainda tinha uma tatuagem no pescoço. Era um desenho lindo de uma águia.
- Notou muita coisa. Legal.
- Sou muito observadora. — Sorriu.
- Percebi. Hm.
Julie conseguiu o silêncio que tanto almejava. Daniel agora caminhava calado ao seu lado. Foram para casa e cada um ficou no seu canto. Julie subiu para o quarto e Daniel se sentou no sofá para assistir um pouco de TV.
Ela queria se distrair com alguma coisa e como não conseguiu se divertir saindo com o Daniel, achou que uma boa arrumação nos quadros do quarto ajudaria.
Mas isso só a fez lembrar o que havia se esquecido.
O bebê.
Julie se sentou no colchão da cama. As lágrimas estavam presas nos seus olhos. A saudade era grande. Apesar de ter ficado com o bebê só por um dia, esse tempo foi o suficiente para seu amor materno se acender.
Abraçou um travesseiro e se deitou na cama. Perdeu a noção do tempo que ficou chorando ali.
Passaram meia hora. Daniel estava pensativo também, mas por outra coisa. — Juliana. — Ele sussurrou abrindo a porta. Viu que estava um grande silêncio no quarto e pensou que ela dormia. — Eu queria depois que você me lembrasse do dia do nosso casamento. Os nossos votos. — Se aproximou, percebeu que ela estava imóvel. — Julie? — Tocou nos seus cabelos.
Ela afundou seu rosto no travesseiro. — Me deixe em paz. — Respondeu com a voz abafada.
- Porque está triste? — Ele se sentou no colchão. — Foi algo que eu te fiz? Lá na padaria? Foi porque eu não te dei atenção?
Esse era um dos motivos, porém, ela negou balançando a cabeça.
Sentiu a mão de Daniel sobre a dela, tratou de se soltar. Agora pensava apenas no bebê…
Levantou seu rosto e se sentou no colchão. — Me diz o que houve… — Daniel pediu passando sua mão pelas bochechas dela, secando as lágrimas que Julie notara apenas agora. — Me perdoe, sei que foi algo que eu te fiz.
Ela o abraçou forte. Daniel realmente não esperava aquele abraço, principalmente porque ela o tratou mal o dia inteiro. Julie não pensava direito, ainda estava com raiva dele mas precisava de um abraço para aliviar sua dor. — Eu quero o meu filho… — Sussurrou molhando o ombro do rapaz com suas lágrimas.
Daniel se soltou, ainda tocando no seu rosto e retirando as madeixas molhadas.
Beijou sua testa e pela primeira vez naquele dia ela sorriu. Ele percebeu que Juliana estava realmente triste. Não passou por sua cabeça que um dos motivos da sua tristeza era o ‘’ filho ‘’ deles. Na verdade, Daniel pensava no que aconteceu lá na padaria. — Eu sei que está chateada comigo. Eu deveria ter te dado mais atenção.
Ela abaixou a cabeça secando as lágrimas.
Olhou para ele. — Você gostou da Aline?
Ele demorou para responder. Se lembrou que ficou pensativo assim quando Aline perguntou sobre a Julie. — Eu não sei.
Ela suspirou. — Nós dois sempre detestávamos química. — Pausou. Daniel parecia surpreso. — A professora era chata também… — Resmungou.
- Eu estou muito confuso.
- Como assim?
- Achei ela legal, simpática. — Pausou. — Você não tem muita paciência comigo e eu também não tenho tanta paciência com você… — Parou um pouco. Ele a encarava. — Éramos assim antes?
- Não. — Ela sorriu fracamente. — É claro que a gente brigava sim, como todo o casal normal… Mas… A gente se amava muito.
- Hm. — Ele sorriu de lado. — Como foi nossos votos?
- Ah. — Mordeu os lábios, relembrando. — Você me fez chorar naquele dia. Os meus votos também te emocionou. Eu vi o brilho nos seus olhos. — Pausou. — Eu peguei sua mão, assim… — Pegou a mão dele. — Fiquei brincando com os seus dedos antes de colocar a aliança.
- Queria me lembrar de tudo isso. — Se lamentou.
- Acho que nós temos um video do nosso casamento. — Julie sussurrou mas Daniel acabou ouvindo.
Pensou em pedir para assistir o video, mas tinha medo de sentir alguma dor na cabeça por estar forçando sua memória. — Eu… — Julie soltou sua mão. — Quero ficar sozinha. Por favor. — Pediu.
Ele se levantou. Não disse nada, apenas saiu. Julie voltou a se deitar. Pensava no dia de hoje e de repente as palavras de Bia surgiram na sua cabeça. Seus olhos se enxeram de lágrimas novamente.
‘’ – Isso não vai dar certo. — Beatriz quebrou o silêncio. — E-eu… Estou com saudades! O Félix também, e a Nanda! Julie, ele é o meu filho! Você não pode roubar ele de mim!
– Me dá só mais uma chance, eu vou fazer certo dessa vez.
– Não é questão de fazer certo ou errado… — Suspirou. — Eu… Não confio em você.
– Do que está falando? — Perguntou fraca.
– Existem mulheres que não estão preparadas para serem mães. Você é uma delas.
Julie abaixou a cabeça. — Me surpreende você dizer isso, logo você. Minha melhor amiga. — Ela secou as lágrimas. — Isso me decpeciona de mais.
– Eu sei. É por isso que eu sempre guardei esse pensamento só para mim, mas… Não aguentei. Eu sou uma pessoa sincera. — Passou por ela. ‘’
Ainda estava surpresa com aquelas palavras, não esperava ouvir isso logo da Bia.
Com tantas lágrimas nos olhos, acabou pegando no sono, passou meia hora dormindo ali.
Na sala, Daniel não tinha o que fazer. Tentava encontrar o número da casa de Bia, queria ligar para ela e pedir o bebê de volta. — Beatriz… — Sorriu ao ver o nome dela escrito na agenda.
Pegou o telefone para ligar.
Mas na hora que ia discar os números. O telefone tocou. — Daniel?
Ele sorriu. — Estou reconhecendo essa voz… Parece que estou falando com um anjo.
Aline riu. — Tudo bem? — Começou a puxar assunto.
‘’ Já chega, eu não posso ficar aqui me lamentando… Preciso fazer alguma coisa! ‘’ — Julie pensou determinada, calçou sua sandália e foi até o banheiro, lavou o rosto tentando disfarçar a cara de choro.
Mais uma vez ficou parada na frente do espelho. Mas agora era diferente. — Eu senti ciúmes. — Admitiu. — Preciso dizer isso para ele… Preciso engolir o meu orgulho, pelo menos uma vez na vida.
Abriu a porta do quarto. Desceu lentamente as escadas. Viu que Daniel estava na sala. — Daniel. — Ela se aproximou.
Daniel se levantou. — Huh. — Julie percebeu que ele falava no telefone, lembrou que sua mãe ficaria de ligar e estava com medo de Heloísa contar algo que não devia. — Com quem está falando? — Ficou um pouco nervosa nesse sentido.
- Sch… Juh… Não queria ficar sozinha? — Ele tampou o telefone.
‘’ Está me evitando… ‘’ — Seus pensamentos só a deixavam mais desconfiada. — Com quem está falando? — Cruzou os braços.
- Com a Aline. — Aquele nome e o lindo sorriso de Daniel ao pronuncia-lo deixou Juliana cabisbaixa. — Eu preciso ficar um pouco sozinho.
Ela engoliu em seco. — Claro. Eu… Estou lá em cima. — Suspirou, o olhando triste, ele não percebeu.
Se virou e subiu as escadas.
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