Narrado por Jacob


A brisa carregava o cheiro da terra úmida e flores murchas. O som abafado dos passos sobre a grama e os soluços discretos formavam o cenário silencioso do adeus. Ali, diante da lápide recém-cravada no solo, estávamos todos reunidos para nos despedir de Harry Clearwater. Um homem forte, justo, e acima de tudo, um pai presente — e para mim, um verdadeiro exemplo.

Me mantive ao lado de Renesmee o tempo todo. Sua mão tremia na minha, mas ela não a soltava. A dor dela me atravessava como uma lança no peito. Eu conhecia aquele vazio… perder alguém assim mudava tudo. No fim da cerimônia, quando os poucos amigos e vizinhos começaram a se dispersar, eu a levei até a casa de Harry, onde os Clearwater costumavam se reunir para os rituais de luto da tribo.

— Obrigada por ficar, Jake — ela disse, sua voz rouca, o olhar perdido entre o passado e a dor do presente. — Mas isso não muda nada.

Assenti devagar, com um nó na garganta que nem a dor de perder Harry conseguia desfazer.

— Eu sei — murmurei. — Assim que tudo isso acabar... quando eu tiver certeza que você está segura, eu vou me afastar.

Ela não respondeu. Apenas piscou lentamente, como se aquilo doesse mais do que deveria, e entrou. A porta se fechou sem um clique, suave demais, silenciosa demais.

Suspirei, sentindo o peso da promessa que acabava de fazer. Talvez eu devesse ter me afastado há muito tempo. Talvez estivesse pagando por todos os erros do passado.

Foi quando senti. O cheiro. O calor. A energia vibrando no ar.

Me virei e vi Leah se aproximando pela lateral da casa. Ela me olhou por um instante, séria, com os olhos úmidos — e ao mesmo tempo... diferentes. Mais intensos. E Seth logo atrás dela, os ombros rígidos, como se carregasse algo invisível sobre eles.

Algo estava acontecendo. Eu conhecia aquele olhar, aquela inquietação sob a pele. A febre. O despertar.

Levei a mão ao bolso e disquei o número de Sam, sentindo o peito apertar de novo — mas dessa vez, por outro motivo.

— Sam... — disse assim que ele atendeu. — A febre chegou até os Clearwater.

Silêncio por um segundo. Depois, a voz grave do alfa:

Quem?

— Leah e Seth— murmurei, olhando para a casa onde Renesmee havia entrado. — Reúna a matilha, vou dar um jeito de leva-los até vocês.



Narrado por Renesmee


Os primeiros raios da manhã atravessavam as cortinas do quarto, tingindo de dourado os lençóis amassados. Eu me espreguicei devagar, sentindo o corpo ainda pesado. Salém se remexeu aos meus pés e depois pulou no chão, como se dissesse que já era hora de enfrentar o dia.

Foram quatro dias difíceis desde o enterro do tio Harry. Os Clearwater estavam em luto, mas... havia algo estranho no ar. Leah e Seth haviam desaparecido na noite seguinte ao funeral, e desde então... nada. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum rastro.

Vesti um moletom, prendi o cabelo em um coque malfeito e desci as escadas em silêncio, com Salém me seguindo como uma sombra silenciosa.

A cozinha estava cheia do aroma quente de café fresco. Sue estava diante do fogão, mexendo alguma coisa em uma panela, serena demais para alguém que perdera o marido e agora não sabia o paradeiro dos dois filhos.


— Bom dia… — murmurei, tentando parecer menos destruída por dentro.

Ela se virou com um sorriso gentil, mas havia algo estranho naquele olhar. Serenidade demais. Entregou-me uma caneca de café.

— Bom dia, querida. Tome. Vai te fazer bem.

Aceitei a caneca, mas minha garganta travou. Olhei ao redor, como se esperando que Leah ou Seth surgissem pela porta a qualquer momento.

— Sue… você teve notícias da Leah? E do Seth? — perguntei, tentando soar casual.

Ela sorriu mais uma vez, tomando um gole de sua própria caneca.

— Estão bem. Só precisam de um tempo.

— Um tempo? — franzi a testa. — Mas eles não avisaram nada… desapareceram logo depois do enterro do seu marido, e você… — hesitei, escolhendo as palavras. — Você não parece preocupada.

Sue pousou a xícara com delicadeza sobre a pia e me encarou com aquele olhar firme que sempre teve.

— Quando você for mãe, Nessie, vai entender que nem sempre demonstrar desespero significa que não estamos sentindo.

Suspirei, levando a caneca aos lábios. O café estava quente e forte, como eu precisava. Salém rosnou baixinho, se encolhendo nos meus braços. E foi então que a porta da frente se abriu com um estrondo.

— Leah?! — exclamei ao vê-la entrar com passos decididos, acompanhada de Seth, que trazia um sorriso animado no rosto. Dei um pulo, quase derrubando o café. — Onde vocês estavam?!

Leah passou direto por mim, como se minha voz não importasse. Os cabelos longos que ela tanto cuidava haviam sido cortados. Curtos. Rentes à nuca. Seth também. Ele parecia... diferente. Um brilho novo nos olhos, a pele mais quente, o corpo levemente tremendo.

— Leah, o que aconteceu? — insisti, me aproximando.

Ela me encarou brevemente, mas havia algo selvagem no olhar.

— Se quer uma vida normal, Renesmee, ainda dá tempo de cair fora — disse ela com frieza e foi direto para o banheiro, batendo a porta com força.

Fiquei parada ali, pasma. Seth, por outro lado, parecia estar nas nuvens.

— Cara, eu tô morrendo de fome! — exclamou ele, já indo para a cozinha. — Mãe, tem panqueca?

— Claro, querido. — Sue sorriu, como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Olhei para ela, confusa, esperando uma explicação. Mas Sue apenas deu de ombros, como se dissesse "eles vão ficar bem".

Eu mal tive tempo de perguntar mais alguma coisa, porque alguém bateu à porta. Sue foi atender, e para minha surpresa, era Charlie. Ele entrou com uma expressão séria, vestindo o uniforme da delegacia.

— Bom dia Sue— disse ele, me lançando um olhar preocupado. — Filha será que podemos conversar?

Sue deu espaço, e Charlie entrou com o andar pesado de quem carrega muitas ausências no coração.

— Estava pensando… — ele começou, tirando o boné da cabeça e ajeitando os cabelos brancos como se isso pudesse deixar menos desconfortável o que diria a seguir. — Agora que o Harry se foi… imaginei que logo você voltará pra Seattle. Mas, enquanto isso não acontece, queria te fazer um pedido.

Levantei os olhos, encarando o rosto do meu pai, ainda tão familiar e ao mesmo tempo tão distante.

— Pedido?

— Fica uns dias lá em casa. Vai ser só por um tempo, até você decidir voltar pra sua vida. Eu... eu sentiria melhor tendo você por perto, Nessie.

O nome saiu da boca dele com cuidado, como se fosse algo frágil demais para o momento. Tentei sorrir, mas foi mais uma contração do que um gesto.

Ele não fazia ideia. Não sabia que eu não podia simplesmente voltar. Que, enquanto Victoria estivesse viva — ou quase viva —, minha liberdade era apenas uma ideia distante. E mais: não me imaginava sob o mesmo teto que Bella. Não agora. Não com tanta coisa mal resolvida entre nós.

— Charlie, eu agradeço — comecei, com a voz mais gentil que consegui encontrar —, mas acho melhor continuar aqui com Sue. Tá tudo tão recente...

Antes que eu terminasse, Sue se aproximou e colocou a mão no meu ombro, firme, como uma mãe faria.

— Querida, talvez você devesse aceitar. São só alguns dias. Você e seu pai merecem esse tempo. Você precisa disso. E ele também.

Virei o rosto para encarar Sue, como se quisesse encontrar uma desculpa, uma brecha, uma saída. Mas tudo que encontrei foi compreensão e... firmeza.

Suspirei.

— Sendo assim— Disse por fim. — Eu vou com você, Charlie.

O sorriso no rosto dele não foi largo, mas foi sincero. Ele assentiu devagar, emocionado, e me envolveu num abraço tímido e paternal.

— Obrigado, filha. Você não sabe o quanto isso significa pra mim.

Talvez ele tivesse razão. Talvez eu não soubesse. Mas sabia que, naquele momento, alguma parte dentro de mim precisava — por mais contraditório que fosse — daquele recomeço. Ou pelo menos da ilusão de um.