Coração de loba
2 Tio Harry
Eu nunca estive em Forks.
Na verdade, até algumas semanas atrás, a única vez que ouvi esse nome foi numa das poucas brigas que tive com minha mãe. Eu queria saber por que a gente não tinha parentes. Por que não falávamos com ninguém. Por que ela nunca falava sobre o passado.
Ela ficou em silêncio. Me olhou com os olhos distantes, como se encarasse algo que doía só de lembrar.
— Há lugares que a gente precisa esquecer pra conseguir seguir em frente, Nessie — ela disse, mexendo no chá, sem me encarar de verdade.
Na época, eu não entendi. Agora...
Agora, eu sou a herdeira do silêncio dela.
Aeroporto de Port Angeles. Céu cinzento. Vento frio. Chuva fina.
Desci com uma mochila nas costas, o peso do luto no peito e Salém miando dentro da caixa de transporte, incomodado com tudo — e, sinceramente, eu também estava.
Na área de desembarque, meus olhos varreram o lugar até pousarem nele.
Harry Clearwater.
Eu o conhecia só por fotos. Ele era mais alto do que eu lembrava. Ombros largos, cabelo preso num rabo de cavalo baixo, barba por fazer. Tinha um olhar firme, mas cansado. Como se a vida também tivesse cobrado caro dele.
Ele me viu e veio em minha direção com passos largos, parando diante de mim com um suspiro contido.
— Renesmee?
Assenti. Meus dedos apertavam a alça da mochila como se fosse meu único escudo.
Ele olhou para mim com olhos escuros idênticos aos de Leah, sua filha. Por um segundo, eu vi algo quebrar dentro dele. Culpa? Tristeza? Não sei.
— Você... é o retrato da sua mãe.
— Foi o que me disseram no hospital também — murmurei, sem saber direito o que dizer.
Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu nos lábios.
— Eu queria que esse encontro fosse em outras circunstâncias. Mas... fico feliz que tenha aceitado vir.
— Não havia muito pra onde ir — respondi, baixando os olhos. — Só me sobrou... vocês.
Harry assentiu devagar.
— Sua mãe... ela era muito amada. E mesmo longe, nunca deixou de ser minha irmã. Eu sinto muito, Renesmee.
Por um segundo, eu quis abraçá-lo. Mas havia uma muralha entre a gente construída por anos de silêncio — e eu não tinha forças para escalar.
— Podemos ir? Salém odeia aeroportos — apontei com o queixo para a caixa do gato, que resmungava alto.
— Claro. O carro está aqui perto. Leah preparou seu quarto. E Sue está te esperando com comida quente.
Não respondi. Apenas o segui em silêncio, ouvindo o barulho da chuva batendo nas folhas das árvores próximas.
A estrada para La Push era sinuosa e cercada de verde. As árvores se fechavam em túneis vivos e densos, e o céu parecia cada vez mais próximo do chão. O cheiro de terra molhada invadia o carro com as janelas entreabertas.
Eu me afundei no banco do passageiro, com Salém no colo e o coração tentando entender o que viria a seguir.
— Sua mãe... ela saiu de La Push ainda muito jovem — disse Harry após longos minutos de silêncio. — Não queria mais nada com a aldeia. Nem com nossas histórias, nem com a gente. Ela queria te proteger, eu acho.
— Proteger de quê? — perguntei, sem encará-lo.
Ele hesitou.
— De tudo. Das dores... e talvez de quem ela era. Sua mãe carregava segredos, Renesmee. E você... vai ter que decidir se quer desenterrá-los ou não.
Ficamos em silêncio o resto do caminho.
Mas uma coisa era certa:
A estrada que minha mãe evitou por tantos anos…
Era agora a estrada que me levava até quem eu realmente era.
A casa dos Clearwater parecia ter parado no tempo.
Ficava numa rua tranquila de La Push, cercada por árvores altas que se balançavam como sentinelas silenciosas. O cheiro de madeira antiga, sopa quente e chuva era acolhedor e estranho ao mesmo tempo — como se aquele lugar estivesse esperando por mim... mas sem saber o que fazer agora que eu havia chegado.
Harry abriu a porta e tirou os sapatos no tapete de entrada. Eu o imitei, ainda segurando Salém na caixa de transporte. O gato olhava ao redor com olhos atentos, como se já tivesse mapeado cada canto da casa.
— Chegamos — anunciou Harry, e em segundos, uma mulher apareceu no corredor.
Sue Clearwater era exatamente como eu imaginava pelas poucas fotos que já tinha visto: elegante, firme, mas com uma doçura nos olhos que fazia minha garganta apertar. Ela usava um avental manchado de molho e abriu os braços como quem já me considerava parte da casa antes mesmo de eu entrar.
— Renesmee… você não imagina o quanto esperávamos por você.
— Eu não sei se estou pronta — confessei, num sussurro.
—Não precisa estar — ela respondeu, me envolvendo em um abraço caloroso. — Só precisa estar aqui.
Atrás dela, surgiram dois rostos jovens. A garota, de feições marcantes e olhar firme, se aproximou primeiro.
— Oi — disse com um leve sorriso. — Eu sou a Leah. E, sim, eu cedi meu quarto. Mas só porque sou legal.
— Prazer — respondi, tentando sorrir de volta.
O garoto mais novo, de cabelos castanhos e olhos calorosos, veio logo em seguida.
— Seth. Seu primo mais incrível. Eu fui eleito, inclusive — disse com um tom brincalhão que arrancou minha primeira risada em dias.
— Obrigada por me receberem — murmurei, tentando conter as lágrimas que insistiam em voltar.
— A gente é família, Nessie — disse Leah, usando o apelido com naturalidade. — E aqui, isso ainda significa alguma coisa.
Eu assenti, engolindo em seco.
Família.
Uma palavra que já não parecia ter forma, mas que, ali, ganhava novas cores.
— Ah... — soltei, ao lembrar — o Salém. Será que ele pode ficar aqui? Eu sei que gato preto dá azar pra uns, mas…
— Que nada — respondeu Sue, antes que eu terminasse a frase. — Ele já é da casa. Aliás, ele é o primeiro a ter permissão de subir na bancada da cozinha sem levar bronca.
Como se entendesse, Salém soltou um miado vitorioso dentro da caixa.
— Já tá se achando — comentei, sorrindo pela primeira vez de verdade desde o enterro.
Leah me mostrou o quarto com simplicidade.
— Eu sei que não é nada demais... — disse ela — mas tem vista pra floresta e cobertores limpos. Se você precisar conversar, ou não conversar, eu entendo os dois jeitos.
— Obrigada, Leah. Mesmo.
Ela assentiu e me deixou sozinha por uns minutos. Soltei o Salém, que foi direto para debaixo da cama como um míssil peludo. Me joguei no colchão e encarei o teto.
Nada naquela casa parecia hostil. Mas também havia algo diferente. Um tipo de energia que eu não conseguia nomear. Uma sensação estranha... como se os sussurros das árvores carregassem histórias que ninguém queria contar.
Naquela noite, comi a sopa de Sue, ouvi as piadas de Seth e recebi um cobertor quente de Leah.
Mas mesmo cercada por rostos gentis, havia um silêncio maior que todos nós, sentado conosco à mesa.
O silêncio de tudo o que ainda não me contaram.
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