Corações
6 Chama Ardente
Notas iniciais
Era uma vez, em um lugar muito distante
Esse é começo de todo conto de fadas que você conhece, eu aposto. Aposto, também, que a grande maioria dos contos de fadas que você ouviu são histórias de amor. Bem, esse não é exceção.
Onde se passa esse conto? Que lugar distante é esse? Bem, esse conto se passa em uma terra onde a magia é inegavelmente e evidentemente real. Onde fadas, dríades, dragões e unicórnios são reais, sólidos e estão tão vivos quanto você e eu. É nessa terra.
É também uma terra em guerra. Uma guerra entre aqueles que possuem magia e aqueles que a temem. Mas esse conto se passa antes da guerra. Ou, ao menos, começa antes da guerra.
É a história entre um guerreiro justo e heroico e uma nobre donzela extraordinariamente bela. Já ouviu essa?
Ela era bela como uma rosa. E, tal como uma rosa, também tinha seus espinhos. Elegante e sensual. Astuta e eloquente. Ela podia não ser a mais poderosa de todo o seu povo, mas era irmã dela. O sangue que percorria suas veias era poderoso, como se fosse feito de pura magia.
Ele era determinado e persistente. Ambicioso. Se ergueria por seu próprio mérito e esforço, mesmo que todo o mundo tentasse derrubá-lo.
Ela era alguém que nasceu para estar no topo, e cresceu sabendo disso. Ele era alguém que escalou incansavelmente até chegar lá.
Não, não é o clichê de como os opostos se atraem.
Esses dois, na verdade, eram bastante parecidos. Ferozes, obstinados, impunham respeito, tinham autoridade. Eles pareciam ser feitos de puro fogo.
Então, eles se apaixonaram. Não é perfeito? Casaram-se. Quer saber se foram felizes para sempre? Bem, eles certamente foram felizes até que a morte os separasse.
Eles tiveram uma filha. Uma linda garotinha que herdou os olhos intensos da mãe e o cabelo macio do pai. E a chama ardente de ambos.
E eles foram felizes. Realmente felizes pelos anos que se seguiram.
Altas posições na hierarquia de seu reino. Eles viviam em um palácio com vitrais feitos de pedras preciosas. Uma torre foi construída apenas para os dois e sua filhinha, com um jardim interno onde ela pessoalmente cuidaria das belas rosas vermelhas com as quais se identificava tanto.
Eles planejaram ensinar tudo o que sabiam à sua preciosa criança, e ensinaram a ela tudo o que tiveram tempo de ensinar.
Essa felicidade, digna de contos de fadas, foi destruída de forma abrupta. A bela rosa fora ceifada.
O reino lamentou sua morte, mas ninguém lamentou mais do que aquele com quem ela tinha se casado.
O assassinato causou uma agitação crescente. A justiça não foi feita, não houve reparação. E a mulher implacável com o poder de uma rainha não perdoaria a morte de sua irmã.
Dessa forma, a guerra foi declarada. Sinto muito, esqueci de avisar que era essa a história que eu contaria.
O guerreiro que perdeu sua amada rosa tampouco poderia perdoar. O fogo de sua ira não poderia ser aplacado. Era capaz de incendiar reinos, reduzi-los a cinzas.
Ele certamente não deveria se arriscar entregando-se às batalhas, uma após à outra, certo? Não deveria liderar seu povo em uma guerra. Não deveria mergulhar em um caminho de vingança, permitindo que a vingança o consumisse.
Ele definitivamente não deveria fazer isso. Afinal, ele tinha uma filha pequena que perdeu a mãe. A menina precisava do pai. Precisava do pai presente e vivo.
Mas foi exatamente o que ele fez.
Talvez a morte de seu o amor o tenha deixado ferido demais, despedaçado demais, para sequer pensar em seguir em frente. Ou no futuro, dele e da filha. Para pensar em qualquer coisa que não fosse a morte da rosa. Sentir qualquer coisa que não fosse a dor profunda cravada em seu peito, e a ira ardente que irradiava.
Talvez ele tenha feito isso pela garota. Para que ela soubesse que sua mãe era alguém por quem valia a pena lutar. E que seu pai não era um covarde.
Talvez ele apenas buscasse, inevitavelmente e desesperadamente, uma forma de se juntar à sua amada sem trazer vergonha à sua família.
Se era essa a razão, ele conseguiu o que queria. Morreu como um guerreiro e como um herói, cobrindo a garota – agora órfã de mãe e pai – de glória e se reunindo à bela rosa.
A menina foi deixada para trás. Não sozinha: ela tinha sua tia. Mas como a única descendente de seu pai e de sua mãe. A garota que herdou os olhos intensos da mãe e o cabelo macio do pai. E a chama ardente de ambos.
Ela tinha um legado a proteger. A memória de duas pessoas que não poderiam ser substituídas.
Ela poderia suportar o fardo. Afinal, sua chama ardia mais intensamente do que qualquer outra.
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