Corações Feridos

71 Eu prometo, tudo ficará bem.


Notas iniciais
Amei todos os comentários, minha internet está caindo um pouco, devo responder alguns agora... u.ú

As duas resolveram ir para casa depois de esperaram meia hora ali. Julie não se sentia bem no hospital, ainda mais sabendo que estava aqui por causa de Daniel. Sua mãe dirigiu, as duas chegaram em casa e Julie disse que Heloísa poderia ficar.

Depois de um banho frio, Julie se deitou na cama e o cansaço venceu todas as barreiras, ela acabou fechando os olhos e involuntariamente pegou no sono.

Um sono que não demorou muito, pois de madrugada ela acordou, ligou a luz do corredor que iluminou quase que a casa inteira. Ela parou ali, encarando o teto e lembrou que foi Daniel quem colocou a lâmpada, foi em um lugar estratégico em que Julie pensou justamente para iluminar a casa quando ligada.

Ela balançou a cabeça e continuou andando.

Desceu as escadas. Foi até a cozinha, abriu a geladeira depois de ligar a luz. Encontrou alguns pedaços inteiros de morangos dentro de um pote de vidro.

Ela pegou, abriu o armário de madeira e pegou o spray de chantilly. Jogou sobre os morangos, fechou os olhos, saboreando as frutas geladas.

– Amor, você quer? — Julie oferece os morangos se sentando no colo do marido, os dois estavam na cozinha, na verdade, os três. Julie estava com dois meses de gravidez.

– Não. — Daniel rejeita educadamente.

– Ah, é?

– É. — Sorri torto. — Você vai fazer o que? Me obrigar? — O loiro pergunta sussurrando com uma voz rouca e provocante nos seus ouvidos.

Julie se virou e discretamente pegou o spray de chantilly que estava sobre a mesa. — Isso! — Ela joga um pouco do chantilly na ponta do nariz dele, os dois riram juntos. — Eu limpo. — Beijou seu nariz. E logo depois beijou seus lábios.

Ela acordou dos seus pensamentos. Olhou para a cozinha, mais precisamente para a mesa onde se sentara. É tão vazio… — Eu faria de tudo para ter você comigo. — Julie abaixou a cabeça e afastou o pote de morangos, perdeu a fome.

[...]

De manhã, Julie acordou cedo, se arrumou, usando uma camisa red hot chilli peppers, um jeans claro e um all-star, ela não curtia muito bandas de rock, mas sabia que essa era a banda favorita de Daniel.

Depois de se arrumar, dirigiu até a casa de Beatriz.

Tocou a campainha com um certo medo de encontrar a mãe da amiga ali, mas precisava muito ver Bia. Precisava falar com ela, sentia saudades.

Não demorou muito para ser atendida. Beatriz quem atendeu. Julie sorriu e Bia sorriu junto, a morena logo reparou algo de diferente na sua amiga. Estava magra.

E segurava um lindo neném nos braços.

– É lindo de mais! — Estava surpresa. Brincou com o bracinho do neném. E alisou seu rosto.

Mas parou com o carinho, encarou o nada, viajando para o passado.

– É lindo de mais! — Disse Heloísa alisando o rostinho do neném que arregalava os olhos. — É tão esperto, olha como ele observa tudo. Deve estar se perguntando ''Quem é essa doida?''

Julie riu. — Que isso mãe.

Heloísa sorria, emocionada com seu primeiro neto. — Ele é a mistura de vocês dois. — Pausou. — M-mas ele é serio, não é?

– Uhum. Ele mau ri pro próprio pai... — Julie comentou.

– O Daniel que costumava ser assim. — A sogra de Julie interrompeu. — Quando era pequeno costumava ser sério, muito sério, até hoje ele é. — Olhou para as duas. — O almoço já está pronto. Não vão se sentar?

– Claro, cadê o Dan? — Julie perguntou o caçando.

– Está na cozinha. — Respondeu dona Marta. — Disse que ia beber um pouco de vinho.

– Julie? — Bia cutucou a amiga. — O que houve? — Ela riu da expressão séria no rosto de Julie.

– Não… — Ela balançou a cabeça e sorriu. — É que o seu neném é muito lindo, me fez lembrar o meu. — ‘’ E o Daniel… ‘’

– Ah! — Bia sorriu toda boba. — Félix disse a mesma coisa, que ele era parecido com o Diego. — Julie sorriu também para disfarçar sua tristeza. — Deve ser porque eu e o Daniel éramos parecidos um com o outro quando bebês… Só que eu tinha cachos pretos e ele cachos loiros, e claro, outras coisas diferenciavam a gente. — As duas riram. — Eu estou muito surpresa em te ver. — Abriu mais a porta. — Entra!

Julie entrou. — Red hot? — Bia estranhou.

– É… só uma homenagem. Para uma pessoa. — Respondeu enquanto entrava

– Hm. — Ela fechou a porta, se sentou no sofá, Julie ajudou pois Bia segurava o neném que era mais frágil que uma pétala. — Posso saber pra quem?

Julie suspirou e se sentou no outro sofá, de frente para a amiga. — Eu não acabei de chegar de viagem, cheguei ontem.

– Mas porque não me ligou?

– Minha mãe me contou sobre o Daniel.

As duas se encararam, Bia se calou. — Porque me escondeu isso?

– Você estava na Noruega.

– Mas eu tinha o direito de saber.

– Minha mãe não queria que eu contasse.

– Desde quando você obedece a sua mãe? Pensei que fosse decidida.

– Também fiquei chocada com o acidente, achei que… Não era muito importante te informar, preferia ficar com o meu irmão. — Se defendeu.

– Eu largaria tudo para voltar e ver ele. — Julie admite séria.

– Me desculpa. E-eu… Sabe… Minha mãe ficou enchendo minha cabeça o tempo todo, disse que você não ia ajudar em nada… Que você queria mesmo é ver o Dan morto. — Julie se surpreendeu com aquelas palavras, afinal, sua ex-sogra já foi uma boa pessoa com ela, no passado. — E eu… Sei lá, achei que você não ia ligar muito.

– Como pode achar isso? — Ela balançou a cabeça. — Eu me importo de mais com o Daniel.

– Eu sei. O que eu quis dizer foi que… Vocês se separaram, talvez você poderia achar que essa seria uma obrigação da Débora. Aliais, antes dele sofrer esse acidente, ele ligou para a Débora e terminou tudo.

– É mesmo? — Julie escondeu o sorriso. — Você sabe o que aconteceu com ele antes do acidente? — há pouco tempo atrás, Bia também fazia a mesma pergunta.

– Sei. Eu e a minha mãe conversamos muito sobre isso. — Pausou, se ajeitando no sofá, viu que seu neném acabou dormindo. — Ela me disse que antes de tudo isso acontecer, o Daniel ia muito para a casa da Débora. — Bia começou enquanto carinhava seu filho. — Mas eles sempre brigavam, sempre. E ela me disse que era por sua causa.

– Minha? — Levantou uma sobrancelha. — Mas porque minha?! — Ficou nervosa.

– A Débora te detesta desde o dia em que ela descobriu que vocês dois eram casados. — Explicava. — E ela falava mal de você. E o Daniel sempre te defendia.

Julie abaixou a cabeça sentindo seu rosto corar.

Isso era a mais pura verdade. Daniel a defendia de tudo. Sempre foi assim, desde quando se conheceram. Ela se sentiu um pouco triste com isso, afinal, era uma demonstração do tamanho do seu amor por ela. A defendia até mesmo da sua noiva.

– Continua… — Julie pediu.

Bia assentiu e continuou. — Na última noite antes do acidente, minha mãe contou que ele chegou e disse que a Débora e ele discutiram de novo, ele não contou o motivo, mas como você estava sempre envolvida, minha mãe concluiu que era por causa de você. — Contava. — Mas quando Daniel chegou encontrou minha mãe rasgando as cartas que você fez para ele.

– Porque ela fez isso? — Julie sentiu seu coração se partir, Daniel guardava muito bem aquelas cartas. Assim como ela guardava bem as cartas dele. — Porque?

– Eu não sei. Ela tem muita raiva de você.

– Acho que ela nunca vai me perdoar… — Sussurrou. — Deixe-me adivinhar, Daniel ficou com raiva?

Bia balançou a cabeça. — Ficou. Muita raiva. — Se virou para o neném em seus braços de novo, suspirou. — A primeira coisa que ele fez foi pegar a moto e ir ao bar.

Julie fechou os olhos, essa era a parte mais dificil. — Ele ligou para a Débora. Vimos no celular dele, as últimas ligações feitas. O número da Débora estava lá, no mesmo dia. E de noite. Foi quando ele terminou com ela. E acho que depois de beber bastante ele foi para casa… Pegou a moto e uma estrada perigosa.

– Já chega. — Juliana pediu. Não aguentava ouvir mais nada. Ainda mais porque Beatriz contava com muitos detalhes. — A culpa é minha então? Porque… Ele discutia com a Débora o tempo todo por causa de mim, ele foi beber por causa das minhas cartas… — Se torturava. — Eu causei o acidente.

– Para Julie, por favor. Já basta minha mãe ficar falando isso no meu ouvido e agora você… — Reclamou. — Se quer saber, acho que você foi a única que conseguiu despertar alguma reação no Daniel.

– Como assim?

– Quando você falou com ele no telefone, bom… Ele já estava em coma.

Julie se arrepiou. — E eu sei o que eu vi. Os batimentos cardíacos dele aceleraram, ficaram fortes. Muito fortes. E foi só você desligar o celular que ele voltou ao normal. — As duas sorriram fracamente. — Sabe, não tenho nada para fazer aqui… Quer ir no hospital?

Juliana levantou a cabeça com aquela proposta.

[...]

As duas chegaram no hospital, Julie dirigiu e Bia precisou levar seus dois filhos pois Félix não estava em casa. Julie sempre parava na porta do quarto dele antes de entrar. Tinha medo de entrar e não gostar do que ver…

Ela sabia que era loucura. Mas tinha medo de entrar e não encontrar Daniel ali. Esse era o seu medo. Bia abriu a porta antes, sabia que Julie estava tensa. As duas viram Daniel ali e suspiraram. Dessa vez, Julie entrou primeiro, ela estava um pouco mais calma do que ontem, afinal, hoje era diferente, elas encontraram o médico e ele disse que poderiam ficar o tempo que fosse necessário.

Bia segurou a mão de sua filha e com a outra, carregava o bebê. Viu que Julie já estava próxima do seu irmão. Ela se aproximou também, viu a amiga engolir as lágrimas. — O médico disse que ele pode ficar bem. — Bia quebrou o silêncio.

– Poder não é o suficiente para mim, eu quero que ele fique bem. — Secou uma lágrima que até então estava presa no seu olho.

– Olha! — Bia sussurrou apontando para o aparelho que mostrava os batimentos cardíacos de Daniel. Estava acelerado, Julie arregalou os olhos com isso. — É sempre assim quando ele escuta a sua voz. — Concluiu e foi se sentar em um sofá que havia no quarto.

Julie continuou ali encarando Daniel. Sua respiração estava calma, seu rosto sereno. Julie acabou se acalmando com isso também. Acabou encontrando ‘’algo estranho’’ naquele quarto. Não era a primeira vez que Julie entrava em um quarto de hospital. Afinal, ela mesmo já ficou em um quando teve seu primeiro filho.

Ela ainda se lembrava da ‘’bagunça’’, sua família quase toda reunida no quarto para ver aquele neném. O pessoal falando no seu ouvido, conversando e dizendo o quanto o bebê era lindo, parecido com o pai.

Julie se perdeu no tempo ali.

O silêncio desse quarto era a diferença. Era… Algo estranho.

– Vocês não conversam com ele? — Julie se virou para trás e perguntou para a amiga.

– Oi? — Ela fez uma careta. — Conversar com quem?

– Com o Daniel! — Exclamou. — Não conversam?! Você não conversa com ele?

– Conversar? — Bia achou um pouco estranho. Daniel estava inconsciente. Porque conversar? — Não. — Balançou os ombros, ainda estranhando aquilo. — Eu… Só digo para ele ficar bem. Digo que queria ele acordado…

– Só isso? Não conta para ele como foi o seu dia? Sua semana?

– Julie. — Ela riu. — Pra quê? Ele não vai me responder mesmo. E-eu… Não sei, nunca tentei isso. É… Um pouco estranho amiga.

– Ninguém nunca tentou isso? O Félix? — Bia negava com a cabeça. — Sua mãe? — Negou de novo.

Juliana se calou, resolveu se virar novamente para Daniel. Foi quando afirmou. — Ele escuta. — Ainda olhava para o Daniel. — Mesmo que ele não responda nada, seria bom se conversasse com ele.

– Mesmo assim, não tenho nada para falar.

– Não? Porque não fala com ele sobre o seu filho? Diz que é parecido com o nosso. Como foi o dia, o que você sente.

– Julie, isso é loucura. — Bia tentou não ri.

– … — Ela suspirou.

Ficaram um bom tempo em silêncio, um silêncio perturbador para Julie. Passaram mais meia hora ali. — Amiga, tenho que ir para casa. Nem fiz o almoço. — Bia se levantou. — Você vem comigo?

– Acho que eu vou ficar. — Ela responde ainda olhando para Daniel.

– Tem certeza? Vai perder a carona.

– Não tem problema… — Balançou a cabeça.

Bia se aproximou do irmão e deu um beijo na testa dele. — Fica bem. — Ela disse. — Mais tarde eu volto.

Julie viu quando sua amiga abriu a porta do quarto e saiu com as duas crianças. Ela suspirou, agora estava sozinha naquele quarto de hospital. Apesar de querer ser enfermeira, Julie detestava hospitais, tinha medo de pegar algum tipo de doença ou coisa assim…

Mas ela precisava ficar ali, sentia uma necessidade enorme de ficar com ele.

Julie arrastou um banquinho e se sentou. Queria passar a manhã toda ali, o dia inteiro.

Pegou a mão de Daniel.

Se sentia tímida de conversar com ele perto da Bia. Ela até agradeceu mentalmente por ela ter ido. Julie ficou alisando a mão dele, com cuidado para não retirar um aparelho que estava conectado no seu dedo indicador.

– Oi. — Ela começou. — Eu… Não sabia do seu acidente quando liguei para você há alguns meses atrás… — Brincava com seus dedos frios. — Se eu soubesse. Eu juro. — Balançou a cabeça. — Eu… Ia voltar para o Brasil na hora. — Pausou. — Eu sei que foi culpa minha. E… — Sorriu fracamente. — Se você estivesse acordado agora, diria que não foi. Mesmo sendo a verdade. — Riu. — Eu sei. Sempre me defendeu. E você me defenderia até de mim mesma. Obrigada por sempre me defender das pessoas que me fizeram mal, e… Obrigada por tentar me fazer desafiar os medos. — Lembrou do seu pavor de moto. — E por me mostrar que as coisas da vida são bem mais fortes que nós… — Suspirou. — É estranho, parece que estou me despedindo. Desculpe, eu não estou. Tá bom? E-eu... Me lembro muito de você, principalmente agora, depois de tudo isso. Eu estava comendo morangos ontem e lembrei de nós dois. — Olhou para o rosto de Daniel. Percebeu novamente sua respiração calma e sorriu. — É... — Pausou pensando em mudar de assunto, olhou para seus cabelos. — Estão cortados. — Pensou alto, afofando os mesmos. — E mais lisos. Eu não sabia que o seu cabelo ficava liso quando você cortava. Bom, eu sei que não foi você que cortou. Foi algum médico, ou até um barbeador. Gosto mais do seu cabelo cacheado, mas assim está bonito também. Fica diferente, nem parece ser você. — Sorriu. — Meus… Dedos passam por ele. Eles não ficam mais presos no seu cabelo como antes. — Desfez o sorriso mas sorriu de volta. — Eu sei que você nunca admitiu, mas você adorava quando eu mexia no seu cabelo. — Se calou por um tempo. — Eu… Estou usando uma camisa da red hot. Sei que você gosta. Foi por isso que eu estou usando. — Pausou, encarando sua roupa. — Acho que essa camisa era sua. Estava lá em casa. — Parou para ouvir a respiração dele. Percebeu os batimentos cardíacos. Estavam mais altos do que antes. Julie sabia que isso era uma coisa boa. Era uma reação, então continuou. — Não é a primeira vez que encontro alguma coisa sua na minha casa. Acho que quando você se mudou deixou algumas coisas lá.

Ela parou de falar novamente, o encarou e viu algo que deixou seus olhos arregalados. Os lábios de Daniel se mexeram, ele sorriu torto.

Julie soltou sua mão com o susto.

Foi o melhor susto da sua vida. Afinal, ele sorriu!

Porém, quando soltou sua mão o sorriso de Daniel desapareceu. — Não… Volta… Sorria, eu… Amo seu sorriso. — Se sentou de novo e pegou sua mão. — Eu só me assustei, não esperava isso. Mas fiquei muito feliz. — Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. — Eu vou chorar… — Julie arrastou o banco para mais perto, quase esbarrando na mesinha com alguns comprimidos, remédios e uma injeção usada. Ela esticou a mão dele e o fez tocar no seu rosto, Julie sorriu com aquele toque, apesar de sentir certo um calafrio pois a mão de Daniel estava fria. — Eu adorava quando você secava minhas lágrimas. — Disse passando o dedo de Daniel perto de seus olhos, limpando as suas lágrimas presas. — Sorria de novo, por favor.

– Olá. — O médico entrou.

– Oi! — Julie soltou a mão de Daniel e se levantou, limpando suas lágrimas sozinha. — Ele… Sorriu!

– É? — O médico sorriu com isso, mas não parecia muito animado. — É normal.

– Mas, ele está em coma…Como isso é normal?

– É normal justamente porque ele está em coma, alguns pacientes abrem os olhos, sorriem e até fazem caretas. Caretas ele nunca fez, mas já abriu os olhos e sorriu também.

– Ah. — Julie se desanimou. — Pensei que ele estava se recuperando.

– Infelizmente não. — O médico disse enquanto abria uma injeção. — Eu ficaria mesmo impressionado se ele começasse a falar ou se mexesse. — Pausou, agora olhando para a morena. — Você é quem mesmo? É a primeira vez que te vejo aqui.

– Sou a ex-esposa dele.

– Ah, claro. — Apontou para ela. — Julie, certo?

– Como sabe o meu nome?! Quem te contou?! — ‘’É algum psicopata?’’

O médico apenas virou o pulso de Daniel, mostrando a tatuagem. — Deduzi.

Ela riu fracamente, agora se acalmando. seus olhos brilharam. — Eu… Já vi filmes em que… Uma pessoa está em coma e recebe uma visita... Especial. Que…Vem visitar todos os dias e… A pessoa acaba melhorando. — Pausou. — Isso pode acontecer? Quer dizer… Eu… Sei que sou especial para ele. — Olhou para o Danel. — Ele gosta muito de mim, sabe? — Pausou, ainda o encarando. — E eu estava viajando, nem sabia desse acidente. Só vim ver ele hoje… Ele… Pode melhorar se eu vir visitar ele sempre?

– Não sei te responder. Isso é muito raro de acontecer. É… Só em filmes.

– Nossa, assim eu perco todas as minhas esperanças. — Pausou. — E… É estranho eu conversar com ele? — As palavras e risadas de Bia ainda estavam na sua memória. Julie se sentiu um tanto boba de conversar com Daniel, pois o mesmo se encontrava inconsciente.

– Conversar? — Ele balançou a injeção. — Sinceramente, isso é bom.

– Sério? — Sorriu.

– Sim. Ele escuta tudo. Ele vai saber que está rodeado por pessoas que o amam. Vai fazer um bem danado para ele.

– E ele… Reconhece minha voz? Passávamos muito tempo juntos.

– Reconhece, com certeza.

– Que ótimo. — Sorriu. — O que está fazendo com a injeção? Ele não pode sangrar!

– Eu sei. — Ele limpava a veia de Daniel antes de aplicar a injeção. — Ele toma isso todos os dias. É justamente para o sangue coagular mais rápido.

– É a proteína que ele precisa?

– Exatamente. — Pausou. — Parece saber sobre o assunto.

– Sei um pouco. — Ela fechou os olhos quando viu que o médico já aplicava a injeção. Julie não gostava de ver essas coisas… ‘’Por isso que ser enfermeira não é para mim… ‘’

– Mas ele continua sangrando. — Disse depois de abrir os olhos. Viu que o furo da agulha começava a sangrar. O médico passou um algodão com um remédio que estava em cima da bandeja. Colocou um curativo, deu umas olhadas nos aparelhos. Estava tudo normal. Ele ia tirar suas luvas e sair quando Julie o impediu. — E como o Daniel está? Bom… O acidente foi grave, além do traumatismo o que mais aconteceu?

– Bom… — Suspirou. — Está vendo o braço direito, está enfaixado, ele quebrou. — Dizia. — A perna está fraturada, algumas costelas também. Ele precisa tomar anestesia para não sentir muitas dores se acordar. E… Além de tudo isso ele ainda teve hemorragias internas, felizmente não foi nenhum órgão atingido. — O médico levantou a blusa que Daniel usava. Mostrando a barriga, havia algumas marcas vermelhas, bem vermelhas, Julie se espantou. — Isso deve sair com o tempo. — Explicou. — Ele também perdeu muito sangue, ninguém pode doar e…

– Porque ninguém pode doar? — Julie interrompeu curiosa.

– Porque ele possui um tipo sanguíneo um pouco… Raro. É O negativo.

Julie se calou. Passou a mão pelo seu próprio peito, sentindo seu coração acelerar fortemente com isso. Ela sabia muito bem quem possuía esse tipo sanguíneo. ‘’ Será que é um sinal? ‘’ — Se perguntava, sem perceber que o médico a fitava tentando entender o seu silêncio. Ela acorda de seus pensamentos, balança a cabeça e volta para a realidade. — E como faz para doar? Iria mesmo ajudar ele?

– Bastante. Ele perdeu muito sangue. — Ela concordou triste. — Para doar precisamos fazer alguns exames para saber se o doador não tem nenhuma anemía ou DST’s…

– Exames? — Ficou nervosa, não gostava de exames. Não gostava de fazer exames, entrar em hospitais.

– Sim. E depois de estar tudo ok, é só colocar a agulha e doar!

– Agulha? — Ficou mais nervosa ainda. — É grande? — O médico assentiu. — Doí?

– Depende se a pessoa for frágil, geralmente em mulheres doí.

– Ai… — Suspirou. — Eu… Tenho o mesmo tipo sanguíneo.

O médico sorriu com isso. — É uma ótima noticia! — Mas Julie estava com uma expressão insegura no rosto. — Vai doar?


Notas finais
Hmmm... Será que a Julie vai ajudar?