Coração é terra que ninguém vê
6 Ombro amigo
Notas iniciais
Clark permanecia de cabeça baixa, perdido em seus pensamentos, quando percebeu que Diana estava mudando de posição, direcionando a atenção ao local onde ele estava. Como de costume, ele recebeu seu olhar com um largo sorriso, que Diana, ao contrário de Bruce – e muitas vezes até de Lois – apreciava profundamente. Fosse num momento ruim, fosse em um momento de descontração, ele encontrava no olhar de Diana o sentimento de satisfação que ela lhe dedicava quando ele lhe sorria. Para Bruce, além de desnecessário, o semblante sorridente de Clark era, por muitas vezes, irritante – mas de modo incompreensível, Kent nunca observou a desaprovação de Bruce como um indício que maculasse a amizade dos dois. Já para Lois, ele sabia que, embora ela o amasse (o que incluía seu sorriso), muitas foram as vezes em que ele percebeu os olhares de desaprovação dela ao vê-lo sorrindo. E, ao contrário do que muitos pensavam dele – tomando-lhe por ingênuo, tímido e desligado – ele compreendia exatamente porquê isso e quando a incomodava. Na verdade, fora a partir desse entendimento que ele fora capaz de interpretar várias outras reações, comportamentos e sentimentos de Lois para com ele.
Ela gostava do seu sorriso quando eles estavam sozinhos, quando estavam com a família ou amigos mais íntimos; nas situações informais, nos momentos de descontração... Mas era perceptível para todos que os cercavam – quando eles tinham companhia – quando ela estava incomodada com ele. E o que começara com um sentimento de incômodo com seu sorriso ou sua risada, logo foi progressivamente alcançando sua postura, seu modo de agir, suas palavras... E ele logo percebeu do que se tratava: Ela amava o Superman e tudo que ele representava – a força descomunal, o altruísmo desmedido na proteção dos inocentes, a firmeza nos discursos que proferia ao redor do mundo, mediante autoridades e líderes, e obviamente, a beleza perfeitamente esculpida daquele a quem muitos consideravam um deus entre os homens.
Clark sabia de como ela intimamente o comparava ao Superman e, não poucas vezes, pensou em contar-lhe a verdade sobre quem era. Mas até agora nunca se dispôs a revelar-se, porque queria protegê-la e proteger sua família das consequências trágicas que poderiam acontecer caso sua identidade não fosse bem guardada. Mas diferente de Bruce, não porque tinha medo que seus inimigos lhes fizessem mal para atingi-lo (claro, havia tal possibilidade, mas era numa proporção muito menor do que no caso de Bruce), mas porque ele não estava seguro sobre como o mundo o receberia sendo quem é, com o poder absoluto que possuía em si mesmo, inclusive ela... Seu temor era a rejeição do mundo, a manipulação de seus bons propósitos para com a humanidade por meio de governos corrompidos e, claro, seres que fossem capazes de obrigarem-no — manipulando sua mente — à cumprir seus propósitos escusos.
Ele olhou pra Diana novamente e, como de costume, não esperou uma licença verbal para entrar. A intimidade entre eles já era grande o bastante pra que ele tomasse algumas liberdades. Então, entrou e fechou a porta, já imaginando que ela iria querer privacidade.
Sentou-se no canto inferior da cama, dando-lhe seu melhor olhar afetuoso — como se dissesse: 'estou pronto pra ouvir' — e sentiu a leve tensão muscular emanada pelo corpo dela, como se a aproximação dos corpos causasse uma onda elétrica... Ao vê-lo sentar-se, ela logo arrastou-se de onde estava, de maneira preguiçosa, adiando o inevitável e sentou-se próxima a ele, com uma proximidade não tão grande, apenas a ponto de emparelharem seus ombros com o do amigo kryptoniano.
Ficaram na mesma posição por mais alguns minutos, ambos em silêncio, à espera do melhor momento para dizer o que quer que fosse. À espera do momento em que um dos dois terias as palavras certas a serem ditas. Tudo que compartilharam por um tempo foram um conjunto de respirações compassadas e inaudíveis, não fosse a super-audição que ambos, ironicamente, possuíam.
(...)
Apesar de estar ciente de que não voltaria atrás em sua decisão de ajudar Bruce, mesmo contrariando seus instintos e a sabedoria ética de sua personalidade, que só a permitia agir se estivesse segura de suas ações. Não é que ela não cometesse erros, ou não estivesse à mercê de decisões equivocadas, que levaram a resultados negativos. A questão é que a princesa de Themyscira não agia com medo de suas ações ou de si mesma. Certas ou erradas, suas decisões eram forjadas no entendimento sadio e equilibrado entre os conselhos de seu coração e sua mente. E agora, pela primeira vez, não conseguia encontrar qualquer conselho que viesse de ambos... o coração estava com medo e a razão parecia confusa.
Ao ver seu amigo aproximar-se, instintivamente, embora ainda inebriada por um temor do que virá a seguir, ainda sofrendo tensões involuntárias dos músculos, sentiu a necessidade de estar junto dele. Sob a afetuosa justificativa de que ele estava aqui para protegê-la e também estaria lá para ela, nesta empreitada com Bruce. Então imediatamente pôs-se ao seu lado, sentindo seu perfume leve de garoto do Kansas assumir notas mais fortes e densas para o sentido.
Queria desesperadamente deitar-se sobre a cama, colocando a cabeça no colo de seu melhor amigo, para mais uma vez receber dele os afagos que tantas vezes foram capazes de confortar-lhe o coração, levar embora as lágrimas e trazer-lhe a paz devida. Mas logo demoveu-se do propósito. Não era hora de entregar-se ao relaxamento e ao encontro da paz. Era hora de tomar uma decisão difícil. E a melhor maneira de evitar a conversa que ela sabia que Kal um dia lhe exigiria, foi encurtar a distância sem a intimidade que lhes cabia.
Ao lado dele, Diana permaneceu olhando fixamente para frente, sem estabelecer conexão com algo especificamente. Tudo que ela queria era poder desviar seus olhos de Clark. Mesmo que muito embora eu percebesse que ele estava olhando para ela, com a cabeça virada em sua direção, buscando justamente seus olhos.
— Tudo bem, Kal! Vocês podem contar comigo – revelou, quebrando o silêncio após um longo suspiro e numa tentativa desesperada de não estender a conversa, sabendo o tipo de questionamento que viria a seguir.
— Você não vai nem ao menos me perguntar sobre o plano? Não vai questionar sua participação? Não vai sequer lançar mão da sua maravilhosa teimosia, Diana? – Disse o kryptoniano, com os olhos fixos sobre ele, numa tentativa de alcançar seus olhos azuis e decifrar o que ela estava sentindo?
— Não, Kal... Não será preciso! – Disse secamente, enquanto lutava para manter a serenidade na voz. – Mas não pense que há algo errado por esse motivo – completou, ao perceber que sua tentativa de encerrar o assunto só serviu para dar ainda mais margem às dúvidas de seu amigo com relação a ela e Bruce – Na verdade, eu simplesmente meditei sobre suas palavras de que Bruce jamais me envolveria em algo que não fosse estritamente necessário, ainda mais quando envolve uma atividade criminosa. Ele costuma agir sozinho e não abre mão para exceções. Se ele o fez, ainda mais considerando a participação de alguém que notadamente seria a última pessoa com que ele desejaria trabalhar, é óbvio que se trata de um problema com resultados catastróficos.
A resposta sábia, do ponto de vista lógico, a voz tranquila e a postura equilibrada de Diana convenceriam quem quer que fosse. Mas não Kent... Não porque fosse uma desculpa esfarrapada. Pra ser honesto, Clark acreditava piamente em cada palavra dita por ela. Aquilo não era mentira, até porque ela não mentia. Ele sequer lembrava qualquer ocasião em que ela tivesse mentido para ele ou quem quer que fosse. Mas embora verdadeiras, as palavras continham muito mais sob sua superfície e isso o incomodava profundamente.
— Diana, você confia verdadeiramente em mim? – perguntou, usando um tom de docilidade ainda maior do que o normal para não afastá-la.
Diana balançou levemente a cabeça, em sinal silencioso de afirmação, quase que com medo do que teria de enfrentar, mas depois de um par de longos suspiros, encheu-se de coragem para olhar-lhe nos olhos.
— Então encontre uma maneira de me dizer o que lhe aflige! – Ele pediu, lançando-lhe um olhar reconfortante que demonstrava todo apoio que ele estava lá para lhe dedicar. – Eu imagino que deva ser algo íntimo e pessoal. E imagino que tenha a ver com Bruce, tendo em vista todos os sinais que vocês emanam para quem quer que seja, de que há mais sob a pele que os afeta. – Afirmou de uma vez, pra não correr o risco de desistir, mas tentando não pressionar demais assuntos que visivelmente a incomodavam.
Clark pensou em continuar falando, mesmo porque ainda tinha muito a dizer e esperava encorajá-la a se abrir. Mas resolveu dar-lhe uma breve pausa para que ajustasse os sentidos e o coração, que já estava novamente acelerado. E, após alguns minutos, prosseguiu:
— Eu não preciso que me diga o que houve entre você e Bruce. Não preciso que detalhe absolutamente nada, porque a amo e respeito suficientemente para não exigir-lhe absolutamente nada que venha a provocar rachaduras em seu coração, Diana. – Continuou, estendendo-lhe os braços para abarcar-lhe o corpo. – O que para mim era uma desconfiança que havia algo mais, depois de hoje, ao ver você assim, tão frágil depois que lhe propus nos juntarmos ao Bruce, me levou a crer que a profundidade dos sentimentos é muito maior do que eu supus. E sendo muito honesto, Diana, como sempre fomos um com o outro, eu pensei em perguntar-lhe incisivamente toda história que os envolvia, mas eu sinto que não posso. Sinto que se eu forçá-la a reviver essas lembranças e sentimentos, algo pode se romper. Porque apesar de não saber o que é, eu sinto que o laço que sustenta o que você sente está frágil e rompê-lo há de fazer mais mal do que bem.
(...)
Diana entregou-se ao abraço de Clark com uma avidez e nível extremo de força empregada que por si só já indicava sua urgência e necessidade de conforto. Dirigindo aos deuses uma silenciosa oração de agradecimento por seu amigo estar lá e por suportar, sem desconforto, toda força que ela empregara num abraço, afim de obter, através da liberação de energia, algum tipo de alívio para as tensões musculares que voltaram ainda mais fortes que antes.
... e assim permaneceram por quase uma hora, mergulhados em seus respectivos silêncios, à portas fechadas e luzes apagadas, iluminados apenas pela luz da lua, que agora já havia tomado o lugar do sol e lançada inadvertidamente seu brilho pela janela.
Enquanto Diana procurava ouvir as tranquilas batidas do coração de Kal através de seu abraço, na tentativa de harmonizar o seu próprio coração acompanhando o ritmo sereno do homem de aço, ele se detinha na gentil tarefa de afagar-lhe os cabelos, deixando-se, não raras as vezes, durante aquela interminável hora, entorpecer-se pelo perfume inconfundível de jasmim que brotava deles à medida que desenrolava-lhe as mechas. Perguntando-se, em dado momento, o que estava sentindo? E porque aquele sentimento lhe parecia tão diferente daquilo que sempre sentiu por ela.
Cansada de postergar o inevitável, ela mudou de posição e sentou-se novamente na cabeceira da cama, tomando uma certa distância de seu amigo. Não porque não quisesse carinho ou colo, mas porque sabia que mergulhar-se nessa oferta de cuidados só a deixariam mais frágil. Contudo, resolveu deixar as luzes apagadas, no intuito de se sentir menos envergonhada quando começasse a chorar.
E antes que Clark retomasse o foco da conversa ao perceber que ela estava pronta para continuar, para surpresa dele, foi ela quem decididamente rompeu o silêncio entre eles, em um tom de voz que estava longe de sugerir qualquer fragilidade emocional.
— Em primeiro lugar, quero que você saiba que confio profundamente em você para compartilhar um momento da minha vida que, como você bem interpretou, é muito íntimo e pessoal. – revelou a princesa, sob os olhares espantosos do amigo ao seu lado, que tentava entender como ela conseguiu desfazer-se da melancolia, oferecendo-lhe um olhar livre de medo. – Contudo, tais acontecimentos não envolvem apenas a mim, mas também outra pessoa, que você também já deduz quem seja e que tem direito à sua privacidade. De modo que eu gostaria que você o consultasse a respeito disse e, obviamente, perguntasse a ele se não há impedimentos. Caso ele se negue a autorizar-me a dizer o que quer que seja, nós encerramos aqui nossa conversa e NUNCA, JAMAIS, retornaremos a ela. Certo?
— Essa é a condição para você se abrir comigo, Diana? Porque se for, eu aceito de bom grado! – Perguntou de forma decidida. – Mas fique ciente de que não a estou pressionando. Porque eu não quero que tome nenhuma atitude precipitada e se arrependa depois. Você não precisa me dizer nada que não queira... só queria entender o que você sente para tentar ajudá-la.
— Está tudo bem, kal. Eu estou bastante consciente das minhas palavras. Tão consciente que me atrevo a pensar que talvez essa seja a forma de me libertar da dor e da mágoa que eu carrego e finalmente não odiar mais o Bruce. – afirmou sem emoção na voz, embora seus olhos parcamente iluminados pela lua revelassem um profundo lacrimejar. – Apenas o procure. Diga-lhe que aceito a proposta e farei parte da equipe. Que estou disposta a colaborar e seguir suas ordens sem questioná-las ou me opor a elas... e, se julgar prudente, fale sobre o que conversamos e pergunte se ele não se incomoda com o fato de eu revelar a você o que aconteceu conosco.
Clark assentiu depois de um longo abraço, onde ele pode sentir sobre o peito a umidade das lágrimas torrenciais que ela estava liberando... e levou consigo a esperança de que podia ajudar a ambos os seus melhores amigos!
(...)
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