Notas iniciais
Olá, queridos leitores! *Os dois próximos capítulos encerram um ciclo, mas não a estória; *Este deveria ser o último, mas ficou muito grande e eu dividi em duas parte; *A próxima fase é uma continuidade e não uma nova estória. Haverá uma passagem de tempo e muitas surpresas; Não posso dizer mais porque a minha intenção é surpreendê-los... Então, só desejo que vocês divirtam-se lendo, tanto quanto me divirto escrevendo.

A caverna estava envolta em sombras e umidade. O odor característico do lugar, obviamente promovido pela incalculável quantidade de morcegos que se acumulavam entre as estalactites, causava um desconforto que Clark não era capaz de desprezar. Apesar da limpeza criteriosamente conduzida pelas mãos do mordomo inglês – que por sua conduta rigorosamente militar não admitia nada menos que a perfeição – deixava claro o quão impecável e limpo tudo era mantido, mas aquele odor nunca se dissipava.

E hoje, mais que qualquer outro dia, o cheiro que antes apenas o incomodava agora gerava uma ânsia de vomito torturante. O que ele provavelmente não sabia é que as sensações físicas que o debilitavam eram fruto das frustrações e abalos emocionais que seu coração experimentava.

O silêncio angustiante no ambiente só era quebrado pelo som discreto do monitor cardíaco e do bombeamento abafado e rítmico que as respirações de Bruce e Diana produziam através das máscaras de oxigênio que cada um exibia. Ambos foram colocados no oxigênio para auxiliar o trabalho dos pulmões, comprometidos pela fumaça tóxica da explosão, limpando também as vias aéreas.

Alfred havia trazido chá e Clark agradeceu a Deus por isso. ‘Um gesto simples é significativo em momentos de aflição’, lhe incorrera o pensamento imediatamente. A outra oração agradecida foi dirigida a Deus quando Alfred o acompanhou, servindo-se também de uma xícara e tomando o espaço ao seu lado, observando seus amigos lutarem pela vida.

Enquanto Leslie finalizava os últimos cuidados com Diana, a consciência de Bruce começou a vir à tona. O som irritante dos monitores enchendo seus ouvidos o aborreceram e junto com a consciência, veio também o mau humor... e claro, a dor. Ele sentiu como se tivesse sido atingido com força total por um tanque. Ele não tinha plena consciência do que havia acontecido com ele a não ser o fato de ter sido atingido por uma poderosa amazona, que o carregou voando, através de um túnel, fugindo das chamas.

A última coisa que recordava era da sensação de sentir o cheio de Diana, e antes disso, quando ainda estavam na sala de controle, o olhar selvagem de medo e raiva que os olhos dela traziam. Ela o tinha golpeado com força contra parede, para envolver seu corpo de forma que ele não pudesse sair de seu abraço, cobrindo todos os órgãos vitais de Bruce com o próprio corpo antes de voar em disparada para saída. Diana tinha se sacrificado a fim de salvá-lo.

— Di... ana... (...) Di... ana... – O som saíra de sua boca mais fraco que um sussurro, muito embora ele estivesse fazendo um esforço tamanho para balbuciá-lo. – Diana... Diana! – Ele retirou a máscara e finalmente foi capaz de ouvir a própria voz, apesar do som ainda ser sussurrado.

Alfred, Clark e Leslie se aproximaram dele ao vê-lo recobrar os sentidos e tentar falar.

— Ela está aqui, Bruce... Leslie está cuidando dela. Você precisa se manter calmo, meu amigo – Clark respondeu da maneira mais tranquila que podia, tentando esconder de Bruce suas preocupações. Ele sabia que quando seu amigo soubesse da gravidade da situação de Diana, ele tomaria toda culpa para si.

A resposta de Clark aliviou momentaneamente seu medo: Diana estava lá, na caverna, com ele! Deitado de costas, com um ardor infernal na garganta, ele soltou um grunhido de dor quando instintivamente tentou sentar-se para procurá-la com a vista. Ela estava deitada, ainda inconsciente, na cama hospitalar ao lado dele, na enfermaria da Batcaverna.

Ele sentiu a respiração esvair-se e o coração parar, depois do choque de vê-la tão machucada: A cabeça enfaixada, os ombros e parte das costas também; A perna direita estava completamente imobilizada, do tornozelo à parte superior da coxa; os braços e a outra perna também enfaixadas, o rosto estava cheios de cortes, arranhões e hematomas; haviam ainda um aparelho no dedo indicador esquerdo, ligado ao monitor cardíaco; a medicação intravenosa que estava sendo aplicada através do soro e a máscara ligada ao tubo de oxigênio.

Para ele, ela ainda era a criatura mais linda que já existira, mas seu coração se contorcia apertado vendo-a tão frágil, tão quebrada... por ele... por causa dele!

— Como... ela... está? – Ele ignorou a dor excruciante que sentia ao forçar as cordas vocais. A dor de vê-la assim era infinitamente maior, assim como a necessidade de saber como ela estava – O quê... aconteceu? – Sua mente ainda sofria um pouco os efeitos da morfina no sangue.

— Ela sofreu uma lesão grave na cabeça, Bruce. – Leslie se aproximou do rapaz a quem amava como um filho – múltiplas lacerações por todo corpo que, apesar de sérias, não são tão ruins. A cura acelerada do organismo dela deve regenerar o tecido em uma semana. – Ela reconheceu a tristeza nos olhos dele reagindo a cada uma de suas palavras. Não queria continuar, mas conhecia-o o suficiente para saber que ele descobriria qualquer tentativa de omissão sobre o estado de Diana. – A perna direita foi quebrada em várias partes e eu tive que fazer uma cirurgia improvisada, já que não podia levá-la ao hospital.

Bruce baixou a vista tentando conter as lágrimas que estavam se formando no fundo dos olhos. ‘Ela se sacrificou por mim. É tudo minha culpa!’, sua mente o bombardeava incansavelmente. Ele tomou fôlego quando sentiu que não era tudo.

— O que mais? – A voz ainda estava longe da potência imperativa do Morcego, mas certamente, dava indícios de que ele estava lá, tentando assumir o controle que Bruce estava perdendo.

— Ela sofreu queimaduras gravíssimas, Bruce. Especialmente nas costas. – a médica continuou sem perceber as expressões pesarosas de Alfred e Clark – O corpo dela protegeu você do impacto da explosão e dos destroços, e o seu traje das chamas... Mas ela... bem... havia muita pele exposta.

Bruce amaldiçoou todos os deuses gregos que fora capaz de se lembrar, especialmente Hefesto, que forjou uma armadura que deixa tanto à mostra. Seus dentes rangiam de raiva enquanto formulava uma nota mental de que faria, ele mesmo, um uniforme pra ela, cobrindo praticamente tudo.

— Por sorte, mesmo cobrindo pouco, a armadura protegeu o busto e metade das costas. As pernas e braços também foram atingidos, mas de forma bem menos grave. Mas infelizmente, as partes que o fogo alcançou com força total sofreram danos consideráveis e dolorosos. – A voz de Leslie tinha a firmeza serena – O nível das queimaduras nos ombros foi profundo o suficiente para cozinhar a derme e atingir uma parte do músculo.

— Eu tive que sedá-la e aplicar doses múltiplas de morfina. É provável que ela não suporte a dor se a deixarmos consciente neste momento. – Leslie dirigiu seu olhar mais maternal a Bruce, pegando sua mão – Estamos todos gratos por sua amiga Diana não ser uma mulher comum, do contrário, ela não teria sobrevivido... E você está vivo graças a ela, Bruce.

O Batman lutou bravamente para permanecer no controle, mas o diagnóstico de Leslie caiu como uma bomba, derrubando os muros da fortaleza emocional onde ele mantinha Bruce – e suas emoções – encerrado. Ele sentiu o corpo enfraquecido de repente – e não era por causa do seu estado clínico – e deitou no leito hospitalar da caverna novamente. Seu olhar foi incapaz de encarar outra coisa, senão a parede de rochas da caverna.

Ele fez um esforço desmedido para evitar as lágrimas. A frieza do Batman estava pronta para assumir o posto de comando... Mas ele não deixou. Bruce deveria estar lá por ela e para ela.

Alfred pediu a Clark que o acompanhasse até à mansão, a fim de servir-lhe o almoço ou algo para comer, além de um banho, roupas limpas e um quarto – para que pudesse descansar por um par de horas. Assim como Alfred – que usara boas justificativas para tirar Clark da caverna – Leslie percebera que Bruce queria ficar sozinho e decidiu tomar seu caminho, mas não antes de informar Alfred sobre a medicação de Diana e Bruce.

Dra Thompkins esperava que não só Diana se recuperasse, mas também o coração já fragilizado de Bruce. Ela sabia que o estado de saúde da amazona o estava afetando demasiadamente, mas sua preocupação maior com Bruce não era motivada por essa razão. A médica, até determinado ponto, sentia-se feliz por ver as emoções que Bruce teimava em esconder sendo despertadas por amor – não que ela quisesse vê-lo sofrendo, mas, de certa forma, era reconfortante para ela ver que os sentimentos ainda estavam lá, sob a casca do Playboy e debaixo da máscara do Batman.

Seu medo era que a dor fosse profunda o bastante para rasgá-lo em todos os níveis, alimentando exponencialmente o sentimento de culpa que ele carrega como uma cruz. Seu medo é que ele se fechasse novamente para o amor, alimentando a culpa e afastando Diana.

(...)

Dois homens sentam-se perto dela, um de cada lado. Ambos tinham cabelos escuros e seus olhos azuis concorriam, emparelhados, ao prêmio de olhar mais angustiado do mundo. Clark suspirou baixinho, esperando que o som não fosse tão alto. Bruce revira os olhos e pergunta se ele sabia quantas vezes já tinha feito aquele som.

— A respiração dela parece mais forte. – Kal disse. Ele não tinha certeza. Ele queria que fosse assim. Que ela acordasse e sorrisse para ele. Ele passou os últimos quatro anos acostumado a ver sua alegria, acostumado a pensar nela como um igual. Ele queria que ela fosse indestrutível, mas ela não era. Ela é forte, mas não invulnerável. Clark nunca a vira dessa forma, tão frágil. Ele estava um tanto angustiado e inquieto, assim como Bruce.

Bruce queria esfolar Savage antes de entregá-lo às autoridades. Ele pediu a Clark que voltasse à ilha e fizesse uma varredura no local da explosão em busca de Vandal ou de pistas que levam ao seu paradeiro, mas ele não encontrou nada.

— Ela vai ficar bem – Bruce sabia que ele estava abalado. – Ela é forte. – Bruce sabia que Clark precisava ouvir isso. Assim como ela... Ela poderia estar ouvindo... Ela tinha que estar ouvindo – Lois está tranquila sabendo que você está aqui? – Ele resolveu puxar uma conversa. Não era seu estilo, mas seu melhor amigo precisava disso. – Aposto que você está encrencado.

— Não muito... eu acho. Eu não sei, Bruce. – Ele olhava o monitor cardíaco de Diana. – Ela sabe que eu estou aqui. Ela me liga todos os dias, pergunta por Diana e quer saber quando eu volto pra Metrópolis. – Ele deu de ombros.

— Ela não está zangada? – Bruce conhecia Lois bem demais para saber que ela não estava feliz com isso. Clark estava na mansão há quase uma semana e Lois não podia viajar porque fora recém-contratada como repórter do Planeta Diário.

— Não... quer dizer... sim, eu acho – Kal não pareceu se importar. – Nos dois primeiros dias, ela foi compreensiva. Um dia depois ela estava gritando comigo pelo telefone, algo sobre ‘você não se importa comigo, SmallVille’ ou coisa assim.

— Você não parece chateado, ou preocupado, Kent! O que está havendo? Você e Lois... está tudo bem? – Bruce quis saber e Clark estava feliz por ter esta conversa. Bruce não era do tipo que conversa trivialidades. – Você sabe que ela ama você, Kansas Boy, não sabe?

— Estamos bem, Bruce. Nós estamos bem! – Ele assentiu. – Eu achei que ela entenderia. Diana está lutando pela vida... Enquanto ela está com raiva porque eu não estou com ela. Não me entenda mal, Bruce. Eu amo a Lois, mas as vezes, ela não vê nada além de si mesma.

— Eu acho que ela só queria você por perto, Clark. Ela sabe que Diana está aqui, com os melhores recursos médicos e cuidados à disposição. Talvez ela pense que você está aqui por causa de Diana. – Bruce respondeu.

— Mas eu estou aqui por causa de Diana – Ele respondeu com inocência.

— Não foi o que eu quis dizer – Bruce entendia Lois porque partilhava do mesmo sentimento – Quero dizer que ela está com ciúmes da atenção excessiva que você tem dedicado à Diana, Clark.

— Oh!... – Ele coçou a nuca – Eu nunca tinha olhado por esta ótica.

— Eu ainda não entendo porque a Lois escolheu você, escoteiro! – Bruce deu-lhe um meio sorriso depois da piada sarcástica.

— Eu também não entendo porque ela ama você – Clark olhou para a princesa inconsciente.

De pé, Bruce toca o cabelo de Diana suavemente. Clark olha para ele e tem certeza que ele a ama só pela maneira que seu amigo olha para ela, como ele a toca, como se ela fosse a coisa mais preciosa em seu mundo. Bruce ama Diana: fato! Ele se pergunta se Bruce tem consciência disso.

— Você a ama, não é? – Bruce não respondeu... mas Kal não precisava de uma resposta verbalizada – Ela também ama você... Eu também a amo – Bruce estremeceu subitamente. Ela não sabia se ele queria dizer que a amava como irmão ou mulher – Ela me entende melhor que qualquer um. Eu me sinto seu igual, como se ela fosse meu reflexo no espelho. Eu fui criado como um homem comum, mas há dias em que me sinto sozinho... o último de uma civilização extinta... e ela sempre está lá... e então eu não me sinto só.

Bruce continuou acariciando os cabelos de Diana. Ouvir o desabafo de Clark, apesar da sensação boa de consolar o amigo, despertava nele uma sensação ruim. Ele não negava a si mesmo o ciúme que tinha da relação deles. Embora não fosse romântica – para sua felicidade – a relação de amizade entre Diana e Clark tinha um nível imenso de profundidade e intimidade que poderia levar a crer que fosse mais que isso.

— Ela é minha amiga, Bruce... Mas pra você, é mais que isso. – Clark tinha Lois. Ele a amava... Ele nunca a traíra. Jamais seria capaz de algo assim. Mas isso não significava que ele não amava Diana também. De algum modo, seu consolo era que Diana nunca o deixaria. Que quando Lois e Bruce partissem, e seus corações estivessem pesados, eles ainda teriam um ao outro. Seu amor poderia ampará-los... Talvez, curá-los.

(...)

Bruce parou ao lado da cama hospitalar na enfermaria da caverna. O olhar ainda preocupado, como se ele estivesse com medo de não ser capaz de mantê-la com ele. Há duas horas ele tinha assistido Diana morrer uma só vez: Parada cardíaca... por sorte, Leslie estava lá para os procedimentos necessários para trazê-la de volta... Ele não queria passar por isso novamente. Nunca mais!

— Ela é tão linda. – Bruce disse e viu Leslie sorrir – Mesmo machucada, imóvel... Ela ainda é a coisa mais linda que eu já vi (...) Se ela... morrer... – Ele lembrou a si mesmo que ela morreu, há duas horas, mas Leslie a trouxe de volta e ele enfim foi autorizado a respirar.

Ele não está costumado à isso. Geralmente é ele quem está quebrado e ferido. Quando ela morava na mansão, Diana ficava o tempo todo ao seu lado, com uma cadeira ao lado da cama, a cabeça inclinada no colchão para acordar assim que ele acordasse. Ele não tinha certeza se sabia cuidar dela.