Corações
1 Mentiras (E O Que Prim Não Viu)
Notas iniciais
Prim era uma mentirosa.
Lírio já havia dito isso a ela mais de uma vez. Que não confiava nela. E Prim não negou. Tinha consciência disso.
Prim esteve sempre mentindo. Para os outros. Para si mesma. A ponto de esquecer como se dizia a verdade.
Sua mais preciosa verdade ficaria aprisionada dentro de seu peito, o mais profundamente possível, até seus momentos finais.
Prim não foi sempre uma mentirosa. Quando criança, ela sabia ser verdadeira. Espontânea. Se parasse para pensar em quando isso mudou, poderia perceber que foi quando sua mãe morreu. Mas Prim não parava para refletir sobre si mesma dessa forma. Ela já havia esquecido de como dizer a verdade, até para si mesma.
Mas um sentimento verdadeiro não deixa de existir só porque você o ignora. Sem saber reconhecer aquele sentimento, Prim também não sabia como reagir a ele.
Desde que Prim podia se lembrar, Lírio sempre esteve lá. Era natural. Tão natural quanto respirar. Tão natural quanto mentir.
Lírio sempre esteve lá, um ou dois passos a frente. Mesmo sendo mais jovem. Prim era um prodígio em magia, Lírio era melhor. Prim, através de seu próprio esforço e mérito, havia provado ser capaz de comandar tropas. Prim tornou-se General, mas Lírio já ocupava esse posto antes dela.
Prim havia aprendido a ser uma líder, a impor respeito. Mas Lírio fazia isso naturalmente, com a mesma facilidade com que Prim mentia. Lírio era uma daquelas pessoas que naturalmente faziam com que os outros olhassem para ela, a respeitassem, quisessem segui-la. O tipo de pessoa que naturalmente inspirava lealdade.
E, embora não pudesse ser descrita como "leal", Prim não era uma exceção. Como todos os outros, ela inevitavelmente tinha sua atenção presa em Lírio, com uma admiração que ela não poderia evitar, por mais que negasse.
E Lírio não precisava do título de General na frente do seu nome para ter esse efeito. Ela sempre foi assim, desde criança.
Prim praticamente cresceu com Lírio, e a sensação era a de crescer olhando para as costas de alguém.
Lírio sempre esteve lá. Um ou dois passos a frente. Prim nunca teve a chance de andar ao lado dela. E Prim tentou. Tentou insistentemente, e até desesperadamente, mesmo sem entender completamente a razão de tal necessidade.
Se Prim não tivesse passado tanto tempo mentindo para si mesma, negando os próprios sentimentos, ela talvez tivesse entendido a verdadeira razão. Talvez tivesse enxergado aquele sentimento que se entrelaçava com admiração. Talvez tivesse enxergado que não era a inveja que a movia em direção à Lírio.
Talvez, se fosse um pouco mais sincera, ela não teria alimentado a rivalidade entre as duas. Talvez ela não tivesse destruído sua amizade de infância. Talvez ela não tivesse levado as duas a um ponto onde Lírio jamais poderia confiar nela.Talvez não tivesse feito com que Lírio a odiasse.
Porque Lírio a odiava, certo?
Talvez Prim nunca tivesse seus sentimentos correspondidos, de qualquer forma. Já que Lírio amava aquela garota de pele escura e olhos de sonhos.
Mas talvez, se Prim tivesse fosse só um pouquinho mais honesta, ela poderia ter consertado as coisas. Poderia ter evitado as péssimas escolhas que fez. E talvez, apenas talvez, ela poderia ter estado ao lado de Lírio.
Sua amada Lírio.
Mas isso nunca aconteceu. Prim jamais reconheceu o sentimento que guardava dentro de si. Já era natural demais mentir. Para os outros. Para si mesma.
Acontece que Prim tinha medo demais da verdade para encará-la, por um instante sequer.
Prim era uma mentirosa, e uma covarde.
E sua mais preciosa verdade ficaria aprisionada dentro de seu peito até seus momentos finais.
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