Coração de loba
25 Refúgio
Notas iniciais
Narrado por Renesmee
O quarto do tio Harry estava silencioso, exceto pelos sons constantes dos monitores e da respiração dele, um pouco mais pesada do que ontem. Sentei ao lado da cama, segurando sua mão enrugada com delicadeza. Ele abriu os olhos e sorriu fraco ao me ver.
— Você voltou mesmo... — murmurou, com a voz embargada.
— Voltei, tio. E dessa vez, não vou desaparecer.
Eu me forcei a sorrir, mas algo em seu olhar cansado me fez engolir seco. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, um médico bateu na porta e entrou com uma prancheta nas mãos. Ele olhou para mim com certa urgência.
— Senhorita Clearwater, poderia me acompanhar, por favor?
— Claro… só um segundo.
Inclinei-me sobre Harry, sussurrei que voltava já e deixei um beijo em sua testa. No fundo, meu coração já sabia que havia algo errado.
Peguei o celular no bolso do casaco e disquei para Sue.
— Sue, é a Nessie. Você pode vir ao hospital? O médico pediu pra falar com a família e… acho que o Harry piorou.
— Estou indo agora, querida. Chego em alguns minutos.
Desliguei e segui o médico pelos corredores silenciosos, cada passo meu ecoando com uma mistura de medo e esperança. Paramos diante de uma salinha reservada. Ele abriu a porta e me esperou entrar.
— Doutor… o que está acontecendo? — perguntei, antes que ele dissesse qualquer coisa.
Ele suspirou e se sentou diante de mim.
— O senhor Harry teve uma piora considerável no quadro respiratório. Os exames mostram uma infecção mais agressiva, e precisamos transferi-lo para a UTI imediatamente.
Meu corpo gelou.
— Mas ele estava tão bem ontem…
— Eu sei. Essas infecções podem se instalar rápido em pacientes da idade dele, especialmente com os antecedentes cardíacos. Estamos fazendo o possível, mas é importante que a família esteja ciente da gravidade.
Assenti, sentindo um aperto sufocante no peito.
— Ele vai ficar bem, doutor?
— Vamos lutar por isso, senhorita Clearwater.
Balancei a cabeça, tentando manter a compostura.
— A Sue está a caminho. Eu fico aqui com ele até ela chegar.
Saí da sala em silêncio, sentindo as lágrimas ameaçarem meus olhos. Voltei para o quarto antes da equipe chegar com a maca da UTI e segurei a mão do meu tio mais uma vez.
— Aguenta firme, tio Harry. Eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum.
O barulho constante dos aparelhos e o cheiro de desinfetante me sufocavam. Ver meu tio sendo levado para a UTI foi como um soco no estômago. Eu sabia que ele não estava bem, mas ouvir isso do médico, ver o olhar grave nos olhos dele… foi demais. Meu corpo ficou rígido, minha garganta, seca. Liguei para Sue com a voz trêmula, e ela disse que viria o mais rápido possível.
Enquanto esperava, sentei no corredor com as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa. Foi então que meu celular vibrou.
— Riley?
— Oi, meu amor — a voz dele, doce e calma, parecia um alívio no meio do caos. — Como você está?
— Um pouco abalada. O tio Harry não está bem… foi transferido agora pra UTI. — minha voz falhou um pouco, e ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Eu sinto muito, Nessie… — murmurou com sinceridade.
— Obrigada. — fechei os olhos, tentando encontrar um pouco de paz naquela ligação. — E você, onde tá? Aquela ligação veio em boa hora.
— La Push é linda, sabia?
Franzi a testa. — O quê? Como assim?
— Olha só. — ele riu, e em seguida chegou uma imagem no meu celular. Era a praia de La Push… a praia. O mar se estendia em tons de cinza e azul sob o céu nublado, e as pedras molhadas brilhavam sob a luz suave da tarde.
— Você está aqui? — meu coração deu um salto.
— Vim passar o fim de semana com você. — ele disse, e eu quase deixei o celular cair.
— Riley! — falei alto, me levantando no mesmo segundo. — Me espera! Tô indo aí agora!
Desliguei, guardei o telefone e saí correndo do hospital. Leah havia deixado a chave da caminhonete comigo e, sem pensar duas vezes, entrei e dei a partida. O caminho até a praia parecia mais longo do que o normal, como se a ansiedade me fizesse ver o tempo arrastado. Mas quando finalmente estacionei, desci correndo, os olhos procurando por ele.
E então o vi.
De longe, com as mãos nos bolsos e os cabelos ao vento. Sorrindo ao me ver.
— Riley! — gritei, e comecei a correr.
Ele abriu os braços e me recebeu num abraço apertado. O mundo pareceu parar. Eu me afundei naquele momento, naquele calor familiar.
— Eu não podia ficar longe sabendo que você tava passando por tudo isso. — ele sussurrou no meu ouvido.
— Você não faz ideia do quanto eu precisava de você aqui… — falei, puxando o rosto dele e beijando seus lábios com vontade.
Ali, na praia onde tantas memórias estavam guardadas, pela primeira vez em dias, eu consegui respirar fundo. E sorrir de verdade.
Narrado por Jacob
Estacionei a moto à beira da praia de La Push e desliguei o motor. O vento carregava o cheiro salgado do mar, e as ondas quebravam suaves, quase como se sussurrassem respostas que eu não conseguia encontrar. Precisava pensar. Precisava colocar ordem na confusão que tomava minha cabeça.
Victoria ainda estava foragida, Harry internado, e agora… os Cullen estavam de volta. Edward Cullen estava de volta. E eu não havia dito nada para Bella.
Respirei fundo, tentando engolir o nó que se formava na garganta. O que ela pensaria? Bella me amava. Nós íamos nos casar em poucos dias. Ela escolhera ficar comigo… certo?
Mas e se ela o visse? E se todos os sentimentos que ela enterrou viessem à tona de novo? Eu sabia que não era justo duvidar dela, mas não conseguia evitar. Talvez fosse medo. Talvez insegurança. Ou talvez fosse só a culpa me corroendo.
Comecei a caminhar pela areia fria, chutando algumas pedras pelo caminho. Meus pensamentos estavam a mil por hora, e mesmo com o barulho das ondas e o céu limpo, havia uma tempestade dentro de mim.
Foi então que meus olhos a encontraram.
Mesmo de longe, reconheceria aquela silhueta em qualquer lugar. Renesmee. A garota que eu machuquei — e nunca deixei de pensar desde então.
Meu peito apertou. Por um instante, tudo ao redor pareceu congelar.
Apressado, comecei a andar em sua direção, os passos se acelerando quase sem que eu percebesse. Eu queria vê-la de perto, queria…
Mas então, ela sorriu. Um sorriso largo, bonito, cheio de luz.
E correu.
Não para mim.
Para ele.
Um rapaz surgiu não muito longe, e ela se atirou em seus braços. O abraço foi apertado. E depois… eles se beijaram.
Parei. A dor bateu como um soco bem no meio do peito. Senti o ar me faltar por um momento, como se o universo estivesse tirando sarro da minha angústia.
Ela seguiu em frente. Sem medo. Sem hesitação.
Enquanto eu… Permaneci aqui. Preso. Amargando as escolhas erradas, os silêncios covardes e a culpa que me visita toda noite desde que a deixei partir há três anos.
Abaixei a cabeça, dei meia-volta e voltei para a moto. O som das ondas agora parecia zombar da minha fraqueza.
Narrado por Renesmee
O quarto do hotel estava silencioso, exceto pelo som suave da chuva batendo contra a vidraça. Eu olhava para fora, para as ruas úmidas e escuras de Forks, perdida em pensamentos. As luzes da cidade piscavam timidamente, mas minha mente estava longe dali. Estava no hospital. Estava com o tio Harry.
Senti os braços de Riley me envolverem por trás, firmes e acolhedores. Ele apoiou o queixo no meu ombro e sussurrou:
— No que está pensando, meu amor?
— No tio Harry — respondi em voz baixa, ainda olhando para o mundo lá fora. — Ele sempre foi uma rocha na minha vida… e agora… agora ele parece tão frágil. Eu não sei se vou suportar perdê-lo, Riley.
Ele me virou suavemente para encará-lo, suas mãos segurando meu rosto com delicadeza. Seus olhos estavam cheios de ternura, mas também de força. A força que ele sempre me oferecia quando eu mais precisava.
— Ei — ele disse, acariciando meu rosto com o polegar. — Você é a pessoa mais forte que eu conheço, Nessie. Mas não precisa carregar tudo sozinha. Eu tô aqui. Sempre estarei.
As lágrimas vieram silenciosas, mas não demoraram a ser substituídas por um sorriso frágil, pequeno, mas sincero. Ele me beijou devagar, como se quisesse me fazer esquecer por alguns minutos da dor, da incerteza, do medo. E eu deixei. Me entreguei àquele beijo, ao calor dos seus lábios, ao amor silencioso que ele demonstrava com gestos e presença.
Caminhamos juntos até a cama, e ele me deitou com cuidado, como se eu fosse feita de vidro. Seus beijos continuaram, descendo pelo meu pescoço, pelas minhas clavículas. Nossas roupas foram esquecidas, uma a uma, como o peso que carregávamos nos ombros. Nos encontramos ali, entre os lençóis, pele com pele, coração com coração. Era mais que desejo — era consolo, era refúgio.
Naquele momento, ele era o abrigo que eu precisava. A lembrança da dor ficou lá fora, do lado de fora daquelas quatro paredes. Por um instante, eu pude apenas sentir.
E amar.
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