Coração é terra que ninguém vê
30 O baile
Notas iniciais
Diana!
O encontro de seus olhos durou apenas um breve instante, mas pareceu durar pela eternidade. Bruce captou a dor de seus olhos azuis, que brilhavam de antecipação às lágrimas. Ele teria preferido tomar uma surra de Bane à ser o causador da tristeza no olhar da mulher que ele amava.
Diana elegantemente engolira todas as suas emoções e cobriu a decepção que experimentou com um sorriso régio divino, desviando os olhos para o garçom e servindo-se de uma taça de champanhe. Ela ouviu cada palavra de Bruce e Selina em seu jogo de sedução, enjoada com o cinismo de ambos.
Bruce não percebeu quando ela se aproximou. Ela nem deveria estar lá. Ele sempre foi cuidadoso ao certificar-se de quem estava nas listas de convidados de tais eventos. A paranoia do Batman sempre o manteve alerta para se antecipar a quaisquer eventualidades e evitar surpresas. O nome dela não estava na lista – se estivesse, ele jamais teria ido acompanhado, muito menos por Selina – mas o do agente Tresser sim. Foi quando ele percebeu que Nêmesis estava de braços dados com ela, trazendo-a como acompanhante.
Ninguém notou a tensão entre eles, exceto Lois, que conhecia ambos. Bruce fez um agradecimento silencioso com o fato de Selina não ter-se envolvido em uma briga de egos com Diana – apesar de ele duvidar que Diana entraria no jogo de Selina. Surpreendentemente, com a chegada da princesa, Selina pediu licença e seguiu para o salão, posteriormente distraindo-se em uma conversa animada com um rico advogado nova-iorquino. Bruce então poderia dirigir sua atenção à princesa.
‘É bem mais fácil encará-la quando estou com o capuz’, ele pensou. ‘Santo Deus, ela estava absolutamente deslumbrante’, ele engasgou enquanto seus olhos percorriam as perigosas curvas da amazona. Ela usava um vestido assinado por Carolina Herrera, preto, de seda. Além do decote generoso, uma fenda ampliava-se perigosamente quando ela se movia, revelando as longilíneas e torneadas pernas de uma deusa grega.
Bruce tentou, em vão, disfarçar o olhar de cobiça sobre ela, mas especialmente naquela noite, a beleza e sensualidade de Diana não o permitiram. Ele tentou reprimir seus instintos, para não ofendê-la com os olhares luxuriosos, mas lembrou que estava no papel do milionário fútil e sentiu-se aliviado porque seu comportamento inadequado era condizente com o personagem.
Ele a vira circular pelo salão em companhia do agente Nêmesis. As linhas ondulantes do longo vestido deixavam nele a impressão de que ela flutuava ao redor do ambiente. Bruce observou-a enquanto ela conversava com políticos, empresários, comissários de vários departamentos de Polícia e homens comuns da Lei. Numa das conversas, ele a ouviu dizer que os policiais comuns, que estão nas ruas, arriscando diariamente suas vidas deveriam ser mais valorizados, porque eram os verdadeiros heróis.
Bruce esperou pacientemente pelo momento certo, quando ela eventualmente, iria pedir licença as seu acompanhante e tomaria seu caminho para um isolamento momentâneo, como era de costume em todos os eventos em que ela estava presente. Ela caminhou graciosamente para uma varanda isolada no primeiro andar e ele a seguiu sorrateiramente. Era óbvio para ele que o que ela procurava um pouco de solidão, mas essa era a chance que ele tinha de falar com ela.
Ele olhou ao redor para certificar-se de que Selina não o observara. Para sua sorte, ela estava envolvida em uma conversa animada não só com um ‘novo amigo’, mas vários senhores endinheirados, encantados com ela. Então ele se dirigiu à varanda.
(...)
Diana estava absorta em seus pensamentos, olhando para o horizonte, com os cotovelos apoiados no parapeito da varanda, de costas para Bruce. Gotham era uma cidade escura, mas as luzes artificiais em contraste com a noite promoviam uma visão encantadora. Ele decidiu observá-la em silêncio, antes de ir até ela. Bruce queria preencher-se com a visão da mulher mais linda que já conhecera banhada pelo brilho perolado da luz da lua, que se derramava sobre ela, como se lhe prestasse uma homenagem.
Quando ela mudou-se de posição, erguendo regiamente a coluna e enrolando as mãos em torno da grade de ferro que circundava os limites da varanda, ele decidiu aproximar-se. Ele viu a brancura dos dedos agarrados à grade, tensionados, prendendo a circulação sanguínea. A reação era um sinal de que ela sabia que ele estava bem atrás dela.
Bruce silenciosamente colocou-se ao seu lado e cobriu carinhosamente sua mão esquerda com a dele. Ela olhou para o enlace de suas mãos por um bom tempo, em silêncio. Quando deixou seu transe, Diana suspirou suavemente.
Ele afagou a mão da princesa com um gesto de delicadeza, como se ela fosse muito frágil e quebrasse com facilidade: – Eu não sabia que você estaria aqui, princesa. Você está absolutamente linda. – Os olhos de Bruce se iluminaram diante dela.
— Eu recebi um convite de última hora... – Ela disse suavemente.
Ambos ficaram em silêncio por alguns momentos até que ela voltou os olhos para suas mãos, ainda entrelaçadas.
— Eu pensei que você não queria um relacionamento, Bruce. Cheguei a acreditar que você estava sacrificando a nossa felicidade por um propósito, por causa da promessa que você fez a seus pais, pela sua missão. Que você não nos deu uma chance pelo mesmo motivo... – Ela suspirou profundamente, buscando fôlego – mas agora eu vejo o quanto eu me enganei... Não é a impossibilidade de um relacionamento... – O olhar dela estava carregado de dor, mas a voz era suave e serena – Sou eu, não é Bruce? É um relacionamento comigo que não é possível.
— Diana, eu... sinto muito. Por favor, acredite em mim, não é nada disso que você está pensando – Ele sabia que ela estava falando de um relacionamento entre ele e Selina. Ele queria dizer a ela que seu maior desejo era estar com ela, mas se ele fizesse isso, ela era teimosa o bastante para insistir até que ele perdesse as forças para empurrá-la. E ele não podia correr o risco dela se machucar ou que seu espírito iluminado fosse engolido pela escuridão da alma dele.
— Você não me deve explicações, Bruce. E tampouco eu as quero. Não desperdice seu tempo comigo.
Eles voltaram a ficar em silêncio por alguns instantes quando ele disse em pensar: – Eu e Selina somos apenas amigos... nós não estamos juntos, Diana!
— Por favor, Bruce. Não minta pra mim. Eu não sou estúpida. – Agora a voz de Diana estava vacilante – Eu tenho ouvido alguns comentários nos corredores da Liga. Ollie comentou com Wally como o Batman ‘é um bastardo sortudo’ patrulhando com sua sexy amante felina. Eu estaria mentindo se dissesse que não me importo... eu... Não se preocupe, Bruce – Ela tentou sorrir – Eu estou feliz por você permitir que alguém o ajude em Gotham. Seria educado da minha parte agradecer a Mulher Gato por ‘estar lá para você’.
— Eu não permiti nada, Diana. O problema é que Catwoman não precisa de qualquer tipo de permissão para fazer o que ela quer. – Ele não sabia se essa era a melhor resposta, embora fosse a verdade.
Ela finalmente fez o movimento que separou suas mãos. A sensação de vazio foi sentida por ambos.
– Princesa... – A voz de Bruce ao pronunciar seu nome causava um furor imediato em Diana. Ela sentia a excitação percorrer seu corpo, como se fosse uma carícia erótica. Sua dignidade a mandara sair, mas seu corpo fora seduzido por ele, tornando-se incapaz de obedecer-lhe os comandos.
Ele viu nos olhos dela um lampejo de sua paixão. O Batman em sua mente gritava para ele se afastar, mas Bruce decidiu ignorá-lo. Embora as piscinas de azul profundo do olhar de Diana ostentassem um brilho melancólico, por alguns segundos, ao chamá-la de princesa – sua princesa – ele viu que ela ainda o amava. E quando ele a puxou para si, evolvendo-a pela cintura, esmagando-a contra seu corpo, roçando os lábios em seu pescoço, ele teve sua confirmação através da resposta que o corpo dela lhe dera: A pele arrepiada, as bochechas coradas, o gemido de prazer que ela fora incapaz de conter.
Bruce, por sua vez, esboçou um meio sorriso lascivo quando a viu arregalar os olhos, provavelmente sentindo a manifestação física da crescente excitação que o dominara por baixo da calça do smoking. Assim como ela, ele também não foi capaz de conter as reações de seu corpo.
De repente, sem que eles percebessem, sem qualquer comando, os lábios se encontraram. As línguas eram como serpentes acasalando, deslizando suavemente uma na outra, em movimentos circulares, tão harmônicos e tão incrivelmente bem encaixados que não seria loucura acreditar na existência de almas gêmeas.
Os braços de Diana assumiram seu devido lugar ao redor do pescoço de Bruce. As vigorosas mãos do príncipe de Gotham percorriam um caminho da cintura para os quadris, deslizando preguiçosamente através de seu vestido de seda – cujo tecido era tão fino que ela podia sentir as carícias como se estivesse despida. Ele precisou reunir toda força de vontade para não ultrapassar os limites do respeito que ele nutria por ela.
Seus instintos primitivos exigiam que ele a levasse para o canto mais escuro da varanda, levantasse seu vestido, removesse a peça íntima que estivesse bloqueando o caminho para o seu prazer e, por fim, desfrutasse da satisfação prazerosa de invadi-la repetida, frenética e vigorosamente até preenchê-la com seus líquidos.
Embora Bruce tivesse quase certeza de que Diana o queria tanto quanto ele a desejava e, talvez, não se importasse em consumar a paixão que compartilhavam ali mesmo, ele não podia correr o risco de expô-la. Se alguém a visse, em um local público, fazendo sexo com o infame playboy de Gotham, sua reputação estaria prejudicada para sempre. A mídia iria ridicularizá-la diariamente para o resto da vida. Ele não podia fazer isso! Não com ela... Ela merecia todo seu amor, mesclado às rudezas urgentes de sua paixão.
Depois de um longo tempo desfrutando dos sabores um do outro, confinados em um mundo paralelo em que nada mais existia além deles, o fôlego fez sua exigência: os pulmões precisavam de ar. Os olhares outrora famintos de desejo, agora exibiam o brilho complacente de quem ama. Era como se o bom senso tivesse reclamado a atenção deles e os trouxesse de volta à realidade, que – para eles, no momento – era tudo que eles não queriam. Contudo, de alguma forma, o último olhar que compartilharam estava carregado do mais forte e belo dos sentimentos: amor.
Ambos sabiam que deveriam voltar à festa. Que já estavam ausentes há muito tempo e que o sumiço de ambos simultaneamente levantaria suspeitas.
— Precisamos voltar pra festa, princesa. – Ele beijou-lhe carinhosamente a testa.
— Eu sei... Mas... – A pausa se estendeu mais do que ela previra – é muito egoísmo desejar permanecer aqui com você, Bruce?
— Não, Diana... não é. Mas a vida não é justa. – Ele bufou como se estivesse cansado – Eu aprendi essa lição desde que tinha 8 anos. Nós temos que fazer escolhas, Diana. Nós temos responsabilidades.
Eles estavam contemplando um ao outro, com carinho. Inexplicavelmente, ambos compartilhavam agora um sentimento de serenidade e compreensão um para com o outro, como se, por encanto, eles tivessem sido agraciados com maturidade emocional. Eles estavam estranhamente conformados com a necessidade de voltar à realidade. Eles estavam tendo a última conversa antes de voltarem às suas respectivas companhias.
E por mais que as palavras não fossem aquelas que seus corações desejavam, não havia nenhuma mágoa entre eles. Só um estranho sentimento de compreensão, pertencimento, respeito, amizade e amor. Não havia rancor em Diana por Bruce sacrificar a felicidade deles por causa de sua paranoia superprotetora. Não havia mais culpa e dor no coração de Bruce por sua incapacidade de fazê-la feliz.
De algum modo, naquela varanda, inconscientemente, eles baixaram completamente as defesas, entregando-se um ao outro sem reservas. Era como se as almas tivessem sido despidas e ambos agora compreendessem um ao outro com profundidade.
Eles voltaram ao salão, separadamente, para não chamar atenção, com uma sensação boa dentro de si. Embora ainda não estivessem definitivamente juntos, mesmo ansiando desesperadamente um pelo outro, ao contrário da sensação de tristeza e vazio de antes, alguma coisa dentro deles mudou. Era como se agora houvesse esperança para eles. Até mesmo Bruce se convencera disso... “Um dia... um dia, eu estarei livre para amar você, princesa”, era o que seu coração dizia.
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